quarta-feira, 1 de julho de 2020

Coração de criança

Era filho de um fisioterapeuta da Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR), no Rio de Janeiro, instituição que cuida de pacientes neurológicos. Nos anos 70, entre sete e oito anos de idade, várias vezes o menino acompanhou o pai no trabalho e vibrava muito a cada recuperação, convencido de que aquilo também era obra de seu pensamento positivo. Nasceu para ser médico, diziam. 

Houve uma festa junina na ABBR e seu pai o levou de novo. Lá encontrou o famoso jogador de futebol Francisco das Chagas Marinho, ou simplesmente Marinho, o lateral-esquerdo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha, a distribuir abraços e sorrisos, vestindo a camisa de seu clube, o Botafogo.


Depois de conseguir o autógrafo do jogador, a criança deixou de lado a timidez, puxou-o pelo braço e cochichou:
– Por que você não vai jogar no Fluzão?
  Vamos ver... 
– Jura?
– Vou pensar.
– Vai mesmo?
– Prometo. Me dê um abraço...

O menino sonhava ver o craque no clube de coração de seu pai. Dele também, claro, ambos obcecados pelo Fluminense, que já contava com um dos melhores elencos do futebol brasileiro, com astros da grandeza de Rivellino, Paulo César Caju, Carlos Alberto Torres, Doval e Dirceu.

A paixão pelo tricolor do bairro de Laranjeiras vinha de longe. Enganchado nas costas do pai, o filho subiu e desceu muitas vezes a rampa de acesso às arquibancadas do Maracanã no mormaço das tardes de domingo, vestido a caráter: boné, camiseta, calção, meiões e chuteiras. 

Era como se em nome do pai, do filho e do espírito nada santo de Nélson Rodrigues, os deuses do futebol atestassem de papel passado, com firma reconhecida, que “ser tricolor não é uma questão de gosto ou opção, mas um acontecimento de fundo metafísico, um arranjo cósmico do qual não se pode – e nem se deseja – fugir". 

Na época, Marinho também não passava de um  meninão. Certo dia, ao encontrar num boteco em Copacabana, por acaso, um conhecido tricolor, ingenuamente achou de pedir ao cantor e compositor para tocar alguma coisa. Chico Buarque, gozador, mexeu com a fera: "só toco se você fizer 200 embaixadinhas". Com uma laranja nos pés, o craque botafoguense fez bem mais e, ressentido com a troça do poeta, fez biquinho: "precisa cantar mais não. Você canta mal pra...”. 

No auge da carreira, Marinho, com seus petardos de fora da área, fazia por merecer a cintilante metáfora do lendário locutor de rádio Waldir Amaral ao narrar gols do alvinegro: “...brilha no céu da Guanabara a estrela solitária do Botafogo!”. 

Virou pop star. Chegou a gravar um clip para o Fantástico, da TV Globo, cantando Eu sou assim. Também participou de O Homem de Seis Milhões de Cruzeiros Contra as Panteras, filme cujo enredo era o seu sequestro às vésperas de uma partida de futebol. Libertado, o herói chegaria ao Maracanã a tempo de jogar a segunda etapa e marcar o gol da vitória.

No final de 1976, Francisco Horta, o então presidente do Fluminense, que também queria a todo custo vê-lo atuando com a camisa tricolor, pagou caro mas conseguiu. Entretanto, para ceder sua estrela, o Botafogo exigiu em troca (e obteve) nada menos que Paulo César Caju, Gil e Rodrigues Neto, três jogadores com passagem pela Seleção Brasileira.

Sem parceiros à altura em seu novo time, Marinho não rendeu o que dele se esperava. Acabou migrando no ano seguinte para o futebol norte-americano. Peregrinou ainda por vários clubes até encerrar a carreira de forma melancólica num modesto clube alemão, aos 35 anos, quando já enfrentava problemas sérios com álcool e drogas.

Quase três décadas depois, o ex-atleta sentiu-se mal enquanto trocava figurinhas na banca de revistas de um shopping center, poucos dias antes da Copa do Mundo 2014, no Brasil. Naquela noite, brilharia no céu potiguar da praia de Ponta Negra mais uma estrela, não mais solitária como cintilava na baía de Guanabara dos anos 70.  

No dia seguinte, no Rio, um meninão grisalho lamentou, junto ao velho pai, não estar por perto para tentar adiar o último tombo do herói e lhe permitir mais alguns lances na segunda etapa do jogo da vida. 

Seu coração insistia em lhe dizer que Marinho só trocou o Botafogo pelo Fluminense por conta daquele pedido no São João de 1976.

30 comentários:

  1. Marinho, nascido em Natal e criado no ABC FC, depois de Dequinha, dos anos 50 no Flamengo, foi considerado o melhor lateral da Copa do Mundo de 1974 e o melhor craque produzido no RN. Teve passagem pelo Náutico de Pernambuco antes de chegar no Botafogo. Dava gosto vê-lo jogar.

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  2. Como tricolor hereditário, de pai que morou nas Laranjeiras, sou suspeito... mas que história bacana e bem e contada! Parece que cada palavra está justamente onde deveria estar, umas filosofando sobre as outras, fiéis ao Hayton's way of writing, rs. Já mandei pro meu velho... vai se amarrar!

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  3. Nada mais justo que no início de julho falar do maior craque da história potiguar,afinal é o mês de SantaAna padroeira da encantadora Caicó.

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  4. Como botafoguense, sou suspeito, mas foi o melhor lateral esquerdo que vi jogar. Eu era invocado com ele demais! Bela crônica, Hayton @

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  5. ANTONIO CARLOS CAMPOS1 de julho de 2020 07:04

    Leão também tinha grande apreço por Marinho. Essa admiração se acentuou após o jogo Brasil X Polônia, valendo o terceiro lugar na Copa de 74, quando Marinho foi serelepe para o ataque, deixando a lateral esquerda aberta para o ponta direita Lato garantir a vitória dos Polska.

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    1. Verdade. Mas quem nunca vacilou, meu caro Antônio Carlos? A diferença é que Marinho jogava como quem chupa tangerinas – à moda Garrincha – e fez da vida uma aventura poética. Por isso mesmo foi eleito o melhor lateral do mundo naqueles dias. E Leão, coitado, rugia muito, mas não conheço uma ex-criança que lembre dele com carinho.

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  6. Desconheço quem conte uma história com maior riqueza de detalhes... Dá até pra se imaginar nos fatos, hahaha

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  7. Marinho foi desses poucos caras que viram lenda!
    E nada melhor pra contar sobre uma lenda que um escritor que ta cada dia mais maduro, mais cheio de jeito pra emparelhar as palavras e as emoções!

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  8. Hideraldo Dwight Leitão1 de julho de 2020 08:00

    Menino é bicho pidão, não é? O Flu de 1975 já era um baita time e não precisava da Vanusa. Que história deliciosa.

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  9. Que texto maravilhoso, leve, lindo... e que traduz a essência de ser tricolor. Parabéns, velho amigo. Se não soubesse das suas histórias com a Cruz de Malta, seria capaz de jurar que o meninão grisalho é você.

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  10. É difícil não atender ao pedido de uma criança.

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  11. Era craque mesmo. Eu gostava quando ele arrancava pela lateral, sempre pra frente, nunca retrocedendo (como hoje em dia). No exterior jogou no Cosmos de Pelé, Carlos Alberto e Chinaglia. Pouco se comenta, mas, entre a molecada da vila onde eu morava, ele era conhecido como Diabo Loiro, na época em que atuou pelo meu São Paulo e foi campeão em 1981 num jogo vibrante sobre a "Macaca", como é chamada a Ponte Preta. Viveu bem. Era o Renato Gaúcho da época. Show de crônica pra celebrar o querido Marinho Chagas.

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  12. Que história linda! Toda criança tem poderes mágicos! Geram encantamentos na gente. Marinho foi um artista da bola. E vc Hayton tem-nos mostrado o seu talento para nos encantar e nos divertir com seus escritos!

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  13. Acompanhei a carreira do bad boy Marinho Chagas, mas não conhecia tantos detalhes. Não me lembrava da troca por PC Caju, Gil e Rodrigues Neto. O Horta foi um grande cartola do futebol, mas nessa troca ele dançou. Belíssima crônica, a respeito de um tema que nos é muito caro e que anda em falta por conta desse tal Corona (nem vale a pena falar do atual campeonato carioca, essa irresponsabilidade que alguns estão chamando de Covidão Carioca).

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  14. Bela história, muita riqueza em seu conteúdo, retratando, sempre, a vida em sua trajetória. Parabéns!

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  15. Mais um gol de placa literário. Literalmente. Fez-me voltar no tempo que acompanhava, nas vozes de Waldir Amaral e Jorge Curi, com a análise da arbitragem de Mário Vianna, pela Globo AM 1220, as tantas partidas de meu tricolor do coração, incluindo a época em que Marinho fez parte do nosso elenco. Uma bela viagem saudosista àquele tempo de ouro.

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  16. Era um craque fenomenal. Infelizmente, como muitos da época, a falta de estrutura dos clubes e de acompanhamento profissional dos jogadores fez com que muitos bandeassem para o álcool como refúgio... que pena! Mas era muito bom vê-lo jogar. Parecia jogar com alegria de criança.

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  17. Show de crônica que aborda de forma criativa a trajetória de um grande personagem. Fiquei com gosto de quero mais. E com vontade de saber quem é o menino hoje adulto grisalho. Mas não precisa contar.

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  18. Mais uma crônica bem legal e com um tema que gosto, futebol, e não simplesmente o jogo em si, max as “estórias”.
    Dizem que numa destas viagens da seleção brasileira, entre Teresópolis/Rio, numa kombi, descendo a serra, Marinho perguntou a Leão se ele conhecia uma brincadeira chamada “cabra cega” enrolando, logo a seguir, uma toalha na cabeça do motorista.
    Aí, já viu no que deu, o motorista teve que parar a kombi pra os dois sairem na mão, kkkk

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  19. Parabéns, Haylton! Uma bela história bem contada! Acho que você já imaginava suas crônicas desde menino.
    👋tibério

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  20. Marinho era um craque incrível. Bela crônica. Eu que sou botafoguense gostei muito de relembrar os bons tempos...

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  21. Voltei a meus tempos de radinho de pilha (às vezes “chiava” na hora dos lances ou comentários mais importantes)!
    Esses personagens (e todo o time do Cruzeiro, de então) são responsáveis por meu interesse, hoje bastante esmaecido, por futebol.
    Linda crônica!

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  22. Amante fervoroso da poesia e da música, confesso que tenho até uma predileção pela prosa pois esta, tendo invariavelmente um enredo mais consistente, além do lirismo tocante como o desta com que você nos presenteia, nos remete inevitavelmente a uma reflexão maior - como faz um bom filme que acabamos de assistir.
    De resto, impagável, "na mosca" sua definição - "o espírito nada santo de Nélson Rodrigues". Ele mesmo, com certeza, adoraria a definição. Até mais que um ser humano, Nélson foi um personagem de si mesmo, inigualável e inesquecível.
    Por fim, mais que oportuna e pertinente, até cirúrgica, sua resposta ao comentário de Antonio Carlos Campos - creio mesmo que pode ser classificada como palmada com luva de pelica.
    Abraçando meu amigo UNKNOWN, aqui é Volney.

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  23. Apesar de não conhecer muito de futebol, há algumas figuras notáveisque ouvi falar; mas muito bom texto, e mais admirável ainda, é essa sua memória fabulosa em lembrar de cada nome, datas, detalhes que não é pra qualquer um. Mais uma vez, parabésn, Hayton!

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  24. Belo texto. São remissões desse naipe, que nos fazem pensar como a Vida é gostosa de ser sorvida ao máximo. Plenamente. Pena, que a maioria de nós, só percebe quando ela já tem "corrido" das nossas mãos. Marinho foi brilhante. Feliz de quem o viu jogar. Felizes seus amigos, com quem partilhou bons momentos. Enfim, a Vida segue...com seus dribles e alguns golaços.

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  25. Esse era craque. Apesar de destro jogava pela lateral esquerda.
    Tive o privilégio de participar de um treino em que o Marinho jogou entre os reservas do Botafogo por estar se recuperando de contusão. O time titular e o juvenil tinham viajado e não havia quorum para a realização de treino. Sérgio Lomba que fazia parte da comissão de preparação física do Botafogo e era professor da Escola Técnica de Indústria Química e Têxtil, onde eu estudava, levou a seleção da Escola para General Severiano.
    Entre os reservas estava Ruço, emprestado pelo Madureira, e que posteriormente se consagrou pelo Corinthians.
    Dois craques dessas últimas gerações ligados à Estrela Solitária que sucumbiram ao Álcool: Marinho Chagas e meu contemporâneo Mendonça, que também jogava muito.

    Marival.



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  26. Agostinho Torres da Rocha Filho6 de julho de 2020 09:20

    Somente uma crônica dessa magnitude para homenagear aquele que, durante algum tempo, foi considerado o melhor lateral esquerdo do país. Parabéns!!!

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  27. Muito boa Hayton.
    Um hábil cronista falando de futebol que mexe com paixões e emoções dá nisso: um belo texto para curtirmos. Ligabue

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