junho 03, 2026

Nem que o boi espirre

NEM QUE O BOI ESPIRRE
Hayton Rocha


Nunca botei fé na gramática clássica. Não por culpa dela, mas em razão de minha burrice ancestral combinada com a preguiça de estudar. Sempre tive um pé atrás com palavras que circulam como se verbo e advérbio tivessem sangue azul. Gosto mesmo é da língua viva. A que atravessa gerações feito receita de bolo de vó.

A língua portuguesa falada no Brasil não nasceu em biblioteca. Nasceu em arquibancada, beira de rio, boteco, cozinha, feira livre, fila de padaria e terreiro. Foi sendo costurada às gargalhadas e aos gritos. Por isso sobrevive tão bem. Língua muito certinha acaba morrendo de tédio.

Resolvi cascavilhar a origem de certas expressões populares que escuto desde criança. Descobri que a nossa língua é menos um idioma e mais um cemitério animado de metáforas esquecidas. Cada expressão esconde um cadáver histórico enterrado sob as palavras.

É aí que a cobra vai fumar.


Ilustração: Uilson Morais (Umor)



A expressão nasceu quando muitos juravam ser mais fácil uma cobra fumar cachimbo do que o Brasil entrar na Segunda Guerra Mundial. A cobra acabou fumando. E cerca de vinte e cinco mil almas da Força Expedicionária Brasileira atravessaram o oceano para enfrentar a guerra na Europa.

E o famoso arranca-rabo? Sempre achei que fosse apenas sinônimo de confusão de vizinhança, dessas em que alguém ameaça chamar a polícia enquanto o outro já aparece de peixeira na mão. Descobri que a coisa vem de longe. Dos tempos em que decepar o rabo do cavalo inimigo servia como troféu de guerra.

O mais curioso é que a expressão atravessou o Atlântico para renascer no sertão nordestino. Segundo Câmara Cascudo, cangaceiros arrancavam rabos de cavalos e touros para humilhar coronéis. O orgulho alheio era transformado em troféu do esculacho.

Toda vez que descubro uma dessas histórias imagino o sofrimento de algum gramático mais zeloso. Há gente que não consegue ouvir uma expressão popular sem sacar uma régua para medir desvios.

São os famosos cheios de nove horas. A expressão define o sujeito que transforma qualquer reunião simples num congresso internacional de burocracia. O cidadão não toma café; confere a procedência do pó. Não atravessa a rua; abre processo de deslocamento urbano.

A origem viria do século XIX, quando nove da noite marcava o limite da respeitabilidade urbana. Depois disso, quem estivesse vagando pelas ruas corria o risco de ser confundido com bêbado, ladrão ou poeta, categorias que frequentemente se misturavam.

Esse tipo de criatura costuma despertar antipatia ampla, geral e irrestrita por onde passa. E depois não adianta chorar pitangas.

Ah, as pitangas. Existem teorias para todos os gostos. Uma diz que a expressão nasceu da palavra tupi "pitang", associada à infância. Outra sustenta que a fruta vermelha lembrava lágrimas de sangue. Prefiro imaginar que ninguém sabe ao certo. Mistério também é patrimônio cultural.

Mas aí já são outros quinhentos.

Talvez esta seja uma das expressões mais brasileiras já inventadas. Serve para mudar de assunto, como fazem certos maridos quando a conversa começa a ficar perigosa. Os tais quinhentos podem vir de antigas indenizações pagas por ofensas à nobreza. Aristocrata ofendido custava caro. Pobre ofendido seguia ofendido.

Muitas dessas histórias, aliás, podem ser apenas coisa para inglês ver.

Outra maravilha linguística. No Império, dizia-se que o governo fingia combater o tráfico de escravos apenas para satisfazer a pressão britânica. Fazia teatro. Produzia fumaça para impressionar estrangeiro. Como se sabe, certas tradições nacionais atravessam os séculos com admirável vigor.

Já sair à francesa é ainda mais divertido. Significa ir embora sem se despedir. O detalhe é que, na França, dizem sair à inglesa. Ingleses e franceses passaram séculos terceirizando a falta de educação um para o outro, como vizinhos disputando quem deixou o lixo na porta errada.

E pensar que toda essa confusão verbal desembocou aqui, neste país tropical onde até expressão idiomática pega sotaque.

É isso que mais me encanta no português brasileiro: ele não pede passaporte para ninguém. Mistura boteco com palácio, cangaço com gramática normativa, latim com tupi, sertão com Paris. Faz contrabando de palavras sem medo da alfândega.

No fundo, o idioma falado no Brasil parece com sua gente: contraditório, improvisado e irresistivelmente vivo. Não mora apenas nos livros. Mora na conversa de calçada, no grito do feirante, no rádio de pilha, na reza da benzedeira e no palavrão que escapa depois da topada.

A língua brasileira não caminha. Ginga. Tropeça em palavras indígenas, toma banho de África, fuma charuto com Portugal e termina a noite bebendo café coado numa cozinha sertaneja. Desobedece a regras, inventa atalhos e embaralha tudo.

Vai ver é por isso que o brasileiro nunca precisou falar bonito para sobreviver. Bastou aprender a contar histórias, rir da própria tragédia e seguir adiante.

Nem que a vaca tussa. Ou o boi espirre.

28 comentários:

  1. Ademar Rafael Ferreira3 de junho de 2026 às 04:36

    Sempre defenderei que a feira livre além da mais diversificada praça de alimentação do mundo é também escola de línguas faladas.

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  2. O bom é que o brasileiro não "malha as palavras em ferro frio", está sempre inspirado por não ter "miolo de pote".

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  3. Mais uma pérola, Hayton! 🔝👏
    Você captura com maestria a nossa língua como um verdadeiro tesouro vivo, celebra6ndo a nossa alegre rebeldia contra a gramática formal. Nosso idioma é uma tapeçaria tecida por muitas mãos, do sertão ao litoral, onde o linguajar do matuto, as raízes indígenas e as influências africanas se misturam ao nosso cafezinho. Expressões curiosas dispensam regras rígidas, pois transbordam espontaneidade. Afinal, a comunicação do brasileiro dispensa o rebuscamento; o que importa é a capacidade de recontar a vida com humor e afeto.
    Simbora, então, viver, contemplar e prestigiar essa nossa essência gramatical única, cheia de sentimentos que nenhuma outra língua do mundo consegue traduzir.

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  4. Dizer o que?... você sempre me surpreende com suas definições e simplicidade! Gratidão! Amei

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  5. ROBERTO SANTOS FERNANDES3 de junho de 2026 às 06:28

    Beleza de crônica!
    A nossa língua é muito rica e o nosso povo é muito espirituoso.

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  6. Bom dia Caríssimo Hayton - Amigo “Véio”, escriba de 3 costados e meio!
    .
    Iniciei a leitura trilhando o caminho do “Velho Graça”, feiticeiro das letras, nascido em Quebrangulo.
    Passei por Jorge Amado, atravessei o oceano, achei Miguel Souza Tavares. Tudo isso enquanto degustava esse maravilhoso conto de gente e não de fadas.
    Retornando à Bahia, cheguei à minha Riachão das Neves natal, onde me achei na fazenda Boa Vista, propriedade de Seo Antônio Paraibano, meu pai.
    Nessa longínqua passagem eu deveria contar a casa dos 10 anos.
    O vaqueiro Joaquim Bocão, encarregado de domar uma mula nova, da nossa criação, começou lutando. Ai por umas 9 horas, meu pai, pega na minha mão e a passos lentos, chegamos perto da porteira. Com voz camarada pergunta ao compadre Joaquim, como andava o serviço?
    Joaquim estufa o peito e me traz essa inesquecível resposta:
    “Não se avexa Cumpadi. Ela rigeste mais nóis prigeste”.
    Arregalei os olhos demonstrando nada haver captado.
    Meu pai, imediatamente me socorre.
    O compadre Joaquim quiz dizer “ela resiste, mas nós persistimos”.
    Eis a língua luso brasileira.
    Desculpa pela extensão do texto.
    Forte abraço!

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  7. Lusamerica, latim em pó. O que quer e o que pode essa língua!

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  8. Dizem que a língua portuguesa é complexa, ainda mais com duas línguas: a falada e a escrita.
    Quando saí da roça, ainda menino, tive muita dificuldade de me adaptar, pois eu falava outro idioma.
    Essa crônica, quando fala de expressões populares então, mostra o quanto é difícil falar o português.

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    1. Não poderia ser diferente, meu caro Alípio, tropeçar em palavras indígenas, tomar banho de África, fumar charuto com Portugal e terminar a noite bebendo café coado numa cozinha sertaneja.
      Mas que a língua é bonita, é, não?

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  9. Já tinha um comentário quase pronto, mesmo antes de ler a cronica de hoje: Simples, sem ser simplório, dizendo o óbvio, que a crônica de Hayton foi perfeita, maravilhosa, etc, etc... Aí o nobre cronista faz um trabalho de pesquisa desse tamanho, fala de um assunto que gosto muito, que é Etimologia. Dei um google e veio essa definição: "Ela investiga o passado dos vocábulos, rastreando de onde vieram (como do latim ou grego) e como sofreram mudanças de forma e sentido ao longo do tempo. Para quem gosta de pesquisar sobre o assunto, o site Origem da Palavra é uma excelente ferramenta". Define tudo que o amigo escreveu e muito mais. Sem mais delongas, vou parando por aqui, só aplaudindo!

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    1. Obrigado, Djalma.
      De fato, escrever parece muito com praticar um esporte com seriedade, tocar um instrumento: 10% de inspiração e 90% de transpiração. E o desafio permanente é tentar fazê-lo da forma mais simples possível.

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  10. Prezado Hayton.

    Temos hoje uma crônica que é um verdadeiro banquete para quem, como nós, prefere o sabor do asfalto ao cheiro do mofo das bibliotecas. Você conseguiu traduzir com sabedoria a nossa mania de falar por parábolas, mostrando que o português brasileiro é menos um código de leis e mais um "samba de enredo" — cheio de cor, ritmo e aquela malandragem saudável que a gramática normativa teima em ignorar.

    Você conseguiu me fez pensar que a gente não apenas fala, a gente "desenha" cenários com as palavras. Essa sua arqueologia de "cadáveres históricos" sob as expressões é de uma sensibilidade ímpar; mostra que nossa fala carrega uma memória que o povo não deixa morrer, mesmo sem saber de onde veio. É a prova de que a língua é chão, é poeira e é, sobretudo, gente.
    Lendo seus parágrafos, me veio à mente outra daquelas pérolas que você certamente já usou: o famoso "tirar o cavalo da chuva". Para o estrangeiro, assim como um conselho veterinário; para nós, é o aviso definitivo de que a pretensão bateu no teto. Dizem que a expressão vem dos tempos em que as visitas chegavam a cavalo e, se a conversa ia ser longa e boa, o convidava a colocar o animal para o abrigo. Se a visita não era bem-vinda, o cavalo ficou ao relento — e ninguém tirou o bicho da chuva.

    No fim das contas você mostrou que, enquanto os puristas se perdem em minúcias, o povo segue costurando essa colcha de retalhos linguísticos que nos une. Sua crônica é um reconhecimento da nossa identidade diferenciada, um lembrete de que a nossa fala tem a alma de quem não cabe em formas. Excelente, como sempre. Seguimos por aqui, "de vento em popa".

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    1. Uma crônica sobre a crônica. Brilhante, amigo!

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    2. Sua pérola, Izaias, supera "tirar o equino da precipitação pluvial"!

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  11. Já fico esperando a quarta-feira pensando, "o que será que o Hayton vai escrever dessa vez?" Nunca me decepciono. Delícia de crônica, amigo!

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  12. Verdade seja dita, palavras são palavras que não precisam de um guia para serem ditas. Vem ao leo, soltas como vento que sopram folhas secas a espalhar num chão sofrido das amarguras da vida. Ih.. imitei. James

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  13. Maravilhoso texto .Vou pesquisar a etimologia de algumas palavras .👏🏻👏🏻👏🏻

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  14. Como sempre,uma verdadeira pérola!!!seu amigo,Gil Messi.

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  15. Como sempre,uma verdadeira pérola!!!seu amigo,Gil Messi.

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  16. Brilhante meu amigo, mexeu comigo. No meu interior da Paraíba, falávamos palavras que o pessoal daqui não entendiam. Certa vez, , falei que ia tibungá no rio , a mulecada tirou sarro dizendo que isso não existia.
    abraço

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  17. Mais uma excelente crônica. Uma agradável retrospectiva. José Luiz.

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  18. "Não atravessa a rua; abre processo de deslocamento urbano". Quer régua mais milimétrica que essa? Adorei!

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  19. Interessante! Bom dia amigo. Um abraço

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  20. A gramática está na ponta da Língua; a Língua tá na boca do povo.

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  21. Excelente. Eu sabia da vaca que (não) tossia, mas espirro de boi é coisa nova para mim. Muito boa.👏🏼👏🏼👏🏼

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  22. Grande Hayton, a gente costuma rodar nestas estradas por aí e eu comparo teu texto a um trecho que conheço na minha terra cheio de belas curvas, paisagens, plátanos imponentes, parreiras de uvas e muitas flores. Em geral os textos são mais retos e pobres em detalhes, feito estradas duplas. Como vc unca fui apaixonado por gramática. Mas minha mente doi com as "discordâncias". Ainda que eu saiba que linguagem é vida, é dinâmica, a redução de tudo a terceira pessoa é uma violência. Adoro a nossa diversidade de sotaques mas em certas regiões é um tal de nós vai, nós foi, nós gosta que eu fico doente. P mim uma falta de concordância é feito um.quebra-molas não percebido na estrada. Nem que a vaca tuça eu lidarei bem com isso.

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  23. Que crônica rica, Hayton. Ao lê-la, lembrei imediatamente de Ariano Suassuna, grande defensor de um português brasileiro vivo, criativo e cheio de musicalidade. Sua escrita conversa perfeitamente com uma frase marcante dele: “não troco meu ‘oxente’ pelo ‘ok’ de ninguém”. Uma definição que combina muito bem com a essência da sua crônica de hoje.
    Parabéns por mais uma crônica que nos acrescenta cultura, reflexão.

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Nem que o boi espirre

NEM QUE O BOI ESPIRRE Hayton Rocha Nunca botei fé na gramática clássica. Não por culpa dela, mas em razão de minha burrice ancestral combina...