A MOEDA OFICIAL DO BRASIL
Hayton Rocha
No Brasil, quando se fala em milhões, a explicação vem antes da dúvida.
![]() |
| Ilustração: Uilson Morais (Umor) |
Quinta-feira passada a jornalista Cora Rónai provocou uma sensação rara que só boas crônicas conseguem produzir: a impressão de que alguém acaba de acender a luz de um quarto onde todos fingiam enxergar perfeitamente no escuro.
A constatação dela é desconcertante. No debate público perdeu-se a noção concreta do valor do dinheiro. Quantias que, na vida real, representam décadas de trabalho passaram a circular no noticiário como números quase decorativos.
Para traduzir esse fenômeno, a autora recorre a uma metáfora engenhosa: o “milhão” teria deixado de ser apenas dinheiro e se transformado numa espécie de Unidade Básica de Corrupção, usada para medir escândalos e negócios suspeitos.
A ideia é brilhante porque devolve peso ao número: um milhão de reais não é um conceito abstrato. É o preço de um imóvel de alto padrão. Algo que, para a maioria dos mortais, exige anos de prestações que parecem carnês de penitência.
Para muita gente, esse milhão representa décadas de trabalho, pequenas renúncias domésticas e a lenta sucessão de trocas de apartamento que começa num quarto-e-sala modesto e termina, décadas depois, num imóvel que finalmente pode ser chamado de definitivo.
Agora compare isso com a realidade de quem vive de salário-mínimo. Para essa pessoa, acumular um milhão de reais ao longo de uma vida inteira já seria façanha heroica. Depois de pagar aluguel, comida, escola dos filhos e os imprevistos da existência, o número simplesmente não cabe na planilha.
É aí que surge a ironia. No noticiário político, milhões são mencionados como quem fala em paçocas e pirulitos. Deixam de representar o esforço de uma vida e passam a circular associados a transações que envolvem autoridades, intermediários e personagens quase sempre acompanhados da expressão “segundo nota oficial”.
A metáfora da crônica então faz um movimento elegante: transforma os milhões novamente em apartamentos de um milhão. De repente, aquilo que parecia apenas número volta a ter escala humana.
E é nesse ponto que surge a figura mais frequente no vocabulário político brasileiro: a nota oficial.
Diante de cifras gigantescas aparece sempre aquele comunicado cuidadosamente redigido que pretende explicar tudo sem dizer quase nada. A formalidade das palavras parece tentar reduzir o tamanho da quantia.
Conversava sobre isso com um amigo a quem confessei que aquela era uma crônica que eu gostaria de ter escrito antes. Dessas que cutucam o leitor com um alfinete, mas o fazem com sutileza para ninguém reclamar de agressão.
Ele ouviu, balançou a cabeça e respondeu com a sabedoria irônica que só os maduros cultivam:
— Você até pode escrever. Mas vão dizer que está em cima do muro.
Tem razão. Hoje, no Brasil, estar em cima do muro virou quase infração ideológica. Se você critica um lado, pertence ao outro. Se critica os dois, passa a pertencer a lugar nenhum — justamente o lugar mais perigoso, sujeito ao chumbo trocado entre as partes litigantes.
Eu teria que preparar também uma nota oficial explicando minha própria crônica: “Esclareço que minhas ironias não devem ser interpretadas como críticas específicas a qualquer grupo político, embora eventualmente possam parecer.”
Resolvi deixar o assunto de lado. Mas, por coincidência, encontrei outra crônica, desta vez do escritor Ruy Castro. Ele descrevia a vida de um ex-banqueiro habituado a mansões milionárias na Flórida, em Brasília, em São Paulo e em Trancoso. Festas em palácios, salões iluminados por lustres capazes de ofuscar o orçamento anual de pequenas cidades.
Até que chega o último parágrafo. Descobre-se então que o personagem agora reside numa cela de nove metros quadrados na penitenciária da Papuda.
A matemática da vida às vezes possui humor ácido. Quem antes media a existência em milhões agora calcula três ou quatro passos entre a cama de concreto e a parede da cela. Ou a latrina.
As duas crônicas, cada uma à sua maneira, tocam na mesma ferida: o talento nacional para explicar certas traquinagens por meio de notas oficiais.
Cada lado garante que o erro pertence ao adversário. A corrupção sempre nasce no campo ideológico oposto. As trincheiras estão cavadas, os argumentos carregados e os combatentes digitais marcham minuto a minuto pelas redes sociais.
Convém não atrapalhar. Melhor deixar que os zumbis vaguem em paz.
No Brasil dos milhões, a explicação precede a culpa. E a verdadeira unidade básica talvez não seja apenas a corrupção. É a desculpa oficial.







