setembro 27, 2026

Nao desista, Diógenes!

 

NÃO DESISTA, DIÓGENES!

Hayton Rocha

 

Há mais de dois mil anos, o filósofo grego Diógenes saiu pelas ruas com uma lanterna acesa em plena luz do dia. Como o sol já cumpria seu papel, perguntaram por que carregava luz ao meio-dia.

— Procuro um homem honesto — respondeu.



Se fosse hoje, talvez dissesse que procura uma criatura civilizada — homem, mulher ou qualquer variação — capaz de ocupar um gabinete ou uma tribuna sem deixar um rastro de escândalos.

 

A lanterna mudou de mãos, mas a cena continua atual, familiar.

 

Diógenes andou, procurou, cansou e não achou. Encontrou gente corrupta, incapaz, oportunista ou portadora daquela mistura indigesta de ignorância com prepotência que inviabiliza até assembleia de condomínio em noite de prestação de contas.

 

Dois mil anos depois, qualquer Diógenes contemporâneo pode sair com farol alto ou holofote de aeroporto e ainda assim terá dificuldade em encontrar alguém que atravesse o poder sem se contaminar por ele.

 

Se o exagero parecer injusto, basta surfar no noticiário. A qualquer momento aparece alguém até ontem apresentado como exemplo de virtude usando tornozeleira eletrônica, passaporte retido ou autorização judicial para cumprir a agenda com hora marcada. Ao lado dele, outro cidadão exemplar explica desvios com a serenidade de quem administra milagres contábeis.

 

Tropicalizando a conversa, o Brasil segue tentando operar essa máquina complexa chamada democracia. Não é bonita. Faz barulho, emperra, às vezes não anda. Mas, comparada às alternativas que a História testou e reprovou, ainda é a menos perigosa.

 

Às vésperas de mais uma eleição, o país entra naquela turbulência em que cada solavanco é apresentado como prova de que só um dos pilotos sabe pousar. De lado a lado, distribuem-se certificados de patriotismo e sentenças de traição. O adversário vira inimigo; a divergência, delito; e a verdade passa a valer menos pelo que contém do que pela mão que a compartilha.

 

É justamente quando todos parecem ter certeza de tudo que mais precisamos da lanterna de Diógenes. Não para iluminar os candidatos — eles já vivem sob refletores —, mas para enxergar o que a paixão eleitoral deixa no escuro: interesses, contradições e a perigosa facilidade com que absolvemos nos nossos aquilo que condenamos nos outros.

 

O equívoco começa quando tratamos a democracia como promessa de milagre. De tempos em tempos, surge um iluminado de palanque ou redentor de rede social oferecendo soluções rápidas para problemas que levaram décadas para amadurecer. Muda o figurino, muda o slogan, mas o truque é o mesmo.

 

Não importa de que lado esteja. Toda promessa de redenção imediata merece inspeção de lupa: o que vem junto, quem embarca, quem lucra e quem desaparece no caminho.

 

Também não adianta transferir a esperança para as instituições, como se fossem entidades autônomas, imunes à natureza de quem as ocupa.

 

No Executivo, a cada troca de governo, muda-se a decoração da sala, mas preserva-se o costume de confundir Estado com propriedade temporária. Seus ocupantes chegam prometendo desmontar privilégios e logo descobrem que alguns deles são bastante confortáveis.

 

O Judiciário, por sua vez, parece muitas vezes operar na fronteira entre interpretar a lei e reescrevê-la. Há quem fale como legislador, atue como executor, decida como monarca e estranhe quando alguém se lembra daquele livreto básico chamado Constituição.

 

Como todo corpo organizado, protege-se. Quando muito, oferece uma correção discreta, uma advertência protocolar ou uma explicação que esclarece pouco e resolve menos.

 

Já o Legislativo não decepciona no sentido literal da palavra. Entrega exatamente o que promete: discurso. Ainda que vazio, frequentemente.

 

Durante a campanha, candidatos vestem armaduras retóricas e se oferecem para enfrentar corrupção, desigualdade, violência e os demais males nacionais. Depois de eleitos, muitos descobrem uma vocação para a invisibilidade produtiva: trabalham pouco, aparecem muito e comunicam melhor do que entregam.

 

Enquanto isso, a realidade não faz campanha. O fome não diminui com discurso. O posto de saúde não se abastece de intenção. A escola não evolui por medida provisória. E tanto você quanto eu seguimos financiando essa festa estranha em que quase ninguém dança, mas todos pagam ingresso.

 

Talvez o erro de Diógenes tenha sido de escala. Não precisamos apenas encontrar uma criatura honesta. Precisamos parar de tolerar a desonestidade como método, inclusive a nossa, quase sempre justificada por conveniências e pequenas vantagens.

 

Democracia não é plateia. É obra em construção permanente, cheia de andaimes, poeira e rachaduras. E obra que exige mais do que opinião: requer escolha, presença, cobrança e o desconforto disso resultante.

 

É possível que o velho Diógenes ainda perambule por aí, de lanterna acesa, atravessando ruas cheias de criaturas distraídas por suas telas iluminadas.

 

A diferença é que hoje ele não precisa procurar muito. Basta apontar o facho de luz. E ver quem sustenta o olhar.

19 comentários:

  1. Tempos difíceis.

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  2. Nestas eleições o Brasil escolherá o futuro ou a barbárie. O honesto, íntegro, que procuras é 13 e assina LULA o torneiro mecânico que venceu a fome

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  3. Essa foi de arrebentar. Show!
    Diógenes era destemido, assim como a democracia o é. Ao ter uma proposta de Alexandre, o grande, de que lhe daria o que quisesse, Diógenes respondeu que queria o sol. Alexandre ficou atônito e disse que isso era impossível pra ele. Diógenes, como a afrontar a realeza máxima, simplesmente pediu para ele sair da frente do sol, porque o estava atrapalhando.
    Hoje Alexandre representa tudo o que Diógenes odeia. E o sol vai voltar a brilhar sobre ele. Adorei a crônica.

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  4. Quem sabe , sabe. Maravilha de texto, escrito com muita propriedade. Parabéns mais uma vez!

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  5. Boa reflexão. E no domingo próximo teremos que escolher entre o sujo e o mal lavado….

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  6. O poço chamado Brasil tem porão!!
    Quando vão achar o fundo? Não faço ideia…

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  7. A luz do fim do túnel que haverá de continuar brilhando e resistindo às ventanias extemporâneas é uma só: Democracia. Viva a Democracia!

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  8. Claro, óbvio, ululante!

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  9. Em muitos países os primeiros-ministros utilizam o próprio carro, quando não vão caminhando para o desempenho da função pública. Em pouco tempo, alguns políticos do nosso país compram imóveis e fazendas de milhões de reais. Mesmo que antecipasse os salários de quatro anos, o valor seria infinitivamente menor do que o bem adquirido. Se o Diógenes atravessar um túnel com a sua lanterna, no final não encontrará um homem honesto. Na política terá que se contentar com um "Ernesto". A nossa democracia está na balança e precisando de muita luz de mentes brilhantes.

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  10. Perfeito meu caro amigo! Texto oportuno para a nossa realidade!

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  11. Diógenes nunca se fez tão atual. E suas palavras refletem o que deveria indignar a todos, pois esse momento que deveria ser a celebração de nossas escolhas pela melhor opção para o futuro da nação, se torna uma ocasião de escolher o menos pior e privilegiar ao menos os que defendem a continuidade da nossa frágil democracia.

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  12. No Brasil decadente em que vivemos, onde se protege e enaltece a impunidade, Diógenes já faz tempo está a buscar em outros campos.

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  13. É sempre a mesma coisa : “Tudo como Dantes no quartel de Abrantes”…

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  14. Caro Hayton, sua crônica retrata com precisão cirúrgica a realidade dura e cruel do nosso país, especialmente em períodos eleitorais. Vivemos tempos sombrios e sem perspectivas de mudança, mesmo a longo prazo.

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  15. Acredito que o Diógenes cansou e passou a lanterna para o próximo e este adiante e o último já desistiu há dezenas/centenas de anos. Infelizmente, a esperança de encontrar essa qualidade nos gabinetes é pura utopia.
    Somente quem ainda tem crença em Papai Noel, Saci, Caipora ou quaisquer outras criaturas do imaginário pode guardar a expectativa que existirá uma criatura honesta nessa área.
    Oportuna crônica à véspera de mais um período de ilusão para os que correm gritando nome de candidatos e colando adesivos em seus veículos.

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  16. Excelente crônica para nossa reflexão Hayton.
    Coitado do Diógenes, se vivesse em pleno século 21, talvez trocasse a lanterna pelo celular e iria pelas ruas em busca de conteúdo para causar nas redes sociais.
    Enfrentaria um sério problema para encontrar alguém realmente honesto em meio a tantos discursos e aparências, hoje vivenciadas.
    Rui Barbosa já lamentava, em 1914, o avanço da desonra sobre a virtude.
    Mais de um século depois, a procura continua atual.
    Nas redes, sobra opinião, discurso e pose, mas falta coerência.
    Diógenes teria conteúdo de sobra, mas talvez pouca esperança real para ver as mudanças acontecerem.
    Provavelmente precisaria de muita bateria e paciência para continuar procurando.
    Afinal, honestidade ainda parece ser um conteúdo raro.
    Simbora descontaminar geral, nossas armas: somente uma, as urnas. Êta trem difícil.

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  17. Crônica oportuna, e “a desonestidade como método” é, de fato, o que precisamos enfrentar. Abração,
    Gradim.

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