ATRÁS DA PORTA
Hayton Rocha
A repercussão da crônica "O mar não é para amadores", publicada há poucos dias sobre os perigos dos cruzeiros marítimos, me trouxe alguma preocupação. E se algum executivo dessas companhias de navegação me acusasse de terrorismo náutico? Numa dessas, eu acabaria sendo obrigado a confessar que tudo não passou do desabafo de um traumatizado pela pandemia diante do risco de passar semanas confinado num hotel em alto-mar.
| Ilustração: Uilson Morais (Umor) |
No entanto, deixaria claro que jamais afirmei que todos os cruzeiros são perigosos. Mais: se me oferecerem uma passagem gratuita para provar o contrário, continuarei recusando a viagem nesses palácios flutuantes.
Só reconsidero se instalarem no convés um hospital completo, com UTI, centro cirúrgico, infectologistas, pneumologistas, laboratório de análises clínicas e, por cautela, um anjo da guarda de prontidão.
Alguns dirão que é prudência. Outros, que é covardia. Pouco importa. Quase nunca separo uma coisa da outra.
Um leitor amigo resolveu contemporizar. "Nem tanto ao mar nem tanto à terra", escreveu. Gostei da observação. Tanto que passei a refletir sobre o destino dos milhares de litros de dejetos sólidos, líquidos e tudo aquilo que a elegância literária recomenda não descrever, produzidos diariamente por uma pequena cidade em pleno oceano.
Nem tanto ao mar. Nem tanto à terra. Mas exatamente onde?
A pergunta me ocupou por algumas horas. Certas inquietações se alojam na nossa cabeça de modo traiçoeiro. Para onde vai o conteúdo de milhares de descargas quando não existe rede de esgoto, estação de tratamento ou candidato prometendo saneamento básico? Prefiro acreditar que tudo seja tratado com rigor científico antes de retornar à natureza.
A dúvida ainda é o mais confortável esconderijo dos otimistas.
Outro leitor amigo me enviou um vídeo protagonizado por um médico. Esses médicos modernos não se contentam mais em combater doenças. Resolveram também fiscalizar hábitos, corrigir costumes e destruir a tranquilidade alheia.
Segundo o doutor, deixar a toalha secando dentro do banheiro, por exemplo, é um erro quase criminoso. A explicação envolvia bactérias, células mortas, descargas sanitárias e uma série de detalhes microbiológicos capazes de transformar um simples banho numa experiência traumática.
Não repetirei tudo aqui por respeito às almas mais sensíveis. Basta dizer que, ao final do vídeo, minha toalha pendurada atrás da porta já não parecia uma toalha. Parecia uma emboscada. A escova de dentes adquiriu aparência suspeita. O sabonete começou a inspirar desconfiança.
O médico citava pesquisas científicas. Falava de bactérias encontradas em toalhas compartilhadas. Mencionava estudos japoneses. Sempre os japoneses. Não satisfeitos em fabricar automóveis que não quebram e câmeras que fotografam crateras na Lua, resolveram agora investigar a vida secreta das toalhas.
A ciência possui passatempos curiosos. O resultado foi suficiente para provocar uma crise existencial em boa parte dos internautas brasileiros.
Houve quem prometesse trocar toalhas diariamente. Outros cogitaram instalar varais na sala. Alguém declarou que estudava a viabilidade econômica de transformar a varanda num centro de secagem industrial.
A paranoia é uma planta resistente. Cresce em qualquer terreno quando irrigada por vídeos de internet. Mas o episódio me permitiu uma conclusão inesperada.
Passei anos desconfiando do oceano. Temendo acidentes, confinamentos, surtos e tempestades. Como tantas pessoas da minha geração, cresci acreditando que os perigos moravam longe. Nas selvas, nos desertos, nos mares revoltos. Os antigos enchiam os mapas de monstros marinhos. Dragões aquáticos, serpentes gigantes, criaturas capazes de engolir embarcações inteiras.
O desconhecido sempre viveu além do horizonte. Talvez por isso a humanidade tenha atravessado séculos olhando para fora. Vigiando o mar. Observando o céu. Temendo monstros que imaginava escondidos depois da última onda.
Enquanto isso, o perigo aperfeiçoava sua estratégia. Mudava-se para dentro de casa. Instalava-se discretamente atrás da porta do banheiro. Passava a morar numa toalha úmida.
Existe certa ironia nisso. A mesma espécie que atravessou oceanos em caravelas precárias, enfrentou continentes desconhecidos, guerras, naufrágios, pestes e tempestades agora passa parte do dia discutindo partículas microscópicas que podem pousar sobre uma toalha felpuda.
A civilização avançou muito, mas a ansiedade correu mais rápido. Essa talvez seja a verdadeira história da humanidade. Mudam os séculos, mudam os perigos, mudam os nomes dos monstros. Mas continuamos os mesmos. Nossos antepassados temiam dragões marinhos que nunca existiram. Nós tememos monstros menores que existem. Não se sabe qual geração dormiu melhor.
Pensando bem, talvez os antigos estivessem certos em desenhar monstros nos mapas. A diferença é que os deles viviam no oceano. Os nossos moram no banheiro. E costumam ficar pendurados atrás da porta.
Nossos avós estavam certos. Nas casa de antigamente a “casinha”, ficava lá no terreiro. Dureza era a dor de barriga à noite, no escuro, às vezes com chuva. Mas as porqueiras ficam longe das toalhas e escovas
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