JOGANDO CONVERSA FORA
Hayton Rocha
Artur e Felipe, ambos na casa dos dez anos, tinham saído do mar. Traziam aquele ar satisfeito de quem acabara de resolver assuntos importantes com o oceano. Um deles veio até onde eu conversava com seu pai, na areia, e explicou:
— A gente estava ali, jogando conversa fora, pensando na vida... De repente, uma onda nos derrubou...
Ri. Não pela queda. Crianças caem desde que o mundo é mundo. Achei engraçada a frase daquele pequeno filósofo recém-saído do santuário de águas mornas de São Miguel dos Milagres, interrompendo uma profunda reflexão existencial por culpa de uma onda inconveniente.
Fui injusto. Afinal, quem sou eu para constranger uma criança que pensava na vida? Hoje elas chegam à adolescência sabendo mais sobre guerras, golpes financeiros e mudanças climáticas do que muitos da minha geração aprenderam antes dos dezoito anos.
Chamam isso de adultização precoce. Não sei. Talvez seja apenas o mundo fazendo das suas cada vez mais cedo. Quando eu tinha a idade deles, pensar na vida preenchia uma parcela muito menor da agenda. Me ocupava com outras coisas.
Eu morava em União dos Palmares, na Zona da Mata alagoana, numa época em que ainda não se cogitava negociar a infância para algoritmos e aplicativos.
Brincava de bafo de figurinhas, chimbra (bola de gude), finca, futebol de botão, peladas, peteca e pião. Armava alçapões para papa-capim (cabeça-preta) e extravagante, pescava carás, jundiás e piabas no Rio Mundaú, caçava calangos, descia ladeiras em carrinhos de rolimã e afanava cajus e mangas de um sítio detrás do cemitério com a habilidade de um profissional altamente especializado.
Havia outras atividades paralelas. Atribuía apelidos cruéis aos meus sete irmãos menores, quebrava dentes mastigando rolete de cana e participava de pesquisas avançadas sobre o desespero de galinhas chocas quando os filhotes que quebravam a casca dos ovos eram patos e insistiam em nadar na primeira poça de lama que aparecia.
Era uma agenda intensa. Pensar na vida simplesmente não cabia. A infância naquele lugar parecia moenda de usina: trabalhava-se o dia inteiro. Sobrava o bagaço. E olhe lá, quando não ia para a fornalha.
Só tinha duas coisas capazes de prejudicar tamanha produtividade. A primeira, os favores domésticos: ir à bodega, à feira ou à padaria. A segunda eram as surras, merecidas ou não. Hoje muita gente trata os castigos da antiga pedagogia doméstica como simples folclore familiar. Eu tento, mas quase nunca consigo.
Apanhei bastante. Mais do que a dor física, restou a descoberta precoce de que os adultos nem sempre são o abrigo que imaginamos. Quando o medo e a proteção passam a morar na mesma criança, alguma coisa se desalinha dentro dela.
Foi assim que aprendi a esconder sentimentos, inventar versões convenientes dos fatos que testemunhava e manter a boca fechada quando me parecia mais oportuno e menos arriscado. Coisa de adulto.
Mas fui feliz a maior parte do tempo, não nego. Tão feliz quanto se pode ser quando se vive ralando os joelhos, com o nariz escorrendo, o dedão do pé estropiado de tanto jogar bola e algumas lombrigas disputando espaço com os hormônios e os sonhos.
Primeiros socorros eram simples. Queimadura de urtiga se resolvia com gelo. Verruga se combatia com leite de avelós. E quase toda enfermidade — de junta destroncada a corte de arame farpado — parecia responder a uma camada generosa da pomada Iodex ou a uma pincelada de Merthiolate de duvidosa eficácia bactericida.
No fim das tardes, via o sol esfriar, desaparecendo atrás da Serra da Barriga, e tentava imaginar quem teria sido Zumbi dos Palmares. Na minha cabeça, ele poderia ser uma mistura de Hércules, Pelé e algum pistoleiro como Pecos ou Ringo, dos filmes de faroeste das matinês de sábado.
Nunca encontrei uma resposta definitiva.
Com o correr dos anos, passei a desconfiar de que envelhecer não é abandonar a criança que fomos. Significa apenas acumular rugas em torno dela.
Lembrei disso ao ouvir aquele menino na praia dizendo que estava pensando na vida. Provavelmente já descobriu algo que levei décadas para entender.
Enquanto a gente pensa na vida, o mar nem pede licença. De repente, vem uma onda e nos derruba. Com alguma sorte, nos levantamos, sacudimos a areia e retomamos a conversa.

Acordo às quartas ávida por suas crônicas e essa é filosofia pura
ResponderExcluirHayton, gostei demais desse encontro entre os meninos que caíram com a onda e o menino que você foi. No fundo, a vida parece brincar com a gente do mesmo jeito, em qualquer idade. A gente está ali, “jogando conversa fora, pensando na vida”, e de repente vem uma onda e derruba tudo. E essa onda vem de várias formas. Um chefe mais bravo, um casamento desfeito, uma doença, uma crise financeira, um sol que se põe, um filho que nasce, um beijo escondido, uma chuva no sertão.. E talvez seja exatamente isso: como diz a canção : "nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a viver". Bonita crônica, meu amigo.
ResponderExcluirCriança a pensar na vida
ResponderExcluirBem no mar em pleno banho
É muita filosofia
Pra gente desse tamanho
A queda foi diferente
A onda encontrou batente
Naquele menino estranho.
Excelente! Gil Messi.
ResponderExcluirCriança, na sua inocência, traz pra nós adultos ensinamentos que já esquecemos.
ResponderExcluirAh, se o mundo tivesse o conhecimento e a experiência do adulto e a sinceridade das crianças …
Bom dia, mestre Hayton!
ResponderExcluirQuarta-feira de letras e de reminiscências, quanto é bom estarmos vivos para acompanhar a evolução da criançada de hoje!
Sou, como você, avô e avô de dois meninos: um aborrecente e outro em jardim de infância; um vivendo a nossa cultura e outro a cultura germânica.
Nesta quadra estou a conviver com o cultura germânica, reciclando o aprendizado sobre as rígidas regras do lugar, assessorado pelo Mathias, este é o seu nome (mais abrasileirado que germânico)
Por volta me pego com Mathias me pasando um especial (risos), um garotinho de cinco anos botando o avô no seu devido lugar.
-- meu avô, é assim, olhe!, e faz o gesto explicativo de como a ação pessoal deve ser praticada. Aqui é diferente do Brasil. Não fique no centro da calçada porque passa bicicleta, fique sempre aqui, olhe!, e se põe a andar no lado direito da calçada.
Alegria de avô e aprendizado necessário e constante.
Do neto adolescente, muito mais conselhos, às vezes gozações quando o meu Vitória (Esporte Clube Vitória, o Leão da Barra) perde uma partida de futebol, doutra feita alguma preocupação com o desequilíbrio do avô ao caminhar com ele e, ainda, a preferência por clubes de futebol da Champions League.
Perguntamentos há e de ambos os flancos, um sobre se eu gosto ou não de certa comida do lugar; outro se estou me dedicando à academia(não a de letras rsrs) para fortalecimento da musculatura e destravar a velhice.
Não há nada no mundo mais gostoso do que ser avô, conheci de perto esta sensação há quatorze anos e repitiu-se há cinco anos quando estive presente no nascimento do germano-suiço-brasileiro, em terras de Friederich Hegel.
Tenho que os pensamentos dos meus dois netos diferen um pouco dos seus, dado que as idades são extremamente disparos, mas sou cônscio de pensam na vida, cada um a seu modo.
Ave Vivô!
Ave Criança!
Ave inocência!
Abraçaco daqui de Munique, Alemanha.
Tonho do Paiaiá
Bom dia meu caro Parahyba!
ResponderExcluirSenhor do tempo.
Essa é a alcunha que dei à crônica de hoje.
Viajei pela minha infância e adolescência.
Enquanto lia visitei várias vezes o locomove🚂 (engenho de ferro com máquina de Maria Fumaça), da Fazenda Marinheiro, do meu avô “Coronel” Quintino Cunha.
Viajei a bordo de cada palavra que dizia a sua história de menino do interior.
Quanto aos filósofos mirins, seus netos, o que estão a fazer, nada mais, nada menos do que aproveitar a luminosidade dos tempos de hoje 👀
E por falar em netos, estou com as minhas por aqui. Uma italiana, 16 anos e um portuguesa, 2 anos, ambas reinando sobre o meu coração e expedindo severas ordens de felicidade sem limites.
Pena que já retornarão à Europa no próximo fim de semana 🥲🫶
Abraço 🫂