janeiro 07, 2026

Os que cabem no jipe


OS QUE CABEM NO JIPE

Hayton Rocha


Nem bem o ano virou a esquina e já me chega, na segunda manhã de janeiro, uma mensagem de meu amigo Artur Roman, dessas que não chegam por acaso. 


Não requer resposta imediata. Pede digestão lenta, café forte, janela aberta e lembranças antigas se mexendo em fogo baixo. Artur escreve com carinho e bisturi: elogia, provoca, cutuca onde dói e, no fim, costura uma dica preciosa.




Ele estranhou meu tom na última crônica do ano. Acostumado a me ver rindo das próprias quedas, viu melancolia demais em O cemitério das agendas. Achou que eu tivesse varrido gente inconveniente para debaixo do tapete, numa catarse discreta, para começar 2026 com o coração mais leve. 

 

Dezembro tem esse mérito estranho: a gente faz balanço, limpa gavetas, joga fora recibos, rancores e algumas amizades com prazo de validade vencido.

 

Artur conhece bem o peso dos relacionamentos. Assim como eu, passou décadas nos andares altos de grandes empresas, onde o ar é rarefeito e os sorrisos, muitas vezes, forçados, protocolares. 

 

Talvez por isso tenha deduzido, logo de cara, que aquela crônica falava menos de agendas e mais de ausências. E me pediu, com a delicadeza de sempre, que neste começo de ano eu lembrasse também da outra banda: a dos amigos que se instalaram em meu coração e ficaram.

 

Fiquei matutando. Já escrevi crônica nesse tom há alguns anos. Falei de amigos que partiram — ou me abandonaram — durante a pandemia, recorrendo a uma velha fábula de Esopo: dois amigos, um urso, uma árvore. Um sobe, o outro fica no chão. Moral eterna: amizade que abandona na hora do perigo não merece o nome que usa. O urso cochicha isso no ouvido do sobrevivente, com sabedoria de velho. Algumas lições só aprendemos quando o susto já passou.

 

Nunca tive muitos amigos. Um pouco por vocação, outro por itinerância. Mudanças de cidade, de rumo, de trabalho. A infância se espalhou em mapas diferentes. Da adolescência sobraram dois ou três nomes que ainda reconheço pelo riso, mas já não sei de suas dores nem de seus sonhos. Na vida adulta, conheci muita gente — gente boa, inclusive —, mas amigos, poucos.

 

Com esses poucos, brinco dizendo que eles cabem dentro do meu velho jipe: com cinto de segurança, janelas abertas e espaço apenas para as conversas necessárias. 

 

Gosto dessa imagem. Amizade é como carro antigo: nem sempre comporta quem queremos, exige manutenção, faz barulhos estranhos, mas não nos deixa na estrada se a gente aprender a escutá-lo. Os que seguem comigo conhecem meus defeitos de marcha, aceleração e freios. Eu conheço os deles. Fingimos, por educação mútua, que não escutamos tudo nem vemos demais. E assim a viagem segue.

 

Também escrevi aqui, mês passado, que ouvi de um escritor uma sentença inesquecível: “Livro não é brinquedo”. Falava de lançamentos esvaziados, de cadeiras sobrando, de gente que só aparece quando há churrasco ou holofote. Dizia isso sem mágoa. Aprendera que o livro é pretexto para o encontro, não espetáculo. Que os poucos amigos que aparecem salvam a noite. Preciso registrar agora que esse cara, além do próprio, também sou eu. 

 

Descobri que amizade é menos discurso e mais presença, mesmo a uma distância silenciosa. Amigo é quem aparece quando menos se espera. Quem se senta na primeira fila invisível. Quem entende que escrever — assim como viver — é lançar garrafas ao mar sem garantia de resposta. Às vezes alguém encontra, abre, lê. Às vezes não. Ainda assim, a mensagem precisa ser lançada, porque o gesto conta muito.

 

Pois é, Artur: você me sugere começar o ano falando da outra banda de amigos e leitores que fui juntando ao longo da vida e da escrita. Isso me remete a meu velho jipe. Quem já andou nele sabe. Sempre há alguém, no banco do carona, para ajudar a escolher o caminho quando a chuva cai pesada e a estrada, cheia de buracos, se bifurca sem aviso. Os outros vão atrás, reclamam do calor, do frio, da música — mas permanecem.

 

Não escrevi O cemitério das agendas por acerto de contas nem por ressentimento. Escrevi por necessidade, para que os vivos respirassem melhor. Os que ficam não exigem explicação nem discurso. Sabem, como eu, que amizade não cobra holofote nem promessa: pede estrada. E basta que sigamos juntos, mesmo calados, até onde o jipe aguentar.

 

Os que cabem no jipe

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