No calor das paixões que vêm de dentro, tem muita gente fazendo promessas ousadas para que seu clube alcance um objetivo como a conquista do título, o acesso à divisão superior ou a fuga do rebaixamento. A ansiedade é enorme. Conta-se, como na bela metáfora de Alceu Valença, que um novo tempo, mais brilhante, peito nu, cabelo ao vento, estaria por chegar.
"Um homem é um homem e um cascabulho de jaca é um cascabulho de jaca!", dizia um delegado de polícia que conheci em Pernambuco. E arrematava: "Um homem não tem que prometer nada a ninguém, mas se prometer, vai ter que cumprir".
Duas semanas atrás, o equatoriano Kevin Josué Mina Quiñónez, jogador de futebol que atua no Club Desportivo Real, de Santa Cruz de La Sierra, assumiu um picante compromisso quanto à situação de sua equipe no Campeonato Boliviano. Contratado para “pegar em armas, se preciso for” na guerra contra o rebaixamento no torneio, o bravo guerreiro prometeu aos torcedores que cortaria o pênis em caso de queda para a 2ª divisão.
"Si yo desciendo me corto el miembro!" recitou o “poeta” numa entrevista coletiva após o dramático empate de 1 a 1 diante do Real Tomayapo. Kevin Mina, inclusive, tinha acabado de balançar as redes a favor de seu clube já nos acréscimos ao tempo da partida. Falava, portanto, embriagado pela adrenalina que sacudia o seu corpanzil de 28 anos, 1,93 cm e 90 kg.
Ainda bem que poupou os torcedores de maiores detalhes sobre como se dará a automutilação. Não se sabe se pretende usar bisturi elétrico, caco de vidro, peixeira afiada ou mesmo um serrote do cabo grosso para cumprir a insólita promessa.
Caso resolva introduzir trilha sonora no vídeo a ser veiculado nas redes sociais, o cearense Belchior, se fosse vivo, diria que, considerando o tempo de sonho, de sangue e de América do Sul, um tango argentino vai bem melhor que uma cumbia boliviana.
Confiante na força de seu cajado, Mina parece seguro de que evitará o golpe fatal assinalando mais gols e obtendo novas vitórias para seu time. Não está morto quem peleia, dizem alguns galegos de olhos azuis deste meu Brasil brasileiro, terra de samba, pandeiro e preconceitos mil.
Não sabe o corajoso Mina que, em qualquer guerra, a paz só dá as caras quando se deixa de criar expectativas sobre o que não se consegue controlar. Que é tolice supor que a cabeça de seu centroavante cavernoso será capaz de raciocinar e mexer na marcha da história independente dos demais membros (os outros jogadores do time, bem entendido!).
Note-se que o Club Desportivo Real, quando da promessa de Mina, ocupava a penúltima colocação do Campeonato Boliviano e restavam apenas dez jogos para evitar a queda. E segundo os resultados do último final de semana, a situação continua inalterada.
Se fosse no campeonato nacional russo ou norte-coreano, envolvendo os times preferidos de Vladimir Putin e Kim Jong-un, Mina talvez tivesse sido mais parcimonioso. Arriscaria, se tanto, o dedo mindinho de um dos pés, que aliás hoje se presta apenas a topar com mesinhas de centro, sofás e cadeiras.
Afinal, desde que o Australopithecus afarensis, ancestral do ser humano, vagou pela África caminhando (e não se pendurando em árvores) há 3,2 milhões de anos, o dedinho do pé só vem perdendo prestígio. Como, aliás, uma certa ave da família Ramphastidae que vive nas florestas tropicais das Américas, conhecida por ter um bico longo, duro e cortante, que já fez muito sucesso por aqui.
Não sou oráculo para desvendar o que está vindo por aí – se fosse, estaria dando gargalhadas dos institutos de pesquisa, tão seguros quanto aqueles que ainda acreditam no tratamento precoce da covid-19 à base de cloroquina –, mas desafio aqui algumas pessoas para que também assumam, de papel passado e com firma reconhecida, compromisso semelhante ao que motivou o destemido equatoriano.
Começo pelo dândi Neymar, principal jogador da Seleção Brasileira, caso frustre de novo a expectativa do povão em conduzir seus “parças” à conquista do hexacampeonato mundial no Qatar. Se topar o desafio e quiser preservar seu delicado membro (para ninfetas que o viram amiúde; o duplo sentido fica por conta do leitor), basta não exagerar no cai-cai ao menor esbarrão com os zagueiros adversários, como aconteceu na Rússia há quatro anos.
Deve também evitar os chiliques típicos de sua prolongada adolescência para não ser expulso quando o time mais precisar dele. E, em caso de novo fracasso, nem pensar na terceirização da culpa, atribuindo-a ao conluio de árbitros e jornalistas comunistas e invejosos.
Desafio também o candidato a presidente da República que venha a ser derrotado no 2º turno das eleições, seja Bolsonaro ou Lula, a encarar o mesmo autoflagelo com coragem e resignação, assumindo em cadeia nacional a promessa de Mina: "Se eu cair, corto meu membro!"
Ajoelhou? Tem que orar! Ao perdedor, restará o golpe (veja bem, leitor, falo no sentido literal, cortante e republicano do termo!) fatal. Em caso de hemorragia incontrolável, não seja surpresa se no rito de extrema-unção aparecer o prestativo padre Kelmon. Nunca se sabe.
Ao vencedor, coitado, já se proferiu outra dolorosa sentença em caráter liminar: juntar os cacos de uma nação à beira do rebaixamento civilizatório, no vale-tudo dos insultos trocados entre os filhos de uma pátria nada gentil ultimamente. Oremos!







