maio 21, 2026

Nem tudo as borboletas podem

NEM TUDO AS BORBOLETAS PODEM 
Hayton Rocha


Não me lembro de ter recebido um beijo de minha mãe quando criança. Nem de meu pai. Amor, naquele tempo, era outra coisa. Vinha em prato cheio, remédio comprado na hora certa, roupa lavada no varal e na preocupação com o chá de sabugueiro e com a colcha de chenile quando a febre subia. Ninguém perguntava se estávamos felizes. Apenas seguíamos vivendo. E éramos.

Hoje vejo pais abraçando filhos no aeroporto, elogiando desenhos tortos, perguntando pelos deveres escolares, pelos medos, pelos sonhos. Acho bonito, não nego. Deve fazer bem. Mas pertenço a outro tempo, quando carinho era sentimento que raramente saía pela boca ou pelas mãos.

Talvez por isso eu nunca tenha esquecido tia Creuza. Do que ainda consigo tocar com a memória, foi ela quem me deu o primeiro gesto de afeto: um abraço apertado e um cheiro demorado no cocuruto, numa tarde remota no sítio Jacaré, no Brejo paraibano, onde meus avós maternos viviam cercados de mangueiras, galinhas, novilhas e incertezas quanto ao mês seguinte, ao ano seguinte.

Fotografias: Álbum de Família 


Tia Creuza era linda, leve e magra como uma borboleta dessas que parecem feitas de papel de seda. Nunca quis namorar, muito menos casar ou ter filhos. Havia quem a chamasse de esquisita. Naquela Paraíba dos anos sessenta, mulher que ficava no caritó ainda era vista como erro de fabricação ou promessa quebrada perante Deus. 

Ela simplesmente não quis. Preferiu acompanhar os passos de seu pai, meu avô Zé de Brito Jurema e de Olívio, seu irmão mais velho, no cabo da enxada, na venda de manga e inhame, no trato com os bichos e na fumaça espessa do cigarro de fumo de rolo. Enquanto as irmãs aprendiam as prendas domésticas, tia Creuza queria saber mesmo da força da terra, da chuva fina no canteiro de verduras e do ponto certo do feijão.

Nunca ligou para livros. Não saberia quem foi Kundera nem Nietzsche. Mas desconfiava, com a inteligência bruta dos que observam mais do que falam, que muito casamento nasce do amor e morre da convivência. Viu cedo demais mulheres virando empregadas emocionais de homens vazios. Viu também homens fugindo de casa para escapar daquilo que chamavam de rotina, como se a monotonia fosse culpa exclusiva do outro.

Sem discurso feminista, sem teoria sociológica e sem jamais ter ouvido falar em patriarcado, tia Creuza tomou uma decisão revolucionária para a época: optou pela própria companhia. 

Nunca precisou acordar às pressas para bater ponto, enfrentar reunião inútil, sorrir para chefe inseguro ou fingir interesse por palavras como feedback, performance e networking. A vida dela cabia nas coisas miúdas: uma horta molhada ao amanhecer, uma bicicleta atravessando a rua no fim da tarde, um rádio de pilha tocando baixinho na cozinha e a liberdade de não dever satisfações a ninguém.

Há sete anos esteve aqui em Maceió para iniciar um tratamento médico. Reviu sua irmã, minha mãe, os sobrinhos e um pedaço antigo de sua própria vida. Num domingo, entre um guaraná e outro, dei a ela uma blusa de mangas compridas e um boné amarelo com uma conhecida marca azul bordada na frente.

Ela se comoveu. Os olhos ficaram úmidos como se eu tivesse lhe entregado um tesouro. Naquele instante, tive vontade de retribuir o abraço e o cheiro no cocuruto que recebi quando menino. Mas não consegui. Faltou costume. Há sentimentos que passam tanto tempo represados que acabam travados no caminho até as mãos.

Depois voltou para Itabaiana, onde morava sozinha numa casa cedida por um sobrinho querido que nunca lhe deixou faltar nada. Parecia feliz, nos seus oitenta e tantos anos.

Toda tarde saía pedalando devagar pelas ruas, olhando as miudezas pelo caminho: um cachorro dormindo na sombra, um menino dengoso no colo da mãe, a roupa balançando no varal, o céu mudando de cor atrás dos fios elétricos e suas andorinhas. 

Era como se carregasse na garupa a alma de um certo poeta pantaneiro lhe lembrando baixinho que as borboletas pousam sem pedir licença, sem fazer alarde, sem machucar as próprias asas.

Esta madrugada o câncer a levou. Nem tudo as borboletas podem.

36 comentários:

  1. Hayton me fez lembrar das acerolas maduras dos quintais antigos. Muitas caíam no chão antes mesmo de serem colhidas. Outras amadureciam escondidas entre folhas, sem plateia, sem fotografia, sem algoritmo para validar sua doçura. Acho que a vida tem muito disso. Passamos décadas querendo provar valor, correndo atrás de aplausos, colecionando metas, dados, títulos, relatórios, justificativas e presenças obrigatórias em mesas onde, muitas vezes, nossa alma nem sentava mais. Vamos ficando adiados. Engavetados. Anestesiados pelo excesso de obrigação e pela carência de afeto simples.

    Talvez tia Creuza tenha entendido cedo algo que muitos só descobrem depois dos sessenta, quando o corpo desacelera e o silêncio começa a falar mais alto. Nem toda existência precisa virar vitrine. Há dignidade profunda numa vida pacata, numa bicicleta atravessando a tarde, num café tomado sem pressa, numa horta molhada de sereno e na liberdade de não dever validações a ninguém. Algumas pessoas não vieram ao mundo para performar sucesso. Vieram apenas para viver com verdade. E isso, hoje, me parece uma forma muito rara de sabedoria.

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  2. Um texto, tantos ensinamentos. Nossos sentimentos pela perda: alegria pelo abraço recebido. Tristeza pelo não dado. Você é diferenciado, bicho!

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  3. Sinto muito por você, amigo. Mas não por ela, que agora é uma borboleta com asas para voar até o infinito e descobrir quantas alegrias mais existem, que não conhecemos aqui.
    Esse texto lindo que você dedicou a ela, com certeza, vale pelo abraço e cheiro demorado no cocuruto, que você não conseguiu dar. Ela vai ficar muito feliz de ler, lá das alturas onde está.

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  4. ROBERTO SANTOS FERNANDES21 de maio de 2026 às 11:59

    Essa homenagem a sua tia é um retrato perfeito do seu caráter, da sua índole pacífica e cristã!
    Parabéns e meus sentimentos pela sua perda!
    Um grande abraço

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  5. Cleber Pinheiro Fonseca21 de maio de 2026 às 12:04

    Caro Hayton, sua adorável tia parte hoje para a Eternidade, mas deixa lembranças preciosas de amor, bondade, alegria e carinho. Que Deus a acolha em Sua infinita paz e conforte o coração de toda a família. Nosso abraço fraterno.
    🙏🕊️✨

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  6. Tia Creuza é uma dessas pessoas especiais e raras, dona de uma sensibilidade única, autêntica e extremamente corajosa. Deixou sua presença marcada de forma suave, como o voo de uma borboleta, mas ao mesmo tempo forte e profunda, como as raízes de uma figueira. Linda homenagem, e meus mais sinceros sentimentos, Hayton.

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  7. Que história comovente. Hayton. Sua tia era uma mulher forte, que optou por uma vida simples, talvez até um pouco solitária, mas que deixou uma lembrança que ficou marcada na sua vida: um abraço apertado e um cheiro no cocuruto e a fortaleza dela no dia a dia. Você me fez voltar à minha infância e tentar relembrar como era a dinâmica dos abraços na família. Meus sentimentos pela sua perda. 🙏🥲
    Haroldo Vieira

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  8. Linda homenagem! Que ela voe agora para os braços do Pai.🙌🙌

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  9. Hayton, nesta o coração falou...alto e suave ao mesmo tempo.

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  10. Hayton, seu texto é um abraço cheio de delicadeza, memória e amor contido.
    Tia Creuza partiu, mas deixou em você o gesto mais bonito: a capacidade de reconhecer o afeto nas pequenas coisas.
    Há pessoas que passam pela vida sem fazer barulho, mas permanecem eternas no coração daqueles que tiveram o privilégio de receber seu afeto.
    Que a lembrança do cheiro no cocuruto, das pedaladas lentas e da leveza dessa borboleta continue aquecendo seu coração.
    Recebam, você e Magdala, meu carinho e meu abraço nesse momento de saudade.

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  11. Nós, sertanejos, temos sempre uma “tia Creuza” pra lembrar com carinho. Lendo seu texto, meu amigo, fiz um passeio pela minha ancestralidade e vi cenários semelhantes. Obrigada pela delicadeza de demonstrar que nem sempre a morte é o fim das pessoas que amamos. Elas permanecem em nós. Aquele abraço carinhoso e o cheiro no cocuruto ficará para sempre. Viva tia Creuza!
    Denise Eloi

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  12. maria jose de andrade rodrigues21 de maio de 2026 às 12:54

    Como sempre, seus textos são irretocáveis. Minha avó paterna nunca deu um beijo ou um abraço em um filho ou neto; porém, nunca deixava faltar um chá, uma sopa quentinha, um pão de queijo no café, um bolinho de fubá. Essa era a forma dela dizer que se importava e amava a todos.

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  13. Às vezes desejamos que a nossa permanência terrestre fosse eterna. Mas somente o bem e o amor serão eternos no mundo espiritual. Não devemos postergar uma visita, encontros, já que não sabemos a hora nem o lugar. Dona CREUZA está num vôo leve batendo asas e inspirando a memória do cronista, nos fazendo lembrar dos momentos convividos com as nossas tias que já partiram.

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  14. Lamento sua perda mestre Hayton! Texto espetacular! 👏

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  15. Quanto amor num texto só!
    Mas que texto! Onde estiver, sua tia deve estar muito orgulhosa e se sentir profundamente amada por você!
    Abração, meu amigo!

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  16. Dentro do universo que cedo dona Creuza descobriu, voou nesta vida de forma simples, convicta e feliz.

    Agora, seu vôo mais alto rumo ao infinito, em paz e com liberdade, deixa um legado especial de carinho e uma saudade suave de sua sabedoria.

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  17. Caro, Hayton!
    Meus sentimentos à família!

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  18. Querido Hayton, primeiramente, meus sentimentos pelo voo da borboleta.

    Me comoveu bastante a crônica sobre a sua Tia Creusa. Sem dúvidas, uma mulher à frente do seu tempo e da forma mais natural possível.

    Acho incrível como a ausência de demonstração de afetos se escancara ao primeiro gesto de carinho explícito. A gente pode até se acostumar a não recebê-lo, mas quando acontece nos marca indelével e eternamente, como ferro quente a derreter o gelo, mas sem dor, na alma. E essas pessoas se instalam de vez em nossos corações.
    Eu acredito que a sua borboleta 🦋 completou mais uma metamorfose.

    Voar doce e levemente por sobre as flores do além vida,
    como quem toca o mundo sem feri-lo,
    levando o perfume da manhã nas asas
    e o silêncio delicado do vento no coração.
    Pairar entre pétalas e luz,
    quase sem peso, quase sonho,
    como se a alma aprendesse, enfim,
    a dança tranquila das borboletas.
    Se já era bela aqui tamborilhando por sobre vocês, imagine agora voando ainda mais livre e leve sem carregar a casca da crisálida.

    É tão bom ter alguém assim para lembrar...

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  19. Você definiu perfeitamente tia Creuza, agora ela está livre de todas as dores que a doença proporcionou. Que Deus a receba em sua infinita misericórdia .

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  20. Hayton, você é incansável , ou melhor, “imparável”.

    Você fala de amor sem beijo, de cuidado que não sabia se dizer. E no meio disso tudo aparece tia Creuza, borboleta de papel de seda, que decidiu não caber no molde. Não casou, não teve filho, não leu Kundera. Só viveu do jeito dela: enxada, cigarro de rolo e liberdade.

    A parte do boné amarelo foi magistral. Porque tem gesto que a gente guarda décadas pra devolver e quando tenta, a mão não obedece. A criação trava o afeto.

    “Nem tudo as borboletas podem” fecha com o silêncio certo. Sem peso, sem discurso. Só a vida, que às vezes pousa e às vezes vai embora. Parabéns!

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  21. Viveu feliz porque escolheu assim. Partiu bem, feito borboleta que abandona a pupa que a prendia, rumo aos azuis infinitos.

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  22. Meus pêsames pelo passamento da Tia Creuza, Hayton.
    Pessoas como ela merecem muito
    Também o cumprimento por essa bela homenagem.

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  23. Borboletas podem voar ainda mais alto, quando escolhe seu momento de brilhar alhures.

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  24. Neyder Santa Maria Cavalcanti21 de maio de 2026 às 13:38

    Hayton. Não sou muito de comentar as crônicas aqui publicadas porque não me sinto capacitado a tanto. Leio todas e procuro apreender o estilo de cada um, todos de excelente qualidade. Ao ler e absorver o que você postou sobre sua tia Creusa, confesso que me levou a emoção e fez-me retornar ao que não esqueço: meu passado. Não foi uma crônica, pareceu-me uma sonata. Você abordou uma época onde, de fato, a afetividade não era o ponto forte. Havia, inclusive o conceito de que homem não chorava. Isto me atingiu tanto que em toda a minha vida só chorei duas vezes: na morte de minha mãe e de meu irmão. Impei muitas vezes, por perda de parentes e amigos queridos, mas chorar ... não chorava. Que crônica, Hayton. Formou-se em mim o conceito de que se é Hayton, é bom.

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  25. Duas crônicas marcadas por emoção vital. Nem tudo, mesmo, as borboletas podem. Mas a beleza que espalham jamais se perde, ou se esquece. Juremá juremou! Parabéns!

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  26. Tia Creuza recusou os”tem que” e escolheu os “eu quero”. Liberdade também é legado e ela deixou um dos mais bonitos: o de ser do proprio jeito.

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  27. Haydee Jurema da Rocha21 de maio de 2026 às 13:52

    Eita! Acordei depois da sesta, e deparei com essa crônica emocionante! Realmente, DEUS foi complacente em não deixá- la sofrer, por tudo que ela foi aqui na terra. Não teve filhos, mas os sobrinhos guardarão boas lembranças dela. Eu fui presenteada com a oportunidade de agradecer o carinho que tinha por nós quando íamos em férias para o sítio de nossa avó. Não sabia que levá- la a médicos e laboratórios para fazer exames, acompanhá- la na cirurgia que fez sete anos atrás, seriam meus últimos momentos com ela. Que Deus lhes reserve um bom descanso.

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  28. Ademar Rafael Ferreira21 de maio de 2026 às 13:56

    Um texto para ser chamado de "meu" pela Tia Creuza. Parabéns pela homenagem pura e bela.

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  29. Gostei do texto Hayton. Meus sentimentos pela passagem da sua tia. Abraço!

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  30. Meu amigo!
    Fico encantado como você maneja as palavras de uma forma tão gostosa de ler que até as notícias ruins ficam fáceis de serem lidas!
    Mais uma vez, parabéns pelos ensinamentos de um mestre do vernáculo!
    Abs

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  31. Agostinho Torres da Rocha Filho21 de maio de 2026 às 14:55

    Que Deus a receba de braços abertos em sua nova morada e conforte os seus familiares. Justa e oportuna homenagem àquela que sempre tratou os sobrinhos como filhos.

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  32. Eis o relato de uma pessoa feliz, que preferiu a solidão do sítio ao burburinho da cidade, plantar sua própria roça a ficar em gabinetes recebendo ordens de pessoas embrutecidas, obedecer a sua própria consciência a viver na dependência de um marido mandão. Que Deus a receba em sua nova morada. Meus pêsames, Hayton!

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  33. Meu tio amado, seu texto me emocionou profundamente. Talvez porque ele fale justamente sobre aquilo que tantas vezes carregamos em silêncio: o amor que existe, mas que nem sempre aprendemos a demonstrar.

    Enquanto eu lia, fiquei pensando que nunca é tarde para externarmos nossos sentimentos a quem amamos. Deus, na sua infinita sabedoria, conhece até os afetos que não conseguimos colocar para fora, aqueles que ficam presos na garganta, travados nas mãos, escondidos atrás do costume de uma vida inteira. Ainda assim, Ele nos dá oportunidades — às vezes pequenas, simples e quase silenciosas — de amar e de deixar que o outro saiba disso.

    Talvez tia Creuza tenha partido sabendo muito mais do que foi dito. Porque o amor verdadeiro não mora apenas nos abraços que conseguimos dar, mas também nos cuidados, nas lembranças, na presença e na forma como alguém permanece vivo dentro de nós. E ela permanece lindamente no seu coração e nas suas palavras.

    Seu texto também lembra algo muito bonito: Deus distribui amor de muitos jeitos. Às vezes através de uma mãe preocupada com a febre do filho, de um cheiro no cocuruto numa tarde antiga, de uma blusa dada num domingo qualquer ou da saudade que insiste em florescer depois da partida.

    Que, daqui para frente, o amor nunca encontre demora para chegar até as mãos, os abraços e as palavras.

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  34. Uma bonita homenagem, digna de uma rainha que escolheu viver livre e solta.
    Meus sentimentos pela partida de sua tia, talvez o se vôo mais importante, pois estará ao lado do grande criador

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