janeiro 21, 2026

Pacto de mangue e mar

PACTO DE MANGUE E MAR 
Hayton Rocha


Há amores que a gente escolhe com a cabeça — o filme da hora, o livro da moda, o vinho da vez. E há amores que nos escolhem de corpo inteiro: pelas mãos, pelos olhos, por um cheiro antigo que insiste em ficar. Amor por um clube é assim: não se explica, se padece. Lealdade que não se negocia na vitória nem na derrota.

 

Sei disso com o Vasco, herança paterna de um jeito próprio de amar e sofrer. Sei também com o CSA, essa teimosia que verga há anos, mas não quebra. Mas não falo deles. Falo de um amor que não tem camisa vendida em aeroporto: a AABB Maceió.


Mosaico: Album de Família 



Sim, um clube. “De banco”, dirão alguns, como quem reduz uma cidade a um código postal. Mas a AABB é dessas paixões que entram sem bater e quando a gente menos espera já puxaram cadeira e tomaram assento na sala. Nasceu como tantos outros clubes: da necessidade de encontro. Em 1953, bancários em Alagoas decidiram que convivência fora do trabalho e lazer não eram luxo, mas questão de sobrevivência.


Cheguei à AABB em 1970, ainda na Praia do Sobral, trazido pela transferência do meu pai de União dos Palmares para Maceió. Tinha 12 anos — idade em que o mundo cabe no bolso e o amanhã não cobra juros. Fui direto para a natação. Andava sempre assoando o nariz, catarro teimoso de menino. O amarelão e a barriga-d’água, lembranças quentes do Rio Mundaú, só apareceriam depois, descobertos e curados quando o tempo resolveu explicar o corpo.

 

No verão de 1971 vivi meu único triunfo esportivo digno de nota. Talvez por isso o clube nunca tenha saído de mim. Numa prova final de peito clássico, os arredores da piscina estavam coalhados de gente. A torcida parecia toda pelo adversário da raia ao lado. Por mim, só minha mãe e meus irmãos, perdidos no oceano de cabeças, tentavam me salvar do vexame.

 

Ganhei por uma braçada — sabe Deus como. Do alto de dois engradados de cerveja que serviam de pódio, engoli o choro ao receber das mãos de meu pai, então secretário do clube, a única medalha que pendurei no pescoço. Disseram-me que homem não chorava. Nem menino mudando de voz, com pelos nos sovacos. 

 

Soube bem depois que aquele adversário, filho de um associado muito querido, se perdeu nas drogas e hoje, quase setentão, perambula pelas ruas como sem-teto. A raia muda. O pódio apodrece. O aplauso evapora.

 

Volto aos treze anos. Enquanto não comia, dormia ou estudava, queria mais era rachar nos campinhos de terra batida ou à beira-mar, disputar futebol de botão, folhear a Placar. E minha irmã mais velha suspirava lendo fotonovelas e ouvindo canções românticas.

 

Nas noites de sexta, a AABB fervia. Banda, cadeiras duras, fumaça espessa, luz negra estourando nos olhos, o chão vibrando sob os sapatos. Minha irmã queria ir à boate toda semana. Nosso pai era inflexível: só iria se eu fosse. E lá ia eu, mártir involuntário, para um mundo onde não cabia. Às dez da noite já morria de sono. Sem saber, porém, testemunhava o nascimento de uma lenda alagoana que o Brasil inteiro aprenderia a ouvir.

 

No Carnaval de 1972, também na AABB, fingi gostar da bagunça. Não larguei a mão de uma menina nos três dias de folia e, no último, até assobiei a marcha derradeira. Mais alívio que romance. Nem houve beijo. Naquele tempo, matava-se a sede gole a gole.

 

Rimos hoje do que não aconteceu. Ou de quando ouvimos “só eu sei as esquinas por que passei...”. E isso também é amor pelo clube: um lugar onde a memória faz tabela e a saudade vira o jogo a qualquer momento.

 

Doze anos mais tarde, a AABB se mudou para Ipioca, na Praia da Pescaria. Ali deixou de ser apenas clube: virou ecossistema. Um pedaço de chão entre rio e mar, na foz do Meirim, onde o mangue ensina paciência. Na maré baixa, atravessa-se o rio a pé, como se a natureza abrisse uma porteira. Só pede cuidado.



Mosaico: Album de Família


 

Foi ali que nossos filhos deram as primeiras braçadas, aprenderam a tirar caranguejo da toca sem ferir as mãos. Foi ali que, outro dia, vi uma netinha, criada entre teclado e viola estrangeiros, exultar ao ver um amigo meu tocar triângulo. Pediu o instrumento e nos encantou. Talvez não saiba ainda, mas corre em suas veias sangue nordestino — esse povo que transforma uma lata em tambor de todos os ritmos.

 

Lembrei de tudo sábado passado, numa prévia carnavalesca na AABB. Alguém me perguntou qual era minha ligação com o clube. Respondi com outra pergunta: “você tem um tempinho pra me ouvir?”.

 

Porque esse amor não é posse, é permanência. Um pacto entre pessoas, lugares, vozes e ausências. Algo imenso que não se explica nem se rompe. 

 

Como o mangue: parece lama, mas sustenta o mar. 


 

 

13 comentários:

  1. Caro Hayton
    Li sua crônica e gostei demais da sua habilidade em transformar a memória afetiva em algo tão tangível. O que mais me despertou atenção foi a maneira como você articulou a história pessoal com a geografia sentimental de Maceió. Há uma elegância muito particular em não omitir as asperezas da infância — as enfermidades do rio, o pódio improvisado sobre engradados — enquanto se constrói a mística do lugar.
    A nota trágica sobre o destino do seu antigo adversário de raia confere à narrativa uma gravidade necessária. Ela retira o texto do campo da mera nostalgia e o transporta para uma reflexão sobre a transitoriedade e o peso do tempo. É um contraponto severo, mas muito bem colocado, que dá equilíbrio à leveza das recordações de carnaval e das fotonovelas.
    Ao final, ao comparar o clube ao mangue — essa estrutura que, embora oculta e humilde, sustenta a imensidão do mar —, você sintetizou o que significa pertencer a algo. É uma imagem poderosa, que encerra o texto com uma sobriedade que honra tanto as suas raízes quanto a inteligência do leitor.
    Um belo testemunho de permanência. Parabéns.

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    1. Depois de viajar pelo texto do Amigo Hayton, a gente se depara com os comentários que vão enriquecendo ainda mais a viagem. Aqui, Izaias debulha a crônica de uma maneira muito especial, dando luz às sutilezas com que o nosso Amigo Cronista nos presenteia a cada semana.
      Que bom poder estar no meio de gente que tem esse dom de embelezar as coisas.

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  2. Amigo Hayton,é Muito Prazeroso ler suas Crônicas,e falando em Maceió,o prazer e a saudade triplicam!

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  3. ADEMAR RAFAEL FERREIRA21 de janeiro de 2026 às 05:32

    Cada AABB por onde passamos na vida de retirante tem um pedaço de nós na quadra, na piscina, no campo, no bar, no salão de jogos...foi a nossa terceira casa. Essa crônica coloca no pódio um espaço que foi trocado por outros nos dias atuais e que para nossa geração segue sendo o espaço de lazer preferido. Gratidão caro amigo.

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  4. Caro Hayton,
    Há, na sua crônica(reminiscências) um pacto bem maior: do amor com o respeito; da benquerença com a saudade; do ensinamento com o aprendizado; da preservação com a dignidade!
    Pouco se vê, em dias como os que transitamos, pessoas voltadas a guardar memória e respeito ao que lhes fora basilar no conjunto do aprendizado na vida. Há um esquecimento seletivo, por vezes sibite, como cravam nossos irmãos sertanejos da Velha Natuba dos Kiriris, meu torrão, tudo em obediência à modernidade e, digamos assim, à prosperidade meramente material.
    Tenho e terei um tempinho para lhe ouvir, para lhe ler semanalmente - ao menos -, mas, acima de tudo, creia, tenho um tempão, de sobra mesmo, para admirar sua verve de escritor festejado, com sério rumo à Academia dos maiores nas letras, pensada e nos moldes de antanho, por nosso inconfundível Machado.
    Há fãs que exageram, os tietes, como aqui me ponho, mas o fazem com a consciência de aplaudir o que de melhor se nos vem nos seus brilhantes textos.
    Ave Palavra!
    Tonhodopaiaia.org

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  5. Um mergulho nas lembranças. Obrigado, amigo por nos guia nessa viagem de pés descalços entre o doce do rio e o sal do mar.

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  6. Grande Parahyba - Amigo Singular!
    De vara curta, hoje cutucou vigorosamente a memória.
    Bela viagem ao passado não muito distante.
    Conheço esse paraíso - AABB de Maceió, a atual - Essa que tem a beleza de lugar que acolheria, com modos, a figura genial de Ernest Hemingway, cujas pegadas 👣, você mesmo, ainda descalço, está a trilhar.
    Fraterno amplexo 🤝

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  7. A Associação Atlética Banco do Brasil é um clube que faz parte da minha história desde a década de 1970. Tornei-me associado ao ingressar no banco, em 1983. Atuei como presidente da AABB de Penedo-AL por sete anos e, atualmente, integro o Conselho Deliberativo da AABB Maceió. A crônica, envolvente e sensível, nos conquista a cada linha e nos conduz suavemente por uma verdadeira viagem no tempo. Hayton, como sempre, você nos faz revisitar nossas lembranças mais afetivas. Desta vez, acredito que todos que fazem parte da família Banco do Brasil se veem refletidos nessas memórias ligadas à AABB.

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  8. Já conheci a AABB da praia de Pescaria.
    Tenho fotografado lindas recordações dos meus filhos ainda crianças.
    Velhos tempos.

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  9. Sua crônica de hoje me vez passear por bons momentos vividos em algumas de nossas AABBs, inclusive a de Maceió, quando atleta de voley integrava o time da AABB de Salvador e participava dos varios campeonatos regionais e até nacionais realizados no nosso amado clube. Valeu amigo!

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  10. Há algum tempo ouvi um amigo dizer que só se conhece outra pessoa depois de uma garrafa de vinho. Certamente foi uma metáfora para dizer que precisa ter tempo de ouvir e escutar os detalhes. A crônica de hoje traz o detalhe revelador nos três dias de carnaval, me levando a entender que o personagem se apaixonou por todos os caminhos que o conduziram ao grande amor da sua vida.
    Maurício

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  11. A cada crônica a gente conhece um pouco mais sobre você e sua história de vida. Passa a sensação de caminhar ao seu lado. Grande abraço.

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  12. Sensibilidade única. Um enredo que nos prende e com um final genial : “Como o mangue: parece lama, mas sustenta o mar.”

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