domingo, 26 de janeiro de 2020

O velho, o menino e o livro

Não sei o que se passava pela cabeça da criança que parou, olhou e me escutou dedicar a seus pais um exemplar do livro Só Eu Sei, quando do  lançamento em Brasília, sexta-feira, 17.

Imagem: Débora Marinho
Talvez imagine que sou um escritor de verdade, capaz de escrever fábulas daquelas que ouviu de seus pais antes de dormir e que agora lê para o irmão caçula.

Para uma criança, fábulas são muito mais do que a verdade. Não porque contam que fantasmas, bruxas e monstros existem, mas porque mostram que eles podem ser vencidos.

Não sei o que se passava por sua cabeça ao ver o título do livro: Só Eu Sei. A gente nunca sabe de tudo nessa vida. Por isso mesmo, nem deve levá-la tão a sério. 


Na sua inocente curiosidade, talvez já pense como Bertrand Russel (1872 – 1970), para quem havia “dois motivos para ler um livro: um, é o prazer em lê-lo; o outro, a possibilidade de melhorá-lo".

Mas sei o que se passou por minha cabeça ao ver aquela imagem pela primeira vez. Tenho um amigo que diz que escritor e fotógrafo se utilizam das mesmas ferramentas, mas enquanto um descreve uma cena com meia dúzia de palavras o outro descreve meia dúzia de cenas com uma imagem.

A imagem que abre este texto, quem sabe, revela o possível nascimento de um escritor de verdade. Nada é tão nosso quanto nossos sonhos de criança. "O que é um adulto? Uma criança de idade", dizia Simone de Beauvoir (1908  1986).


Se for assim, só eu sei como me fará bem contribuir para que Rafael – neto de meu irmão Agostinho e filho de meu sobrinho-afilhado Michel – ame livros acima de todas as coisas. 


"Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante", dizia Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1986). A imagem de Rafael me dá a ilusão de que aquele pode ser um pouco mais útil.



25 comentários:

  1. O que pensou o menino pode ser uma dúvida, seu gesto é um fato não corriqueiro. Uma certeza eu tenho quem receber o presente ficará gratificado, principalmente depois da leitura.

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  2. que bonitinho, a imagem com ele à mesa traduz bem o texto. Ou seria o contrário?

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  3. Que cena linda, a beleza de um olhar de admiração de uma criança!

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  4. Belo registro!
    Uma história dentro da história...

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  5. O seu sorriso para ele e o olhar atento dele para você traduzem numa palavra”carinho”.

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  6. Conter um enredo é o que diferencia uma Fotografia de um mundo lotado de imagens. Ou como disse Paulinho da Viola: “ As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender”.

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  7. A foto que dá título à crônica ficou muito bem enquadrada ou a crônica que justifica a foto ficou muito bem contextualizada? Tal qual a dúvida de um antigo biscoito Tostines, que lançava a questão do "vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais", as duas questões são verdadeiras e criam um ciclo virtuoso. Mais um belo texto. E dele surgiu-me a dúvida: teremos duas publicações semanais, às quartas e aos domingos ou hoje foi uma extra?
    Abraço

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    1. Em princípio, um post por semana, para poupar a paciência de meus amigos e amigas. Mas às vezes bate à vontade de fazer um registro pontual sobre algo ou alguém e um domingo chuvoso ajuda...

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  8. Bom dia Hayton! Estou ansiosa para ler o livro do grande escritor que, na realidade, nasceu há sessenta anos e agora está se revelando. Parabéns e um grande abraço. CRISTINA

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  9. Agostinho Torres da Rocha Filho26 de janeiro de 2020 11:26

    Belo texto!!! Talvez o "nosso" neto esteja pensando: bancário não, mas um escritor admirado pelos amantes das letras eu gostaria de ser, no futuro. Feliz da criança que pode sonhar espelhado no exemplo de seus pais e avós. Parabéns!!!

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  10. Crônica curta e certeira, meu caro Hayton. Abraço do Sidney.

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  11. Lindas imagens estas, em especial a que abriu o texto. Com certeza eu tenho muita fé nas atitudes de uma criança; acho-as bem verdadeiras. E essa recíproca entre o grande escritor Hayton e a criança, é de uma profundidade incrível! E acredite, primo, eu tenho certeza de que qualquer hora dessas, você vai desejar escrever para crianças, e com certeza vai fluir muito bem, até porque na família tem muita criança. Parabéns mais uma vez pelo texto lindo e profundo. Sejam sempre bem vindas suas crônicas. Um forte abraço grande escritor sim. Saiba que o leitor é o maior termômetro de um escritor, saiba disso.

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  12. Quando ainda não tinha domínio das letras, minha mãe lia para mim regularmente. Eram livros que levavam a viajar... num roteiro que continuo até hoje. Ler faz bem!

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  13. Você é imbatível, até porque o imponderável conspira a seu favor.
    Num momento singular como o lançamento de um livro surge um episódio tão inusitado quanto marcante que lhe inspira a criar mais uma belíssima crônica.
    Imagino o que passou ali em sua cabeça, a emoção que lhe sacudiu. Inimaginável é o quanto marcará o garoto, após adulto e por toda a vida.
    Parabéns é muito pouco pra você, há que ser inventado algo mais, vou aguardar.

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  14. Rumunar é preciso, a foto leva a ilações mil.
    Bravo!

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  15. Plantar livros, a melhor semente para um futuro melhor. Continue semeando.

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  16. Sabe, meu amigo, as fábulas só mudam de idade... umas fazem as crianças sonharem, outras fazem com que o adulto pense, relembre, sonhe, afinal passou... umas remetem ao futuro, outras ao passado. O Rafael já nasceu com pedigree.

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  17. Cena bacana com o garoto à frente a admirar o nosso escritor. Quem sabe o autor não está inspirando o garoto a entrar no mundo dos livros, seja lendo ou escrevendo!?

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  18. Parabéns à Débora Marinho, escritora. Em vez de caneta, máquina fotográfica na mão.
    Lindo texto

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  19. Que texto mais lindo! Me lembrou minha infância mergulhadas em livros!! Parabéns!

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  20. Será mais um escritor na família ?

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  21. Ja vi em várias ocasiões adultos ocuparem lugar como essa crianca, ao escutar o "escritor", quando exercia a função de "líder" da equipe. Esse é o Hayton!!!

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  22. O próprio Jesus, ao indicar o valor das crianças, disse "deixai os meninos e não os estorveis de vir a mim; porque dos tais é o reino dos céus." Porque eles acreditam, eles confiam, eles aprendem.

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