O NOME QUE CABE NO GRITO
Hayton Rocha
Botar apelido é mania tão brasileira, íntima e aparentemente inofensiva, mas não nasceu de brincadeira nem de carinho. Nasceu da dor da ausência de direitos. Da impossibilidade de existir plenamente diante da lei.
Durante a escravidão, nome de família era luxo reservado aos brancos. Casamento, linhagem, pátrio poder, tudo isso ficava do lado de fora da senzala. O escravizado recebia um nome formal, português, quase sempre emprestado de um santo do calendário ou da devoção da casa-grande. Um nome “limpo”, que cabia no livro da igreja e na boca do feitor.
Mas não era esse o nome que circulava na cozinha ou no terreiro. Ali, quem nomeava eram as mães. E o nome verdadeiro, o que carregava história, memória e pertencimento, quase nunca era o oficial.
Para os negros fugidos, refugiados em quilombos, não ter nome podia ser vantagem. Nome identifica, chama a atenção, denuncia. Entrega o rastro aos capitães do mato, com suas espingardas e chicotes. Melhor ser apelido, curto, fugidio, som de vento.
Na capoeira, o costume se repetia. Cada praticante ganhava outro nome, uma espécie de segunda pele. Proteção e pertencimento ao mesmo tempo. Um nome que não apontava para trás, que mirava o dia seguinte, o resto da vida.
Pense no desconforto de um negro, antes da abolição, ser chamado por um nome português, desses de pia batismal, cartório e certidão. Um nome que não reconhecia sua origem, sua história.
Depois da abolição da escravatura, quando a liberdade chegou sem plano de voo, muitos negros adotaram o sobrenome dos antigos senhores. Não por escolha ou gratidão, mas por necessidade. Era preciso existir no papel. Ser alguém diante do Estado.
No interior, onde igreja e padre eram artigos caros, muita gente só era batizada já quase adulta. E recebia um nome novo, estranho, que não dialogava com aquele pelo qual já era chamada entre os seus. O documento nascia desalinhado da vida real.
Entre os povos indígenas, mudar de nome também obedecia a ritos. Depois de certas passagens, certos aprendizados, a pessoa renascia com outro sentido. Nome acompanha transformação. Nome nunca é coisa pequena.
Com o tempo, esse costume escorreu para a população mestiça, atravessou cercas invisíveis e chegou às classes mais abastadas. Mas já vinha com cicatrizes, carregado de memórias.
No futebol, apelido encontrou terreno fértil. Garrincha, Didi, Vavá, Pelé, Manga, Baiaco, Mão-de-Onça, Pavão, Pinga, Sabará. Nomes que dispensavam sobrenome e não pediam explicação. Bastavam.
Lembro de um quinteto defensivo do Penedense de Alagoas, anunciado com pompa pelo locutor Sabino Romariz, antes de cada peleja no Baixo São Francisco dos anos 70. Tinha musica na escalação. A bola nem havia rolado, mas o jogo já começara:
“— O esquadrão alvirrubro adentra ao gramado com Beréu, Coco, Luiz Bodão, Casca e Ieié…”
E o que dizer de Nado, Bita, Nino e Lala, lendário ataque do Naútico dos anos 60, ecoando pelas ondas da Rádio Clube de Pernambuco? E o trio do Sport formado por Traçaia, Tomires e Nenzinho? Até a narração das tabelas soava como verso.
Depois, o apelido encolheu. Foi ficando menor, mais dócil. A geração dos “inhos”. Dava até para escalar uma possível seleção, treinada por Candinho: Edinho (filho de Pelé), Jorginho, Luizinho, Marinho e Mazinho, Juninho, Ricardinho e Ronaldinho, Marcelinho, Robinho e Joãozinho. Uma nação inteira falando baixo, como quem pede permissão para existir.
Hoje, com a chegada definitiva da classe média ao futebol, os apelidos rareiam. Multiplicam-se Brunos, Cauãs, Davis, Émersons, Felipes, Gabriéis, Mateuses, Rodrigos e Tiagos. Nomes corretos, limpos. Muitos tatuados no próprio corpo. Bem-comportados. Como os estádios modernos: sem gerais, sem poeira, sem chuva.
Com eles, vai ver está sendo enterrado o último elo entre o ídolo e o coração do torcedor-raiz. Porque no futebol, apelido é proximidade. Pelé é bem maior que Édson Nascimento. Garrincha jamais caberia em Manoel dos Santos. Zico será sempre mais íntimo que Artur Coimbra.
Apelido é o nome que não cabe no documento, mas cabe no grito. É o atalho que o povo inventou quando lhe faltavam direitos, espaços e sobrenomes. Um jeito de dizer, sem cerimônia: “esse aí é dos nossos!”.
Quando o apelido desaparece, não é só o futebol que muda. É a língua que perde coragem.
E, quando a língua se acovarda, o povo volta a falar baixo. Até não caber mais no próprio grito.
Até entrar para a escola, eu era simplesmente Beto. Eu não sabia que era só um apelido e que meu nome era João Alberto. Tanto que, quando a professora fez a chamada, eu não disse "presente", como nos fora orientado por ela, no começo da aula.
ResponderExcluirEla seguiu a chamada e, no final, eu disse que não tinha sido chamado. Ela perguntou meu nome. "Beto" foi minha resposta. Ela procurou na lista e não encontrou. Perguntou o nome de meu pai e eu respondi: João Brandão.
- Está aqui. Seu nome completo é "João Alberto Montanher Brandão". Beto deve ser seu apelido...
Eu tinha apenas sete anos. Então, não lembro exatamente o que senti, mas acho que me senti importante e orgulhoso. Foi estranho, mas foi muito bom, ao mesmo tempo, saber que eu tinha o mesmo nome de meu pai e de meu avô.
Já vi apelidos carinhosos, mas também os preconceituosos, os ofensivos. Gosto mais de Bituca, de Betinho, de Chico, de Tom, de Guga. Os ofensivos prefiro nem lembrar.
ResponderExcluirBom dia, Seu Parayba (ops!), Seu Doutor Hayton), melhor dizendo, para não tratar um escritor renomado por apelido!
ResponderExcluirNão faz muito tempo conversava com com amigo sobre a força dos apelidos e, por seu turno, da sua valia extrema principalmente em comunidades rurais.
Lembro bem que o Banco do Brasil ao preencher a ficha cadastral de fazendeiros ou produtores rurais, sempre punha, entre parênteses o nome como era conhecido aquele cliente na sua região: José do Egito Brasileiro, conhecido como "Zé Preá" e aquilo nunca se fez depreciativo, nunca foi o tal do bullying, a pessoa era conhecida pelo apelido e fazia questão de assim ser chamada.
Não muito longe, o ordenamento jurídico permitiu acréscimo de apelido ao nome civil, inicialmente para uso em campanha eleitoral, dado que antes não havia permissão de colocar apelidos na cédula de votação e, atualmente, em urnas eletrônicas.
O maior exemplo que se tem, nesse mister, é do atual chefe do Executivo da Nação.
Aqui na Bahia tivemos e temos siglas que marcaram território político, algumas delas compostas de apenas três letras do nosso alfabeto, como sói ocorrer com o ex-prefeito da Capital, ex-governador e ex-senador, Antonio Carlos Magalhães, o popular e lendário ACM que fora transferida para o seu neto, embora acrescido do sobrenome Neto, o ex-prefeito de Salvador, por dois mandatos seguidos, e atualmente pretendendo ser, novamente, candidato a governar a Bahia, talvez para repetir a façanha do seu avô. Como existem outros apelidos políticos - aqui na Bahia - que exercem cargos atualmente: deputados como Bobô (ex-craque de futebol); Binho Galinha, Zó do Sertão e outros mais.
Por outro lado, a legislação pátria permite que seja acrescido, em documento de identificação, o chamado nome social, garantido pelo Decreto nº 8.727/2016, que não se confunde com apelidos ou nomes artísticos, com a finalidade de inclusão social.
E, só para incluir a vivência da minha Natuba dos Quiriris, ninguém chegasse lá procurando por Antonio Anphilóphio dos Reis ou Antonio Moreira da Silva que ninguém saberia informar, havia de ser procurado Tonico Moreira e Totonho de Cazé. Na atualidade temos um outro Antonio, o Antonio José Alves que ninguém, por certo, saberá lhe informar quem é se o leitor não procurar por Aririta.
Mas, um alerta, não me procure lá por Tonho do Paiaiá, o apelido aí será inverso, lá eu sou simplesmente Antonio Mário.
E viva os apelidos que C tanto nos ajudam a identificar pessoas!
Interessante! Nunca havia atentado pra isso!! Pessoas sequestradas de suas origens, chegaram aqui sem nenhuma identificação... E conseguiram RENASCER!!!
ResponderExcluirMuito bom, Hayton. Sua crônica me fez lembrar de um grupo de WhatsApp que reuniu colegas e amigos da infância. Muitos de nós já com cabelos brancos — ou até sem cabelos — e, curiosamente, não éramos reconhecidos pelos nomes formais: Jorge, Ricardo, Edson…
ResponderExcluirMas bastava alguém mencionar o apelido — Cal, Ameba, Bebé — e imediatamente conseguíamos identificar quem estava falando, sem precisar de sobrenomes ou qualquer outra formalidade. Era como se o tempo voltasse e nos reconectasse àquela fase da vida.
Parabéns por mais essa crônica, que mais uma vez nos permite fazer essa agradável viagem no tempo.
Como é bom ler cedinho uma crônica assim , tão leve, e criativa. Realmente o apelido é muito importante do ponto de visto de ser identificado. Aviso: caso um dia você vá à minha cidade natal, Diamante PB, não me procure pelo nome, que ninguém conhece, mas pelo apelido: Vadim de Toró.
ResponderExcluirAbraço
De fato, solenizou demais a “alcunha” de Valdery (com “y”) Franco de Moura, depois que a criança cresceu. Vadim de Toró é bem mais musical. 😅
ExcluirBela crônica. Boas lembranças.
ExcluirExcelente 👏👏👏👏👏👏👏 Seu amigo Gil Messi!!!
ResponderExcluirExcelente
ResponderExcluirExcelente
ResponderExcluirNo livro apócrifo de Tomé, Jesus esclarece que "nome" limita. Deus, p.ex. é um nome e, portanto, limitado. Então, Jesus O chama de Incognoscível, Absoluto, Inefável, Ilimitado... Vejam só: apelido é melhor que nome. Adorei a crônica.
ResponderExcluirNa escola, quando eu era menino, todo mundo tinha apelido e era interessante.
ResponderExcluirQuando fui trabalhar no Banco, tinha um contínuo na agência que punha apelido nos funcionários assim que lá tomavam posse.
Hoje não tem mais isso.
Perdeu-se a inocência?
Perder, não perdeu. Pelo visto, usaram até algarismos romanos para diferenciar os “Cabeção”. Dizem que só Ceará e Paraíba deram conta de esgotar todos.
ExcluirO apelido em alguns casos passa a ser o primeiro nome, meu saudoso pai era mestre em "rebatizar" os conterrâneos. Muitas vezes ainda hoje pergunto o nome de uma pessoa e ela responde: "O nome da certidão ou o nome que teu pai colocou?" Assim sendo, vamos simplificar os nomes tem "w", e "y" sobrando.
ResponderExcluirO homem é um ser que precisa de um nome para provar que existe. Dos cognomes de jogadores de futebol da nossa cidade, um era bastante amedrontador:
ResponderExcluir"Mãe-da-Morte".
Vai ver era Júnior Baiano, com suas tesouras voadoras, no início da carreira…
ExcluirTinha um colega na Ag Centro que era conhecido pelo apelido. Um dia, uma senhora chegou no guichê dele e perguntou: Quem é Sr Fulano? Citando o nome dele. Ele olhou pra um lado, olhou para outro e perguntou ao colega: quem é Fulano? Ao que o o outro respondeu: é você! De tão habituado ao apelido, se esqueceu do nome. Quem foi caixa na bateria B da Centro deve lembrar.
ResponderExcluir. Nelza Martins.
Muito Interessante. Quem nunca teve um apelido na infância ou adolescência que atire a primeira pedra.
ResponderExcluirHayton, sua crônica é uma verdadeira aula sobre o modo brasileiro de batizar o próximo. Vai desde os tempos da escravidão até os craques de futebol. E isto corrobora que apelido no Brasil não é bullying, e faz parte de nossa cultura! O brasileiro tem mania de rotular tudo, do Zé da Esquina ao Chico Ligeirinho, transformando isso em um ato de resistência poética. Aqui prá nós: o apelido é o nosso sobrenome de estimação, aquele que garante sua vaga na história e te salva da monotonia de ser apenas mais um "Senhor Santos , Senhor Silva" mundo afora. No final das contas, toda zoeira prova que a intimidade é o atalho mais rápido para manter a nossa língua afiada e o espírito brincalhão com liberdade para dizer: esse aí é um perna de pau, este é dos nossos, e por aí vai.
ResponderExcluirSimbora viver e relembrar dos nossos apelidos de infância, que aqui deixo alguns dos meus: Nego Preto(eu era o mais moreninho dentro os 10 irmãos), Marzinho, Marisia, Ci, Perna de Pau(sempre fui ruim de bola) E no BB, Um Marzão de Pessoa.🤣🤝
Tão importante quanto a alcunha em si, Oceano, era a explicação dada pelo “pai da criança”.
ExcluirConheci um membro famoso do baronato do açúcar nordestino apelidado de “Maresia”. A explicação dada pelo autor era fora da curva e politicamente incorreta nos dias de hoje: “Não parece, mas queima!”
Puro conhecimento histórico, Hayton! Adorei!!👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
ResponderExcluirApelido é coisa séria. É identidade. É marca, que nem a feita por ferro em brasa no lombo do boi. Que quando nasce, no primeiro segundo, no primeiro dia, você nem imagina que ele vai colar no seu DNA por toda a vida. Que o diga o Pastor Rau da Congregação Rauriana do Reino Iluminado nos idos de 1981. Às vezes o mais difícil é explicar....
ResponderExcluirMais uma delícia de texto meu Amigo. Obrigado!
O tema é mais importante do que parece. A cronica ficou muito boa e o assunto até poderia render um livro de Sociologia, à la Gilberto Freire. Os apelidos ou alcunhas fazem parte do cotidiano brasileiro. No BB havia espaço no cadastro dos clientes da carteira agricola(SETOP/RURAL) para colocar apelidos. Sem essa informação era quase impossivel encontrar e cobrar um 'inadimplente contumaz". rsrs
ResponderExcluirExcelente comentário sobre identidade. 👏👏👏👏
ResponderExcluirNo tempo dos apelidos, o futebol era mais empolgante. Hoje, com cabelos desenhados e o bolso cheio de dinheiro, muitas vezes, o atleta não vale o ganha. O mundo está chato.
ResponderExcluirQue belo aprendizado, ensinamento de cultura, história e valores, aqui traduzidos. Além, de relembrarmos muitos momentos de alegria, da trajetória de nossas vidas.
ResponderExcluirE o que dizer de Galega,Mana,Dula etc e tal?
ResponderExcluirNome oficial nunca foi um registro tão inútil quanto agora. Eu gosto muito dos estudos de naming que tem um pouco a ver com essa belezura de texto que o Hayton nos traz. Eu sou fruto dessas loucuras de nome. Meu pai me colocou Euzivaldo (mistura de nomes), mas meu avô queria que eu fosse jogador e ser jogador com esse nome era impossível me apelidou VIVI. Daí eu incorporei, com muita honra, o VIVI. Voltando a inutilidade, vamos aos exemplos: Exemplo 1) a policia não procura mais fugitivos pelo nome, procura pela biometria. Se a delegacia registrar o indiciado como Piabita ou Mandito, não interessa; Exemplo 2) sabe dessas pessoas que dizem: - eu não entro em rede social para ninguém ficar me importunando com algoritmos depois? Tadinhos. Os sistemas que interessam te dão um nome (normalmente o IP da máquina). Dai pra frente eu sei que xxx.yyyy entra pela manhã no computador, que xxx.yyyy para para olhar roupas, que xxx.yyyy é simpatizante de tal ideologia etc. etc. e xxx.yyyy vai ser seguido até a morte. Se xxx.yyyy não for muito vigilante um dia ele receberá o seu nome PELO QUAL É CONHECIDO, mas isso não faz diferença no sistema; Exemplo 3) Todo mundo já teve que adotar um "username". E quando você quer colocar seu próprio nome e o sistema não permite e quer números incluídos ou já existe um outro registro idêntico? Tome-lhe: Macho_Alfa_63, Corretor_Serio, @FabioBBBauru98, etc..
ResponderExcluirFinalmente Hayton, pegaria muito mal eu te chamar de ZeroUm, ZeroDois, ZeroTres ou ZeroQuatro porque você não pertence a nenhuma Dinastia, mas, há mais de 50 anos, o BB te chama de TresNoveQuatroUmSeisOitoZeroDigitoUm.
Um bom dia começando com mais uma excelente crônica.
ResponderExcluirComo sempre, o autor nos faz viajar e, hoje, da África ao Brasil e, depois nos leva ao mundo do futebol.
Nunca será demais marcar o quanto os negros sequestrados de sua terra foram torturados, física e emocionalmente. Precisamos falar e escrever sempre sobre a aberração humana que foi a escravização de irmãos.
Sobre os apelidos, o autor tem toda a razão nos brilhantes argumentos que apresentou aqui hoje em sua defesa.
Imaginem apenas nossa convivência familiar. Desde pequeninos, até por limitações da fala e, claro do afeto de uns pelos outros, renomeamos o que foi registrado nos cartórios e nas pias batismais.
Obrigada, Hayton, por mais esse escrito primoroso.