janeiro 24, 2026

Discurso não corre na veia

DISCURSO NÃO CORRE NA VEIA

Hayton Rocha

Já vinha com um aperto no peito, desses que não cobram explicação, mas insistem em acordar a gente antes do sol. A notícia corria quase envergonhada, como se tivesse medo de incomodar: os estoques de sangue em Alagoas haviam atingido nível crítico. Hemocentros no osso. Cirurgias de alta complexidade ameaçadas. Até que o eufemismo caiu por terra: um transplante de fígado foi suspenso. Não por falta de coragem, nem de médicos, nem de sala cirúrgica. Por falta de sangue.

Soube que o alerta partiu da Santa Casa de Misericórdia de Maceió, pela voz cansada de quem vive do lado de dentro do jaleco. Em vídeo que circulou nas redes, o alerta era direto: não há hemoderivados suficientes. Sem sangue, não há milagre técnico que resista. Transplante não se faz com protocolo bem escrito. Faz-se, antes de tudo, com sangue disponível.




A inquietação aumentou quando o caso ganhou nome e sobrenome. Ulisses de França Braga Jr. Sangue O negativo. Dos raros. Dos que só recebem do mesmo tipo. Dos que, ironicamente, doam para todos. Sete por cento da população carrega esse passaporte biológico que salva vidas em emergências, mas cobra um preço alto quando os estoques evaporam. Ulisses Jr. perdeu a janela do transplante. A vida — sempre apressada — pediu que ele esperasse.

Conheci Ulisses Jr. ainda criança, levado pela mão do pai, meu amigo Ulisses “Clarinete” Braga, falecido em 2017, aos 73 anos. Um dos homens mais brilhantes com quem trabalhei na virada dos anos 1980. Clarinete era desses que enxergam o futuro antes de ele se explicar. Quando computador pessoal ainda parecia ficção estrangeira, ele já dizia, com a lucidez de quem aponta o óbvio: “isso vai mudar tudo... e rápido”.

Diabético severo, brigava diariamente com o próprio corpanzil de quase dois metros, porque adorava comer e beber — não necessariamente nessa ordem. Em compensação, tinha uma inteligência que não pedia licença para expor a mediocridade alheia. Espirituoso, falava de quase tudo com uma fluência que constrangia os simplificadores profissionais. Foi bancário, mas era muito mais: radioamador, radialista, chef de cozinha, piloto, programador, crítico literário e musical, escritor preguiçoso. Dominava inglês e espanhol não como medalha, mas como ferramenta. E se divertia observando a paisagem humana ao redor.

Certa vez, um chefão resolveu provocá-lo, sob o pretexto de elogiar seu raro poder de cativar plateias. Disse que Clarinete, na prova para tirar o brevê de piloto de teco-teco, teria feito um voo rasante sobre a cidade, passando tão rente à imagem da santa padroeira que tirou um fino na auréola — e que a santa, comovida, chegou a derramar uma lágrima. Clarinete não acusou o golpe. Esperou a gargalhada geral baixar e devolveu com um cruzado à la Ariano Suassuna: “vocês não leem… vocês não viajam…”. Ele sabia, como poucos, viajar.

Ah, como eu queria hoje poder ligar para ele. Contar que o filho está à espera de uma negociação noutro plano. Que um transplante foi suspenso porque faltou aquilo que não se fabrica em laboratório. Nenhum cientista encontrou substituto. Há paliativos, atalhos provisórios, mas nada que substitua o gesto humano de estender o braço — por amor ou por dor.

Os especialistas repetem: a doação regular é a única saída. Uma única bolsa pode salvar até quatro vidas. Coleta-se pouco — menos de dez por cento do sangue do corpo. O organismo repõe rápido. Não há risco de contágio. Existe até uma folga garantida por lei. Ainda assim, os estoques minguam, como açudes na estiagem.

Porém os critérios excluem muitos (eu, inclusive): idade, peso, saúde, alimentação, sono, tatuagem recente. Não há sistema que sobreviva apenas a apelos episódicos, a campanhas acionadas quando a sirene já está gritando.

Se bem me lembro de Clarinete, ele faria uma pergunta incômoda: será que ninguém percebeu que o sistema está organizado para falhar?

Logo em seguida, viria com uma solução simples, dessas que respeitam a alma do brasileiro e sua eterna prontidão para o feriado. Incentivo concreto. Reescrever a norma. Doou sangue? Três dias de folga a cada seis meses. Ou cinco por ano. Tudo comprovado. E, para evitar o discurso da “cortesia com o chapéu alheio”, compensação fiscal às empresas empregadoras.

Nada de heroísmo abstrato. Reconhecimento prático. Sangue não se pede apenas com cartaz emotivo. Estoque se constrói com política pública inteligente.

Enquanto não acontece, Ulisses Jr. e outros esperam. E o sistema segue contando com o velho vício nacional do improviso. 

Enquanto não acontece, você, que se enquadra no perfil de doador, procure ainda hoje um dos hemocentros ou hospitais de sua cidade.  

No fundo, basta lembrar que sangue não se cria. Circula. E quando falta, descobre-se tarde demais que discurso não corre na veia.


 

 

31 comentários:

  1. ADEMAR RAFAEL FERREIRA24 de janeiro de 2026 às 06:43

    Brilhante invocação. Vamos agir, sempre sobra tempo para fazermos o bem e para trocarmos o "eu" pelo "nós".

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Quando precisei de sangue para uma cunhada, Ademar, sugeri a um amigo — então tenente do Exército — que perguntasse aos soldados quem doaria em troca de dispensa do serviço do sábado. Em segundos, surgiram vários voluntários.
      Isso reforça minha convicção: a solução passa por monetizar a causa, distribuindo o custo por toda a sociedade via fisco.

      Excluir
  2. "Porém os critérios excluem muitos (eu, inclusive): idade, peso, saúde, alimentação, sono, tatuagem recente."

    Numa triagem, fui excluído por haver viajado pra Belém-PA há menos de 1 ano. Passado esse período, voltei e fiz nova doação.

    ResponderExcluir
  3. ...Hoje o amigo HAYTON se superou! PARABÉNS! José Luiz.

    ResponderExcluir
  4. ...Hoje o amigo HAYTON se superou! PARABÉNS! José Luiz.

    ResponderExcluir
  5. Não pode haver "negatividade" na doação de sangue de qualquer tipo. No caso específico que os doadores do grupo O- não se transformem num 0(zero à esquerda. A cada doação, uma renovação do líquido precioso.

    ResponderExcluir
  6. Triste realidade da insensibilidade crescente do ser humano. Notei que na campanha, embora ele necessite de O-, pedem doação de todos os tipos sanguíneos. Que a guerra de Troia desse Ulisses tenha mais sangue, muito sangue doado, assim terá uma odisseia mais suave.

    ResponderExcluir
  7. ROBERTO SANTOS FERNANDES24 de janeiro de 2026 às 07:43

    Muito oportuna a sua crítica ao sistema de controle de estoque de sangue em nosso Estado, como também os seus comentários acerca de nosso colega Ulisses (clarinete), pai do Ulisses Jr, vítima desse descontrole imperdoável.

    ResponderExcluir
  8. Mais uma crônica necessária: doar algo que não se compra é um ato de amor ao próximo. Excelentes ações sugeridas pelo escritor. Infelizmente, na contra mão da eficácia, tivemos um Secretário da Saúde que desviou R$100 milhões e como “punição “ foi afastado.Muito triste e revoltante esse caso do transplante não realizado por falta de sangue. Vamos fazer uma campanha na nossa família , convocando quem não tiver impedimento, para doar. Obrigada por nos alertar para tema tão relevante.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É isso, Zejane. Enquanto não surge uma solução estrutural capaz de vencer o caos, resta convocar os “voluntários da pátria” para embarcar numa guerra que, cedo ou tarde, poderá ser de todos.

      Excluir
  9. Parabéns! Explicativo e sensível.

    ResponderExcluir
  10. Muito bom, quando trabalhava na santa casa fiz muitas doações, principalmente para crianças pela dificuldade de conseguir O negativo . Vinte anos depois certamente se agravou.
    Fico a disposição para o Ulisses em caso de nova oportunidade para o transplante.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Um cardiologista tão respeitado em Alagoas, ao se engajar assim, dá enorme peso à causa. Parabéns, meu amigo!

      Excluir
  11. Hayton, não canso de admirar a forma como você consegue humanizar as notícias, como, no caso, uma notícia que, no jornal, parece apenas estatística. Quando você traz a figura do Ulisses "Clarinete", o texto deixa de ser um apelo institucional sobre doação de sangue e passa a ser uma história sobre pessoas reais, sobre perdas e sobre a urgência do tempo.
    Fiquei com vontade de ter conhecido o pai, o Ulisses “Clarinete”, em razão do perfil que você trouxe dele, de um homem intelectualmente inquieto e, ao mesmo tempo, profundamente humano. Isso criou um contraste doloroso com a situação do filho: a inteligência e a tecnologia que o pai tanto admirava não podem salvá-lo agora, porque o que falta é o básico, o biológico, aquilo que só o outro pode dar.
    Como não podia deixar de ser, sua crítica à forma como o sistema funciona também é muito pertinente. Você toca em um ponto sensível: não se pode depender apenas do heroísmo ou do emocional das pessoas para manter os estoques cheios. A ideia de transformar a doação em uma política pública com incentivos práticos é um argumento realista, que foge do romantismo comum.
    A realidade é que, como você disse, "Discurso não corre na veia", o que resume o desamparo de quem espera por algo que a ciência não fabrica.

    ResponderExcluir
  12. Uma crônica extraordinária: pelo tema e porque hoje é sábado!
    Campanhã importantíssima.
    Tão importante quanto a de doação de órgãos. Precisamos de mais espírito coletivo. Sempre!
    Gol de placa, Hayton!!

    ResponderExcluir
  13. Um sábado chamado a doar!
    Sertanejo acorda junto com os passarinhos, bico a bico, tête-à-tête, ao primeiro chilrear dos canários da terra ou ao primeiro e característico anúncio escandaloso do velho bem-te-vi gamela, assim me porto, desde menino, sem perder o passo (ops! a mania) de "tirador de leite" como reclama minha companhia diária de cinco décadas de amor, tolerância e cumplicidade.
    Hoje os pássaros ganharam de mim sem piedade, afinal é um sábado - como diária o poetinha, no seu Dia da Criação, "Há um renovar-se de esperanças (Porque hoje é sábado)"!
    Renovemos as esperanças, meu caro Hayton, renovemos! Quem sabe, um dia, o Criador, incansável e onipotente como o é, nos mande soluções palpáveis para situações dessa ordem e não nos seja forçado a suspender transplantes, como ocorrera na citação da sua emocionalmente e bela crônica!
    Sinceramente, "aviciado", como dizem meus parceiros da vida toda lá no sertão, a receber seus despertares de leitura às quartas-feiras, tomei um susto quando recebi o de hoje rsrsrs, não pelo título, mas pelo inusitado do dia.
    Mas, convenhamos, o brado da sua crônica é de um efeito salutar perante a situação dos homocebtros neste país afora. Mais ainda, suas proposições de incentivo à doação do precioso líquido que corre em nossas veias, são dignas de incorpiração ao ordenamento jurídico bacional e com a urgência merecida.
    No mais, meu abraço e, para não destoar do poetinha, sigamos com a vida, beberiquemos, sorvamos um bom churrasco, um especial peixe assado, um gaiamum bem cozido, afinal "Impossível fugir a essa dura realidade...Porque hoje é sábado"
    Ave Palavra!
    Tonhodopaiaia.org

    ResponderExcluir
  14. 👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏

    ResponderExcluir
  15. Crônica muito oportuna, caro Hayton! E desperta nossa consciência humana e cristã de ajudar, ajudar quem você nem conhece, ajudar o próximo. A idéia de recompensar melhor quem doa é excelente. Para além disso, seguindo seu exemplo, outros influenciados digitais poderiam contribuir com campanhas de doação de Sangue. Atingiriam um publico mais jovem. Pessoas com milhões de seguidores tem poder. Como dizia Peter Parker, "Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades". Incentivar a doação de sangue seria muito mais responsável e humano que incentivar a doação de dinheiro para as BET's.

    ResponderExcluir
  16. Vc começou uma campanha com sua crônica oportuna .VAMOS LÁ !!!🙏

    ResponderExcluir
  17. Triste demais. Aqui em BH recorremos aos bombeiros, à Polícia Militar, sempre prestativos atendem aos apelos para doar

    ResponderExcluir
  18. Situação absurda e muito triste. Tomara que o apelo surta efeito. Nos resta torcer e divulgar.

    ResponderExcluir
  19. Essa crônica é um ato de amor ao próximo! Parabéns Hayton!

    ResponderExcluir
  20. Crônica precisa no contexto e na necessidade urgente pela doação de quem possa fazê-la e socializá-la!

    ResponderExcluir
  21. Crônica extraordinária, necessária e providencial. Infelizmente está faltando sensibilidade ao ser humano até para doar seu "sangue" .

    ResponderExcluir
  22. Isso nos leva a uma reflexão: quantos de nós já fizemos essa boa ação, que pode salvar vidas, e doamos sangue? Obrigado por esse alerta, querido Hayton.

    ResponderExcluir
  23. Haydee Jurema da Rocha24 de janeiro de 2026 às 10:10

    Boa! Tomara apareça logo um parlamentar com a sensibilidade de criar uma lei com um " incentivo". O ser humano é movido a " vantagens" pessoais...

    ResponderExcluir
  24. É difícil a realidade que descreveu e que me levou ás lágrimas pois venho acompanhando o caso do menino que conhecemos , filho do nosso grande amigo Ulisses Braga.

    ResponderExcluir
  25. Isso é uma coisa muito triste. Enquanto assistimos a incompetência e a negligência do estado se eternizar neste e em tantos ou todos outros casos, não resta alternativa que não seja tentar remediar o irremediável porque essa doação já se perdeu.
    Vou compartilhar. É a única coisa que enxergo como possível neste momento.
    Maurício Santa Cruz

    ResponderExcluir
  26. Contribuir para com o outro, com a coletividade, muitas vezes esta a um passo de nossa solidariedade, num gesto simples, com benefícios próprios, mas o que cria atratividade é realmente monetizar. Assim, esta exposto e claro na sociedade. Mais uma bela crônica e reflexão.
    Obrigado grande Hayton.

    ResponderExcluir
  27. Agostinho Torres da Rocha Filho24 de janeiro de 2026 às 10:44

    De fato, estoque de sangue somente se constrói com política pública inteligente, mas... não rende dividendos políticos. A publicação da crônica neste sábado nos alerta para a urgência de uma profunda reflexão sobre a matéria. O fato narrado ultrapassa todos os limites do bom senso. O próprio cirurgião confessou jamais ter vivenciado situação semelhante. Façamos, então, a nossa parte! Parabéns ao cronista!

    ResponderExcluir

Discurso não corre na veia

DISCURSO NÃO CORRE NA VEIA Hayton Rocha Já vinha com um aperto no peito, desses que não cobram explicação, mas insistem em acordar a gente a...