quarta-feira, 23 de março de 2022

Ela nunca soube dele

Circulou na internet, outro dia, a notícia de que o único hospital público da cidadezinha italiana de Catanzaro descobriu que um de seus funcionários faltava ao trabalho havia 15 anos. Durante o período, continuou constando na folha de pagamento, com salário integral. Parou de comparecer logo após ser contratado e teria recebido nada menos que 530 mil euros, cerca de 3 milhões de reais. 

O nome não foi revelado, mas o sujeito acabou acusado de fraude, extorsão e abuso de poder. Ainda em 2005, ele teria ameaçado o chefe para que não preenchesse o relatório de avaliação e disciplina de forma desfavorável. E depois que o chefe se aposentou, nem o sucessor nem o RH notaram a ausência.

  

O caso italiano me remeteu ao que acontecia nas catedrais bancárias que havia nas grandes cidades brasileiras, onde centenas de pessoas se espalhavam por vários andares, cada qual com sua sacola de interrogações sobre a vida.

 

Conta-se que uma sucuri de oito metros se escondeu no almoxarifado de um desses templos e se mantinha viva porque, de três em três dias, esmagava e comia uma pessoa. Como eram muitas, ninguém dava pela falta até o dia em que caiu na besteira de escolher o rapaz que servia cafezinho – esse, sim, imprescindível à rotina dos trabalhos. O gerente e dois chefes já haviam sido degustados, sem que ninguém se incomodasse com ela. 

 

Lenda urbana, óbvio, mas quando trabalhei na agência do Banco do Brasil em Maceió, na metade dos anos 1970, conheci Gabo (vou chamá-lo assim porque, se ainda estivesse entre nós, de rosto lembraria o rapper Gabriel, o Pensador), um caboclo sorridente com aparência de indiano, olhos apertados, barba rala e bucho de lâmpada. Parecia ter o dom da invisibilidade: ninguém notava, mas ele não perdia uma estreia no Cine São Luiz, isso em pleno horário do expediente.

 

No já distante 1974 em que a nação ansiava por liberdade – o ano anterior é reconhecido como o de maior repressão do regime militar –, fazia tremendo sucesso um produto genuinamente nacional: a pornochanchada, que derivou da chanchada, gênero cinematográfico onde predominava um humor inocente e popular.



As chanchadas apareceram entre os anos 1940 e 1960, revelando nomes como Adelaide Chiozzo, Anselmo Duarte, Emilinha Borba, Grande Otelo, Oscarito e Zé Trindade. Já as pornochanchadas vieram nas décadas de 1960 e 1970, destacando-se Vera Fischer, Otávio Augusto, Sonia Braga, Jorge Dória, Selma Egrei, entre outros.

 

Com roteiros rasos, focados em situações eróticas, maliciosas, algumas cenas de nudez nada explícitas, os donos de cinema dispunham de material abundante (e bota abundante nisso!) para lotar as salas por várias semanas. 

 

Tudo caminhava bem para eles até que os ventos mudaram com um surto de locadoras de vídeo e com a profusão de novos cultos pentecostais, envolvendo congregações que tomaram de assalto centenas de prédios na bacia das almas da recessão econômica no final dos anos 1980.

 

Mas voltemos a Gabo. Ao entrar em cartaz “Anjo Loiro”, protagonizado pela atriz Vera Fischer, ele escapuliu logo após o almoço na própria agência e foi assistir à primeira sessão. E como gostou! Tanto que, antes de voltar à labuta, resolveu comemorar com algumas tulipas no Bar do Chope (quase vizinho ao banco), por certo lembrando das cenas mais picantes.

 

Naquela tarde, apesar do calor, o tempo passou ligeiro. Quando deu por si, alguns colegas já tomavam o rumo de casa. Então pediu a conta, acendeu outro cigarro, levantou-se e saiu trôpego em direção ao ponto de ônibus na praça da Catedral. Não sem antes passar novamente defronte ao Cine São Luiz. Precisava rever o cartaz do filme. 



Gabo chegou cedo ao trabalho na manhã seguinte e assinou o ponto como se nada tivesse acontecido. E nada aconteceu mesmo, exceto a ressaca vulcânica cobrando um pote de água gelada, além da constatação de sua absoluta insignificância no pedaço. Sua ausência na tarde anterior passara despercebida até pelos comparsas de copo. 

 

Um deles, entretanto, que padecia do mesmo grau de invisibilidade corporativa, sensibilizado com a tristeza de Gabo, ofereceu café com pão e o ombro. E ouviu seus “ais”:

– Tô pouco ligando para o que pensam! – exclamou Gabo, conferindo de rabo de olho o entorno.

– Não entendi... 

– Duro é ela nem saber que existo… 

– De quem você tá falando?

– Ai, ai… – suspirou, inconformado – Se Verinha soubesse e topasse, teria casa, comida, roupa lavada, plano de saúde e pensão... Pro resto da vida.

– O que você sente, você atrai. O que você acredita, torna-se realidade, bicho! – filosofou o colega, admirador do astrólogo e radialista Omar Cardoso, para quem todos os dias, sob todos os pontos de vista, se dizia cada vez melhor.

 

Gabo, não. Durou pouco e cada vez pior. E sua musa, imagino, nunca soube dele. 

27 comentários:

  1. Nós éramos felizes e não sabíamos no tempo em que os pentecostais tomavam de assalto "apenas" os cinemas 😁😁

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  2. Digna de um detalhado relato também eram frequentes "nossas fugas amparadas pela CIC CADAS" para colher informações cadastrais sobre clientes novos e revisão anual das fichas antigas. Bons tempos.

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  3. Adorei! Me transportei para a AGCEN-SP e fiquei tentando imaginar quem eram os nossos Gabos, os invisíveis entre os 2.200 funcionários. Inimaginável uma agência assim hoje em dia ! Parece até mentira que existiram. Tempos bons! Em que a gente ganhava pouco mas o dinheiro dava. Diniz.

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  4. Tempos bons, e uma reflexão preciosa sobre a invisibilidade social. Quantos Gabos ainda temos por aí? Que basta que coloquem uma farda corporativa, de porteiro, de gari, de vigilante, de recepcionista, de copeiro, de zelador... E nunca são reconhecidos. Podem ficar uma semana, vendo a Fischer, que só serão notados quando morrerem.

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  5. Não me “gabo” de invisibilidade, mas de, madrugada a dentro, assistir algumas dessas pornochanchadas com a “Verinha”! Rssss

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  6. Engraçado que eu via os cartazes, mas tinha menos de 18 anos e só pude “resolver” minhas pendências com a Vera Fischer depois do videocassete. Ela hoje dá nome a um calo que eu tenho na mão direita.

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    1. Enfim, um onanista assumido de uma fidelidade constrangedora!

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  7. O drama de Gabo, acredito, é o mesmo de muitos de nós: gostaríamos de ser invisíveis em algumas situações ou para algumas pessoas e lamentamos ser invisíveis em outras circunstâncias ou para certas pessoas.
    Haja terapia e resiliência! Rsrs

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  8. Voltei no tempo para a Agência Maceió-Centro(AL), com, praticamente, seus 12 andares ocupados.
    “Trabalhava” ali gente de todo tipo, com alguns personagens até exóticos como o indiano descrito. Ali foi um celeiro de causos. Existiam, a exemplo do Gabo, outros habitués nas sessões vespertinas eróticas do São Luiz.
    Além das matinés havia, também, figuras que, invariavelmente, nas sextas-feiras, saíam para o almoço e tomar umas, que ninguém é de ferro, tomavam todas e não retornavam. Na segunda-feira a gente acerta. Alguns nem faziam falta.
    Lembro de caixa executivo que, nas vezes que retornava à bateria, enrolando a língua, não conseguia nem contar o numerário e, naturalmente, fechar o caixa. Terminou os dias alcoólatra, antes do tempo e de forma não muito normal.
    Hoje já existem repartições que o controle de presença é facial. Não sei se a máquina acusa o teor alcóolico pelas pupilas dilatadas, pelo bafo ou se precisa o “chefe” dar uma mãozinha no controle do ponto de entrada.
    Tempos bons. Parabéns por resgatar essas histórias!

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  9. Assim como Emídio, também voltei à Maceió Centro de muito antigamente. Obrigada, Hayton, por seu texto “teletransportador”.
    Ah, o Cine São Luiz, ali quase em frente às Lojas Brasileiras, e o Bar do Chope, de frente para a igreja do Livramento, imaginem. Tudo no entorno daquele prédio tão cheio de histórias inesquecíveis como esta.
    Parabéns, Hayton, por essa deliciosa narrativa.

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  10. Fiz uma viagem ao delicioso passado. Obrigado mano querido. Deus te abençoe!!!

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  11. Caro Hayton, Boa Tarde...
    Bela história... Acredito que ambientes semelhantes existiram em vários outros rincões desse BB Gigante, não me referindo ao saudoso vice-presidente. Até em agências menores havia os "fiscais", também "invisíveis" para a maioria. Como estavam dispensados do ponto, compareciam à agência apenas por ocasião da prestação de contas e para receber a nova "pauta mensal de vistorias". Alguns, cumpriam a meta nas duas primeiras semanas e, nas outras duas, viajavam para lugares inimagináveis...
    Mas, esse BB não existe mais...

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  12. Quem foi funcionário nessa época com certeza tem saudades. A convivência era muito boa.

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  13. E o ponto eletrônico veio e ajudou o vento a levar uma carrada de Gabos que existiam por todos os lados.
    .
    Nessa história nunca fui o Vadinho, infelizmente. Era o Theodoro que todo santo dia cumpria com todas as obrigações.

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  14. Como sonho não paga imposto, era livre. Talvez o Aurélio tenha ficado sem uma nova palavra para o dicionário: Gabolar...

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  15. Agostinho Torres da Rocha Filho23 de março de 2022 18:42

    Bela crônica! Lembrou-me o comprometimento profissional de um colega do extinto "quadro de apoio" que recebeu o sobrenome de "Massada" pela facilidade com que costumava aproveitar muito bem o horário de trabalho. Não por acaso, era filho de um outro colega lotado da Agência Centro Maceió, também conhecido entre seus pares como "Ligeirinho"

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  16. Você consegue transformar pessoas em personagens, com suas crônicas sempre brilhantes.
    O Gabo, há o Gabo!! Você certamente se inspirou no imortal Gabriel Garcia Marques, intimamente chamado de Gabo por seus próximos e até eternizado assim.
    Quem não conheceu um "Gabo", em longa trajetória no BB, que atire a primeira pedra...

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  17. Lembro-me bem do Gabo. Era um flamenguista fanático. Usava até uma gravata rubro-negra.
    Eu estava pesquisando no extracaixa da agência Maceió-Centro quando encontrei uma partida cujo histórico dizia: IMPORTE que pedimos debitar ao funcionário Gabo, referente as despesas feitas no bar do Sr. Fulano, quando do noivado com a senhorita Fulana de Tal. Aí listava os engradados de cerveja, garrafas de whisky, tira-gostos e os demais pedidos.
    A questão foi está: o Gabo pegou uma adição para uma cidadezinha de Goiás ou Mato Grosso, perto de retornar, deu a maior festa e saiu sorrateiramente da cidade deixando noiva e conta pra lá. O dono do bar, não querendo ficar no prejuízo, foi ao gerente que mandou bater a partida de extracaixa.
    Mais esta que o Gabo aprontou.

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  18. Não tem a ver com invisibilidade, pois ele estava sempre lá. Ficava atento a tudo. Era de pouca conversa. Isso, enquanto de cara limpa. Porque exatamente às 11 horas, Dona Maria Alagoana, dona do restaurante que ficava defronte ao banco, com precisão cirúrgica mandava para o adjunto um refrigerante "batizado". Ele que, àquela altura, já não se continha, com os nervos à flor da pele, distensionava ao beber o preparado milagroso. Que o trazia ao prumo novamente. A partir daí ele se tornava falante e dava expansão a muitos causos. E todos nós fingíamos não saber a origem da bebida fantástica.
    Roberto Rodrigues

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    1. Devia ser caldinho de sururu… Com o molusco flambado na aguardente, claro!

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  19. Essa era a Centro Maceió e seus personagens, um deles: Murilo Bonfim, fiscal por concurso e habitual frequentador da sala dos aposentados, após o almoço no restaurante da Sede. Não antes de verificar se o Zelito, outro exímio contador de causos, lá se encontrava. É que o tempo de descanso era reduzido e não comportava a concorrência dos dois.

    Pois bem, Hayton, quando você falou da cobra, pensei na história do Murilo na Amazônia: Passou por cima de uma Sucuri que projetou seu jipe a cinco metros adiante.

    O Murilo,falando sobre seu irmão, padioleiro na Segunda Mundial, emocionava-se, e a todos nós.

    É que esse ao tentar salvar um pracinha, já de volta, pisou numa mina e morreu de maneira cruel.

    O Murilo também contava de suas participações nas manifestações no Rio de Janeiro para o Brasil entrar na guerra contra a Alemanha, depois do bombardeamento dos navios brasileiros.

    Eram boas histórias!

    Mais uma vez, Hayton, parabéns pela criatividade e a dinâmica que você impõe a seus textos.

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  20. Amigo Hayton.
    Excelente crônica, que proporciona uma viagem na realidade de nosso tempo.
    Bom dia, mas bom dia mesmo, com Omar Cardoso... Esse era o refrão do programa matinal, onde ouviamos as previsões dos signos.
    Forte abraço

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  21. Caro Amigo, esse seu valioso texto me remete a algo que marca profundamente meu caminhar: a passagem do tempo. esse "mensageiro do final". pensei em um livro que me impressiona muito: Cem anos de Solidão. exatamente pela questão do tempo. esse passar do tempo é danado.Nosso Rei do Futebol que também o diga. Antes, fôlego para superar adversários em campo e fora dele. Mas, esse temido - para alguns - companheiro inseparável que é o tempo, se encarrega de nos levar a limites que desconhecemos. esse tema do tempo exerce em mim um fascínio e ao mesmo tempo uma espécie de terror...

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