POR QUE NÃO NA ARGENTINA?
Hayton Rocha
Uma de minhas sobrinhas-netas já passou da idade dos porquês. Pelo menos era o que eu imaginava. Quando criança, queria saber por que o céu era azul, por que o mar era salgado ou por que o cachorro do vizinho latia para motocicletas, mas nem ligava para os caminhões. Agora cresceu. As perguntas diminuíram de quantidade e aumentaram perigosamente de qualidade.
Esta semana apareceu aqui em casa, segurando um punhado de figurinhas da Copa do Mundo.
— Tio, tem jogador negro nas seleções da França, da Inglaterra, da Alemanha, da Holanda, da Suíça, da Suécia... até do Japão. Por que não tem na seleção da Argentina?
Nessa idade, a gente ainda acredita que o mundo precisa fazer sentido. Não sabe a pequena curiosa que os mais velhos passam metade da vida inventando explicações para coisas que nem eles próprios entendem direito.
Ganhei alguns segundos examinando uma figurinha imaginária. É um recurso antigo: quando a resposta não aparece, a gente finge que está pensando, mas, na verdade, torce para que ela apareça sozinha.
Esses álbuns fazem milagres. Ressuscitaram uma espécie que muitos cientistas já davam como extinta: crianças conversando umas com as outras. Voltaram as rodinhas nos corredores da escola, os encontros nas livrarias, as negociações nos shoppings, a felicidade de completar uma página e a tristeza de descobrir que a figurinha repetida era justamente a que ninguém queria trocar. Há muito tempo um pedacinho de papel colorido não humilhava com tanta classe uma tela de celular.
Enquanto ela aguardava minha resposta, lembrei de uma velha frase de Chico Buarque. Dizia que, no Brasil, só a Xuxa era branca e, mesmo assim, se não se casasse com o Taffarel, os brancos desapareceriam. Era uma hipérbole, claro, mas dessas que dizem muito. Chico zombava de nossa mania de esquecer que este país nasceu da mistura. Africanos, europeus, indígenas e asiáticos acabaram formando um povo em que a pureza racial existe apenas na imaginação de quem nunca se deu ao trabalho de conversar com os próprios antepassados.
A Argentina trilhou um caminho diferente. Durante mais de um século cultivou a fantasia de ser uma nação essencialmente branca, descendente dos milhões de europeus que chegaram entre o fim do século XIX e o início do XX. Os povos indígenas e os afrodescendentes foram sendo empurrados para as bordas da História, como quem varre poeira para debaixo do tapete acreditando que a visita não vai reparar.
Essa ideia reapareceu há poucos anos, quando o então presidente Alberto Fernández declarou que os argentinos "vieram dos navios", enquanto os mexicanos "vieram dos índios" e os brasileiros "saíram da selva". A frase provocou indignação não apenas pelo preconceito implícito, mas porque a genética mostrou outra realidade. Boa parte dos argentinos também carrega ancestralidade indígena e africana. A miscigenação existia; faltava disposição para reconhecê-la.
Por isso a ausência de jogadores negros na seleção argentina continua despertando tanta curiosidade. Não existe qualquer política de exclusão conhecida. Os estudiosos apontam fatores demográficos, históricos e sociais. Ainda assim, não deixa de ser emblemático que um país miscigenado apresente ao mundo justamente a imagem que passou décadas tentando construir.
Minha sobrinha-neta ouviu tudo em silêncio. Quando terminei, fez aquela cara de quem agradece o esforço do professor, mas percebe que ele respondeu apenas metade da pergunta. E tinha razão. A História costuma explicar muito, mas quase nunca explica tudo.
Antes de voltar às figurinhas, perguntou:
— Então você não sabe exatamente por quê?
Respondi que não. Mas acrescentei uma última observação.
— Só sei de uma coisa. Se a História tivesse seguido outro rumo e um certo menino negro, nascido em Três Corações (MG) e criado em Bauru (SP), tivesse vindo ao mundo alguns quilômetros mais ao sul da fronteira, o sofrimento do povo brasileiro seria bem maior.
Porque suportar argentino campeão do mundo já exige paciência e resignação com os desígnios divinos. Imagine, então, se Pelé tivesse aprendido a cantar o hino olhando para a Casa Rosada. Não bastassem Maradona e Messi, ainda teríamos de conviver com o Rei vestindo azul e branco.
Há desgraças que Deus, em sua infinita misericórdia, simplesmente não permite.
Como tricordiana, como Pelé, tal hipótese é heresia pura, capaz de despertar todos os demônios dos infernos
ResponderExcluir“Foi por pouco, pouco, muito pouco mesmo", diria o lendário narrador esportivo Geraldo José de Almeida, valendo-se de um de seus principais bordões durante as transmissões, sempre que um lance de perigo ameaçava a Seleção Brasileira.
ExcluirDeixando o futebol um pouco de lado, ouso dizer: São Italianos que falam espanhol... e pensam que são a última bolacha do pacote! Me esforço pra ser mais empático e simpático e menos preconceituoso ( o que parece ser a especialidade deles) e dizer que são um povo triste, melancólicos como um tango de Gardel. Talvez não tenham identidade definida e não saibam exatamente o que são.
ResponderExcluirPelé, Garrincha, Jairzinho, Amarildo, Ronaldo, Ronaldinho, Zico, Rivaldo…Viva a nossa sopa genética!
ResponderExcluirAbração,
Gradim.
Na terra de Los Hermanos, vigorou (vigora) uma espécie de sistema de castas, com domínio econômico e político da europeia! Há historiadores argentinos que documentam bem isto. Mas, quanto a Pelé, estou totalmente de acordo.
ResponderExcluirCriança faz cada pergunta que é complicado responder.
ResponderExcluirParabéns pela sua resposta e ilustração utilizando a figura do Pelé, nosso grande idolo negro.
Fiquei com a impressão de que essa sua spbrinha vai lhe fazer perguntas ainda mais espinhosas. Prepare o couro! A realidade parece um corredor de armadilhas feitas por IA, bonitinhas e ordinárias. Vira e mexe, argentinas pessoas causam incidentes racistas na terrinha. O que a torcida hermana fez no RJ, em 2014, deixou marcas profundas na memória de muita gente. ViniJr foi ofendido num jogo Real Madrid x Benfica por um jogador argentino de patronímico italiano. De tanto reparar no mapa mundi do álbum, sua sobrinha vai indagar, dia desses, sobre cositas desse naipe. Boa sorte, escriba. E parabéns pela crônica aguda e oportuna.
ResponderExcluirA Copa do Mundo é uma espécie de reunião de família da humanidade: primos africanos, tios europeus, sobrinhos latino-americanos e parentes espalhados pelos quatro cantos do planeta.
ResponderExcluirAlgumas seleções parecem retratos fiéis da miscigenação do século XXI; outras preservam perfis demográficos mais homogêneos.
A Argentina, realmemte, chama a atenção pela ausência de atletas negros, reflexo de sua história populacional peculiar.
Mas, felizmente, no futebol ninguém vence por melanina, sobrenome ou árvore genealógica.
Ganha quem faz gol e, de preferência, sem precisar consultar o teste de DNA antes do apito inicial.
Deus é brasileiro, com certeza, nem que seja só no futebol
ResponderExcluirE como a danadinha da figurinha tem humilhado a tela do celular! Graças a Deus, ao menos por um tempinho, conseguimos tiramos as crianças das telas desse aparelhinho tão útil e benéfico, mas que, ao mesmo tempo, pode se tornar também, tão prejudicial.
ResponderExcluirSaia justa, você foi colocado, Hayton. Gostei da abordagem, onde chega o Salvador e com misericórdia, nos poupou de um Pelé argentino. Afinal, aturar Messi e Maradona já esgota toda a nossa paciência. Ver o Rei do Futebol de azul e branco seria uma provação acima das nossas forças!🤣🤣🤣🎯🎯🎯🎯
ResponderExcluirOlha, não é por nada, não. Mas até o Japão tem jogadores negros. O que será que acontece com a Argentina. Será que negam até a si mesmos? Vai saber...
ResponderExcluirDizem que o goleiro negro japonês é resultado da tecnologia genética, filho de IA!
ExcluirNada disso! O goleiro da seleção japonesa, Zion Suzuki, nasceu nos Estados Unidos, em Newark, Nova Jersey. É filho de pai ganês-americano e mãe japonesa, mas cresceu e fez toda a sua carreira no Japão.
ExcluirTive uma namorada negra e fizemos uma viagem a Buenos Aires. O racismo dos portenhos está nos olhos, no nariz, no tato e na linguagem dos sinais de asco e nojo. Não é só no time e nas figurinhas. Os “hermanos” dos brancos fedem, exalam xenofobia. Torço sempre contra eles!
ResponderExcluirVc deixou sua sobrinha " matutando" ....
ResponderExcluirmas fez um gol de imaginação. 💢
A Copa do Mundo é um dos poucos eventos capazes de unir pessoas de diferentes culturas, em uma verdadeira mistura de cores, paixões e emoções. Durante a competição, o futebol se torna o centro das atenções de bilhões de olhares ao redor do planeta. Ao longo da história das Copas, o Brasil construiu um legado incomparável, marcado por duas grandes referências: ser o único país hexacampeão mundial e ter dado ao mundo o Rei do Futebol, Pelé, que, sendo negro, simboliza com orgulho o talento, a superação e a grandeza do povo brasileiro.
ResponderExcluirSão extremamente racistas e se acham europeus, uma grande parte da população. Uma vez fui assistir a um daqueles shows culturais em Buenos Aires, aonde aparece de tudo da cultura argentina e senti falta de Mercede Sosa, a voz da América Latina. Fiquei intrigado. Recentemente conversando com alguns hermanos em redes sociais, treinando meu espanhol, ouvi que a grande Mercedes Sosa, nascida em San Miguel de Tucumán, com descendência ameríndia, desde antes de sua morte sofria os preconceitos, também por suas posições progressistas.
ResponderExcluirPara se ter uma ideia, como um fã resolvi buscar uma biografia de Mercedes em espanhol para ler e fiquei chocado que a única disponível é de uma dinamarquesa que se interessou pela bela história de luta e pelo carisma da “cantante” Argentina.
Uma boa dica de leitura:
Mercedes Sosa - A Voz da Esperança
Anette Christensen.
Que a voz de Mercedes Sosa continue ecoando e tocando os corações.
A Argentina discrimina tanto que dá pra contar nos dedos os negros que integraram a seleção de futebol. Lembro de dois: Héctor Baley, goleiro reserva na Copa de 78, não por acaso chamado de “Chocolate”; e Héctor Enrique, volante reserva na Copa de 86, apelidado obviamente de “Negro Enrique”. As coincidências: ambos são Héctor, ambos foram reservas e ambos foram campeões do mundo.
ResponderExcluirEsses dias um amigo notou que as seleções do Norte da África (Marrocos, Egito, Argélia, Tunísia) tem poucos ou nenhum negro no elenco. Não deixa de ser interessante, já que há negros em várias seleções europeias (na França, são maioria absoluta), mas não romperam a barreira do Deserto do Saara!