TODA GULA SERÁ PERDOADA
Hayton Rocha
Descobri outro dia que os sete pecados capitais não nasceram da implicância de um único sujeito mal-humorado. A lista foi sendo cozinhada em fogo baixo ao longo dos séculos. Um monge acrescentou ingredientes, um papa acertou o tempero e Tomás de Aquino decorou a travessa antes de servi-la ao mundo.
Respeito os três. Mas, se me concedessem um único voto naquele conclave dos pecadores, eu excluiria a gula da relação. E desconfio de que boa parte dos meus amigos faria exatamente o mesmo.
Tenho minhas razões.
Entre todas as crônicas de Rubem Braga, continuo achando "Buchada de Carneiro" insuperável. O pobre animal viaja balindo para o sacrifício, os adultos evitam assistir à cena e certa culpa paira sobre todos. Até que, no dia seguinte, a buchada chega à mesa. Num instante evaporam-se a compaixão e os escrúpulos. Sobram sarapatel, pirão, cachaça e uma reverência que os homens costumam reservar apenas às coisas verdadeiramente sagradas. No fim, Braga conclui, entre divertido e constrangido, que, naquele caso específico, o crime compensara.
É fato que, embora fosse o papa dos cronistas brasileiros, jamais foi canonizado. Talvez por isso entendesse tão bem as fraquezas humanas.
Não culpo minha mãe por ter me transformado em um pecador incorrigível. Ela fez o que julgava certo. Depois que meus irmãos mais novos nasceram exigindo dedicação exclusiva, terceirizou para as mamadeiras de mingau de amido os serviços antes prestados pelas tetas maternas. Mais tarde vieram bolos, pudins, tapiocas, doces de toda espécie. Sem perceber, ela apostava em mim a continuação de si mesma, usando a linguagem que dominava melhor.
Foi ela quem confiscou incontáveis horas da minha infância para mexer panelas de canjica (curau) e doce de leite. Havia remuneração, é verdade, sob a forma de raspas de tacho. Mas o contrato previa punições severas caso a massa grudasse no fundo da panela. Permanecer meia hora de castigo, respirando aquele perfume indecente sem direito à recompensa, equivalia a uma tortura concebida por confeiteiros medievais.
Toda manhã, chovesse ou fizesse sol, me mandava à padaria. Tinha suas manhas. Fingia não ouvir quando eu explicava que um ou outro pão havia caído do pacote e que, apenas para não dar gosto ao cão, eu me sacrificara consumindo-o ainda quente. Sem manteiga, inclusive. Heroísmo que jamais recebeu qualquer reconhecimento oficial.
Também guardava no forno o meu almoço enquanto eu chegava da escola ou do trabalho. Bastava reencontrar a carne-de-sol com arroz de leite, o bife à marinheiro com purê de batatas ou qualquer sobra preparada por suas mãos para que a tarde desacelerasse. E, se por acaso aparecesse uma banana frita coberta por canela e queijo derretido, cada coisa voltava ao seu devido lugar, da garganta para baixo.
Os sábados da maturidade também acabaram perdoados. Eu retornava à Gruta, bairro onde sorri e chorei todas as circunstâncias da adolescência, para reencontrar meus irmãos já cercados de esposas, maridos e filhos. Bastava minha mãe anunciar que o almoço estava servido para todos nós voltarmos, durante alguns minutos, à condição de crianças gulosas e impacientes. Não havia cerimônia. Havia guisado de galinha, feijão-verde e felicidade. E felicidade, você sabe, raramente aprende qual talher usar.
Ao absolvê-la, porém, seria injusto esquecer quem iniciou essa conspiração gastronômica: meu pai.
Apaixonado por uma ninfeta de dezessete anos, resolveu presenteá-la, entre suspiros e outras intenções perfeitamente humanas na metade dos anos cinquenta, com um exemplar do Dona Benta. Na aparência, entregou um livro de receitas. Na prática, fez uma declaração de amor escrita com colher de pau numa panela ao fogo.
Foi ali que tudo começou.
Desde então, minha mãe jamais cozinhou apenas para ele ou para os filhos que viriam depois. Cozinhava para muito mais gente do que podia imaginar. Todos os meus amigos — até aqueles que só conheceria décadas mais tarde — mereciam ter frequentado aquela cozinha. Mereciam ter aberto aquelas panelas fumegantes, disputado as raspas do tacho e aprendido que certos carinhos chegam primeiro pelo nariz antes de encontrarem morada definitiva no coração.
Porque nascemos sozinhos, crescemos sozinhos e, cedo ou tarde, descobrimos que também partiremos sozinhos. Talvez por isso a amizade tenha inventado a mesa. É repartindo comida — e bebida, naturalmente — que conseguimos sustentar, ainda que por algumas horas, a ilusão mais generosa de todas: a de que ninguém precisa atravessar a vida completamente só.
Nunca consegui, portanto, levar a sério a condenação da gula. Há pecados que afastam os homens. Mas há panelas que os aproximam. E suspeito de que Deus conheça perfeitamente essa diferença.
E toda vez que olho para A Santa Ceia, volto a pensar nisso. Entre todos os milagres que poderia realizar na despedida, Ele escolheu repartir pão e vinho. Talvez porque soubesse que o amor, quando servido à mesa, alimenta mesmo depois que termina a refeição.
Diante de um amor assim, toda gula já nasce perdoada.


Nenhum comentário:
Postar um comentário