setembro 23, 2026

Tchutchururu!

TCHUTCHURURU!

Hayton Rocha

 


No começo do mês, meu amigo Sérgio Riede comemorou a chegada dos setenta anos com uma festa brega, em Brasília. Digo "brega" com carinho, sem a menor intenção de ofender. Aos setenta, a pessoa adquire o direito de ouvir Reginaldo Rossi, vestir paletó amarelo com broche de girassol na lapela e declarar novamente seu amor à cara-metade sem prestar contas ao bom gosto.  




Enquanto ele fingia tocar guitarra e dublava canções que sobreviveram aos próprios intérpretes, fui transportado para União dos Palmares, interior de Alagoas. Eu tinha 10 anos e integrava o “The Friend Boys”, nome, extraído de um dicionário, que ninguém sabia traduzir, mas todos pronunciávamos com a segurança de quem acabara de desembarcar de Liverpool.



A banda era formada por mim, César, filho do marceneiro da cidade, e os irmãos Luciano e Tadeu Farias. Não me lembro de quem tocava o quê. Certamente porque ninguém tocava coisa alguma.

 

Nossas guitarras eram feitas de madeira. Não madeira nobre, dessas que hoje vêm acompanhadas de certificado ambiental e preço em dólar. Eram tábuas recortadas à serra e lixadas apenas o suficiente para não arranhar a barriga do guitarrista. César levava vantagem sobre nós: sendo filho de marceneiro, tinha acesso à tecnologia de ponta da época: compensado, prego, serrote e verniz.

 

As cordas podiam ser de arame, barbante, elástico ou linha de pesca. Produziam um “nhen-nhen” que não chegava a incomodar os vizinhos nem favorecer a paquera. Para fingir que afinávamos o instrumento, usávamos parafusos, pregos dobrados ou tampinhas verdes e vermelhas de tubos de creme dental. O fabricante da pasta jamais soube que também abastecia a indústria musical da terra de Zumbi dos Palmares.

 

A guitarra não tinha cabo, amplificador nem som. Ainda assim, tocávamos alto. A eletricidade vinha da imaginação, que naquele tempo não precisava de tomada nem bateria. As bocas eram suficientes. 

 

O microfone era um cabo de vassoura. Latas faziam as vezes da bateria. Os pratos eram tampas de panela, desde que nenhuma mãe percebesse o desfalque na cozinha. Montávamos nosso palco em qualquer canto e, de repente, o quintal virava The Cavern Club, embora nenhum de nós soubesse onde ficava o famoso porão dos Beatles. Para falar a verdade, mal sabíamos onde ficava a Inglaterra.

 

Havia outro pequeno problema: os Beatles insistiam em cantar em inglês, língua que ainda não havia chegado oficialmente à nossa vida. Mas não nos deixamos intimidar.

 

“She loves you, yeah, yeah, yeah” virou “Xilóviu, ié, ié, ié”. “Help! I need somebody” transformou-se em “Rélpi! Ai nidi sambaqui”. E “Well, shake it up, baby, now” saía mais ou menos como “Uél, xeiquitópe, beibe, nau”. Cantávamos tudo com uma convicção que dispensava dicionário. Se Paul McCartney aparecesse para corrigir a pronúncia, provavelmente seria convencido a cantar no cabaré do Alto do Cruzeiro.

 

Alguns meninos mantinham cadernos com as letras escritas em fonética caseira. “I want to hold your hand” passava a ser “Ai uant tu rould ior rendi”. Eram manuscritos preciosos, uma espécie de Pedra de Roseta da Jovem Guarda, compartilhados em segredo por quem havia conseguido decifrar duas estrofes no serviço de alto-falante da cidade, no rádio ou na radiola.

 

Quando a música acelerava e o inglês escapulia de nós, recorríamos ao idioma universal dos desesperados: “tchutchururu”. Bastava manter o ritmo até o refrão reaparecer. O importante não era saber o que a canção dizia, mas cantá-la como se falássemos de nossa própria vida.

 

E falávamos. Afinal, toda criança compreende uma canção antes de compreender as palavras. O corpo traduz aquilo que o vocabulário ainda não alcançou. É possível que nosso inglês fosse péssimo, mas nossa meninice tinha sotaque perfeito.

 

Quase seis décadas depois, não sei o que foi feito dos demais integrantes do “The Friend Boys”. César, Luciano e Tadeu Farias dobraram em algumas esquinas do tempo, esse empresário ingrato que desfaz as bandas sem se preocupar com o destino de seus integrantes. Talvez ainda se lembrem de nossos concertos mudos. Ou quem sabe tenham esquecido até o nome do conjunto. De vez em quando, a memória também pratica seu embromation: inventa alguns sons, preenche os vazios e a vida pega o beco.

 

Quanto a mim, já não me fazem falta a guitarra de madeira nem o microfone de cabo de vassoura. Dormem no limbo onde estão os demais brinquedos da criança que fui.

 

Mas, naquela festa em Brasília, enquanto meu amigo celebrava os 70 anos e alguns convidados dublavam cantores e tocavam instrumentos invisíveis, tive a impressão de ouvir, muito ao longe, quatro meninos afinando instrumentos que nunca tocaram.

 

Então alguém gritou “tchutchururu!”. E o moleque que ainda cochila em mim, sem guitarra, sem microfone e ainda desconfiado da pronúncia do inglês, entrou no refrão.

 

Há canções que a gente passa a vida inteira sem entender. Mesmo assim, sabe de cor.

12 comentários:

  1. Bom dia, mestre Hayton!
    Crônica pra nos levar ao passado meninístico de interior das mais variadas grotas sertanejas. Um primor❤️
    Peço-lhe desculpas para afirmar que também fui músico deste naipe rsrs: toquei pandeiro em tampa de lata de manteiga de 20kg, toquei guitarra em cabo de vassoura, toquei bateria em latas de querosene Esso - aquele do Jacaré - só não cantei em microfone de sandália japonesa porque sou desafinado e a turma da banda me proibia. Quanto a pratos, nunca ousei por as mãos nas tampas de panelas, minha mãe, se descobrisse, me dava u'a surra de bainha de facão - hoje criminalizado - para que eu nunca mais esquecesse.
    E o inglês, então, arranhávamos da mesma forma que os "The Friends Boys". Nós éramos a Banda da Rua Velha, português mesmo e homenageando nosso bairro de moradia, então nós lá sabíamos como escrever ou falar em inglês?! No curso de Ginásio tivemos como primeira língua estrangeira o francês ensinada pelo vigário da paróquia e depois por uma professora formada em Alagoinhas, tudo muito incipiente. Ouvíamos os Beatles sem saber a pronúncia e o significado de cada palavra das letras das suas músicas inesquecíveis.
    Salve a memória de menino!
    Ave Reminiscências!
    Munique, 23 setembro 2026
    tonhodopaiaia.org

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  2. Aprendi inglês ouvindo e cantando Ray Charles e a bela I Can't Stop Loving You… nunca me esqueci da letra, pronuncia e significado Bons tempos

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  3. Mais uma vez, Hayton, sua crônica nos proporciona uma verdadeira viagem no tempo. Como você tão bem descreveu, a música faz parte das nossas vidas antes mesmo de aprendermos a falar. Que delícia revisitar essas lembranças e, melhor ainda, permitir-se reencontrar a criança que fomos e que continua ali, adormecida, esperando apenas um “tchautchaururu” para despertar.

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  4. Como diria um tal de RC, em suas Jovens tardes de domingo: "Old times, beautiful days", usando a língua natural dos Friend Boys. Belo resgate histórico-emocional!

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  5. Para estas canções o espírito captou algum sentimento e a memória gravou o momento. Abração

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  6. Muito bom. O “The Friend Boys” deveria se reunir de novo, nem que fosse a derradeira vez, e lá mesmo em União dos Palmares. Juntaria, senão com os mesmos integrantes, ao menos uns inventados. O inglês nós temos que cantar é do nosso jeito mesmo — e sambarilove. A crônica tá uãnderfú.

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  7. Caro Hayton.
    Hoje você resgatou, com muita sensibilidade, um dos traços mais fascinantes da imaginação juvenil, que é a gravidade e a paixão solene com que as crianças encenam o impossível. A composição que fez desse cenário é de uma riqueza admirável. Uma guitarra talhada não compensada, equipada com tampinhas coloridas de pasta dental como tarraxas de afinação, alcança as raízes da infância provinciana de todos nos. Diverti-me com sua sutil ironia ao sugerir que o amigo César dispunha da "tecnologia de ponta" simplesmente por ter acesso ao escritório do pai marceneiro, humor refinado que arranca o riso pela moda e por meio do contraste.
    A metáfora da "Pedra de Roseta da Jovem Guarda", para descrever os cadernos de transcrição fonética foi ótima. Todo aquele esforço de decifração auditiva, coletado de autofalantes e radiolas de pilha, pertence a um Brasil que soube reinventar o mundo à sua maneira.
    Foi impossível não evocar a lembrança de um velho amigo de colégio que passava tardes inteiras empunhando uma raquete de tênis como se fora uma legítima Fender, vociferando sucessos dos Rolling Stones numa língua franca que só ele e os deuses compreendiam. Quando a articulação do verso ruía o recurso salvador era invariavelmente esse esperanto rítmico a que você deu o nome de "tchutchururu", solução engenhosa para transpor o abismo fonético sem perder a pose.
    Particularmente apreciei a transição serena que a crônica faz entre o anedótico e a filosofia do tempo. A constatação de que o tempo atua como um “empresário ingrato que desfaz as bandas sem se preocupar com o destino de seus membros” é perfeita e profunda. Do mesmo modo, a sentença de que a sua meninice possuía "sotaque perfeito" condensa, em poucas palavras, a primazia da sensibilidade sobre a convenção estrita das linguagens formais.
    Ao aproximar o septuagenário em sua festa de celebração desinibida do menino no quintal de União dos Palmares, nos vem a lembrança de que a maturidade bem resolvida conquista, enfim, a mesma despretensiosa liberdade da infância, a graça de cantar sem o jugo da aprovação alheia.
    Parabéns por mais esta inovadora crônica.

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  8. Até hoje as "Palmas da "União" dos garotos de Liverpool estão ecoando nos"Ares" com a criatividade da fabricação das guitarras fazerem "inveja" a Dodô e Osmar. Kitsch party.

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  9. Maravilha meu amigo! Rejuveneci 60 anos! Gratidão!

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  10. Que delícia de texto, Hayton! Me transportou aos anos 60.
    Não tive a mesma sorte que você, pois minha educação paterna fiscalizava meus passos para não aderir à beatlemania. Na minha casa, "cabra de cabelo grande não tinha vez não". Para meu pai, calabrês — a versão nordestina do italiano — o corte tinha que ser escovinha militar, que o barbeiro, amigo dele, fazia com o orgulho de quem estava salvando o país daquele movimento.
    A rígida fiscalização não deu certo. Curtíamos muito as músicas da época sem entender uma palavra, como você disse. Adorávamos as versões do Renato e seus Blue Caps, que depois descobrimos não ser a tradução literal. Aliás, nem sabíamos o que significava "Blue Caps".
    De uma coisa podemos ter certeza, muita gente se interessou em aprender inglês por causa dessas canções.

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  11. Parabéns Hayton. Uma escrita cativante, nada interrompeu a leitura.
    Euler

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Tchutchururu!

TCHUTCHURURU! Hayton Rocha   No começo do mês, meu amigo Sérgio Riede comemorou a chegada dos setenta anos com uma festa brega, em Brasília....