julho 08, 2026

Atrás da porta

 

ATRÁS DA PORTA
Hayton Rocha


A repercussão da crônica "O mar não é para amadores", publicada há poucos dias sobre os perigos dos cruzeiros marítimos, me trouxe alguma preocupação. E se algum executivo dessas companhias de navegação me acusasse de terrorismo náutico? Numa dessas, eu acabaria sendo obrigado a confessar que tudo não passou do desabafo de um traumatizado pela pandemia diante do risco de passar semanas confinado num hotel em alto-mar.



Ilustração: Uilson Morais (Umor)


 

No entanto, deixaria claro que jamais afirmei que todos os cruzeiros são perigosos. Mais: se me oferecerem uma passagem gratuita para provar o contrário, continuarei recusando a viagem nesses palácios flutuantes.

 

Só reconsidero se instalarem no convés um hospital completo, com UTI, centro cirúrgico, infectologistas, pneumologistas, laboratório de análises clínicas e, por cautela, um anjo da guarda de prontidão.

 

Alguns dirão que é prudência. Outros, que é covardia. Pouco importa. Quase nunca separo uma coisa da outra.  

 

Um leitor amigo resolveu contemporizar. "Nem tanto ao mar nem tanto à terra", escreveu. Gostei da observação. Tanto que passei a refletir sobre o destino dos milhares de litros de dejetos sólidos, líquidos e tudo aquilo que a elegância literária recomenda não descrever, produzidos diariamente por uma pequena cidade em pleno oceano.

 

Nem tanto ao mar. Nem tanto à terra. Mas exatamente onde?

 

A pergunta me ocupou por algumas horas. Certas inquietações se alojam na nossa cabeça de modo traiçoeiro. Para onde vai o conteúdo de milhares de descargas quando não existe rede de esgoto, estação de tratamento ou candidato prometendo saneamento básico? Prefiro acreditar que tudo seja tratado com rigor científico antes de retornar à natureza. 

 

A dúvida ainda é o mais confortável esconderijo dos otimistas.

 

Outro leitor amigo me enviou um vídeo protagonizado por um médico. Esses médicos modernos não se contentam mais em combater doenças. Resolveram também fiscalizar hábitos, corrigir costumes e destruir a tranquilidade alheia.

 

Segundo o doutor, deixar a toalha secando dentro do banheiro, por exemplo, é um erro quase criminoso. A explicação envolvia bactérias, células mortas, descargas sanitárias e uma série de detalhes microbiológicos capazes de transformar um simples banho numa experiência traumática.

 

Não repetirei tudo aqui por respeito às almas mais sensíveis. Basta dizer que, ao final do vídeo, minha toalha pendurada atrás da porta já não parecia uma toalha. Parecia uma emboscada. A escova de dentes adquiriu aparência suspeita. O sabonete começou a inspirar desconfiança.

 

O médico citava pesquisas científicas. Falava de bactérias encontradas em toalhas compartilhadas. Mencionava estudos japoneses. Sempre os japoneses. Não satisfeitos em fabricar automóveis que não quebram e câmeras que fotografam crateras na Lua, resolveram agora investigar a vida secreta das toalhas.

 

A ciência possui passatempos curiosos. O resultado foi suficiente para provocar uma crise existencial em boa parte dos internautas brasileiros.

 

Houve quem prometesse trocar toalhas diariamente. Outros cogitaram instalar varais na sala. Alguém declarou que estudava a viabilidade econômica de transformar a varanda num centro de secagem industrial.

 

A paranoia é uma planta resistente. Cresce em qualquer terreno quando irrigada por vídeos de internet. Mas o episódio me permitiu uma conclusão inesperada. 

 

Passei anos desconfiando do oceano. Temendo acidentes, confinamentos, surtos e tempestades. Como tantas pessoas da minha geração, cresci acreditando que os perigos moravam longe. Nas selvas, nos desertos, nos mares revoltos. Os antigos enchiam os mapas de monstros marinhos. Dragões aquáticos, serpentes gigantes, criaturas capazes de engolir embarcações inteiras.

 

O desconhecido sempre viveu além do horizonte. Talvez por isso a humanidade tenha atravessado séculos olhando para fora. Vigiando o mar. Observando o céu. Temendo monstros que imaginava escondidos depois da última onda. 

 

Enquanto isso, o perigo aperfeiçoava sua estratégia. Mudava-se para dentro de casa. Instalava-se discretamente atrás da porta do banheiro. Passava a morar numa toalha úmida.

 

Existe certa ironia nisso. A mesma espécie que atravessou oceanos em caravelas precárias, enfrentou continentes desconhecidos, guerras, naufrágios, pestes e tempestades agora passa parte do dia discutindo partículas microscópicas que podem pousar sobre uma toalha felpuda.

 

A civilização avançou muito, mas a ansiedade correu mais rápido. Essa talvez seja a verdadeira história da humanidade. Mudam os séculos, mudam os perigos, mudam os nomes dos monstros. Mas continuamos os mesmos. Nossos antepassados temiam dragões marinhos que nunca existiram. Nós tememos monstros menores que existem. Não se sabe qual geração dormiu melhor.

 

Pensando bem, talvez os antigos estivessem certos em desenhar monstros nos mapas. A diferença é que os deles viviam no oceano. Os nossos moram no banheiro. E costumam ficar pendurados atrás da porta.

12 comentários:

  1. Nossos avós estavam certos. Nas casa de antigamente a “casinha”, ficava lá no terreiro. Dureza era a dor de barriga à noite, no escuro, às vezes com chuva. Mas as porqueiras ficam longe das toalhas e escovas

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    1. Se bem, Isa, que, como as casas não tinham banheiros internos como hoje, guardavam-se os penicos (urinóis ou bacias) embaixo da cama ou em móveis de cabeceira, para que não fosse necessário ir até o quintal durante a madrugada.

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    2. Nem fale de penicos… eu, 8 anos, magricela, franzina tinha a obrigação matinal de ir verter os penicos dos quartos dos pais e irmãos. Da cozinha ao terreiro tinha uma escada e os penicos cheios de tudo, muitas vezes no balanço de meus passos trêmulos, entornavam o conteúdo nauseabundo nas minhas mãos

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  2. Grande Hayton. Sua crônica traduz com precisão a nossa ironia moderna. Falo por nós, do BB, e por outros milhares que vivenciaram essas mesmas batalhas. Sobrevivemos a reestruturações brutais, ao "Novo Rosto", a reengenharias que extinguiram cargos, a transferências compulsórias e a metas dobradas. Hoje, na calmaria da paz conquistada, criamos novos monstros para combater. Trocamos a rotina de matar leões no banco pelo rastreamento de poeira no banheiro, pela contagem de passos e pela neurose da umidade do ar. Escapamos dos grandes perigos do mundo para nos tornarmos reféns das pequenas cismas domésticas.
    Simbora viver, contemplar e nadar em algumas águas calmas do oceano. 🥂🍻

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  3. Haydee Jurema da Rocha8 de julho de 2026 às 06:42

    Como alguém já falou: " Quem procura acha!"
    Vamos viver a vida com mais leveza... Não podemos esquecer que o contato com esses seres " invisíveis" obrigam o nosso sistema imunológico a trabalhar. A " máquina humana" não não pode ser trancafiada num armário, sob pena de enferrujar.
    Sem contar com os "desequilíbrios mentais" oriundos desse tal "desenvolvimento tecnológico."

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  4. Crônica pedagogica!!!
    E o assunto veio do mar até chegar dentro de casa!!!! Só faltou a recomendação de dar descarga com a tampa do vaso abaixada, na tentativa de prender as bactérias dentro dele. Kkkkk. Ah! E hoje apareceu no face uma mulher dizendo que o marido teve uma virose por e.coli. Se ela tivesse lido sua crônica teria tomado providências e o marido não teria tido a virose.Nelza Martins

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  5. Se já temos tanta coisa para nos preocupar, por que criamos mais tantos problemas?

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    1. É isso, amigo. Como diz a máxima atribuída à sabedoria oriental: se há solução, não há motivo para desespero; se não há, o desespero é inútil.

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  6. Bom dia amigo, preciosa crônica. Sem falar nos falsos médicos criados pela IA que estão povoando as redes sociais com recomendações "segundo Havard". Outro dia me mandaram um desses vídeos, que num tem quem diga que nun é falso, e é. E o médico ensinava como um veio deve entrar no banho. Fiquei pensando que se eu seguir aqueles procedimentos de primeiro molha aquilo, depois aquilo e aquilo, nunca mais tomarei banho. Até termômetro na água a leste do médico Iaiano recomendou, porque disse que nos os de pele enrugada podemos ter choque térmico. No reino dos perigos, prefiro me fingir de bobo e ignorante, pra conseguir desfrutar de um bom banho do jeito que gosto.

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  7. O tempo passa e os hábitos continuam em harmonia com as bactérias. A tal da covid foi um alerta para futuras gerações, mas deixou em cada família uma grande mágoa. Por outro lado, trouxe a calma de que precisamos desacelerar dessa vida agitada. Eu, como bebo, tenho a coragem de atravessar o Atlantico , se possível com a bebida inclusa no pacote.

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  8. Bom dia amigo Hayton.
    Bela crônica.
    A época atual nos trouxe a doença de procurarmos doenças.

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  9. Caro Hayton, uma excelente crônica. Quanto ao mar, guardo distância: nem nadar aprendi. Já as toalhas, ao longo dos meus 82 anos, troco-as ao achar conveniente.

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