SEM RONCO NEM SONHO
Hayton Rocha
Recebo de um amigo esta mensagem: “Sei que você tem muitos temas na fila para escrever, mas não custa lhe provocar com esse sexteto de quase seis séculos de existência!”.
Na imagem, criada por inteligência artificial, Robert De Niro, Al Pacino, Anthony Hopkins, Jack Nicholson e Harrison Ford aparecem abraçados a Clint Eastwood, como se celebrassem juntos seus 96 anos. A confraternização nunca aconteceu, mas bem que poderia.
Se juntarmos a esses gigantes os brasileiros Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Nathália Timberg e Tony Tornado — que esta semana soltou seu vozeirão no Rock in Rio, durante uma homenagem a Tim Maia —, todos acima dos 95, teremos uma maravilhosa confraria com quase um milênio de histórias para contar.
Diante dessa confraria de longevos, penso no que virá. E quanto mais penso, mais desconfio, lamentavelmente, de que o futuro seja como os bilhões de anos anteriores ao nosso nascimento: nada. Absolutamente nada. Um sono profundo, sem ronco nem sonho.
Faço parte de alguns grupos de internet que viraram uma espécie de antessala estatística do cemitério. Não passam dois meses sem surgir a foto de algum membro cercada por emojis de vela, mãos postas e frases piedosas.
“Descanse em paz.”
“Que Deus o receba.”
“Cumpriu sua missão.”
Essa última frase sempre me intriga. Desconheço quem tenha recebido da vida um memorando explicando qual era sua missão. A maioria passou décadas tentando controlar o colesterol, a glicose e a lidar com gente complicada sem perder completamente a fé no gênero humano.
Mas o ritual se repete. Chega a notícia, forma-se a fila das condolências e aparece um questionamento menos nobre, embora profundamente humano:
“Logo fulano?”
“Por que não beltrano?”
Se algum beltrano estiver lendo isto, calma. Não leve para o lado pessoal. A espécie humana não foi desenhada para a sinceridade absoluta. Se fosse, confraternização entre colegas exigiria escolta policial e velório terminaria em pancadaria.
Também sempre surge alguém querendo saber a causa mortis, como se aquilo ainda tivesse relevância.
— Infarto fulminante.
— Dormindo, vejam vocês...
“Dormindo” é talvez a única hipótese realmente invejável. Nas demais, pergunta-se apenas para confirmar se o azar já estaria escolhendo outro endereço.
Aí começam os comentários típicos de um condomínio de especialistas sobre a criatura:
— Mas ela fazia caminhadas!
— Os exames estavam ótimos!
— Parecia tão disposta!
Não entendo como tantos desconfiam da ciência enquanto engolem diariamente um coquetel químico capaz de ressuscitar um cavalo asmático. Tirando os mentirosos, desconheço alguém desse time que sobreviva sem alguma bengala farmacêutica para ansiedade, glicose, hipertensão, insônia, próstata, refluxo ou aquela tristeza difusa, inexplicável.
Certas mortes talvez tenham menos relação com laudos de laboratório e mais com fadiga existencial. Há gente que vai morrendo em prestações de desgosto, decepcionada com parentes, políticos e a descoberta de que a maturidade consiste apenas em aprender a disfarçar cansaço.
Sem falar nas dores. Depois de certa idade, o corpo amanhece disparando alarmes de guerra. Levantar da cama vira uma negociação importante entre joelhos, lombar e a compostura no cargo de sobrevivente.
É quando surgem alguns médicos surfando no vai-e-vem das modas científicas. Você entra no consultório descrevendo calafrio, enxaqueca, moleza e sensação de proximidade da morte. O sujeito mal levanta os olhos:
— É virose.
Virose, aliás, serve para tudo. Um diagnóstico tão abrangente que me faz suspeitar que alguns doutores o aprendam no primeiro semestre e prolonguem a faculdade apenas para aperfeiçoar a escrita ilegível.
Talvez bastasse oferecer água gelada, cafezinho e dizer que vai passar. Porque, querendo ou não, passa mesmo. O amor, a agonia e até aquele amigo conselheiro que jurou que você não chegaria a lugar nenhum fazendo o que fazia.
Há uma ideia antiga à qual o tempo vem me fazendo dar razão: toda pessoa morre duas vezes. A primeira, quando recebe sepultura e epitáfio. A segunda, na última vez em que seu nome é pronunciado entre os vivos.
Esta, sim, é definitiva. Pouquíssimos escapam: Jesus Cristo, Maomé, Beethoven, Leonardo da Vinci, Pelé. O restante desaparece aos poucos, como perfume barato em dia de ventania.
Mas existe uma certa grandeza nisso. Pais sobrevivem nos gestos dos filhos. Avós permanecem escondidos em fotos, manias e receitas. Uns e outros continuam respirando na memória alheia. Essa seria a forma possível de eternidade.
Talvez aqueles velhos atores e atrizes saibam disso. Depois que as câmeras se apagarem, continuarão vivos nos personagens que deixaram conosco. Cada filme ou novela é também um modo de adiar a segunda morte.
O bom da velhice? Não sei. Sei apenas que acumulei histórias suficientes para atravessar o resto da vida jogando conversa fora. Posso aumentar passagens, diminuir vergonhas, recriar lembranças e transformar fracassos em literatura, que ainda constitui a vingança mais elegante contra o tempo.
Por isso sigo escrevendo, tomando meus remédios como quem administra uma farmácia clandestina dentro do estômago e provocando quem ainda presta atenção no que digo.
Até a hora inevitável em que, sem pressa alguma — que fique bem claro! —, voltarei a dormir por mais alguns bilhões de anos. Sem ronco nem sonho.

A eternidade sendo questionada e uma vida de ensinamentos sendo relembrada em dias e horas de despedida. Vivendo esse momento e recebendo sua crônica. Nada é por acaso. Obrigada
ResponderExcluirMorrer não é o contrário de viver. Morrer é o contrário de nascer. Viver não tem contrário!
ResponderExcluirSe houver a possibilidade de escolha prefiro a segunda morte, de preferência trinta anos antes da primeira. É possível?
ResponderExcluirAcho bom ter compostura
ResponderExcluirSeja um bom sobrevivente
A dorzinha passageira
É virose certamente
O médico já tem receita
Que qualquer velhote aceita
Diagnóstico abrangente.
Caro amigo, só morre definitivamente quem é esquecido
ResponderExcluirCaro Hayton
ResponderExcluirNesta quarta-feira você nos presenteia com mais uma excelente crônica, elaborada a partir de uma imagem artificialmente criada, como tantas vezes acontece em seus textos, transformada em ponto de partida para uma reflexão muito humana sobre a velhice, a morte, a memória e o desejo de permanecer.
O que poderia ser apenas uma brincadeira com grandes atores torna-se uma conversa inteligente, bem-humorada e, em certos momentos, discretamente melancólica sobre a passagem do tempo. Nesta crônica você tratou de assuntos graves sem se deixar capturar pela solenidade. A morte aparece, sim, mas acompanhada de grupos de internet, emojis de velas, condolências protocolares, diagnósticos de “virose”, dores nas articulações e uma verdadeira farmácia clandestina alojada no estômago de cada sobrevivente.
Apreciei particularmente a parte em que ironiza, com precisão, a expressão “cumpriu sua missão”, como se cada pessoa recebesse, ao nascer, um memorando celeste com instruções detalhadas sobre o que deveria realizar. Na prática, a maioria de nós passa a vida tentando controlar o colesterol, a glicose e a irritação diante dos outros, o que talvez já seja uma missão suficientemente difícil.
Por trás do humor, há uma reflexão muito bonita sobre a chamada segunda morte: aquela que acontece quando nosso nome deixa de ser pronunciado entre os vivos. Poucos escapam dela. Mas o cronista encontra uma forma possível de eternidade nos gestos, nas histórias, nas fotografias, nas receitas, nos personagens e nas lembranças que deixamos. Os velhos artistas, especialmente, continuam vivos nas obras que nos legaram; cada filme, cada novela, cada personagem é uma maneira de adiar o esquecimento.
Deste modo conseguiu equilibrar a leveza da conversa e a gravidade do tema. Não se trata de enfrentar a morte com discursos grandiosos, mas com ironia, lucidez e uma boa dose de resignação, talvez a forma mais civilizada de lidar com aquilo que não admite negociação.
Ao dizer que continuará escrevendo, tomando seus remédios e provocando quem ainda presta atenção, reafirma a literatura como uma espécie de vingança elegante contra o tempo. E, quando enfim voltar a dormir por alguns bilhões de anos, sem ronco nem sonho, já terá deixado mais uma história para que seu nome continue sendo pronunciado entre nós. Parabéns, uma vez mais.
Rapaz, que texto cirúrgico, Hayton! Você falou da sua "farmácia clandestina", mas imagine eu, que já trago o Oceano no nome, navegando todo santo dia num verdadeiro tsunami de farmacológicos para manter a máquina girando!
ResponderExcluirSe juntar a minha prateleira com a do @Nelson BB Ex Pref. Recife , nosso coordenador de encontros e astro do cinema — que depois de participar do filme O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho deve estar gastando o cachê todinho para manter aquele cabelo pretinho natural e jurando que não é tinta —, a nossa confraria dos "Jovens Aposentados" vira um elenco de Hollywood. E para fechar o roteiro com chave de ouro, temos o nosso grande @Tadeu BB : tido como o mais seguro nos gastos do grupo, que jura de pé junto dispensar o famoso "azulzinho", mas que não abre mão de viver suas peripécias como o verdadeiro Rei de Araripina lá nos EUA! Com tanta história boa e tanta teimosia contra o tempo, que o Homem lá de cima cancele a nossa senha por muitos e muitos anos, porque enquanto houver boas conversas, remédio na mesa e essa nossa resenha, a gente adia a "segunda morte" dando as melhores risadas! 🌊💊🎬🇺🇸😂
Simbora, viver e curtir a vida com sabedoria.
Salute tanto. 🥂🤝✅️
Genial!
ResponderExcluirÉ a pura verdade que todos passarão.
Sabemos que o depois da Constituição, vale o que está escrito. Se o que se leva desta vida é fazer o bem, continue alegrando a nossa alma com as crônicas de temas variados e surpreendentes.
ResponderExcluirComo sempre, poético! Saúde farta e vida longa.
ResponderExcluirPrezado Hayton, o amigo que sugeriu esta bela crônica, com a foto desses artistas maravilhosos, não tinha idéia da reflexão existencial que provocaria. O assunto é tão complexo que qualquer comentário meu seria incompleto e insuficiente... Um conterrâneo seu, Jessier Quirino, me deu a definição de morte mais inusitada, mas verdadeira: " A morte é um doido limpando mato..." Ele arranca ervas daninhas e pés-de-milho igualmente. Mas, enquanto não voltamos ao pó, a ser poeira de estrelas novamente, vamos vivendo, sofrendo, rindo, chorando, enganando a dor, e tentando ser a diferença na vida das pessoas...
ResponderExcluirA crônica de hoje está ideal para uma conhecida que gosta muito do tema morte. O final da linha do tempo de cada um só Deus sabe, mas, enquanto isso, vamos nos dedicando a construir memórias no cérebro das pessoas que amamos para demorarmos um pouco mais a desaparecer. Nelza Martins
ResponderExcluirAmigo Hayton,
ResponderExcluirEsse é um tema que tem povoado meus sonhos, frequentemente.
Por enquanto, é só assim que a vejo, tal é a distância entre o que penso, e o que vejo no espelho.
Como meu avô paterno, Prof.Manoel Barreto dizia, “A velhice é a marcha da luz que se aproxima do ocaso, é a tarde que precede o pôr do sol”.
Nada a reclamar, afinal a alternativa não me parece mais agradável!
Abraço grande!!!
Enquanto vivemos, vamos curtir a vida ao lado dos familiares e amigos. Esta é a nossa porção neste mundo.
ResponderExcluirParabéns Hayton,mais uma pérola. Seu amigo,Gil Messi!
ResponderExcluirBeleza de crônica, me identifiquei em quase tudo. Você sabe cutucar a gente com vara curta.
ResponderExcluirParabéns meu amigo
Sou o anônimo mais próximo de você.
Abraço
E vamos seguindo, administrando como possível as mazelas que nos aparecem pela frente, pelos lados, em cima ou embaixo, dor aqui, dor ali, às vezes nos iludindo, noutras tantas colando pedaços de expectativas. Mas, como diria, sabiamente, o mestre Ariano Suassuna ""O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso.".
ResponderExcluirEmbora tratando de um tema "escuro", a crônica foi "clara" em sua construção de uma realidade inevitável, na maioria das vezes.