O PRESÉPIO QUE SE ARMA POR DENTRO
Hayton Rocha
No noticiário da tarde, a palavra “maldade” escorreu pela tela. Veio com rosto, sangue e legenda curta demais para explicar a barbárie. Um homem que mata para roubar. Outro que atropela e arrasta a ex-companheira pelas ruas, arrancando-lhe as pernas como quem corta galhos secos. A maldade costuma nos visitar assim: com helicóptero, sirene e aquela confortável certeza de que ela mora sempre no quarteirão do lado.
A gente sacode a cabeça, suspira, comenta sobre “o mundo estar perdido” e troca de canal, como se isso fosse também mudar a realidade. A maldade parece sempre um monstro estrangeiro. E raramente pensamos na outra, a que não escorre sangue na calçada, mas sangra lento: a dos salários de fome, da fila do posto de saúde que não anda, da escola sem professor, dos sem-teto. Violências recorrentes, surdas, que já não dão tanta manchete e, mesmo assim, atingem milhões todos os dias.
Existe ainda a maldade contra a natureza, praticada em prestações: o lixo lançado pela janela, a árvore derrubada sem piedade, o rio tratado como fossa. Ninguém morre na hora, mas tudo vai morrendo aos poucos, como vela de presépio esquecida depois da ceia.
Num sentido mais amplo, talvez a maldade seja isso: a agressão que se banaliza, a destruição que se justifica, o desrespeito que se torna hábito. Ela se volta contra o outro, contra nós mesmos e contra essa casa provisória chamada planeta. Não ruge nem mostra os dentes. É bicho de muitas cabeças que aprende a ficar invisível, sobretudo quando passa diante do espelho.
Há quem diga que ela já nasce conosco, como instinto antigo herdado, com garras e presas. Outros juram que não: que a maldade é ensinada, tecida na desigualdade, na pobreza, na exclusão, na cultura que empurra uns para cima e pisa outros.
Quem sou eu para ter uma resposta conclusiva? Logo eu, que ainda me flagro impaciente na fila, chateado no trânsito, indiferente ao pedido de esmola que atrasa meu passo? Desconfio de explicações que absolvem demais ou condenam demais. Prefiro acreditar que o homem é um sistema aberto: aprende, escolhe, erra... e repete.
E chega dezembro.
Dezembro é mês estranho. Cheira a rabanada e tem gosto de prestação vencida. Acende luzes na janela e revela sombras no balanço do ano. Obriga a memória a fazer inventário do que fomos, do que não conseguimos ser e do que fingimos esquecer para seguir em frente.
Uns encontram gratidão: o emprego mantido, o filho que ingressou na universidade, o neto que nasceu saudável, a doença que recuou. Outros esbarram em culpas, frustrações, promessas murchas como panetone fora da validade.
O Natal, esse velho fabricante de emoções, desperta carinho, desejo de renovação e generosidade. Abraça-se mais, promete-se mais, perdoa-se até por conveniência. Ao mesmo tempo, a data escancara ausências que não sabem mais voltar: a cadeira vazia, a voz que não liga, a carranca onde antes morava um sorriso. Há uma pressão invisível para que todos sejam felizes do mesmo jeito, na mesma noite, sob a mesma fartura. Quem não cabe nesse molde sofre, como quem assiste calado à festa pela janela do vizinho.
É aí que o Natal se torna perigoso — mas necessário.
Perigoso quando vira apenas verniz de bondade sobre nossas pequenas maldades de estimação: a arrogância disfarçada de opinião, o egoísmo travestido de direito, a indiferença de quem passou a enxergar pouco semelhante pelo caminho. Necessário porque, se ainda guarda algum sentido, talvez seja o convite mais antigo para revisarmos o presépio que montamos dentro de nós.
Porque não é só Herodes que faz a história. Também mora ali o pastor cansado. O anjo distraído. A criança vulnerável. E, sim, o lobo que aprende a vestir roupa de gente.
O que ainda nasce dentro de nós? Que humanidade estamos regando nos gestos mínimos — no modo como tratamos o garçom, o lixeiro, o mendigo, a natureza? A maldade não mora apenas nos crimes que nos assombram. Mora também naquilo que escolhemos não fazer, não sentir, não ver.
Se existe alguma oração que ainda faça sentido entre o peru e o panetone, quem sabe seja esta: que a gente tenha coragem de encarar a própria sombra antes de exigir a luz do outro.
Talvez seja este o milagre mais raro de dezembro: aceitar que o Natal não nos salva da maldade, mas nos oferece, uma vez por ano, a chance de não fazer acordo com ela.











