agosto 05, 2026

Nem me venha com essa!

 

 

NEM ME VENHA COM ESSA!

Hayton Rocha

 

 

Diz um amigo que pede a Deus todo dia para poupá-lo de virar um velho ranzinza como eu. Repete isso sempre que nos encontramos, embora reconheça que circula por aí uma coletânea de frases feitas capazes de provocar em qualquer pessoa dores auditivas, visuais e, dependendo da gravidade, até espirituais.


 

Ilustração: Uilson Morais (Umor)


 

Antes que a comunidade linguística me corte o pescoço ou me condene à fogueira dos estúpidos, peço que considere estas linhas apenas o resmungo de um galo velho metendo o bico onde não é chamado.


Claro, já não perco tempo com “prever o futuro” ou “elo de ligação”. A ciência ainda deve à humanidade um colírio e uma solução otológica contra essas construções. O problema agora é outro. Minha rabugice lateja diante de frases que alguns não se cansam de repetir sem prestar atenção ao que significam.

 

Comecemos pela ilustre afirmação de que “gosto não se discute”. Como não se discute? Se alguém me disser que prefere cebola crua a doce de leite, vou discutir, claro. Se sustentar que surgiram jogadores de futebol mais completos do que Pelé, não vou nem contestar: chamarei um médico para avaliar se estamos diante de um problema de visão ou de um caso clínico mais delicado. Há gostos pessoais e há diagnósticos. Confundir uma coisa com a outra é perigoso.

 

Outra expressão que me faz coçar a sobrancelha é “na minha modesta opinião”. A frase encerra um paradoxo admirável. Quem precisa anunciar a própria modéstia já fracassou no teste antes de fazê-lo. É como alguém se apresentar dizendo que sua maior virtude é a humildade. Se a criatura considera sua opinião tão modesta assim, talvez faça um enorme favor guardando-a exclusivamente para si.

 

Na mesma prateleira ficam “eu, pessoalmente, acho” e “eu, sinceramente, penso”. Você já imaginou se a pessoa resolvesse falar em nome da humanidade inteira? Que alívio saber que a opinião é pessoal! Ou devo entender que, nas demais ocasiões, ela emitia opiniões impessoais e mentirosas?

 

Também desconfio de quem, numa conversa, começa uma resposta dizendo “veja bem”. Quem recorre a esse fôlego reflexivo geralmente não quer que vejamos coisa nenhuma. Está apenas ganhando tempo para embrulhar em papel celofane a sua versão dos fatos.

 

A esposa pergunta ao marido:

— Você vai chegar cedo hoje?

— Veja bem...

Entenda-se: vai ao boteco tomar chope com os amigos.

 

O marido descobre na fatura do cartão a compra de uma bolsa de três mil reais:

— Você teve coragem?

— Veja bem...

Entenda-se: comprou, não aceita devolução e ainda considera a pergunta uma violência psicológica.

 

Tem ainda aquele palavreado estranho dos boletins policiais. Neles, bandido não foge: “empreende fuga”. Ninguém veste blusa ou calça: “traja uma peça de cor...”. E ninguém simplesmente morre: “não resiste e vem a óbito”. Se morreu, é claro, não tinha mesmo como continuar resistindo. A morte, até onde se sabe, raramente admite recurso.

 

No esporte, então, os clichês desafiam até a Matemática. Não é raro um treinador exigir que seus atletas deem 110% em campo. Nunca entendi de onde sairão os 10% restantes. E não me digam que é apenas figura de retórica. Se não há compromisso com a ciência, que peça logo 200%. Pelo menos o exagero ganha alguma ambição.

 

A pior de todas talvez seja “o importante é participar”. Mentira! O importante é ganhar. Quem diz o contrário quase sempre perdeu e tenta transformar o fracasso em filosofia de vida. Nunca vi um campeão olímpico devolver a medalha de ouro porque participar lhe pareceu suficiente. Se você já viu, por favor, me aponte o atleta, que reconsidero o que afirmo.

 

Mas reconheço que ninguém está livre do pecado. Reli alguns textos meus e encontrei excrescências do tipo “para dizer a verdade”, como se precisasse avisar quando não estivesse mentindo. Escrevi “para começo de conversa”, embora jamais tenha iniciado conversa pelo fim. Também usei “eu, se fosse você”, hipótese impossível, pois, se eu fosse você, deixaria de ser eu. Descobri até que já falei em “pequenos detalhes”. Existem grandes detalhes? 

 

Pelo visto, o amigo a quem me refiro no início desta crônica, e que continuará rezando para não envelhecer como eu, tem razão. Entrar na velhice discutindo com frases prontas não parece ocupação muito saudável.

 

Mas, veja bem... Se isso é ser ranzinza, aceito o diagnóstico. Pior seria atravessar a vida repetindo lugares-comuns sem perceber que alguns já nascem precisando ser enterrados. De preferência depois de virem a óbito.

42 comentários:

  1. Veja bem, eu, sinceramente, se fosse você, não comentaria sobre um tema que vai dar muito pano pra manga: rabugice na velhice. 🫢😂

    Nos últimos anos, quando recebo um elogio, evito usar a expressão *"Obrigado pela parte que me toca"*. Não digo isso nem para o meu urologista!

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  2. " limite extremo" na fórmula 1 era muito usado aos domingos

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    1. Acrescente aí quórum mínimo (nas assembléias de condomínio) e teto máximo a essa lista infindável! 😂

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  3. Bom dia Caríssimo Parahyba!
    Hoje a coisa atravessou o Rubicão.
    Fui, atentamente, sorvendo as letras e reconhecendo personagens variados. No BB tinha e ainda existe farta quantidade de filósofos produzindo essas “máximas” que fazem ecoar doridos gemidos no velho “doca” 👴 Luiz Vaz de Camões.
    Já que atravessamos o oceano 🌊, esses, são anônimos imitadores do Conselheiro Acácio. E viva o grande Eça 🧐
    Fraterno amplexo 🤝🫶🤝

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    1. Uau gostei dessa opinião, desde os tempos do Luiz Vaz de Camões @

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  4. Bela crônica! Desses achados, o que mais dói no ouvido é mesmo o “elo de ligação”, talvez o mais usado, como se existisse o elo de separação. Nelza Martins

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  5. Crônica top, Hayton, Imagine nós do Banco do Brasil atendendo o produtor rural lá no Setop e falando "veja bem", e o produtor respondendo "o senhor tá me chamando de cego".
    Sua crônica é um belo exemplo da ranzinzice elegante, mostrando que reclamar de clichês é a melhor terapia mental que um bom "homem na boa idade" pode praticar.
    Lendo a crônica, lembrei de uma cena de um atendimento no guichê de caixa, onde o colega falou: "No futuro, apresente o dinheiro todo encabeçado", e ouviu a réplica "estou no presente e nem sabia que dinheiro tem cabeça".
    Seu texto, de forma bem humorada destrói o mito de que "o importante é participar", mostrando que o mau humor, quando bem praticado, vira pura arte da vida e para a vida.
    Simbora viver e apreciar os bons momentos dos diversos ciclos da vida, inclusive a ranzinzice.🤗🤝🎯

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    1. Essa de encabeçar o dinheiro , me trouxe muitas lembranças hilárias. Kkkk

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  6. Caro Hayton.
    Desta feita você nos oferece o prazer de reconhecer, sob a aparência de um desabafo, uma inteligência atenta às pequenas deformações da linguagem cotidiana e às racionalizações que usamos para justificar opiniões, hábitos e derrotas. Aqui a rabugice evidenciada é apenas o veículo de uma observação aguda: expressões repetidas até o automatismo, quando examinadas de perto, revelam contradições, exageros e maneiras discretas de maquiar a realidade. O humor nasceu justamente desse descompasso entre a solenidade das fórmulas e a simplicidade, ou a fragilidade, das situações em que são empregadas.
    Sua crônica ganhou força por não transformar essa vigilância linguística em superioridade. Ao confessar que também recorreu a “para dizer a verdade”, “para começo de conversa”, “eu, se fosse você” e “pequenos detalhes”, você acabou por incluir a si próprio entre os usuários imperfeitos da língua. Essa autocrítica é essencial: em vez de um sermão sobre o modo correto de falar, temos uma conversa espirituosa e cúmplice, na qual nos leitores nos divertimos com os vícios alheios e, quase inevitavelmente, nós reconhecemos em alguns deles.
    São particularmente felizes os exemplos de “veja bem”, dos boletins policiais e dos clichês esportivos. A expressão aparentemente ponderada transforma-se em expediente para adiar ou disfarçar uma verdade; o vocabulário burocrático distancia a linguagem dos fatos concretos; e a exigência de “110%” expõe a retórica inflacionada que pretende substituir precisão por entusiasmo. O mesmo olhar desmonta “o importante é participar”, mostrando como certos lugares-comuns podem funcionar menos como verdades universais do que como consolos formulados depois que a vitória já escapou.

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  7. Excelente crônica. Já estou nessa fase da rabugice. Não é nada bom
    Abraço

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  8. O gosto não se discute
    Cada qual com sua mania
    Conversa repetitiva
    Que diz o que eu já sabia
    Minha modesta opinião
    É que tem ocasião
    Onde a frase evidencia.

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  9. Difícil escapar de cair nessas armadilhas, caro Hayton. Parabéns por mais essa bela crônica.

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  10. Amei! Nem preciso dizer porque!.... kkkkk

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  11. Com estas frases, "Seu Saraiva" está impaciente com a sua "tolerância zero".
    Quando um não quer..., o outro toma porrada sozinho. Se sair da linha.... Nunca soube que o trem rodava fora dos trilhos.

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  12. Uai gosto se discute sim! Eu odeio coentro, que para mim é uma salsa com raiva. Detesto cebolas e assim me surpreendo quando alguém deita coentro nas moquecas e cebolas no tutu

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  13. ROBERTO SANTOS FERNANDES5 de agosto de 2026 às 07:26

    Bela crônica, parabéns mais uma vez!

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  14. E o cotidiano está cheio dessas pérolas. Excelente crônica

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  15. Olhe, Hayton, veja bem...
    Desconfio que Deus, ao perceber que a gente vai ficando velho, resolve diminuir gradativamente a cota de paciência. É como bateria de celular antigo: começa o dia em 100% e, na primeira expressão da moda ou no primeiro "posicionamento" performático, já está pedindo carregador.
    Resultado: qualquer observação mais sincera basta para sermos promovidos à categoria de "velhos ranzinzas". Antigamente chamavam isso de bom senso; hoje virou defeito de fabricação.
    É claro que gosto é como fiofó: cada um tem o seu, mas há certas coisas que desafiam qualquer teoria da tolerância e nem seu Lunga, em seus dias mais inspirados, conseguiria assistir impassível. Nessas horas, resta apenas respirar fundo, balançar a cabeça e repetir o velho bordão: é, o mundo mudou... embora nem sempre tenha sido para melhor.
    Acho que até seu Lunga, se lesse esse comentário, resmungaria apenas um: "é... faz sentido".

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  16. Vc não é ranzinza .E para mim é um cronista completo com seus temas sempre atuais.AMO recebé-los !!🍀

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  17. Antes tarde do que nunca. Em certas situações e ambientes é melhor entrar mudo e sair calado. Reclamou é miocalá. James

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  18. Pior é quando a pessoa ainda quer justificar dizendo que apenas está se valendo de uma hipérbole, de um eufemismo, de um litote ou um de simples pleonasmo!
    Ser um bom ranzinza também é uma arte! Rsrs

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  19. Antes de falar, vale sempre refletir: quem diz o que quer, muitas vezes acaba ouvindo o que não quer. Isso significa que devemos medir todas as palavras? Sim e não. Tudo depende do momento, do ambiente e do estado de espírito de quem fala e de quem ouve. O mais importante é que a comunicação consiga transmitir a mensagem com respeito e clareza. E, Hayton, é muito melhor ter amigos críticos, que nos fazem pensar e crescer, do que não ter amigos. Parabéns pela crônica instigante de hoje!

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  20. “Se você parar pra pensar”, faz muito sentido.

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  21. mt bom. "A rigor" o q incomoda tanto qto estas frases é qdo vc fica 1 ano desenvolvendo algo e "lavra de próprio punho" uma nota técnica. Entrega para seu "chefe" q ja esta esperando com uma caneta na mão. Ele fica uma semana mudando adjetivos. Enquanto isso o tempo passa. Competência para criar algo ele não tem, porém para rabiscar....... Luis Antonio.

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  22. Parabéns pela bela crônica da rabugice.
    A ilustração, impagável

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  23. Dizem que nenhuma experiência é única e me reconheci na citação do amigo. Amei. Dedé Dwight

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  24. Ademar Rafael Ferreira5 de agosto de 2026 às 09:53

    Até o meu gosto eu discuto, dos outros não concordar respeito mas discuto sim. A crônica ratifica esse posicionamento.

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  25. Ôpa! Meu Cumpade.

    Argumento arretado da sua crônica, e direto feito dedo na venta.

    Existe uma frase médica correta, e muito usual, mas que a gente espera outra coisa:
    É quando o médico diz que o paciente "evoluiu" para óbito.
    Se a frase dele parar no "evoluiu", o caba pensa logo: ÔPA! Tá curado. Escapou.

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  26. Genial como sempre, meu Amigo!

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  27. Eu desisti e sigo o exemplo do Professor Pasquale Cipro Neto: Ele aceita novas formas de falar, desde que haja adequação ao contexto e defende que a língua é viva e muda com o tempo. Entretanto diferencia o uso informal do dia a dia da norma-padrão exigida em situações formais (fonte: ajuda de IA).

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  28. Show de bola👏👏👏👏👏Gil Messi.

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  29. Esses vícios linguísticos incomodam mesmo.
    E é tão comum ouvir tais citações que, às vezes, bocejamos de tédio.
    Sua crônica, Hayton, nos lembra que devemos nos policiar sobre isso.

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  30. Amigo Hayton,
    “Do meu ponto de vista”, vc se revela mais ranzinza na mesma proporção em que enriquece a criatividade e objetividade de seus textos

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  31. Velho não rabugento é muito chato. Não vamos exagerar, porém. Mais uma excelente crônica que dá margem a ótimos comentários. Já devidamente repassada

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  32. Pra começo de conversa, veja bem, ah, como veja bem!!!!! - confesso ser até um pouco viciado nessa expressão, então, veja bem.
    Vamos agora às concordâncias. Sim, como não se discutir o gosto, vamos ignorar o mau gosto???
    Dá pra aceitar, por exemplo, sem um mínimo de crítica, que alguém muito ilustrado, portador também de muitos outros valores reconhecidos e exaltados por todos, inclusive uma sensibilidade ímpar, possa deixar de torcer, no futebol, por um time como o Flamengo, trocando-o por um Vasco ou adjacentes????
    Claro que estou fazendo ilação, pois não conheço nenhum caso assim, nem acredito que exista, mas, se existir, como não discutir???
    Enfim, sua inimaginável, impagável e insuperável criação veio nos aliviar, temos direito sim a exercer senso crítico em algumas situações.
    Efusivos parabéns, mas que sua peça deu um nó na cabeça de muita gente, não tenha a mínima dúvida.

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  33. Hahahahaha
    Perfeito, mas ninguém está completamente livre desses pequenos pecados.
    Gosto muito da introdução “com todo o respeito”, que normalmente significa respeito zero (à ideia, pelo menos).

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  34. "Arengar"! Não tem coisa melhor, quando a "arenga" é bem dosada e não descamba para o conflito. É muito bom, depois de "fazer de conta" que se está zangado, fazer as pazes e cair na gargalhada.

    "Disopila o fígado" e limpa a mente, sem precisar de remédios. Um mau humor, na dose certa, às vezes é salutar. Mas é bom tomar cuidado, porque, se exagerar, desacredita.

    Uso muito "gosto não se discute", quando venho com minhas esquisitices, como, por exemplo: "quem lava a louça, aqui, sou eu". Uso também, quando pego farinha de rosca (feita com pão torrado, que sobrou e já está endurecido), em vez de farinha de mandioca, para comer com feijão. E quando tomo "chafé", em vez de café (coloco um dedo de café na xícara e completo com água quente). Ah! Sem açúcar!

    Mas nada supera a "melancia preta" e "melancia black"...

    É que houve um momento, em 2012, logo depois que tive uma "pancreatite aguda", em que minha família resolveu implicar com meu "vicio" por refrigerantes sabor cola, sem açúcar (eu até poderia dizer as marcas, mas me recuso a fazer propaganda gratuita...).

    Começaram com "Veja bem!... Você quase 'partiu dessa, para melhor'... (🤔 Quem é que já conseguiu provar isso?!). Eu, se fosse você, iria me cuidar, para viver mais."

    Eu não discuti. Apenas disse: "Vou ao mercado comprar melancia." Vi um grande sorriso em todos os rostos. E fui!

    Na volta, apresentei a "melancia preta" e a "melacia black", em garrafas PET de dois litros, e justifiquei dizendo: "Gosto não se discute!...". Por alguns instantes, fez-se um silêncio geral.

    E, quando alguém tentou esboçar uma reação, cortei logo: "Prefiro ser feliz a ser racional. 'Vejam bem!'... São 'muito poucas' as coisas que eu ainda aprecio e 'não tenho muito tempo pela frente', para apreciá-las."

    Felizmente, o tempo se encarregou de provar que eu estava errado. Já se passaram quatorze anos. E acho que ainda vou ter muito tempo para "arengar"!

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  35. Texto bom demais e engraçado. É o relato de um primo meu que assume a fama de velho chato e decide implicar com aquelas frases prontas que todo mundo fala no automático sem nem pensar.
    Ele tira sarro de expressões do dia a dia, tipo o "gosto não se discute" (dizendo que discute sim, se a pessoa preferir cebola a doce de leite!), o clássico "veja bem" — que na prática é só enrolação pra dar desculpa esfarrapada —, aquele papo de "dar 110%" no futebol e o falar bonito da polícia, que troca "fugiu" por "empreendeu fuga".
    A melhor parte é que ele não se faz de santo: no final, admite que foi olhar as coisas que ele mesmo já escreveu e achou um monte dessas manias de linguagem. No fim das contas, ele assume que é rabugento mesmo, mas prefere ser chato a passar a vida repetindo frase pronta sem pensar. Mais uma maravilha escrita! (Emilton Rocha)

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  36. Bela crônica amigo Hayton.
    Eu acho que já estou nesse público dessas frases. Kkkk

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Nem me venha com essa!

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