domingo, 17 de março de 2019

Minha contribuição à MPB

Numa manhã chuvosa no Sertão da Paraíba,  no final de 1967, um homem de rosto familiar, usando camisa estampada de mangas compridas, calça de linho e alpercatas, aproximou-se da mesa onde meu pai recebia alguns clientes e pediu: “meu patrão, o senhor me autoriza oferecer este livro ao pessoal do banco?”

O vozeirão denunciou na hora quem chegava, trazendo numa mala de couro vários exemplares de O Sanfoneiro do Riacho da Brígida: Vida e andanças de Luiz Gonzaga. Em final de carreira, o Rei do Baião já vivia uma fase marcada pelo desânimo, apresentando-se em pequenos cinemas e teatros do interior, emissoras de rádio de menor expressão, bem diferente do estrelato de décadas passadas.

Obra do paraibano Sinval Sá (1922 - 2014), foi escrita na primeira pessoa, com base no repertório de palavras do próprio Luiz Gonzaga (1912 - 1989), em narrativa cronológica desde a infância no Exu(PE) entre familiares, passando pela descoberta da música, a fuga de casa depois de uma surra da mãe, a vida militar no Ceará, o início e o apogeu da trajetória artística, incluindo as letras das principais canções, história e estórias até 1966. 

Aos nove anos de idade, aquele foi o primeiro livro  - grosso, sem gravuras, igual aos que meu pai enfileirava na estante - que li do começo ao fim, imaginando as cores, os cheiros e os sons do universo sertanejo. Em linguajar matuto, como ouvia meus avós maternos falarem, cheguei a decorar Assum Preto bem antes de ouvir a música pela primeira vez: 

“Tudo em vorta é só beleza

Sol de abril e a mata em frô
Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dô

Tarvez por ignorança

Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá mió 

Assum Preto veve sorto

Mas num pode avuá
Mil vez a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá 

Assum Preto, o meu cantá

É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amô
Que era a luz, ai, dos óios meu.”

Ao ver aquele interesse todo pelo livro, meu pai deve ter pensado: este menino leva jeito para a música. Resolveu então adquirir um acordeon de 80 baixos e contratar a professora Teresinha, de Patos(PB), para ensinar teoria e prática musicais, inclusive a minha irmã Haydeé, com base no famoso Método de Acordeão Mascarenhas.

Sem o dom natural nem o entusiasmo necessários aos intermináveis exercícios de repetição, mexendo apenas com algumas teclas e baixos, o martírio com pentagramas, claves de sol, bemóis e sustenidos não durou mais que quatro meses. Além disso, lembro até agora do peso do instrumento sobre minhas pernas de criança durante uma hora, três vezes por semana, e da marcha preguiçosa dos ponteiros do velho relógio de parede da casa da professora de música.

A bem da verdade, eu já acusava os primeiros sintomas de uma doença contagiosa que circulava pelo país naquele tempo: o rock’n’roll dos Beatles e a Jovem Guarda de Roberto, Erasmo Carlos e Wanderléa. Queria mesmo era aprender a tocar guitarra elétrica, instrumento à época duramente criticado pelos amantes, como meu pai, da música genuinamente brasileira.

Haydeé ainda estudou piano no Colégio Cristo Rei, mas isso nem de longe passava por minha cabeça. Apesar do sucesso de algumas canções da Bossa Nova que se ouvia na Rádio Espinharas de Patos, tinha certeza de que a molecada da rua em que morávamos não me daria sossego. Para eles, piano era coisa de menina; menino jogava bola, criava passarinhos...

Muito tempo depois, nos anos 90, conheci um paraibano, assim como eu, também nascido nos anos 50, que começou a cantar e tocar acordeon ainda na infância, influenciado por nomes como Luiz Gonzaga e Dominguinhos. Precoce, já aos 10 anos tocava o seu pequeno fole de 24 baixos, animando festinhas na região do Cariri.

Era Flávio José, como eu, ex-menor aprendiz do Banco do Brasil.  Aprovado depois em concurso público, virou funcionário de carreira por mais de 20 anos, até que se demitiu quando sua atividade secundária - o banco, óbvio - começou a atrapalhar sua a dedicação à música.

Intérprete da música romântica nordestina e acordeonista de primeira grandeza, é hoje considerado o nº 1 do xote e do forró pé-de-serra, graças a uma voz afinada e poética, além da criteriosa escolha que faz de compositores parceiros como: Petrúcio Amorim, Flávio Leandro, Nando Cordel, Jorge de Altinho, dentre outros. Com dezenas de álbuns lançados e milhares de shows em mais de 40 anos de carreira, sua arte extrapolou as fronteiras do Nordeste e encanta multidões por todo o Brasil.

Outro dia eu escrevi que ser feliz é sobreviver à versão de nós mesmos que decidimos assumir. Flávio José é mais uma prova evidente disso. No meu caso, devo reconhecer, minha maior contribuição à MPB foi nunca haver aprendido a tocar um instrumento. 

25 comentários:

  1. a música parece algo tão fácil e natural...quando se parte p estudar teoria musical e se encara um instrumento de frente não é todo mundo que persiste. A mim bastou uma gaita de bota pra derrubar.

    ResponderExcluir
  2. Pois é, Fadanelli, muita gente que que vê Toquinho, hoje, sorrindo e fazendo aqueles acordes maravilhosos, não imagina as 8 ou 10 horas diárias que até hoje o gênio dedica ao violão. É duro admitir mas continua valendo os tais 5% de inspiração para 95% de transpiração.

    ResponderExcluir
  3. Que linda história ! Uma pessoa disse a um músico que daria a vida pra tocar como ele e ele respondeu: “eu dei a minha!”

    ResponderExcluir
  4. Diz Caetano em sua música "como é bom poder tocar um instrumento". Mas pra isso precisa vocação. Gosto muito de música mas vocação zero.
    Grande abraço Hayton.
    Marival.

    ResponderExcluir
  5. Eu vi hipnotizado um show do Gonzaga no São João da AABB. Fiquei a 2 m dele durante o show. Não tinha nem palco. Foi no dia do show do Legião Urbana que acabou em quebradeira em Brasília. O último deles na cidade, por sinal. O forró esperaria ainda até 1998 pra voltar a conquistar os jovens, o que aconteceu após Fagner gravar Espumas ao Vento..... Flávio conseguiu, mas era tarde pra Seu Luiz.
    Dedé

    ResponderExcluir
  6. Lá pelos os idos de 1967, 1968, fui
    assistir uma apresentação de Luiz Gonzaga em um dos dois cinemas de União dos Palmares, juntamente com
    minha namorada. O cinema é o que chamamos vulgarmente de poeirinha.
    Cheguei cedo e comprei dois ingressos para garantir lugar.
    Logo a seguir, deparei-me com o cantor que caminhava quase que anonimamente nas proximidades
    do local do espetáculo.
    Passado algum tempo, recebi meu dinheiro de volta, pois o bilheteiro somente tinha vendido dois ingressos. Triste ocaso do maior cantor de música sertaneja do país, o rei do baião, pensei.
    A concorrência da televisão e da jovem guarda tinha abatido o guerreiro.
    Tempos depois, com a ascensão de seu desconhecido filho Gonzaguinha que muito lhe ajudou, o velho Lua volta ao apogeu.
    Hayton, o cinema ficava na Monsenhor Clóvis e o dono era o Seu Trajano, lembra-se?
    Um abraço do amigo Orlando.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Lembro, sim, Orlando. O cinema era vizinho da sinuca, na esquina que dava pro BB. Abração

      Excluir
  7. Meu nobre irmão, você deu sim uma grande contribuição a MPB e a cultura brasileira quando assumiu o Marketing do BB. Você impulsionou a verdadeira e genuína cultura brasileira de boa qualidade. Possibilitou a apresentação de vários artistas brasileiros como, Jessier Quirino e outros grandes nomes nacionais. Me fez acreditar que tenho arte dentro de mim, por isso continuo com minha labuta tentando fazer arte.
    Você contribuio muito para a nossa cultura mesmo sem tocar sanfona.

    ResponderExcluir
  8. Grande amigo ! Eu também passei por experiência semelhante, pois quando criança passei alguns anos estudando instrumento de sopro, com o carpinteiro e maestre da banda de Laranjal, amigo de meu pai. Eu e mais dois irmãos também demos essa contribuição à MPB! Depois de 2 a 3 anos de estudos, do mesmo jeitinho que vc retratou, nos recolhemos à nossa insignificância e deixamos a música seguir em paz!

    ResponderExcluir
  9. Maravilha! Além de ser tudo que é, ainda queriam que fosse músico? Com já foi dito por outro de seus seguidores, você contribuiu sim enquanto diretor de Marketing quando deu oportunidade a varios artistas bons não tão valorizados. Grande abraço amigo.

    ResponderExcluir
  10. Delícia de história e de texto!

    ResponderExcluir
  11. Nossos pais muitas vezes,e acho natural, projetam em seus filhos a realização de seus próprios sonhos, por motivos outros não alançados por eles.Eu mesmo sou fã de quem toca Violão, mas por tamanha incompetência, desinteresse ou mesmo falta de dom,o que seja,acredito que mais pelo primeiro,nunca alcancei esse feito, porém, egoisticamente tratei de materializar esse sonho e finalmente consegui, mas pelas mãos de meu filho.

    ResponderExcluir
  12. Grande Hayton, 👏👏👏
    Eu sempre quis ter um amigo cronista. Agora eu tenho um bom amigo e cronista dos bons.

    ResponderExcluir
  13. Meu fraterno amigo Liga, sua generosidade é maior do que os peixes que você anda fisgando no Pantanal.

    ResponderExcluir
  14. Como não contribuiu??? Essa crônica é música para os nossos ouvidos.

    ResponderExcluir
  15. À música é algo essencial a Vida. Existe música escrita, cantada, sonhada e muitas vezes ouvida. Tenho convicção que produziu e cantou muitas músicas com quem conviveu e convive.
    Vamos que vamos!!!

    ResponderExcluir
  16. Ter bom gosto musical, escrever algo desta envergadura e citar reais representantes da MPB é uma contribuição e tanto. Parabéns. Ademar Rafael Ferreira - João Pessoa.

    ResponderExcluir
  17. " A marcha preguiçosa dos ponteiros do relógio" me fez lembrar de quando, ainda criança, estudei piano. Como o tempo demorava a passar! Mas agora, estou até feliz, você me fez ver a minha desistência do piano por uma perspectiva positiva: também dei minha contribuição à música brasileira. Obrigada!

    ResponderExcluir
  18. ....um belo texto Hayton, leve e solto, uma reminiscência....

    ResponderExcluir