E SE O SOL RAIAR À MEIA-NOITE?
Hayton Rocha
Nos anos 1980, Chico Buarque e Francis Hime compuseram “E se...”, uma dessas canções em que a poesia põe o mundo de cabeça para baixo só para conferir se cai alguma verdade dos bolsos. A letra enfileira hipóteses improváveis: se acontecer uma coisa inacreditável, outra, ainda mais fantástica, virá logo atrás.
Entre os prodígios, o Arapiraca aparece campeão; em seguida, o sol resolve raiar à meia-noite. O Arapiraca é o ASA, Agremiação Sportiva Arapiraquense. Naquele tempo, imaginar o clube alagoano campeão nacional equivalia a esperar cair neve no sertão.
Pois o ASA chegou à final da Série D e ganhou o direito de sonhar com o título. O “se”, esse magro porteiro das impossibilidades, escancarou a cancela. Vai que o sol resolve raiar à meia-noite?
Talvez o futebol nos fascine justamente porque, volta e meia, permite ao improvável entrar em campo e fazer das suas. Fora dos estádios, porém, certas impossibilidades levam séculos esperando no banco de reservas. A educação pública no Brasil é uma delas.
Desde quando me entendo por gente — e a investigação ainda não terminou —, ouço discussões sobre o tamanho e o papel do Estado. Empresários, estudantes, militares, políticos e religiosos empurram a mesa de um lado para outro, cada qual certo de que sabe onde ela deve ficar. O consenso, no entanto, permanece embaixo da mesa.
A queda de braço que nos últimos anos tomou conta da nação não ajuda. De tempos em tempos, alguma figura pública joga Banco do Brasil, Correios e Petrobras no folder da liquidação, entre uma promessa de eficiência e duas prestações sem juros.
Pode até ter razão. Mas essa decisão não deveria caber ao primeiro sujeito que encontra o martelo do leiloeiro.
Vai ver seja por isso que ando matutando tanto sobre um certo tema: e se, na manhã de 12 de outubro de 1808, D. João VI, ainda indisposto do frango assado e das garrafas de vinho da véspera, houvesse criado, em vez de um banco, uma escola pública chamada BoraBrasil?
“Bora” é o grito que vem das arquibancadas em Alagoas quando o time precisa criar coragem, vencer o cansaço e disputar até a última gota de suor. Desconheço nome mais adequado para uma escola pública brasileira.
E se, durante mais de dois séculos, parte do dinheiro e da tecnologia que alimentaram o banco tivesse erguido “agências” de ensino e aprendizagem do Monte Caburaí ao Arroio do Chuí? Não apenas prédios com quadro, goteira e retrato de autoridade na parede, mas lugares onde crianças aprendessem a ler o mundo antes que o mundo lhes passasse uma rasteira.
No meio rural, professores ensinariam a cuidar da água e do solo, controlar pragas e distinguir plantar para vender de vender para plantar. Nas cidades, ajudariam os alunos a administrar recursos escassos, mapear oportunidades, reduzir desperdícios e separar a causa de um problema de sua consequência — habilidade que, se chegasse a Brasília, já justificaria todo o investimento.
Ensinar matemática, português, história, física e química talvez nem fosse a parte mais difícil.
A BoraBrasil cuidaria dessas disciplinas onde elas de fato acontecem: a matemática, na corrupção crônica; o português, nos jornais; a história, nas cicatrizes do presente; a física, nas pistas da Fórmula 1; a química, na cozinha. O desafio maior estaria justamente no que quase nunca entra na pauta escolar, embora a vida cobre a toda hora: dor, falência, parto, morte, sexualidade e espiritualidade. Tudo caminharia dentro do contexto, porque conhecimento engaiolado costuma cantar bonito e voar pouco.
Com esse caldo engrossando em fogo baixo ao longo do tempo, talvez a escola tivesse feito pelo país mais que um banco. Teríamos menos crianças chegando ao sexto ano sem saber ler e menos adultos chegando ao poder sem compreender o que leram. Pais saberiam que educação não é encomenda deixada no portão da escola; professores seriam preparados e respeitados; diretores dirigiriam, em vez de apenas desviar de buracos.
E, quando alguém propusesse privatizar a BoraBrasil, a sociedade teria instrução para decidir se ela servia ao público ou apenas se servia dele.
Na tarde do último domingo, o ASA entrou em campo carregando Arapiraca inteira nas costas. Lutou, chegou perto, mas ficou com o vice-campeonato. O “se”, o magro porteiro das impossibilidades, escancarou a cancela. Mas o título não conseguiu atravessá-la.
Essa é a parte da canção que a vida faz questão de ensinar: nem todo sonho que chega à final volta para casa com a taça. Às vezes, o impossível chega à porta, limpa os pés no capacho e, no último instante, desiste de entrar.
O ASA não foi campeão, e o sol não raiou à meia-noite. Mas chegou tão perto que, por alguns dias, Arapiraca amanheceu antes do resto do mundo.
Quanto à escola pública brasileira, continua esperando do lado de fora. Feito capacho.

É mais uma reflexão, num País onde precisa incentivar os alunos para comparecerem a escola publica e os estádios de futebol aos domingos vivem superlotados. Parabéns pela crônica! Bora Brasil!
ResponderExcluirO Bora de João VI foi o Bora do Brasil...e ainda assim aqui nasceram Paulo Freire, Clodomir Moraes (esses mandados embora do Brasil para aprimorar a educação em outros paises), Anisio Teixeira, Rubem Alves, Darcy Ribeiro. Todos referenciais mundiais de educação. A questão, amigo cronista, é apenas política...
ResponderExcluirImpecável 👏🏼👏🏼👏🏼
ResponderExcluirSerá que se adotássemos o sistema de ensino que foi usado na Coreia do Sul a partir da década de 60 não teríamos um resultado semelhante?
ResponderExcluirO pior de tudo é que, até a luz do fim do túnel está ficando cada vez mais fraca!
Tomara que algum iluminado encontre solução para esse problema.
Bom dia Professor Hayton - Paraibano de 4 costados 🤝
ResponderExcluirDom João VI, máxima vênia, acertou ao criar o Banco do Brasil.
O que faltou foi insculpir na ata de fundação a obrigatoriedade de parte dos lucros dessa vetusta instituição, absolutamente imprescindível ao desbravamento e desenvolvimento do Brasil, para a criação da rede de Escolas Bora Brasil.
Imaginemos se a fortuna destinada, somente nos tempos de agora, como patrocínio de shows de certos artistas medalhões, cujos cantos há muito deixou de produzir encantos 🗣️🎼
Daria, com certeza, para imitar o Japão 🇯🇵, a Coreia do Sul 🇰🇷 e mais e mais, formando e treinando os nossos professores para ensinar e ilustrar, menos para educar, pois educação defendo eu, é tarefa para ser aprendida no lar com os pais.
Bora Brasil 🤝🇧🇷🤝
Caro Hayton.
ResponderExcluirVocê sabe que eu não entendo patavina de futebol e que para mim o ASA de Arapiraca poderia muito bem ser um clube de xadrez ou uma cooperativa de fumo. Mas essa é a sua grande mágica: você usa o pretexto da bola rolando só para mim fisgar desavisado e, de repente, me jogar no meio da ferida mais exposta do nosso país.
Aquela sua inspiração de imaginar D. João VI criando um "BoraBrasil" na vez do Banco do Brasil em 1808 me surpreendeu, confesso. Trouxe-me, na hora, a lembrança de como as nossas prioridades de nasceram tortas: os colonos na América do Norte, mal se assentaram no século XVII, trataram de fundar Harvard; enquanto isso, nós últimos séculos achando que a instrução era coisa perigosa para circular livre. Quando a Coroa finalmente chegou aqui com pressa, correu para abrir o cofre, a escola ficou relegada ao improviso. O Brasil sempre foi um prodígio em criar instituições financeiras sofisticadas, mas tratou a sala de aula como despesa incômoda.
O que você propõe com o BoraBrasil vai muito além da nota curricular tradicional; é ensinar a ler o mundo para não levar rasteira da vida, decifrando a matemática da corrupção diária, as cicatrizes da história e até o peso das perdas e da morte. Como você disse com precisão, talvez assim não tivéssemos tantos adultos chegando ao poder sem sequer compreender o que leem.
A conclusão deixou-me com aquele silêncio pensativo de quem acabou de ouvir uma grande verdade. Mesmo sem acompanhar o campeonato, entendi perfeitamente o drama: o tempo ao menos teve a chance de sonhar, de disputar uma final e quase tocar o impossível. Já a nossa escola pública nem no banco de reservas consegue sentar; continua esquecida do lado de fora, opcionalmente apenas de capacho para os donos do poder limparem os sapatos.
Você tem esse talento raro de começar parecendo ligeiro e terminar cutucando a alma da gente com uma lucidez desconcertante. Texto brilhante, meu caro. Deu muito o que pensar.
Hayton, essa imagem do impossível chegando à porta e, no último instante, desistindo de entrar, ficou comigo. Daqueles parágrafos que lemos trezentas vezes. E, em cada uma delas, uma evocação se faz.
ResponderExcluirPorque é assim que a vida também se move. Nem sempre é a taça que faz uma cidade parar. Às vezes é o sonho. É a possibilidade. É aquele quase que faz milhares de pessoas se levantarem do sofá, vestirem a camisa, ocuparem a arquibancada e, por algumas horas, esquecerem o resto da vida.
Olha o que o ASA conseguiu fazer. Uma cidade inteira parou para ver seu time jogar. Gente que talvez nem se conheça, gente de histórias tão diferentes, respirando o mesmo sonho. Isso também é vitória. Não a vitória que entra na estatística, mas aquela que mexe com a alma de um lugar.
Talvez seja por isso que a gente continue tentando. Porque o impossível, mesmo quando não entra, passa pela nossa porta. Bate, olha para dentro, faz a gente acreditar por um instante e depois vai embora.
E a esperança fica.
Fica porque alguma coisa dentro de nós já foi movimentada. Uma cidade amanhece diferente depois de acreditar. Uma pessoa também.
No fim, talvez a vida seja isso mesmo. Abrir a porta para o impossível, mesmo sabendo que ele pode limpar os pés no capacho, olhar para a sala e decidir não entrar.
O importante é que, enquanto ele esteve ali, a gente acreditou.