julho 15, 2026

Toda gula será perdoada

 

 

TODA GULA SERÁ PERDOADA
Hayton Rocha


Descobri outro dia que os sete pecados capitais não nasceram da implicância de um único sujeito mal-humorado. A lista foi sendo cozinhada em fogo baixo ao longo dos séculos. Um monge acrescentou ingredientes, um papa acertou o tempero e Tomás de Aquino decorou a travessa antes de servi-la ao mundo.


Respeito os três. Mas, se me concedessem um único voto naquele conclave dos pecadores, eu excluiria a gula da relação. E desconfio de que boa parte dos meus amigos faria exatamente o mesmo.


Tenho minhas razões.


Entre todas as crônicas de Rubem Braga, continuo achando "Buchada de Carneiro" insuperável. O pobre animal viaja balindo para o sacrifício, os adultos evitam assistir à cena e certa culpa paira sobre todos. Até que, no dia seguinte, a buchada chega à mesa. Num instante evaporam-se a compaixão e os escrúpulos. Sobram sarapatel, pirão, cachaça e uma reverência que os homens costumam reservar apenas às coisas verdadeiramente sagradas. No fim, Braga conclui, entre divertido e constrangido, que, naquele caso específico, o crime compensara.


É fato que, embora fosse o papa dos cronistas brasileiros, jamais foi canonizado. Talvez por isso entendesse tão bem as fraquezas humanas.





Não culpo minha mãe por ter me transformado em um pecador incorrigível. Ela fez o que julgava certo. Depois que meus irmãos mais novos nasceram exigindo dedicação exclusiva, terceirizou para as mamadeiras de mingau de amido os serviços antes prestados pelas tetas maternas. Mais tarde vieram bolos, pudins, tapiocas, doces de toda espécie. Sem perceber, ela apostava em mim a continuação de si mesma, usando a linguagem que dominava melhor.


Foi ela quem confiscou incontáveis horas da minha infância para mexer panelas de canjica (curau) e doce de leite. Havia remuneração, é verdade, sob a forma de raspas de tacho. Mas o contrato previa punições severas caso a massa grudasse no fundo da panela. Permanecer meia hora de castigo, respirando aquele perfume indecente sem direito à recompensa, equivalia a uma tortura concebida por confeiteiros medievais.


Toda manhã, chovesse ou fizesse sol, me mandava à padaria. Tinha suas manhas. Fingia não ouvir quando eu explicava que um ou outro pão havia caído do pacote e que, apenas para não dar gosto ao cão, eu me sacrificara consumindo-o ainda quente. Sem manteiga, inclusive. Heroísmo que jamais recebeu qualquer reconhecimento oficial.


Também guardava no forno o meu almoço enquanto eu chegava da escola ou do trabalho. Bastava reencontrar a carne-de-sol com arroz de leite, o bife à marinheiro com purê de batatas ou qualquer sobra preparada por suas mãos para que a tarde desacelerasse. E, se por acaso aparecesse uma banana frita coberta por canela e queijo derretido, cada coisa voltava ao seu devido lugar, da garganta para baixo.


Os sábados da maturidade também acabaram perdoados. Eu retornava à Gruta, bairro onde sorri e chorei todas as circunstâncias da adolescência, para reencontrar meus irmãos já cercados de esposas, maridos e filhos. Bastava minha mãe anunciar que o almoço estava servido para todos nós voltarmos, durante alguns minutos, à condição de crianças gulosas e impacientes. Não havia cerimônia. Havia guisado de galinha, feijão-verde e felicidade. E felicidade, você sabe, raramente aprende qual talher usar.


Ao absolvê-la, porém, seria injusto esquecer quem iniciou essa conspiração gastronômica: meu pai.


Apaixonado por uma ninfeta de dezessete anos, resolveu presenteá-la, entre suspiros e outras intenções perfeitamente humanas na metade dos anos cinquenta, com um exemplar do Dona Benta. Na aparência, entregou um livro de receitas. Na prática, fez uma declaração de amor escrita com colher de pau numa panela ao fogo.


Foi ali que tudo começou.


Desde então, minha mãe jamais cozinhou apenas para ele ou para os filhos que viriam depois. Cozinhava para muito mais gente do que podia imaginar. Todos os meus amigos — até aqueles que só conheceria décadas mais tarde — mereciam ter frequentado aquela cozinha. Mereciam ter aberto aquelas panelas fumegantes, disputado as raspas do tacho e aprendido que certos carinhos chegam primeiro pelo nariz antes de encontrarem morada definitiva no coração.


Porque nascemos sozinhos, crescemos sozinhos e, cedo ou tarde, descobrimos que também partiremos sozinhos. Talvez por isso a amizade tenha inventado a mesa. É repartindo comida — e bebida, naturalmente — que conseguimos sustentar, ainda que por algumas horas, a ilusão mais generosa de todas: a de que ninguém precisa atravessar a vida completamente só.


Nunca consegui, portanto, levar a sério a condenação da gula. Há pecados que afastam os homens. Mas há panelas que os aproximam. E suspeito de que Deus conheça perfeitamente essa diferença.





E toda vez que olho para A Santa Ceia, volto a pensar nisso. Entre todos os milagres que poderia realizar na despedida, Ele escolheu repartir pão e vinho. Talvez porque soubesse que o amor, quando servido à mesa, alimenta mesmo depois que termina a refeição. 


Diante de um amor assim, toda gula já nasce perdoada.

julho 08, 2026

Atrás da porta

 

ATRÁS DA PORTA
Hayton Rocha


A repercussão da crônica "O mar não é para amadores", publicada há poucos dias sobre os perigos dos cruzeiros marítimos, me trouxe alguma preocupação. E se algum executivo dessas companhias de navegação me acusasse de terrorismo náutico? Numa dessas, eu acabaria sendo obrigado a confessar que tudo não passou do desabafo de um traumatizado pela pandemia diante do risco de passar semanas confinado num hotel em alto-mar.



Ilustração: Uilson Morais (Umor)


 

No entanto, deixaria claro que jamais afirmei que todos os cruzeiros são perigosos. Mais: se me oferecerem uma passagem gratuita para provar o contrário, continuarei recusando a viagem nesses palácios flutuantes.

 

Só reconsidero se instalarem no convés um hospital completo, com UTI, centro cirúrgico, infectologistas, pneumologistas, laboratório de análises clínicas e, por cautela, um anjo da guarda de prontidão.

 

Alguns dirão que é prudência. Outros, que é covardia. Pouco importa. Quase nunca separo uma coisa da outra.  

 

Um leitor amigo resolveu contemporizar. "Nem tanto ao mar nem tanto à terra", escreveu. Gostei da observação. Tanto que passei a refletir sobre o destino dos milhares de litros de dejetos sólidos, líquidos e tudo aquilo que a elegância literária recomenda não descrever, produzidos diariamente por uma pequena cidade em pleno oceano.

 

Nem tanto ao mar. Nem tanto à terra. Mas exatamente onde?

 

A pergunta me ocupou por algumas horas. Certas inquietações se alojam na nossa cabeça de modo traiçoeiro. Para onde vai o conteúdo de milhares de descargas quando não existe rede de esgoto, estação de tratamento ou candidato prometendo saneamento básico? Prefiro acreditar que tudo seja tratado com rigor científico antes de retornar à natureza. 

 

A dúvida ainda é o mais confortável esconderijo dos otimistas.

 

Outro leitor amigo me enviou um vídeo protagonizado por um médico. Esses médicos modernos não se contentam mais em combater doenças. Resolveram também fiscalizar hábitos, corrigir costumes e destruir a tranquilidade alheia.

 

Segundo o doutor, deixar a toalha secando dentro do banheiro, por exemplo, é um erro quase criminoso. A explicação envolvia bactérias, células mortas, descargas sanitárias e uma série de detalhes microbiológicos capazes de transformar um simples banho numa experiência traumática.

 

Não repetirei tudo aqui por respeito às almas mais sensíveis. Basta dizer que, ao final do vídeo, minha toalha pendurada atrás da porta já não parecia uma toalha. Parecia uma emboscada. A escova de dentes adquiriu aparência suspeita. O sabonete começou a inspirar desconfiança.

 

O médico citava pesquisas científicas. Falava de bactérias encontradas em toalhas compartilhadas. Mencionava estudos japoneses. Sempre os japoneses. Não satisfeitos em fabricar automóveis que não quebram e câmeras que fotografam crateras na Lua, resolveram agora investigar a vida secreta das toalhas.

 

A ciência possui passatempos curiosos. O resultado foi suficiente para provocar uma crise existencial em boa parte dos internautas brasileiros.

 

Houve quem prometesse trocar toalhas diariamente. Outros cogitaram instalar varais na sala. Alguém declarou que estudava a viabilidade econômica de transformar a varanda num centro de secagem industrial.

 

A paranoia é uma planta resistente. Cresce em qualquer terreno quando irrigada por vídeos de internet. Mas o episódio me permitiu uma conclusão inesperada. 

 

Passei anos desconfiando do oceano. Temendo acidentes, confinamentos, surtos e tempestades. Como tantas pessoas da minha geração, cresci acreditando que os perigos moravam longe. Nas selvas, nos desertos, nos mares revoltos. Os antigos enchiam os mapas de monstros marinhos. Dragões aquáticos, serpentes gigantes, criaturas capazes de engolir embarcações inteiras.

 

O desconhecido sempre viveu além do horizonte. Talvez por isso a humanidade tenha atravessado séculos olhando para fora. Vigiando o mar. Observando o céu. Temendo monstros que imaginava escondidos depois da última onda. 

 

Enquanto isso, o perigo aperfeiçoava sua estratégia. Mudava-se para dentro de casa. Instalava-se discretamente atrás da porta do banheiro. Passava a morar numa toalha úmida.

 

Existe certa ironia nisso. A mesma espécie que atravessou oceanos em caravelas precárias, enfrentou continentes desconhecidos, guerras, naufrágios, pestes e tempestades agora passa parte do dia discutindo partículas microscópicas que podem pousar sobre uma toalha felpuda.

 

A civilização avançou muito, mas a ansiedade correu mais rápido. Essa talvez seja a verdadeira história da humanidade. Mudam os séculos, mudam os perigos, mudam os nomes dos monstros. Mas continuamos os mesmos. Nossos antepassados temiam dragões marinhos que nunca existiram. Nós tememos monstros menores que existem. Não se sabe qual geração dormiu melhor.

 

Pensando bem, talvez os antigos estivessem certos em desenhar monstros nos mapas. A diferença é que os deles viviam no oceano. Os nossos moram no banheiro. E costumam ficar pendurados atrás da porta.

julho 01, 2026

Uma velha fotografia

  

UMA VELHA FOTOGRAFIA 

Hayton Rocha



Você se apresentou no São João de Caruaru, no Dia dos Namorados, diante de uma multidão reunida no Pátio Luiz Gonzaga. Não teve sanfona, triângulo nem zabumba, mas imagino aquele mar de gente cantando junto, como se cada casal apaixonado — e cada separado arrependido — levasse no bolso da alma aquela velha fotografia.

 

Não pude ir. Tivesse ido, talvez a gente se encontrasse e eu lhe perguntaria: como vai você, bicho? Preciso saber da sua vida. É que, há mais de meio século, sua vida atravessou a minha, a de Magdala. Entrou pelo chiado do rádio, pelo toca-fitas e pelas preguiçosas tardes de domingo.





 

Já se disse quase tudo sobre você, de bem e de mal. Chamaram-no de rei, romântico incurável, ultrapassado e outros rótulos que a vida entrega com uma mão enquanto retira um pedaço com a outra. Mas ninguém pode negar que você ainda canta sem aspas, ama sem interrogações, sonha com reticências e vive sem pontos de exclamação. 

 

Há nisso uma elegância rara. A de quem veste um paletó de linho branco, um chapéu alquebrado e segue pela vida como flores que teimam em nascer entre trilhos.

 

Ainda menino, perto da estação ferroviária de Cachoeiro de Itapemirim, você aprendeu que o destino, às vezes, nem bate à porta: passa por cima. Ficou um pedaço de você pelo caminho. O resto virou resistência.

 

Mais tarde, trocou Cachoeiro por Niterói, os sonhos pelo rádio e acabou se transformando numa espécie de parente sentimental do Brasil. Titia Amélia e Lady Laura acompanharam de perto e sabiam disso como ninguém. 

 

Nem mesmo quando a morte, essa visitante inconveniente que não respeita nem reinados e títulos, levou mulheres amadas e filhos queridos, você desistiu. 

 

Há pessoas que transformam a dor em renúncia. Você fez dela canção. E foi remexendo nesses pedaços da sua história que compreendi uma coisa simples: no fundo, suas canções nunca falaram apenas de você. Falavam de nós.

 

Porque ninguém amou sozinho naquela época. Havia sempre uma canção sua esperando a hora certa de dizer o que a gente não conseguia. Às vezes bastava um trecho: "Eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser, mas é assim que sei te amar". 

 

Quem nunca ouviu sua voz avisando que não adiantava tentar esquecer alguém porque ainda viveria dentro da gente? Quem nunca acreditou que certos detalhes eram grandes demais para desaparecer na longa estrada?

 

Fui um moleque inseguro, embora ousado e presunçoso. Tinha meus medos, mas os escondia atrás de uma arrogância de anéis, colares e jeans desbotados. No ônibus que me levava da Gruta ao Farol, em Maceió, fazia perguntas a mim mesmo que hoje me soam absurdas.

 

E se outro cabeludo aparecesse quando tudo estivesse acabado entre nós? Se ela ouvisse o ronco do ônibus, lembraria daquele metido a poeta, com mais amor do que concordância verbal?

 

Era difícil admitir que outro pudesse lhe falar palavras de amor como eu falava. Mas duvido que tivesse meus erros de português, minha rebeldia ou minha esperança de tudo dar certo. 

 

À noite, imaginava que ela procuraria meu retrato e encontraria outro rosto na moldura. Mesmo assim, acreditava que, por trás daquele sorriso alheio, haveria sempre um pequeno fantasma meu fazendo pose.

 

A juventude tem dessas convicções extravagantes. Acredita que o amor é uma escritura registrada em cartório, que a saudade respeita pactos verbais e que certas pessoas permanecerão para sempre sentadas na mesma cadeira da memória.

 

Por um tropeço cósmico, um detalhe, quatro décadas depois, numa sexta-feira de agosto de 2013, eu e Magdala encontramos com você nos camarins do Centro de Convenções, em Brasília.




 

Estávamos diante de alguém que conhecia todos os segredos da nossa geração. 

— Suas músicas estão em nossas vidas desde aquele disco lançado antes do Natal de 1971 — confessei, meio sem jeito.

— Quais, bicho? — você perguntou, sorrindo.

— “A Namorada”, “Amada Amante”, "Como vai você",  “Traumas”. Mas uma delas era especial: “Detalhes”. Cheguei a tentar cantar para ela, dedilhando um violão...


Você então voltou-se para Magdala:

— E ele cantava bem? 

 

Não me lembro do que ela respondeu. A memória, com seus caprichos, guarda umas coisas e devolve outras. Deve ser por isso que existem certas canções, certas pessoas. Elas passam a vida inteira lembrando por nós aquilo que o tempo faria questão de esquecer. 


Você continua subindo aos palcos. Nós seguimos juntos carregando, no bolso da alma, aquela velha fotografia.


Toda gula será perdoada

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