agosto 12, 2026

Jogando conversa fora

 

JOGANDO CONVERSA FORA

Hayton Rocha

 

Artur e Felipe, ambos na casa dos dez anos, tinham saído do mar. Traziam aquele ar satisfeito de quem acabara de resolver assuntos importantes com o oceano. Um deles veio até onde eu conversava com seu pai, na areia, e explicou:

— A gente estava ali, jogando conversa fora, pensando na vida... De repente, uma onda nos derrubou...





 

Ri. Não pela queda. Crianças caem desde que o mundo é mundo. Achei engraçada a frase daquele pequeno filósofo recém-saído do santuário de águas mornas de São Miguel dos Milagres, interrompendo uma profunda reflexão existencial por culpa de uma onda inconveniente.

 

Fui injusto. Afinal, quem sou eu para constranger uma criança que pensava na vida? Hoje elas chegam à adolescência sabendo mais sobre guerras, golpes financeiros e mudanças climáticas do que muitos da minha geração aprenderam antes dos dezoito anos.

 

Chamam isso de adultização precoce. Não sei. Talvez seja apenas o mundo fazendo das suas cada vez mais cedo. Quando eu tinha a idade deles, pensar na vida preenchia uma parcela muito menor da agenda. Me ocupava com outras coisas.

 

Eu morava em União dos Palmares, na Zona da Mata alagoana, numa época em que ainda não se cogitava negociar a infância para algoritmos e aplicativos. 

 

Brincava de bafo de figurinhas, chimbra (bola de gude), finca, futebol de botão, peladas, peteca e pião. Armava alçapões para papa-capim (cabeça-preta) e extravagante, pescava carás, jundiás e piabas no Rio Mundaú, caçava calangos, descia ladeiras em carrinhos de rolimã e afanava cajus e mangas de um sítio detrás do cemitério com a habilidade de um profissional altamente especializado.

 

Havia outras atividades paralelas. Atribuía apelidos cruéis aos meus sete irmãos menores, quebrava dentes mastigando rolete de cana e participava de pesquisas avançadas sobre o desespero de galinhas chocas quando os filhotes que quebravam a casca dos ovos eram patos e insistiam em nadar na primeira poça de lama que aparecia.

 

Era uma agenda intensa. Pensar na vida simplesmente não cabia. A infância naquele lugar parecia moenda de usina: trabalhava-se o dia inteiro. Sobrava o bagaço. E olhe lá, quando não ia para a fornalha.

 

Só tinha duas coisas capazes de prejudicar tamanha produtividade. A primeira, os favores domésticos: ir à bodega, à feira ou à padaria. A segunda eram as surras, merecidas ou não. Hoje muita gente trata os castigos da antiga pedagogia doméstica como simples folclore familiar. Eu tento, mas quase nunca consigo.

 

Apanhei bastante. Mais do que a dor física, restou a descoberta precoce de que os adultos nem sempre são o abrigo que imaginamos. Quando o medo e a proteção passam a morar na mesma criança, alguma coisa se desalinha dentro dela.

 

Foi assim que aprendi a esconder sentimentos, inventar versões convenientes dos fatos que testemunhava e manter a boca fechada quando me parecia mais oportuno e menos arriscado. Coisa de adulto.

 

Mas fui feliz a maior parte do tempo, não nego. Tão feliz quanto se pode ser quando se vive ralando os joelhos, com o nariz escorrendo, o dedão do pé estropiado de tanto jogar bola e algumas lombrigas disputando espaço com os hormônios e os sonhos.

 

Primeiros socorros eram simples. Queimadura de urtiga se resolvia com gelo. Verruga se combatia com leite de avelós. E quase toda enfermidade — de junta destroncada a corte de arame farpado — parecia responder a uma camada generosa da pomada Iodex ou a uma pincelada de Merthiolate de duvidosa eficácia bactericida.

 

No fim das tardes, via o sol esfriar, desaparecendo atrás da Serra da Barriga, e tentava imaginar quem teria sido Zumbi dos Palmares. Na minha cabeça, ele poderia ser uma mistura de Hércules, Pelé e algum pistoleiro como Pecos ou Ringo, dos filmes de faroeste das matinês de sábado.

 

Nunca encontrei uma resposta definitiva. 


Com o correr dos anos, passei a desconfiar de que envelhecer não é abandonar a criança que fomos. Significa apenas acumular rugas em torno dela.

 

Lembrei disso ao ouvir aquele menino na praia dizendo que estava pensando na vida. Provavelmente já descobriu algo que levei décadas para entender.

 

Enquanto a gente pensa na vida, o mar nem pede licença. De repente, vem uma onda e nos derruba. Com alguma sorte, nos levantamos, sacudimos a areia e retomamos a conversa.

5 comentários:

  1. Acordo às quartas ávida por suas crônicas e essa é filosofia pura

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  2. Hayton, gostei demais desse encontro entre os meninos que caíram com a onda e o menino que você foi. No fundo, a vida parece brincar com a gente do mesmo jeito, em qualquer idade. A gente está ali, “jogando conversa fora, pensando na vida”, e de repente vem uma onda e derruba tudo. E essa onda vem de várias formas. Um chefe mais bravo, um casamento desfeito, uma doença, uma crise financeira, um sol que se põe, um filho que nasce, um beijo escondido, uma chuva no sertão.. E talvez seja exatamente isso: como diz a canção : "nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a viver". Bonita crônica, meu amigo.

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  3. Criança a pensar na vida
    Bem no mar em pleno banho
    É muita filosofia
    Pra gente desse tamanho
    A queda foi diferente
    A onda encontrou batente
    Naquele menino estranho.

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  4. Criança, na sua inocência, traz pra nós adultos ensinamentos que já esquecemos.
    Ah, se o mundo tivesse o conhecimento e a experiência do adulto e a sinceridade das crianças …

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Jogando conversa fora

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 Hayton Rocha   Artur e Felipe, ambos na casa dos dez anos, tinham saído do mar. Traziam aquele ar satisfeito de qu...