março 25, 2026

O nome que cabe no grito

O NOME QUE CABE NO GRITO

Hayton Rocha

 

Botar apelido é mania tão brasileira, íntima e aparentemente inofensiva, mas não nasceu de brincadeira nem de carinho. Nasceu da dor da ausência de direitos. Da impossibilidade de existir plenamente diante da lei.

 



 


 

Durante a escravidão, nome de família era luxo reservado aos brancos. Casamento, linhagem, pátrio poder, tudo isso ficava do lado de fora da senzala. O escravizado recebia um nome formal, português, quase sempre emprestado de um santo do calendário ou da devoção da casa-grande. Um nome “limpo”, que cabia no livro da igreja e na boca do feitor.

 

Mas não era esse o nome que circulava na cozinha ou no terreiro. Ali, quem nomeava eram as mães. E o nome verdadeiro, o que carregava história, memória e pertencimento, quase nunca era o oficial.

 

Para os negros fugidos, refugiados em quilombos, não ter nome podia ser vantagem. Nome identifica, chama a atenção, denuncia. Entrega o rastro aos capitães do mato, com suas espingardas e chicotes. Melhor ser apelido, curto, fugidio, som de vento.


Na capoeira, o costume se repetia. Cada praticante ganhava outro nome, uma espécie de segunda pele. Proteção e pertencimento ao mesmo tempo. Um nome que não apontava para trás, que mirava o dia seguinte, o resto da vida.

 

Pense no desconforto de um negro, antes da abolição, ser chamado por um nome português, desses de pia batismal, cartório e certidão. Um nome que não reconhecia sua origem, sua história.

 

Depois da abolição da escravatura, quando a liberdade chegou sem plano de voo, muitos negros adotaram o sobrenome dos antigos senhores. Não por escolha ou gratidão, mas por necessidade. Era preciso existir no papel. Ser alguém diante do Estado.


No interior, onde igreja e padre eram artigos caros, muita gente só era batizada já quase adulta. E recebia um nome novo, estranho, que não dialogava com aquele pelo qual já era chamada entre os seus. O documento nascia desalinhado da vida real.

 

Entre os povos indígenas, mudar de nome também obedecia a ritos. Depois de certas passagens, certos aprendizados, a pessoa renascia com outro sentido. Nome acompanha transformação. Nome nunca é coisa pequena.

 

Com o tempo, esse costume escorreu para a população mestiça, atravessou cercas invisíveis e chegou às classes mais abastadas. Mas já vinha com cicatrizes, carregado de memórias.

 

No futebol, apelido encontrou terreno fértil. Garrincha, Didi, Vavá, Pelé, Manga, Baiaco, Mão-de-Onça, Pavão, Pinga, Sabará. Nomes que dispensavam sobrenome e não pediam explicação. Bastavam.


Lembro de um quinteto defensivo do Penedense de Alagoas, anunciado com pompa pelo locutor Sabino Romariz, antes de cada peleja no Baixo São Francisco dos anos 70. Tinha musica na escalação. A bola nem havia rolado, mas o jogo já começara:
“— O esquadrão alvirrubro adentra ao gramado com Beréu, Coco, Luiz Bodão, Casca e Ieié…”

 

E o que dizer de Nado, Bita, Nino e Lala, lendário ataque do Naútico dos anos 60, ecoando pelas ondas da Rádio Clube de Pernambuco? E o trio do Sport formado por Traçaia, Tomires e Nenzinho? Até a narração das tabelas soava como verso.

 

Depois, o apelido encolheu. Foi ficando menor, mais dócil. A geração dos “inhos”. Dava até para escalar uma possível seleção, treinada por Candinho: Edinho (filho de Pelé), Jorginho, Luizinho, Marinho e Mazinho, Juninho, Ricardinho e Ronaldinho, Marcelinho, Robinho e Joãozinho. Uma nação inteira falando baixo, como quem pede permissão para existir. 

 

Hoje, com a chegada definitiva da classe média ao futebol, os apelidos rareiam. Multiplicam-se Brunos, Cauãs, Davis, Émersons, Felipes, Gabriéis, Mateuses, Rodrigos e Tiagos. Nomes corretos, limpos. Muitos tatuados no próprio corpo. Bem-comportados. Como os estádios modernos: sem gerais, sem poeira, sem chuva.

 

Com eles, vai ver está sendo enterrado o último elo entre o ídolo e o coração do torcedor-raiz. Porque no futebol, apelido é proximidade. Pelé é bem maior que Édson Nascimento. Garrincha jamais caberia em Manoel dos Santos. Zico será sempre mais íntimo que Artur Coimbra. 

 

Apelido é o nome que não cabe no documento, mas cabe no grito. É o atalho que o povo inventou quando lhe faltavam direitos, espaços e sobrenomes. Um jeito de dizer, sem cerimônia: “esse aí é dos nossos!”. 


Quando o apelido desaparece, não é só o futebol que muda. É a língua que perde coragem. 


E, quando a língua se acovarda, o povo volta a falar baixo. Até não caber mais no próprio grito.

 

14 comentários:

  1. Até entrar para a escola, eu era simplesmente Beto. Eu não sabia que era só um apelido e que meu nome era João Alberto. Tanto que, quando a professora fez a chamada, eu não disse "presente", como nos fora orientado por ela, no começo da aula.

    Ela seguiu a chamada e, no final, eu disse que não tinha sido chamado. Ela perguntou meu nome. "Beto" foi minha resposta. Ela procurou na lista e não encontrou. Perguntou o nome de meu pai e eu respondi: João Brandão.

    - Está aqui. Seu nome completo é "João Alberto Montanher Brandão". Beto deve ser seu apelido...

    Eu tinha apenas sete anos. Então, não lembro exatamente o que senti, mas acho que me senti importante e orgulhoso. Foi estranho, mas foi muito bom, ao mesmo tempo, saber que eu tinha o mesmo nome de meu pai e de meu avô.

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  2. Já vi apelidos carinhosos, mas também os preconceituosos, os ofensivos. Gosto mais de Bituca, de Betinho, de Chico, de Tom, de Guga. Os ofensivos prefiro nem lembrar.

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  3. Bom dia, Seu Parayba (ops!), Seu Doutor Hayton), melhor dizendo, para não tratar um escritor renomado por apelido!
    Não faz muito tempo conversava com com amigo sobre a força dos apelidos e, por seu turno, da sua valia extrema principalmente em comunidades rurais.
    Lembro bem que o Banco do Brasil ao preencher a ficha cadastral de fazendeiros ou produtores rurais, sempre punha, entre parênteses o nome como era conhecido aquele cliente na sua região: José do Egito Brasileiro, conhecido como "Zé Preá" e aquilo nunca se fez depreciativo, nunca foi o tal do bullying, a pessoa era conhecida pelo apelido e fazia questão de assim ser chamada.
    Não muito longe, o ordenamento jurídico permitiu acréscimo de apelido ao nome civil, inicialmente para uso em campanha eleitoral, dado que antes não havia permissão de colocar apelidos na cédula de votação e, atualmente, em urnas eletrônicas.
    O maior exemplo que se tem, nesse mister, é do atual chefe do Executivo da Nação.
    Aqui na Bahia tivemos e temos siglas que marcaram território político, algumas delas compostas de apenas três letras do nosso alfabeto, como sói ocorrer com o ex-prefeito da Capital, ex-governador e ex-senador, Antonio Carlos Magalhães, o popular e lendário ACM que fora transferida para o seu neto, embora acrescido do sobrenome Neto, o ex-prefeito de Salvador, por dois mandatos seguidos, e atualmente pretendendo ser, novamente, candidato a governar a Bahia, talvez para repetir a façanha do seu avô. Como existem outros apelidos políticos - aqui na Bahia - que exercem cargos atualmente: deputados como Bobô (ex-craque de futebol); Binho Galinha, Zó do Sertão e outros mais.
    Por outro lado, a legislação pátria permite que seja acrescido, em documento de identificação, o chamado nome social, garantido pelo Decreto nº 8.727/2016, que não se confunde com apelidos ou nomes artísticos, com a finalidade de inclusão social.
    E, só para incluir a vivência da minha Natuba dos Quiriris, ninguém chegasse lá procurando por Antonio Anphilóphio dos Reis ou Antonio Moreira da Silva que ninguém saberia informar, havia de ser procurado Tonico Moreira e Totonho de Cazé. Na atualidade temos um outro Antonio, o Antonio José Alves que ninguém, por certo, saberá lhe informar quem é se o leitor não procurar por Aririta.
    Mas, um alerta, não me procure lá por Tonho do Paiaiá, o apelido aí será inverso, lá eu sou simplesmente Antonio Mário.
    E viva os apelidos que C tanto nos ajudam a identificar pessoas!

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  4. Haydee Jurema da Rocha25 de março de 2026 às 06:14

    Interessante! Nunca havia atentado pra isso!! Pessoas sequestradas de suas origens, chegaram aqui sem nenhuma identificação... E conseguiram RENASCER!!!

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  5. Muito bom, Hayton. Sua crônica me fez lembrar de um grupo de WhatsApp que reuniu colegas e amigos da infância. Muitos de nós já com cabelos brancos — ou até sem cabelos — e, curiosamente, não éramos reconhecidos pelos nomes formais: Jorge, Ricardo, Edson…
    Mas bastava alguém mencionar o apelido — Cal, Ameba, Bebé — e imediatamente conseguíamos identificar quem estava falando, sem precisar de sobrenomes ou qualquer outra formalidade. Era como se o tempo voltasse e nos reconectasse àquela fase da vida.
    Parabéns por mais essa crônica, que mais uma vez nos permite fazer essa agradável viagem no tempo.

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  6. Como é bom ler cedinho uma crônica assim , tão leve, e criativa. Realmente o apelido é muito importante do ponto de visto de ser identificado. Aviso: caso um dia você vá à minha cidade natal, Diamante PB, não me procure pelo nome, que ninguém conhece, mas pelo apelido: Vadim de Toró.
    Abraço

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    1. De fato, solenizou demais a “alcunha” de Valdery (com “y”) Franco de Moura, depois que a criança cresceu. Vadim de Toró é bem mais musical. 😅

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  7. Excelente 👏👏👏👏👏👏👏 Seu amigo Gil Messi!!!

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  8. No livro apócrifo de Tomé, Jesus esclarece que "nome" limita. Deus, p.ex. é um nome e, portanto, limitado. Então, Jesus O chama de Incognoscível, Absoluto, Inefável, Ilimitado... Vejam só: apelido é melhor que nome. Adorei a crônica.

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  9. Na escola, quando eu era menino, todo mundo tinha apelido e era interessante.
    Quando fui trabalhar no Banco, tinha um contínuo na agência que punha apelido nos funcionários assim que lá tomavam posse.
    Hoje não tem mais isso.
    Perdeu-se a inocência?

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    1. Perder, não perdeu. Pelo visto, usaram até algarismos romanos para diferenciar os “Cabeção”. Dizem que só Ceará e Paraíba deram conta de esgotar todos.

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  10. ADEMAR RAFAEL FERREIRA25 de março de 2026 às 07:14

    O apelido em alguns casos passa a ser o primeiro nome, meu saudoso pai era mestre em "rebatizar" os conterrâneos. Muitas vezes ainda hoje pergunto o nome de uma pessoa e ela responde: "O nome da certidão ou o nome que teu pai colocou?" Assim sendo, vamos simplificar os nomes tem "w", e "y" sobrando.

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