quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

É, agora ela vem!

Faz parte do imaginário coletivo de Pindorama acreditar que constitui uma nação de 200 milhões de almas abençoadas, acolhedoras e cheias de graça, vivendo num paraíso miscigenado e igualitário. Pensar diferente soa impatriótico para alguns, seja lá o que isso signifique. Nos dias atuais, então... 

 

O culpado disso talvez seja o cidadão que compôs País Tropical na virada dos anos 1970, ufanista homenagem a carnaval, clima, futebol e até ao Cristo Redentor de braços abertos numa época nada redentora em que se enaltecia um povo ordeiro e inteligente, filho de uma pátria-mãe bonita por natureza, com um futuro maravilhoso. 

 

Reprodução/Redes Sociais

Hoje, sei não... Ainda que circulem nas redes sociais vídeos exaltando a inteligência e a criatividade do povo, com seu jeito macunaímico de ser, capaz de encontrar soluções simples para os problemas mais complexos. E o desfecho é sempre o mesmo: “Agora a NASA vem!” 

 

A menção à agência espacial norte-americana, claro, reporta-se a uma inteligência digna de ser esmiuçada, tão incomum que seria importante aprofundar estudos para que a mais poderosa nação do mundo não seja apanhada de surpresa.

 

Tenho motivos para acreditar que o povo de Pindorama anda retrocedendo intelectualmente a passos largos. 

 

Você, leitor ou leitora, acha inteligente um cidadão, que diz amar a Deus sobre todas as coisas, querer explodir um aeroporto em pleno Natal? Pior: usando tornozeleira eletrônica, instalar uma bomba num caminhão de combustível, convicto de que nunca seria descoberto? 

 

Cidadão, aliás, que até bem pouco tempo fazia um barulho medonho por causa da discussão sobre banheiro público unissex e, mesmo assim, passou os últimos meses acampado em frente a um quartel-general, produzindo obras líquidas e pastosas em cubículos compartilhados com todos, todas e “todes”. 

 

Por falar em “todes”, nesses tempos de linguagem neutra, até o “bom-dia” na abertura de uma reunião passou a ser desejado a todos, todas e “todes”. Perguntar não dói: não seria pouco inteligente (ou, no mínimo, um retrocesso) chamar a principal líder de uma empresa de presidenta? 

 

Eu já vinha chateado com o fato de que outro cidadão, endeusado por fãs como uma jazida moral acima de qualquer suspeita, teria gastado, nos quatro anos em que ocupou um determinado cargo público, nada menos que R$ 8,6 mil em sorvetes, utilizando um cartão corporativo cuja fatura foi paga por mim, você e outros milhões de contribuintes bestas (perdão pelo pleonasmo!).  

 

Uma semana após assistir pela TV a posse de um líder político antipatizado por metade da população, eu cochilava depois do almoço do domingo, 8 de janeiro, quando vi milhares de almas inconformadas com a vitória nas eleições da outra metade partirem para o quebra-quebra dos templos sagrados dos três poderes da República.

 

No dia seguinte, revendo as cenas do quase apocalipse de Pindorama, onde os seres vivos mais sensatos pareciam ser os cavalos da Polícia Militar, ficou claro: nem aborto, camisa-de-vênus, coito interrompido ou fingida dor-de-cabeça teria evitado tanta asneira. 

 

Entre os extremistas, não havia negros, homossexuais, portadores de deficiências ou povos indígenas, nem mesmo yanomâmis. Só “caras-pálidas” de bundas brancas, agora acampadas num retiro nada espiritual à espera de um milagre, talvez refletindo sobre “vasos turcos” no chão, aquele buraco que obriga o preso a ficar de cócoras para utilizá-lo.

 

Reprodução/Redes Sociais 

No contragolpe para responsabilizar os que tiveram participação concreta nos atos de terrorismo (inclusive com a “sábia” veiculação nas redes sociais de provas contra si mesmo), descobriu-se que um incauto cidadão guardou em sua própria casa uma minuta do documento que poderia decretar o natimorto golpe de estado. 

 

Fora isso, ao ser preso, no exterior, verificou-se nos registros alfandegários que até hoje ele teria sido o único turista que esteve nos Estados Unidos e não trouxe um celular novo, com o agravante de ter esquecido o antigo, como se fosse uma cueca suja ou um par de meias furadas. 

 

Cheguei a pensar que o turbilhão de asnices pudesse ser uma molecagem vinda “lá de cima”, partindo de alguém que neste mês completaria 100 anos: Sérgio Porto, ex-bancário falecido em 1968, que continua vivíssimo sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta. Com seu humor corrosivo e irônico contra os absurdos do regime militar, ele inspirou toda uma geração de jornalistas, escritores e chargistas com as crônicas que compõem o inesquecível Festival de Besteiras que Assola o País (Febeapá).

 

Digo isso porque a fonte de idiotices não para de jorrar. Esta semana, por exemplo, soube de uma estudante de medicina que está sendo investigada por dar um golpe em colegas da faculdade. Desviou quase R$ 1 milhão dos valores arrecadados para festa de formatura que não estavam sendo bem geridos pela empresa contratada, fez “aplicações ruins” e perdeu dinheiro. E, “inteligentemente”, tentou recuperá-lo em apostas lotéricas. 


Reprodução/Redes Sociais 

E acabo de ler numa rede social a mensagem de outro importante cidadão: “Para minimizar os efeitos das chuvas…, antecipamos o pagamento das parcelas atrasadas, pelo governo passado…”. Você, que me leu até aqui, sabe como se antecipa o pagamento de parcelas em atraso? 

 

É, talvez agora a NASA venha. A ciência precisa explicar o fenômeno. 

33 comentários:

  1. Ademar Rafael Ferreira25 de janeiro de 2023 às 05:03

    Tudo tem origem no momento que nos conformamos com o possível e deixamos de lutar pelo ideal. Resta dizer: No local que a idiotice/Senta à cabeça da mesa/A verdade é o talvez/E a mentira é certeza:/"O sábio é hostilizado/E o bolo é realeza."

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  2. É tanta asneira,que eu fico pensando se não é uma diarréia cerebral desse povo alienado.

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  3. Eu passei uns dias na minha cidade e só andava de Uber. Quando eu dizia que morava em Brasília muitos falavam as teorias da conspiração. Sobre um tal do Código Fonte que roubou o resultado. Sobre a Venezuela que vem morar no Brasil. Sobre um monte de fake news que eles têm acesso e acreditam. Como a que o MST foi quem depredou o STF e que aquilo lá foi "tudo armado". Não há como debater. É uma seita cega. Que acredita piamente no que quer acreditar. Mesmo que seja a maior asneira, como a que o os Yanomanis doentes são importados dos países vizinhos. São uma montagem, "pois Bolsonaro fez tudo para eles". Só a psicanálise pode explicar este fenômeno de alienação mental coletiva que atinge uns 10 milhões de Brasileiros.

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  4. Pela foto a velhinha faz crossfit.

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  5. Parabéns por mais um texto.

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  6. Realmente tá difícil não se irritar com tamanha quantidade de asneiras que vemos diariamente divulgadas. O tema serviria para outras tantas crônicas bem detalhadas, como a tão bem aqui apresentada. Tá difícil!

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  7. Falando sério, a cada dia me convenço mais de que vivemos um quadro de dissonância cognitiva coletiva. Vemos um comportamento de seita que engole pessoas, antes aparentemente boas, e as leva para o campo da desumanidade, do ódio, da grosseria, da barbárie e elas parecem se sentir cada dia mais convictas e confortáveis na defesa das aberrações. É assustador.

    E esse sujeito que “antecipa parcelas em atraso” parece ter certeza do emburrecimento coletivo.

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    1. Se bem que o festival de besteiras é ambidestro. Como bem dizia Millôr Fernandes, "a diferença fundamental entre Direita e Esquerda é que a Direita acredita cegamente em tudo que lhe ensinaram, e a Esquerda acredita cegamente em tudo o que ensina".

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  8. A NASA pode até Nos ajudar, quem sabe virá. Fico com a solução popular: Só Deus na causa...........

    Aonde chegamos...

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  9. Ótima resenha, inteligente e bem humoradas, das asneiras, que presenciamos nos últimos tempos.

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  10. Boa, Hayton. Sua mordacidade nos impele ao pensamento crítico. Mais agora. Quando alguns julgamentos precisam ser feitos. Para que se compreenda minimamente as desventuras por que passa o varonil povo brasileiro. Sua escrita é sempre agradável e oportuna.
    Roberto Rodrigues

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  11. Triste, triste, triste. Tenho uma cunhada, de quem gosto muito. Todos os dias ela me envia, lá da França, as tais notícias falsas. Nunca respondi ou tentei convencê-la do contrário. Seria como Don Quixote a lutar contra as pás de um moinho, transformados por Frestão só pra nos roubar a glória da vitória, ou esforço de Sísifo. Inútil tentar encher um copo cheio (sabe-se lá do quê). Adorei a crônica.

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  12. Mais uma que deveria ser lida na CÂMARA DOS DEPUTADOS e entrar para os anais.

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  13. Sem contar que o governo passado é o dele mesmo. Sensacional a lembrança do febeapá. Tudo é inacreditavelmente marcado pela estupidez do sentido até a execução. Dedé

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  14. É o país saindo do armário! Ótima crônica. Gradim.

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    1. Perfeito: É o País saindo do armário.

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  15. Estava achando estranho que não houvesse abordado esse tema. Muito bem abordado, mais uma excelente crônica. Chamo essa epidemia dos Bolsonaristas de Obsessão. Torço para que descubram a cura.

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  16. Mais uma crônica excelente!
    Sabe o que mais me surpreende na atitude desse povo alucinado?
    Eles receberam de seus pares “notícias” como as abaixo:
    “O Alexandre de Moraes acaba de ser preso.”
    “Morreu uma idosa patriota presa nas instalações da Polícia Federal de Brasília.”
    “Lula morreu na semana passada, um sósia está substituindo ele e vai tomar posse em seu lugar.”
    “Um general amigo da minha família informou que Bolsonaro acabou de assinar o decreto de intervenção.”

    Enfim, eu poderia listar dezenas de “notícias” que se provaram, mesmo para o bolsonarista mais fanático, completamente falsas.
    E com o que me espanto? É que nos dias seguintes, o mesmo emissor envia outras notícias com toda a pinta de que são falsas e o povo acredita novamente!!!
    Isso é o que chamo de credibilidade elástica ao infinito!!

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  17. Mais uma vez fico feliz em ler suas Crônicas! Perfeita e cheia de humor! Estava sentindo falta da abordagem sobre o tema!

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  18. Acho que a NASA pode vir, mas vai ser difícil concluir alguma coisa.
    Os instrumentos da Agência não serão suficientes (têm o defeito de só trabalhar com ciência).

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  19. Meu falecido pai, alagoano de raiz (seja lá que interpretação dão a isso hoje!), sempre dizia, quando se aborrecia ou entristecia, que iria se mudar para a Austrália. Havia um fazendeiro brasileiro que se mudará prá lá desgostoso com os rumos do Brasil. Meu pai nunca foi, claro! Com a situação atual do nosso país e a do mundo penso em pedir à NASA é uma carona na próxima ida ao espaço.

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  20. Quando penso em “contribuição” imagino algo espontâneo, de caráter extemporâneo, e que, via de regra, faz bem não só para o outro mas muito mais para quem contribui.
    O arrecadador de impostos propositalmente chama de contribuição aquilo que na prática é imposto. O malabarismo verbal é tentativa de suavizar o impacto que os impostos causam nos bolsos dos contribuintes bestas, ou seja, todos nós.
    Imposto é algo que vem de impostura, feito aceitar ou realizar à força. É transferência compulsória ao governo. Se fosse bem utilizado, já seria ruim, pois que algo imposto. E, se é imposto, de cara não é bom.
    O impostor, que fez uso inadequado de nossos impostos, à distância ainda nos dará outras despesas, e dor de cabeça também, bem mais difíceis de digerir do que o refrescante sorvete que tomou as nossas custas.

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  21. Boa Tarde...
    Ótima crônica. Pincelou em poucas palavras muitas verdades.
    Você sintetizou bem em seu comentário das 09h40: "... o festival de besteiras é ambidestro"... Todos temos nossas opiniões e fazemos julgamentos com as evidências que nos são oferecidas pelos meios de comunicação. Enquanto não houver um filtro (acredito que nunca haverá), estaremos sendo induzidos a produzirmos nossas próprias "defesas" e armazenar somente aquilo que não seja absurdo ao que os sentidos experimentaram ao longo da vida...

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  22. Vovó Filó me advertiu que o fim dos tempos está próximo. O mundo enlouqueceu. Famílias se deterioram por pura politicagem. A Sociedade virando pó. O novo governo entrou botando pra quebrar já começou a dizer a que veio. Quem viver, verá.

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  23. Estava esperando essa maravilha. Parabéns! Perpetua

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  24. Estupenda a síntese sobre a "inteligência" analítica da turba adepta da seita cultuante do "mi(n)to". É um produto criado no laboratório conjunto da: mídia dominante, partido militar e picaretas da fé, sob as bençãos e proteção da turma da Faria Lima, com o beneplácito do judiciário e apoio de ampla faixa de políticos. Todos movidos pelo irresistível propósito de arrancar fortunas fáceis.
    Sobre o Zema, é bom explicitar que o governo passado,causador do atraso, era ele mesmo! Daí a proeza de antecipar o atrasado...

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  25. Super reflexivo o texto do amigo que foca na atual conjuntura política polarizada que estamos vivendo. Uma pena termos perdido a capacidade de entender as causas estruturais do que estamos vivendo onde a “lei de Gérson” impera ditando o interesse individual ou de poucos sempre acima do bem estar comum. Farinha é pouca, meu pirão primeiro! Quem tem poder, pode fazer coisa errada que acha (e consegue) ficar impune. Quem pode conseguir algum por fora, só entrar no esquema que passa a fazer parte do grupo. Isso nos corrói, destrói e enterra qualquer valor que nos permite prosperar. Você é de esquerda ou de direita? Quando isso define quem é amigo ou inimigo, perdemos o propósito de nação e soberania e não há como criar nova conjuntura para prosperarmos juntos como país. Agora no dia que alguém sustentar leis ou mandatos que não priorizam interesses próprios, aí sim, a NASA vem!

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  26. Ainda estou a pensar em como antecipar pagamentos atrasados e que são de responsabilidade do governo anterior que, por acaso, continua sendo o próprio ...

    Ótima crônica!

    Luiz Andreola

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  27. Emburrecimento vem aos poucos, senão nem dizer que "agora a NASA vem" teríamos como. Apocalipse breve...

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  28. Política com pitada sarcástica de cronista/blogueiro me lembra bem a linguagem pasquinesca. Humor político-sarcástico é muito minha praia! AprecEio bastante!
    Valeu!

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  29. Amigo Hayton. Realmente, a situação atual está muito difícil. Acho que nem a NASA conseguiria resolver. E fatos novos continuam surgindo.
    Abraço

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