NEM QUE O BOI ESPIRRE
Hayton Rocha
Nunca botei fé na gramática clássica. Não por culpa dela, mas em razão de minha burrice ancestral combinada com a preguiça de estudar. Sempre tive um pé atrás com palavras que circulam como se verbo e advérbio tivessem sangue azul. Gosto mesmo é da língua viva. A que atravessa gerações feito receita de bolo de vó.
A língua portuguesa falada no Brasil não nasceu em biblioteca. Nasceu em arquibancada, beira de rio, boteco, cozinha, feira livre, fila de padaria e terreiro. Foi sendo costurada às gargalhadas e aos gritos. Por isso sobrevive tão bem. Língua muito certinha acaba morrendo de tédio.
Resolvi cascavilhar a origem de certas expressões populares que escuto desde criança. Descobri que a nossa língua é menos um idioma e mais um cemitério animado de metáforas esquecidas. Cada expressão esconde um cadáver histórico enterrado sob as palavras.
É aí que a cobra vai fumar.
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| Ilustração: Uilson Morais (Umor) |
E o famoso arranca-rabo? Sempre achei que fosse apenas sinônimo de confusão de vizinhança, dessas em que alguém ameaça chamar a polícia enquanto o outro já aparece de peixeira na mão. Descobri que a coisa vem de longe. Dos tempos em que decepar o rabo do cavalo inimigo servia como troféu de guerra.
O mais curioso é que a expressão atravessou o Atlântico para renascer no sertão nordestino. Segundo Câmara Cascudo, cangaceiros arrancavam rabos de cavalos e touros para humilhar coronéis. O orgulho alheio era transformado em troféu do esculacho.
Toda vez que descubro uma dessas histórias imagino o sofrimento de algum gramático mais zeloso. Há gente que não consegue ouvir uma expressão popular sem sacar uma régua para medir desvios.
São os famosos cheios de nove horas. A expressão define o sujeito que transforma qualquer reunião simples num congresso internacional de burocracia. O cidadão não toma café; confere a procedência do pó. Não atravessa a rua; abre processo de deslocamento urbano.
A origem viria do século XIX, quando nove da noite marcava o limite da respeitabilidade urbana. Depois disso, quem estivesse vagando pelas ruas corria o risco de ser confundido com bêbado, ladrão ou poeta, categorias que frequentemente se misturavam.
Esse tipo de criatura costuma despertar antipatia ampla, geral e irrestrita por onde passa. E depois não adianta chorar pitangas.
Ah, as pitangas. Existem teorias para todos os gostos. Uma diz que a expressão nasceu da palavra tupi "pitang", associada à infância. Outra sustenta que a fruta vermelha lembrava lágrimas de sangue. Prefiro imaginar que ninguém sabe ao certo. Mistério também é patrimônio cultural.
Mas aí já são outros quinhentos.
Talvez esta seja uma das expressões mais brasileiras já inventadas. Serve para mudar de assunto, como fazem certos maridos quando a conversa começa a ficar perigosa. Os tais quinhentos podem vir de antigas indenizações pagas por ofensas à nobreza. Aristocrata ofendido custava caro. Pobre ofendido seguia ofendido.
Muitas dessas histórias, aliás, podem ser apenas coisa para inglês ver.
Outra maravilha linguística. No Império, dizia-se que o governo fingia combater o tráfico de escravos apenas para satisfazer a pressão britânica. Fazia teatro. Produzia fumaça para impressionar estrangeiro. Como se sabe, certas tradições nacionais atravessam os séculos com admirável vigor.
Já sair à francesa é ainda mais divertido. Significa ir embora sem se despedir. O detalhe é que, na França, dizem sair à inglesa. Ingleses e franceses passaram séculos terceirizando a falta de educação um para o outro, como vizinhos disputando quem deixou o lixo na porta errada.
E pensar que toda essa confusão verbal desembocou aqui, neste país tropical onde até expressão idiomática pega sotaque.
É isso que mais me encanta no português brasileiro: ele não pede passaporte para ninguém. Mistura boteco com palácio, cangaço com gramática normativa, latim com tupi, sertão com Paris. Faz contrabando de palavras sem medo da alfândega.
No fundo, o idioma falado no Brasil parece com sua gente: contraditório, improvisado e irresistivelmente vivo. Não mora apenas nos livros. Mora na conversa de calçada, no grito do feirante, no rádio de pilha, na reza da benzedeira e no palavrão que escapa depois da topada.
A língua brasileira não caminha. Ginga. Tropeça em palavras indígenas, toma banho de África, fuma charuto com Portugal e termina a noite bebendo café coado numa cozinha sertaneja. Desobedece a regras, inventa atalhos e embaralha tudo.
Vai ver é por isso que o brasileiro nunca precisou falar bonito para sobreviver. Bastou aprender a contar histórias, rir da própria tragédia e seguir adiante.
Nem que a vaca tussa. Ou o boi espirre.

Sempre defenderei que a feira livre além da mais diversificada praça de alimentação do mundo é também escola de línguas faladas.
ResponderExcluirDeliciosa leitura!
ResponderExcluirO bom é que o brasileiro não "malha as palavras em ferro frio", está sempre inspirado por não ter "miolo de pote".
ResponderExcluirMais uma pérola, Hayton! 🔝👏
ResponderExcluirVocê captura com maestria a nossa língua como um verdadeiro tesouro vivo, celebra6ndo a nossa alegre rebeldia contra a gramática formal. Nosso idioma é uma tapeçaria tecida por muitas mãos, do sertão ao litoral, onde o linguajar do matuto, as raízes indígenas e as influências africanas se misturam ao nosso cafezinho. Expressões curiosas dispensam regras rígidas, pois transbordam espontaneidade. Afinal, a comunicação do brasileiro dispensa o rebuscamento; o que importa é a capacidade de recontar a vida com humor e afeto.
Simbora, então, viver, contemplar e prestigiar essa nossa essência gramatical única, cheia de sentimentos que nenhuma outra língua do mundo consegue traduzir.
Dizer o que?... você sempre me surpreende com suas definições e simplicidade! Gratidão! Amei
ResponderExcluirBeleza de crônica!
ResponderExcluirA nossa língua é muito rica e o nosso povo é muito espirituoso.
Bom dia Caríssimo Hayton - Amigo “Véio”, escriba de 3 costados e meio!
ResponderExcluir.
Iniciei a leitura trilhando o caminho do “Velho Graça”, feiticeiro das letras, nascido em Quebrangulo.
Passei por Jorge Amado, atravessei o oceano, achei Miguel Souza Tavares. Tudo isso enquanto degustava esse maravilhoso conto de gente e não de fadas.
Retornando à Bahia, cheguei à minha Riachão das Neves natal, onde me achei na fazenda Boa Vista, propriedade de Seo Antônio Paraibano, meu pai.
Nessa longínqua passagem eu deveria contar a casa dos 10 anos.
O vaqueiro Joaquim Bocão, encarregado de domar uma mula nova, da nossa criação, começou lutando. Ai por umas 9 horas, meu pai, pega na minha mão e a passos lentos, chegamos perto da porteira. Com voz camarada pergunta ao compadre Joaquim, como andava o serviço?
Joaquim estufa o peito e me traz essa inesquecível resposta:
“Não se avexa Cumpadi. Ela rigeste mais nóis prigeste”.
Arregalei os olhos demonstrando nada haver captado.
Meu pai, imediatamente me socorre.
O compadre Joaquim quiz dizer “ela resiste, mas nós persistimos”.
Eis a língua luso brasileira.
Desculpa pela extensão do texto.
Forte abraço!
Que beleza, Sebastião!
ExcluirComo Hayton é um escriba muito feliz, com esse espaço que, junto às crônicas brilhantes que escreve, nos permite conhecer histórias genuínas e inesquecíveis como essa que você deixa aqui. Obrigada!
Lusamerica, latim em pó. O que quer e o que pode essa língua!
ResponderExcluirDizem que a língua portuguesa é complexa, ainda mais com duas línguas: a falada e a escrita.
ResponderExcluirQuando saí da roça, ainda menino, tive muita dificuldade de me adaptar, pois eu falava outro idioma.
Essa crônica, quando fala de expressões populares então, mostra o quanto é difícil falar o português.
Não poderia ser diferente, meu caro Alípio, tropeçar em palavras indígenas, tomar banho de África, fumar charuto com Portugal e terminar a noite bebendo café coado numa cozinha sertaneja.
ExcluirMas que a língua é bonita, é, não?
Já tinha um comentário quase pronto, mesmo antes de ler a cronica de hoje: Simples, sem ser simplório, dizendo o óbvio, que a crônica de Hayton foi perfeita, maravilhosa, etc, etc... Aí o nobre cronista faz um trabalho de pesquisa desse tamanho, fala de um assunto que gosto muito, que é Etimologia. Dei um google e veio essa definição: "Ela investiga o passado dos vocábulos, rastreando de onde vieram (como do latim ou grego) e como sofreram mudanças de forma e sentido ao longo do tempo. Para quem gosta de pesquisar sobre o assunto, o site Origem da Palavra é uma excelente ferramenta". Define tudo que o amigo escreveu e muito mais. Sem mais delongas, vou parando por aqui, só aplaudindo!
ResponderExcluirObrigado, Djalma.
ExcluirDe fato, escrever parece muito com praticar um esporte com seriedade, tocar um instrumento: 10% de inspiração e 90% de transpiração. E o desafio permanente é tentar fazê-lo da forma mais simples possível.
Prezado Hayton.
ResponderExcluirTemos hoje uma crônica que é um verdadeiro banquete para quem, como nós, prefere o sabor do asfalto ao cheiro do mofo das bibliotecas. Você conseguiu traduzir com sabedoria a nossa mania de falar por parábolas, mostrando que o português brasileiro é menos um código de leis e mais um "samba de enredo" — cheio de cor, ritmo e aquela malandragem saudável que a gramática normativa teima em ignorar.
Você conseguiu me fez pensar que a gente não apenas fala, a gente "desenha" cenários com as palavras. Essa sua arqueologia de "cadáveres históricos" sob as expressões é de uma sensibilidade ímpar; mostra que nossa fala carrega uma memória que o povo não deixa morrer, mesmo sem saber de onde veio. É a prova de que a língua é chão, é poeira e é, sobretudo, gente.
Lendo seus parágrafos, me veio à mente outra daquelas pérolas que você certamente já usou: o famoso "tirar o cavalo da chuva". Para o estrangeiro, assim como um conselho veterinário; para nós, é o aviso definitivo de que a pretensão bateu no teto. Dizem que a expressão vem dos tempos em que as visitas chegavam a cavalo e, se a conversa ia ser longa e boa, o convidava a colocar o animal para o abrigo. Se a visita não era bem-vinda, o cavalo ficou ao relento — e ninguém tirou o bicho da chuva.
No fim das contas você mostrou que, enquanto os puristas se perdem em minúcias, o povo segue costurando essa colcha de retalhos linguísticos que nos une. Sua crônica é um reconhecimento da nossa identidade diferenciada, um lembrete de que a nossa fala tem a alma de quem não cabe em formas. Excelente, como sempre. Seguimos por aqui, "de vento em popa".
Uma crônica sobre a crônica. Brilhante, amigo!
ExcluirSua pérola, Izaias, supera "tirar o equino da precipitação pluvial"!
ExcluirJá fico esperando a quarta-feira pensando, "o que será que o Hayton vai escrever dessa vez?" Nunca me decepciono. Delícia de crônica, amigo!
ResponderExcluirVerdade seja dita, palavras são palavras que não precisam de um guia para serem ditas. Vem ao leo, soltas como vento que sopram folhas secas a espalhar num chão sofrido das amarguras da vida. Ih.. imitei. James
ResponderExcluirMaravilhoso texto .Vou pesquisar a etimologia de algumas palavras .👏🏻👏🏻👏🏻
ResponderExcluirComo sempre,uma verdadeira pérola!!!seu amigo,Gil Messi.
ResponderExcluirBrilhante meu amigo, mexeu comigo. No meu interior da Paraíba, falávamos palavras que o pessoal daqui não entendiam. Certa vez, , falei que ia tibungá no rio , a mulecada tirou sarro dizendo que isso não existia.
ResponderExcluirabraço
Mais uma excelente crônica. Uma agradável retrospectiva. José Luiz.
ResponderExcluir"Não atravessa a rua; abre processo de deslocamento urbano". Quer régua mais milimétrica que essa? Adorei!
ResponderExcluirInteressante! Bom dia amigo. Um abraço
ResponderExcluirA gramática está na ponta da Língua; a Língua tá na boca do povo.
ResponderExcluirExcelente. Eu sabia da vaca que (não) tossia, mas espirro de boi é coisa nova para mim. Muito boa.👏🏼👏🏼👏🏼
ResponderExcluirGrande Hayton, a gente costuma rodar nestas estradas por aí e eu comparo teu texto a um trecho que conheço na minha terra cheio de belas curvas, paisagens, plátanos imponentes, parreiras de uvas e muitas flores. Em geral os textos são mais retos e pobres em detalhes, feito estradas duplas. Como vc unca fui apaixonado por gramática. Mas minha mente doi com as "discordâncias". Ainda que eu saiba que linguagem é vida, é dinâmica, a redução de tudo a terceira pessoa é uma violência. Adoro a nossa diversidade de sotaques mas em certas regiões é um tal de nós vai, nós foi, nós gosta que eu fico doente. P mim uma falta de concordância é feito um.quebra-molas não percebido na estrada. Nem que a vaca tuça eu lidarei bem com isso.
ResponderExcluirQue crônica rica, Hayton. Ao lê-la, lembrei imediatamente de Ariano Suassuna, grande defensor de um português brasileiro vivo, criativo e cheio de musicalidade. Sua escrita conversa perfeitamente com uma frase marcante dele: “não troco meu ‘oxente’ pelo ‘ok’ de ninguém”. Uma definição que combina muito bem com a essência da sua crônica de hoje.
ResponderExcluirParabéns por mais uma crônica que nos acrescenta cultura, reflexão.
Mt bom. Vou anexar a crônica em uma redação minha da 5a serie. Tentei mudar umas expressões. Até hj soa no meu ouvido os "elogios" que recebi do professor. Luis Antonio
ResponderExcluirShow de bola, Hayton. Teu texto, além de elevar a riqueza do português brasileiro, nos mostra que a língua é um organismo vivo, moldado pela história, pela cultura popular e pela convivência entre diferentes povos.
ResponderExcluirAo explorar a origem de expressões como “a cobra vai fumar”, “arranca-rabo” e “coisa para inglês ver”, revelas que cada palavra carrega memórias e significados que atravessam gerações.
Com humor e leveza, defendes que a verdadeira força da língua não está apenas nas regras gramaticais, mas na capacidade de contar histórias, preservar identidades e reinventar-se continuamente no cotidiano do nosso povo.
Sem palavras. De uma riqueza infinita. Parabéns Hayton, "mestre das crônicas".
ResponderExcluirPerfeito, Hayton!
ResponderExcluirSeu texto, maravilhoso como sempre, me fez rebobinar minhas vivências. Lembrei do livro A Língua de Eulália, que li na Faculdade. Não tratava exatamente desses termos, mas dos diferentes sotaques e modos de expressar as coisas, das diferentes linguagens da capital e do interior. E lembrei de uma expressão usada por meu pai quando eu perguntava sobre onde ficava algum lugar longe: “lá em cacha prego” que pra mim era um lugar que não existia, até vir pra Bahia e conhecer os lugarejos da Ilha de Itaparica. Nelza Martins
ResponderExcluirTaí um tema que me fascina, caro Hayton!
ResponderExcluirA diversidade de fala, de cultura, de "gramática", de expressões idiomáticas, espalhada por este imenso Brasil, notadamente no sertão sofrido, é de uma riqueza incomensurável.
Gosto de escrever - algumas tolices, é verdade - e o faço em redes sociais ou no meu blog [toonhodopaiaia.org], emboramente, como diria Odorico Paraguaçu, de modo muito espaçado sob o aspecto temporal. Ainda não consegui ser fiel ao leitor tanto quanto você e um amigo virtual, das terras de São Jorge dos Ilhéus, Ygor Coelho, em publicações periódicas, todas elas frugais e ensinativas, por sinal.
Dia desses, num encontro de Cultura no nosso[meu] Paiaiá, fui abordado por uma figura amiga - escritor, irmão de escritor, primo de escritor e o escambau - a deitar críticas ao meu modo de escrever. Adoto, como lema, ao publicar crônicas e causos que, de certo modo, se passaram em meu lugar de origem, privilegiar a fala corrente daquele povo - verdadeiros personagens -, de agora ou de antanho, nesse passo vem as expressões idiomáticas e/ou palavras escutadas no dia-a-dia de convivência com aquela gente.
Sem nenhum pedido de desculpas fora direto na sua assertiva [crítica, assim entendi]
-- você escreve muito dizendo das coisas do seu lugar e, ainda mais da forma como fala o povo daqui...."
Não me demorei em responder, educadamente por fora, mais "pê" da vida por dentro, óbvio
-- então, senhor escritor, escolhi privilegiar o meu lugar de vida e meu lugar de fala, o convívio com minha gente. Desculpe, mas seguirei nessa toada.....
A conversa não avançara, posto que um dos presentes, escritor como ele, saíra em me acudir
-- nada disso, Tonho do Paiaiá, não recue, você está fazendo um trabalho belíssimo de ou resgatar ou valorizar ou firmar a cultura do seu povo, revivendo tradições, por sinal....... (mais ou menos assim)
Quando li esta bela e incitante crônica (incita-nos a voltar no tempo, no lugar, no todo mesmo), me senti defendido, como o fizera aqul'outro amigo frente à assertiva do escritor criticante. Sinto-me, na verdade, animado a escrever da forma que escolhi, sem dar bolas ao que críticos de ocasião pensam ou falam.
No frigir dos ovos, sua crônica me serve de catapulta para persistir na minha escrita; creia como eu tenho crido desde o primeiro alfarrábio publicado!
Ave Verbo!
Meu cumpade Hayton.
ResponderExcluirVocê sempre nos brindando com suas pérolas de crônicas.
Eu, que sou um prestador de atenção da linguagem popular, tive uma experiencia arretada no ano 2006.
Fui contratado pela Rede Globo pra fazer parte do elenco da mini série A Pedra do Reino. Toda gravação foi em Taperoá - PB, e lá, morei por três meses, com mais outros artistas, numa das inúmeras casas alugadas pela Globo. Só que a minha casa era na frente de um orelhão.
Você não imagina a riqueza de brasilidade, nordestinidade e instinto de sobrevivência existe no nosso falar. Eu sentava na cadeira do terraço com lápis e caderno na mão.
Hoje, o orelhão é obsoleto, como obsoleto é um aboio-sentido, cantado por um vaqueiro.
Porreta! A maneira como você conseguiu inserir ( lá nele ) os exemplos dos ditados populares na narrativa , naturalmente , criando contextos .
ResponderExcluirPorreta!
Hayton avisou que iria cascavilhar. E cascavilhou fundo, com o perdão da redundância!
ResponderExcluirDos 90% de transpiração que um texto assim exige (pesquisa exaustiva, exemplos concretos, etc), o salto para os 10% de inspiração foram fantásticos. A bela seleção das expressões ou ditados populares, a transição de um para o outro, os recheios criativos do cronista, tudo conta pra um texto final leve, profundo, em que cada leitor se reconhece um pouco!
Parabéns pela sua arte, Hayton!
A temática de hoje me deixa muito satisfeita. Como gosto dessas pesquisas. E interessante que o cronista trouxe ricas explicações, sempre no seu estilo muito rico e nada lugar-comum.
ResponderExcluirEle me fez vir à lembrança um ótimo filme nacional, “Desmundo”, onde os atores falam o português arcaico, do século XVI. Eu fiquei encantada ao ouvir ali várias expressões que ouvia minha avó paterna usar cotidianamente. Uma película rara.
E sobre o rigor de muitos linguistas e defensores de regras e normas rígidas, deixo aqui o que o sábio poeta Horácio falou lá em 65 a.C. “Muitas palavras que já morreram terão um segundo nascimento, e cairão muitas das que agora gozam das honras, se assim o quiser o uso, em cujas mãos está o arbítrio, o direito e a lei da fala.”
Hayton,
ResponderExcluirDepois de traduzir todo o texto, imagino que as expressões idiomáticas também se confundiram com a ginga brasileira!
E você nem chegou nos radialistas, principalmente nos campos de futebol!
Aí temos “pimba na gorduchinha”, “está na banheira”, “no pau”, “pombo sem asa”, “beque de fazenda”, “drible da vaca”….
Já pensou os gringos tentando entender isso?
Parabéns pela lucidez de sempre enriquecer nossa cultura popular!
Abs
Que Crônica legal...
ResponderExcluirEssa nossa língua "brasileira" é sensacional. Quanta arte.
Por essa razão somos tão geradores de poetas, escritores, cronistas.
Ouvir contar "causos" é uma riqueza.
E o que dizer dos maravilhosos repentistas?
o Nordeste é pródigo nisso.
Cultura popular da mais alta qualidade.
Que o diga nosso admirável Jessier Quirino, que também nos presenteia com seus belos comentários.
E o "jeito" todo próprio de Guimarães Rosa?
Essa encantadora Crônica traz discussão para uma farra inteira, regada a cerveja gelada e bode assado.
Mas, a farra fica para o Domingo, pois Domingo pede cachimbo.
Valeu demais!!!
Abração!!!
Mário Nelson.
Realmente, a língua portuguesa falada no Brasil é muito mais do que gramática: é memória, cultura e imaginação popular. Expressões repetidas diariamente, muitas vezes sem que se conheça sua origem, carregam histórias curiosas e revelam a criatividade do povo brasileiro. E o fecho é perfeito: entre vacas tossindo e bois espirrando, a crônica nos lembra que, por aqui, o humor sempre foi uma das formas mais inteligentes de entender e enfrentar a vida.
ResponderExcluirGostei do encadeamento das expressões populares, em sua crônica!
ResponderExcluirDe fato, nós brasileiros somos muito criativos.
Hahahaha
ResponderExcluirMuito bom!
Como já disse um linguista, dicionário é apenas um cartório de palavras. O que as cria é o uso.
Assim também as expressões.
A língua é viva, evolui e é imortal…😛
ResponderExcluirA crônica é uma carta de amor à nossa capacidade de avacalhar — com muito estilo — a última flor do Lácio, como dizia Olavo Bilac sobre a língua portuguesa. Enquanto o gramático purista chora no canto com sua régua, o brasileiro segue criando metáforas maravilhosas.
ResponderExcluirFazendo uma breve analogia, nossa língua portuguesa do Brasil é igual a carrinho de rolimã na ladeira: não tem freio, faz barulho, é meio perigosa, mas é divertida demais. Bela e rica crônica!
Pura verdade! A língua portuguesa falada no Brasil nasceu na arquibancada, beira de rio, boteco, cozinha, feira livre, fila de padaria e terreiro. Foi sendo costurada às gargalhadas e aos gritos. Por isso sobrevive tão bem e sofre constantes alterações baseadas no uso popular e coloquial. Atualmente, cada vez mais expressões idiomáticas e ditados populares ganham legitimidade e passam a integrar a norma culta, sem pedir licença aos gramáticos, a exemplo de "arroz de festa", "acertar na mosca", "cair a ficha", " largar de mão", dentre outras. Parabéns pela crônica!
ResponderExcluirAcho que até já coloquei aqui, penso que a IA foi criada inspirada em você, ou você é o maior pesquisador nela pra criar tantas coisas.
ResponderExcluirMais que brilhante, sua crônica nos leva a devaneios mentais, relembrando quantas vezes tantas expressões utilizamos ou vimos elas serem utilizadas em gozações, em momentos vividos alegremente com pessoas queridas.
Pra concluir, não consigo deixar de contar aqui um episódio vivido por mim, em um sábado, há quase cinquenta anos, em um encontro boêmio com amigos e colegas na AABB de minha querida Itaberaba.
Num papo daqueles, de repente surgiu um discussão sobre se a palavra história seria trissílaba ou polissílaba, éramos uns vinte presentes.
A coisa ficou tão forte que havia apostas que envolvia jantares, litros de whisky dos melhores, coisas mais.
De repente, uma figura das mais simpáticas que o mundo hospedava - não era do BB, era um empresário vitorioso - , nosso querido amigo, pouco letrado, mas inteligentíssimo e mais que perspicaz, toma a palavra e diz que vai decidir a questão.
Todos paramos, quase perplexos com a situação.
Aí, ele diz, "eu conheço bem o português e sei que é uma lingua complicada'. Causou um silêncio, mas alguém perguntou: Sim, e o que você quer definir sobre nossa discussão aqui??
Aí, impagável e inesquecivelmente ele diz:
Querem ver como o português é complicado:
Ante nossa expectativa, ele sai com o inusitado e inesquecível:
Ânus tem duas sílabas, não é??
Diante da concordância geral, ele fulmina, " no entanto, cu só tem uma e os dois são a mesma coisa.
Virou uma esculhambação, acabaram as apostas, discussão, tudo, foi só comemoração de um momento que hoje todos consideramos inesquecível e impagável.
E apois? O cara tá certo.
Excluir👏👏👏👏👏
ExcluirHoje é Dia do Meio Ambiente e defendo o meio ambiente brasileiro, riquíssimo em natureza e cultura popular, que o escritor captou muito bem essa diversidade.
ResponderExcluirOs 47 comentários sugerem o sucesso de mais uma jornada do Hayton, nota dez!!
Mais uma crônica espetacular! Fiquei encantada com o resultado das pesquisas a respeito dos ditos populares.
ResponderExcluirO incrível é que os ditados continuam a ser criados. Linginha danada a nossa.
ResponderExcluirAmigo Hayton, também me surpreendo com tantas expressões, que utilizamos e seus diversos sentidos.
ResponderExcluirTem mais um detalhe que questiono, desde o ensino primário, em relação ao Português falado e ao Português escrito, qual seja, porque um simples som acaba sendo escrito com tantos símbolos diferentes?
O "s", por exemplo, dependendo da palavra, é simbolizado por "s", por "ss", por "c", por "ç", por "xc". Só na palavra "excesso" tem dois símbolos diferentes para o mesmo som. Estamos tão acostumados, que seria esquisito escrever simplesmente "eseso" (até porque o primeiro "s" seria lido como "z"...).
E o "x" que pode ter som de "z"? Como em "execução", que, além disso, tem o "ç" no lugar de "s" e o "c", com seu outro som e também o "a" com til. Mas seria muito estranho escrever "ezecusao".
Não vou nem falar do "a" com til, que, para mim, deveria ter um símbolo diferente, já que as vogais são oito, se acrescentarmos "ã", "é" e "ó" ("i" e "u", não mudam o som, mesmo quando acentuadas).
E ainda tem o "h", que, na maioria das vezes, não tem som nenhum...
Sei que é uma questão de origem das palavras, de etimologia, mas que poderia ser mais simples, eu creio que poderia.
Voltando às expressões populares, lembrei de algumas, cujo significado eu sei, mas não sei a origem. Então, proponho um desafio. Quem souber a origem, que conte para nós. Pode ser?
Cargas d'água
Um quente e dois fervendo
Um pé lá, outro cá
Vento nos pés
Pé nas costas
Pé atrás
Casca grossa
Tostão furado
Não me toques
Cavalo encilhado
Potrilho xucro
Olho grande (ou olho gordo)
Olho comprido
Nuvem passageira
Cor de burro, quando foge
Arre égua (arriégua)
Pai d'egua
Cabra da peste
Cabra safado
Forró
Perrengue
Raio que o parta
Da pra imaginar a dificuldade de um gringo tentando aprender português… Não o de Portugal mas o do Brasil mesmo…
ResponderExcluirHá coitado, com todas essas expressões…