fevereiro 18, 2026

Manual do bicho indomável

MANUAL DO BICHO INDOMÁVEL

Hayton Rocha

Não é natural acordar cedo e sair caminhando apressadamente ou correndo por aí nesta época do ano. Às sete da manhã, o corpo ainda negocia com o lençol e o sol já tosta o cocuruto de quem ousa sair sem boné. Mesmo assim, a criatura calça o tênis, sincroniza o relógio e declara ao espelho do elevador, com entusiasmo discutível: “Hoje vou correr dez quilômetros porque adoro”.


Ilustração: Uilson Morais (Umor)


Adora? Desconfie de quem diz gostar de sofrer voluntariamente. Bicho nenhum corre se não for tangido pela fome ou pelo pânico. O resto é invenção de quem já não foge de onça-pintada como seus ancestrais, mas continua acuado por outra coisa. Correr por prazer é invenção recente. Método elegante de não escutar a própria cabeça. Disfarce sofisticado da ansiedade.


Natural seria ficar. Uma voz aveludada, com hálito de café, diria: “Hoje, meu bem, basta caminhar sete mil passos. Fique na cama mais um pouco. O mundo não vai acabar às oito”. Mas não. A criatura vai. Volta esbaforida, orgulhosa das medalhinhas digitais no relógio como se tivesse atravessado o Saara puxando camelos. A tecnologia distribui indulgências eletrônicas: sofreu, logo merece existir.


Em seguida, já pensando no almoço, começa a liturgia. Arroz integral penitente ou espaguete pecador? Tilápia virtuosa ou frango sem pele — tristeza sob a forma de proteína? Carne moída que consola ou picanha que ameaça as coronárias? Mastiga-se com culpa ou com rebeldia.


Há quem sonhe com solução mais prática: três cápsulas por dia para corpo, cabeça e alma. Proteínas, sais minerais, cálcio para os ossos, duas gramas de paciência e uma dose de lembrança da infância feliz. Engolir e seguir. Sem dilemas. Sem a angústia de escolher entre salada e feijoada.


Algo como a criatura plugada no útero, recebendo tudo por um tubo. Sem abrir os olhos, sem opinar, sem manual de instrução. Talvez ali tenha sido nossa última temporada sem ansiedade. Depois do primeiro choro, matricula-se num curso intensivo de escolhas. E decidir cansa mais que correr.


Quem sabe uma inteligência artificial possa recalibrar a fórmula a cada aniversário e avisar: “Atualização concluída. Este organismo permanece válido até os 99 anos”. Depois disso, apenas dores, rangidos e perdas. A morte chegaria por notificação prévia: aceite os termos ou desligue.


Água também viria encapsulada. Nada de garrafinha pendurada como amuleto fitness. Mas, para não abolir de vez o livre-arbítrio bíblico, três taças de vinho por semana. Prova de que ainda não viramos samambaias farmacêuticas alinhadas sob luz artificial.


Dormiríamos seis horas por dia. O resto do tempo seria distribuído em blocos produtivos: leitura útil, música que estimule sinapses, boas conversas, exercício moderado. Claro, e algumas horas pro trabalho — palavra que descende de tripalium, instrumento romano de tortura. A etimologia não falha: trocamos o chicote por login, senha, metas e avaliações de desempenho. Tortura digital também deixa marcas, só que invisíveis.


Tais especulações surgiram numa chamada de vídeo com um velho amigo de Batatais, desses que já não temem pensar alto nem errar em público. Falávamos sobre o que é natural e o que é invenção humana — um cipoal de regras que criamos para fingir racionalidade enquanto administramos nossos medos.


Ele perguntou: “E a monogamia, é natural?”. E sorriu como quem derruba a primeira peça do dominó. “No quintal da minha infância, um galo só reinava sobre uma dúzia delas. Nenhuma galinha exigia exclusividade.”


Ensaiei discurso sobre ética nos relacionamentos, pacto civilizatório como coleira do instinto. Ele atalhou: “E o piercing na língua? Isso também é natural ou é só outra forma de marcar território no próprio corpo?”


O celular vibrou. Ele se despediu e sumiu da tela, deixando a provocação no ar: “O que você diz faz sentido… mas o que eu digo também faz, não?”. Vai ver foi convocado por algo inadiável: o tripalium doméstico.


Fiquei olhando os cadarços dos meus tênis encostados na parede. Pareciam me desafiar. Talvez não corramos por saúde. Talvez corramos para manter o animal ocupado. Porque, se ele fica parado, começa a perguntar.


Pergunta por que trabalhamos tanto. Por que comemos com culpa. Por que amamos sob contrato. Por que precisamos provar desempenho até quando estamos felizes.


Existe dentro de nós um bicho anterior ao aplicativo de passos, à planilha, à terapia de casal.


Se paramos, ele fala. E talvez o problema nunca tenha sido o bicho. O problema sempre foi o manual.

fevereiro 11, 2026

Fitas que se multiplicam

FITAS QUE SE MULTIPLICAM

Hayton Rocha

 

Ao publicar aqui Três fitas, semana passada, não pensei em alcance, algoritmo ou estatística. Antes de qualquer coisa, quis resgatar uma cena que trago na gaveta de meus achados mais caros: uma criança observando o gesto materno e descobrindo, sem saber, uma forma de lidar com o mundo. Nada épico. Nada digno de placa. Só o cuidado quando ninguém está olhando, que justamente por isso costuma durar mais.



Imagem: M.E. Ateliê da Fotografia



Escrevi como quem fala consigo mesmo. Um texto sem discurso armado, sem a pretensão de ensinar a quem já viveu mais ou menos do que eu. Talvez por isso tenha passado ileso pelo alarme das grandes certezas e encontrado leitores desarmados.

 

O que não calculei foi o depois.

 

Vieram comentários. Vieram muitos, variados, carregando histórias nos bolsos. Uns falaram de ciência, outros de fé, outros misturaram as duas coisas como quem não vê contradição entre medir os batimentos cardíacos e rezar. Houve quem risse, houve quem lembrasse de quedas — das que o corpo acusa e das que a vida disfarça.

 

E fui lendo tudo com um espanto bom.

 

Vi que o texto tinha escapado das minhas mãos. Já não me pertencia como pertence uma frase bem-acabada ou um parágrafo resolvido. Pertencia agora a quem o atravessava com a própria memória. Cada comentário era uma fita nova amarrada onde eu nem sabia que havia pulso.

 

Teve leitor que se viu no pai. Teve leitora que se reconheceu mãe, na filha. Teve quem lembrasse da avó, de um gesto antigo que só agora ganhava sentido. Gente que nunca tinha pensado muito sobre cuidado e, de repente, percebeu que passou a vida inteira cuidando — sem aplauso, sem plateia.

 

No sábado, recebi uma mensagem do mestre Artur Roman falando da repercussão. Conheço bem o ritual da fera: estudioso e metódico, enxerga sempre com olhos de lince. Falou de números, de proporções, de impacto. Quatro mil caracteres de crônica gerando quarenta mil em comentários.

 

Fiquei contente. Não pelo volume, mas pelo belo descompasso entre causa e efeito. Um barulho íntimo produzindo ecos inesperados. Uma fita puxando outra, que puxava outra, até virar um novelo enorme, impossível de abraçar.

 

Ele lembrou que, na vida acadêmica, impacto se mede por citação. Sob outra régua, impacto se mede por ressonância. Pelo tempo que o texto fica rondando alguém depois que a tela apaga. Pelo comentário escrito dias depois, já frio, mas ainda pulsante.

 

E os ecos foram muitos.

 

Alguns chegaram suaves, tímidos. Outros vieram emocionados, sem pedir desculpa pelo excesso. Vieram também os bem-humorados — esses que lembram que o riso é uma respeitável forma de inteligência. Todos legítimos. Todos necessários. Porque o texto não pretendia convencer ninguém. Queria apenas fazer companhia.

 

Depois da aposentadoria, passei a trabalhar de outro jeito. Sem horário fixo, sem metas mensuráveis. Trabalho de escutar, observar, não atropelar os fatos. Três fitas nasceu nessa praia: um lugar onde o tempo anda mais devagar e detalhe vira protagonista.

 

Talvez seja por isso que tenha tocado tanta gente. Porque não falava de heroísmo, mas de algo bem mais raro: o cuidado cotidiano. O que não aparece em currículo, não rende selfie, não vira discurso. Esse que só se nota quando faz falta.

 

Ao ler os comentários, restou a impressão de que a crônica virou conversa de fim de tarde. Daquelas em que ninguém quer ter razão, só permanecer mais um pouco. Escrever, ali, deixou de ser ato solitário e virou roda. Virou espaço de escuta mútua. Um lugar onde cada um chegava com sua fita, seus nós, sua maneira de segurar o mundo para que ele não caia no vazio.

 

As fitas, afinal, não estavam apenas no pulso daquele pai. Estavam nas mãos de quem comentou. Estavam também em quem leu e não escreveu nada. Estavam na memória de quem fechou a página e ficou olhando para o nada, como quem procura alguma coisa que ainda não sabe o que é.

 

Fitas invisíveis, sustentando uma ideia simples e quase subversiva: ninguém atravessa essa vida sozinho, embora finja não saber disso. 


Aprendi com Artur Roman: a crônica termina quando acaba o texto, mas começa de verdade quando encontra outro. E Três Fitas deixou de ser apenas uma história minha para virar um lugar de encontro.

 

Talvez seja por isso que ainda escrevo. Não para explicar o mundo — isso eu já desisti —, mas para amarrar fitas por aí. Quem sabe ajudam alguém a atravessar mais um dia, mais uma semana.

fevereiro 04, 2026

Três fitas

TRÊS FITAS

Hayton Rocha

 

O estrondo da queda — abafado, bruto, feito um armário que tomba — assustou mais do que feriu. Não houve grito, só o baque seco no chão. O corpo pouco acusou: um galo na testa, o andar hesitante pela pancada no quadril. O susto, esse sim, espalhou-se pela casa como cheiro de lavanda que permanece no ar mesmo depois da janela aberta.

 

O velho, convenhamos, morto de sono às dez da noite, não tinha nada que descer escada de madeira sem meias antiderrapantes. Há imprudências que a maturidade não corrige, apenas disfarça de cansaço. Em minutos, ela, médica, já levava o pai à emergência hospitalar. Ele passaria a madrugada em observação, entre exames, luzes frias e a paciência treinada de plantonistas.

 

Havia no ar uma incerteza nada metafísica, de ordem prática: atendimento médico no exterior costuma surpreender quem não se escora num seguro redigido na língua de Shakespeare. Não era o caso. Mas as letras miúdas de uma apólice sempre assombram. 

 

Entre o protocolo e a vigília, a filha, ciência à parte, amarrou no pulso do pai três fitas. Fez isso solene, como pacto. Ordenou que não as retirasse em hipótese alguma. Só o suor, o sabonete e o tempo teriam esse direito. Não eram enfeite nem superstição. Eram uma espécie de prontuário íntimo, escrito sem palavras.




 

Ela crescera entre os cinquenta tons de azul do litoral nordestino. Brincara com conchas e peixinhos em Maceió, Recife e Salvador, desde cedo aprendendo que o mar tanto acolhe quanto devolve. Até que o destino a puxou para Brasília, onde a infância se despede e o futuro começa a cobrar sua parte, sempre adiantado e quase nunca com desconto.

 

Na Bahia, aprendera que fé se amarra no pulso. Descobrira o Senhor do Bonfim — acordo antigo entre Cristo e Oxalá, entre o sagrado e o profano — e o poder das fitas coloridas, onde cada nó carrega um pedido sussurrado, constrangido. Os dela, ainda pequena, eram diretos: queria voar, fazer mágicas e comer sem engordar. Desejos desmedidos? Talvez. Mas há pedidos tão limpos que a vida escuta com mais atenção, reconhece a voz inocente de alguém no começo da jornada.

 

Antes disso, ainda em Alagoas, numa manhã na casa de amigos, à beira da piscina, viu sua mãe salvar uma criança do afogamento. Ali, sem discurso e sem plateia, decidiu que um dia também cuidaria de vidas. A medicina começou antes dos livros, no susto e na urgência de quem não aceita perder enquanto houver chance de virar o jogo.

 

Nunca se soube quando as fitas coloridas da infância se desfizeram. Sumiram como o rumor de uma onda que volta ao mar, sem deixar rastro visível. Mas os três pedidos foram atendidos.

 

Voou quando se tornou médica — e seguiu voando mais alto. Fez-se mestra e doutora, atravessou a neurologia, a epidemiologia, a ciência da saúde populacional. Agora também ensina, pesquisa, lidera centros de estudo. Descobriu que subir não afasta o chão: apenas amplia a paisagem.

 

Fez mágicas ao quebrar paradigmas e abrir trilhas na mata fechada. Latina, mulher, raridade não branca em poltrona onde o poder costuma vestir outra pele. Hoje palestra, publica, forma gerações sem jamais confundir mérito com privilégio. E desenha traço a traço o amanhã da medicina como quem cria o futuro antes que ele se torne mera fatalidade.

 

Quanto ao terceiro pedido, o mais desafiador, aprendeu a alimentar a alma. Mantém o corpo em guarda e o espírito abastecido de compaixão e justiça. Já orientou dezenas de jovens pesquisadores, muitos deles vindos de onde quase ninguém olha. Seu reconhecimento mora menos nos prêmios do que nas pessoas que ficaram de pé depois que cruzaram seu caminho. 

 

Hoje, cinco meses depois da queda naquela noite, o pai andou relendo memórias de sua filha. Ela fala de fé e superação, de envelhecimento saudável, de inteligência artificial a serviço da saúde. Diz que resistir e persistir não são slogans. São verbos a serem conjugados todo dia, mesmo quando bate o cansaço.

 

E era uma vez um pai — este que vos escreve — que não imaginava aonde ela chegaria. Que, volta e meia, lembra de quando a embalava, cantarolando “Se essa rua fosse minha”.

 

No máximo, torcia para que a febre cedesse.  O resto, o tempo amarrou.

janeiro 28, 2026

O gol que marca

O GOL QUE MARCA 
Hayton Rocha


Em ano de Copa do Mundo, a fronteira entre herói e vilão é estreita como as traves em disputa de pênaltis. Um chute torto, uma arrancada perfeita, e a História decide quem sobe ao pedestal e quem desce para o porão. Uns viram lenda — Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo. Outros viram cicatriz — Barbosa, Cerezo, Felipe Melo, Dante. A pressão é cruel: idolatra ou condena. E quase sempre faz isso em míseros noventa minutos.


Pensava nisso quando lembrei de João Batista de Almeida, amigo querido, vascaíno, que partiu há cinco anos. Ele costumava dizer que certas histórias só continuam existindo porque alguém insiste em contá-las — como cartas velhas que se recusam a sumir em dia de mudança.


Segundo João, em julho de 1958, uma menina de dez anos se recuperava de uma cirurgia na perna, no apartamento da família, no Rio de Janeiro. Vítima da poliomielite desde bebê, aprendera cedo que o corpo também pode ser território em disputa. Para enganar o tempo, montava um álbum de recortes dedicado a Bellini, zagueiro vascaíno e capitão da seleção campeã do mundo na Suécia. Um pequeno altar doméstico para um ídolo que não precisava se anunciar.


Num fim de tarde, a porta se abriu. “Boa noite”. Era Bellini.





Alguém lhe falara da menina. Entre compromissos, treinos e a ressaca do título recém-conquistado, ele foi. Sentou-se, contou histórias da Suécia como quem exagera uma pescaria. A menina ficou muda, travada. Alguns encontros dispensam palavras.


Dois anos depois, Bellini a reconheceu na rua, em Copacabana. Ela já andava melhor, carregando no corpo a esperança de voltar a andar sem esforço. Contou que faria a segunda e última cirurgia. Dias depois, Bellini ligou para o hospital, soube que tudo correra bem e apareceu para visitá-la. Levou bombons. Nada além disso. Um gesto simples, desses que não rendem manchete nem curtidas, mas sustentam uma emoção por semanas — às vezes por décadas.


O tempo passou. A menina virou Célia Vaz: cantora, maestrina, violinista. Em 1972, ganhou bolsa para estudar na Berklee College of Music, em Boston. Formou-se em Arranjo e Composição em 1976. Reconhecida no Japão, na Europa e nos Estados Unidos, tornou-se mais celebrada fora do que aqui — destino recorrente de talentos brasileiros que precisam atravessar oceanos para serem escutados em casa.


Em pouco mais de meio século, Célia foi a São Paulo visitar Bellini, aos 81 anos, e a mulher, Giselda. Deu-lhe um beijo. Também levou bombons. Entre um afago e outro, um filme silencioso atravessou a sala. As lágrimas caíram livres sobre os rostos, sobre a memória, sobre a caixa aberta. Há coisas que o tempo não estraga. Sabem esperar sem alterar o sabor.


Sei que o jogo mudou, como tudo muda. Ainda assim, custa imaginar uma cena dessas se repetindo hoje. Nem os clubes mais vitoriosos conseguem produzir ídolos admirados até por torcidas adversárias, como foram Ademir da Guia, Zico e Roberto Dinamite. O futebol moderno fabrica atletas precisos, eficientes, monitorados por métricas. Fabrica desempenho. Raramente fabrica encontros.


O jogo virou xadrez em alta velocidade. Tático, físico, estudado até o último centímetro do gramado. Os jogadores se encaixam em engrenagens rígidas, como peças substituíveis. O improviso — primo irreverente da genialidade — passou a ser tratado como risco.


Clubes e atletas viraram marcas. O escudo divide espaço com patrocinadores; o amor, com o mercado. A carreira virou portfólio. A fidelidade, um item opcional. Relações que antes levavam décadas para se formar hoje duram o tempo de um anúncio.


As redes aproximaram demais. O ídolo, antes distante e misterioso, passou a caber na palma da mão. Aproxima, mas desgasta. O encantamento não resiste ao excesso de luz. Aprende-se a posar, a editar, a se proteger. Vira personagem de si mesmo.


Talvez vivamos a fase mais imediatista de nossas vidas. Não toleramos falhas. Tudo é descartável. Será que aplicamos essa lógica também aos ídolos? Não suportamos a derrota, a queda. Esquecemos que dentro de toda grande conquista moram alguns fracassos — e que são eles que nos engrossam a casca.


Pode ser que o passado fique mais generoso visto à distância. Ainda assim, algo se perdeu no caminho: o gesto gratuito, o tempo doado sem agenda, a visita sem assessoria de imagem, a caixa de bombons entregue sem câmera.


Bellini não precisou ser gênio do futebol. Salvou uma tarde, uma menina, um álbum de recortes.


Isso não entra em estatística nenhuma. Mas atravessa décadas sem perder o brilho. Com o mesmo sabor.

janeiro 24, 2026

Discurso não corre na veia

DISCURSO NÃO CORRE NA VEIA

Hayton Rocha

Já vinha com um aperto no peito, desses que não cobram explicação, mas insistem em acordar a gente antes do sol. A notícia corria quase envergonhada, como se tivesse medo de incomodar: os estoques de sangue em Alagoas haviam atingido nível crítico. Hemocentros no osso. Cirurgias de alta complexidade ameaçadas. Até que o eufemismo caiu por terra: um transplante de fígado foi suspenso. Não por falta de coragem, nem de médicos, nem de sala cirúrgica. Por falta de sangue.

Soube que o alerta partiu da Santa Casa de Misericórdia de Maceió, pela voz cansada de quem vive do lado de dentro do jaleco. Em vídeo que circulou nas redes, o alerta era direto: não há hemoderivados suficientes. Sem sangue, não há milagre técnico que resista. Transplante não se faz com protocolo bem escrito. Faz-se, antes de tudo, com sangue disponível.




A inquietação aumentou quando o caso ganhou nome e sobrenome. Ulisses de França Braga Jr. Sangue O negativo. Dos raros. Dos que só recebem do mesmo tipo. Dos que, ironicamente, doam para todos. Sete por cento da população carrega esse passaporte biológico que salva vidas em emergências, mas cobra um preço alto quando os estoques evaporam. Ulisses Jr. perdeu a janela do transplante. A vida — sempre apressada — pediu que ele esperasse.

Conheci Ulisses Jr. ainda criança, levado pela mão do pai, meu amigo Ulisses “Clarinete” Braga, falecido em 2017, aos 73 anos. Um dos homens mais brilhantes com quem trabalhei na virada dos anos 1980. Clarinete era desses que enxergam o futuro antes de ele se explicar. Quando computador pessoal ainda parecia ficção estrangeira, ele já dizia, com a lucidez de quem aponta o óbvio: “isso vai mudar tudo... e rápido”.

Diabético severo, brigava diariamente com o próprio corpanzil de quase dois metros, porque adorava comer e beber — não necessariamente nessa ordem. Em compensação, tinha uma inteligência que não pedia licença para expor a mediocridade alheia. Espirituoso, falava de quase tudo com uma fluência que constrangia os simplificadores profissionais. Foi bancário, mas era muito mais: radioamador, radialista, chef de cozinha, piloto, programador, crítico literário e musical, escritor preguiçoso. Dominava inglês e espanhol não como medalha, mas como ferramenta. E se divertia observando a paisagem humana ao redor.

Certa vez, um chefão resolveu provocá-lo, sob o pretexto de elogiar seu raro poder de cativar plateias. Disse que Clarinete, na prova para tirar o brevê de piloto de teco-teco, teria feito um voo rasante sobre a cidade, passando tão rente à imagem da santa padroeira que tirou um fino na auréola — e que a santa, comovida, chegou a derramar uma lágrima. Clarinete não acusou o golpe. Esperou a gargalhada geral baixar e devolveu com um cruzado à la Ariano Suassuna: “vocês não leem… vocês não viajam…”. Ele sabia, como poucos, viajar.

Ah, como eu queria hoje poder ligar para ele. Contar que o filho está à espera de uma negociação noutro plano. Que um transplante foi suspenso porque faltou aquilo que não se fabrica em laboratório. Nenhum cientista encontrou substituto. Há paliativos, atalhos provisórios, mas nada que substitua o gesto humano de estender o braço — por amor ou por dor.

Os especialistas repetem: a doação regular é a única saída. Uma única bolsa pode salvar até quatro vidas. Coleta-se pouco — menos de dez por cento do sangue do corpo. O organismo repõe rápido. Não há risco de contágio. Existe até uma folga garantida por lei. Ainda assim, os estoques minguam, como açudes na estiagem.

Porém os critérios excluem muitos (eu, inclusive): idade, peso, saúde, alimentação, sono, tatuagem recente. Não há sistema que sobreviva apenas a apelos episódicos, a campanhas acionadas quando a sirene já está gritando.

Se bem me lembro de Clarinete, ele faria uma pergunta incômoda: será que ninguém percebeu que o sistema está organizado para falhar?

Logo em seguida, viria com uma solução simples, dessas que respeitam a alma do brasileiro e sua eterna prontidão para o feriado. Incentivo concreto. Reescrever a norma. Doou sangue? Três dias de folga a cada seis meses. Ou cinco por ano. Tudo comprovado. E, para evitar o discurso da “cortesia com o chapéu alheio”, compensação fiscal às empresas empregadoras.

Nada de heroísmo abstrato. Reconhecimento prático. Sangue não se pede apenas com cartaz emotivo. Estoque se constrói com política pública inteligente.

Enquanto não acontece, Ulisses Jr. e outros esperam. E o sistema segue contando com o velho vício nacional do improviso. 

Enquanto não acontece, você, que se enquadra no perfil de doador, procure ainda hoje um dos hemocentros ou hospitais de sua cidade.  

No fundo, basta lembrar que sangue não se cria. Circula. E quando falta, descobre-se tarde demais que discurso não corre na veia.


 

 

janeiro 21, 2026

Pacto de mangue e mar

PACTO DE MANGUE E MAR 
Hayton Rocha


Há amores que a gente escolhe com a cabeça — o filme da hora, o livro da moda, o vinho da vez. E há amores que nos escolhem de corpo inteiro: pelas mãos, pelos olhos, por um cheiro antigo que insiste em ficar. Amor por um clube é assim: não se explica, se padece. Lealdade que não se negocia na vitória nem na derrota.

 

Sei disso com o Vasco, herança paterna de um jeito próprio de amar e sofrer. Sei também com o CSA, essa teimosia que verga há anos, mas não quebra. Mas não falo deles. Falo de um amor que não tem camisa vendida em aeroporto: a AABB Maceió.


Mosaico: Album de Família 



Sim, um clube. “De banco”, dirão alguns, como quem reduz uma cidade a um código postal. Mas a AABB é dessas paixões que entram sem bater e quando a gente menos espera já puxaram cadeira e tomaram assento na sala. Nasceu como tantos outros clubes: da necessidade de encontro. Em 1953, bancários em Alagoas decidiram que convivência fora do trabalho e lazer não eram luxo, mas questão de sobrevivência.


Cheguei à AABB em 1970, ainda na Praia do Sobral, trazido pela transferência do meu pai de União dos Palmares para Maceió. Tinha 12 anos — idade em que o mundo cabe no bolso e o amanhã não cobra juros. Fui direto para a natação. Andava sempre assoando o nariz, catarro teimoso de menino. O amarelão e a barriga-d’água, lembranças quentes do Rio Mundaú, só apareceriam depois, descobertos e curados quando o tempo resolveu explicar o corpo.

 

No verão de 1971 vivi meu único triunfo esportivo digno de nota. Talvez por isso o clube nunca tenha saído de mim. Numa prova final de peito clássico, os arredores da piscina estavam coalhados de gente. A torcida parecia toda pelo adversário da raia ao lado. Por mim, só minha mãe e meus irmãos, perdidos no oceano de cabeças, tentavam me salvar do vexame.

 

Ganhei por uma braçada — sabe Deus como. Do alto de dois engradados de cerveja que serviam de pódio, engoli o choro ao receber das mãos de meu pai, então secretário do clube, a única medalha que pendurei no pescoço. Disseram-me que homem não chorava. Nem menino mudando de voz, com pelos nos sovacos. 

 

Soube bem depois que aquele adversário, filho de um associado muito querido, se perdeu nas drogas e hoje, quase setentão, perambula pelas ruas como sem-teto. A raia muda. O pódio apodrece. O aplauso evapora.

 

Volto aos treze anos. Enquanto não comia, dormia ou estudava, queria mais era rachar nos campinhos de terra batida ou à beira-mar, disputar futebol de botão, folhear a Placar. E minha irmã mais velha suspirava lendo fotonovelas e ouvindo canções românticas.

 

Nas noites de sexta, a AABB fervia. Banda, cadeiras duras, fumaça espessa, luz negra estourando nos olhos, o chão vibrando sob os sapatos. Minha irmã queria ir à boate toda semana. Nosso pai era inflexível: só iria se eu fosse. E lá ia eu, mártir involuntário, para um mundo onde não cabia. Às dez da noite já morria de sono. Sem saber, porém, testemunhava o nascimento de uma lenda alagoana que o Brasil inteiro aprenderia a ouvir.

 

No Carnaval de 1972, também na AABB, fingi gostar da bagunça. Não larguei a mão de uma menina nos três dias de folia e, no último, até assobiei a marcha derradeira. Mais alívio que romance. Nem houve beijo. Naquele tempo, matava-se a sede gole a gole.

 

Rimos hoje do que não aconteceu. Ou de quando ouvimos “só eu sei as esquinas por que passei...”. E isso também é amor pelo clube: um lugar onde a memória faz tabela e a saudade vira o jogo a qualquer momento.

 

Doze anos mais tarde, a AABB se mudou para Ipioca, na Praia da Pescaria. Ali deixou de ser apenas clube: virou ecossistema. Um pedaço de chão entre rio e mar, na foz do Meirim, onde o mangue ensina paciência. Na maré baixa, atravessa-se o rio a pé, como se a natureza abrisse uma porteira. Só pede cuidado.



Mosaico: Album de Família


 

Foi ali que nossos filhos deram as primeiras braçadas, aprenderam a tirar caranguejo da toca sem ferir as mãos. Foi ali que, outro dia, vi uma netinha, criada entre teclado e viola estrangeiros, exultar ao ver um amigo meu tocar triângulo. Pediu o instrumento e nos encantou. Talvez não saiba ainda, mas corre em suas veias sangue nordestino — esse povo que transforma uma lata em tambor de todos os ritmos.

 

Lembrei de tudo sábado passado, numa prévia carnavalesca na AABB. Alguém me perguntou qual era minha ligação com o clube. Respondi com outra pergunta: “você tem um tempinho pra me ouvir?”.

 

Porque esse amor não é posse, é permanência. Um pacto entre pessoas, lugares, vozes e ausências. Algo imenso que não se explica nem se rompe. 

 

Como o mangue: parece lama, mas sustenta o mar. 


 

 

janeiro 14, 2026

Onde até a terra perdeu o chão

ONDE ATÉ A TERRA PERDEU O CHÃO 
Hayton Rocha


Em Alagoas, berço de Graciliano Ramos, o chão aprendeu a falar antes que alguém estivesse disposto a ouvi-lo. Primeiro vieram rachaduras tímidas, dessas que se tenta esconder com massa corrida, um quadro torto, uma estante empurrada contra a parede. Depois, os tremores: pequenos soluços do asfalto, como se Maceió gemesse de dor. Em 2018, cinco bairros da capital começaram a afundar, rascunhando no subsolo a crônica de uma catástrofe anunciada.




Mosaico: fotografias de Venilton Sá


Chamaram de fenômeno geológico. Nome bonito, desses que aliviam consciências e terceirizam culpas. Fenômeno soa como chuva, vento, obra de Deus. Mas o povo sabe quando a dor é humana. Ali não havia mistério cósmico: havia sal-gema, poços mal cavados, décadas de extração escondida sob casas, escolas, igrejas e histórias de família. Um queijo suíço subterrâneo sustentando vidas inteiras até o dia em que a terra perdeu o chão.


O Morro do Mutange, dizem agora, vai precisar vir abaixo. Não por vontade própria, mas por cálculo técnico. Desmontar o morro, fechar buracos, ocupar o passado com areia. Backfilling, chamam. Palavra estrangeira para uma tentativa antiga: tapar o rombo depois do estrago. 


Trinta e cinco minas abertas ao longo de quarenta anos desenharam a geografia íntima da tragédia. Quinze mil imóveis evacuados. Sessenta mil pessoas aprendendo, à força, que todo endereço é provisório.


A indenização virou outro terremoto. Avaliações feitas pela própria empresa, valores que oscilam como o humor do mercado imobiliário, e uma escolha cruel: aceitar ou brigar na Justiça. Em média, duzentos mil reais por família. Quarenta mil por dano moral, fixos, como se a dor pudesse ser tabelada, como se dois moradores sofressem o mesmo que seis, oito; como se memória e saudade coubessem na fatura. Advogados pedem cautela, defensores alertam, moradores são pressionados. A casa racha, o chão afunda, a confiança desaba.


Agora, pela primeira vez desde o primeiro tremor, os números soam menos apocalípticos. A imprensa noticia que a velocidade do afundamento diminuiu. A área afetada desacelerou. Areia entra onde antes só havia vazio. Ainda dói, mas dói menos. Ainda assusta, mas não tanto.


Nada muda rápido. O mapa de risco permanece aberto como ferida que não fecha. A lagoa segue engolindo milímetros por ano, paciente e constante. Sismógrafos vigiam a terra como médicos de plantão. GPS milimétrico acompanha cada respiração do solo, como quem teme recaídas. O bairro do Pinheiro virou planalto de máquinas. O Mutange, um silêncio vegetal à beira d’água. O futuro segue interditado.


É aqui que o caos flerta com a imaginação. Porque toda terra estabilizada vira promessa. Se o solo se firmar, se as minas forem definitivamente tamponadas, o que sobra é uma extensa faixa de território, do alto da cidade até a Lagoa Mundaú.




Mosaico: fotografias de Venilton Sá


Terra rara. Vista extraordinária. Potencial imobiliário piscando como letreiro de cassino numa das mais belas capitais brasileiras. 


Onde hoje há interdição, amanhã pode haver maquete.


Centros comerciais, condomínios de luxo, grandes hotéis, o vocabulário do desenvolvimento reaprende a falar grosso sempre que o chão se cala. A bela Maceió pode ser convertida, quem sabe, numa Las Vegas com coqueiros, num Montecarlo tropical, onde o ouro já não sai da terra, mas da roleta. A depender do próximo Congresso Nacional.


O mundo quase inteiro joga. O Brasil finge que não vê. Proíbe no papel, tolera na prática. Deixa o dinheiro escorrer por frestas enquanto poderia planejar, regular, tributar. Cinismo também é um tipo de cegueira.


Já se disse que o caos é uma ordem por decifrar. Mas há ordens que escolhem quem paga a conta. Hoje, pagam os humildes, arrancados de suas origens, empurrados para longe do chão que lhes pertencia. Amanhã, é possível que os terrenos desocupados gerem riqueza, muita riqueza. Para quem?


Ao receber a indenização, cada vítima foi obrigada a assinar um documento que mais parece pacto de esquecimento: quitação plena, exoneração de responsabilidades, por si e por seus herdeiros. Quaisquer que sejam os resultados das investigações. Renunciando a direitos presentes e futuros. Para nada mais reclamar. Em tempo algum, em lugar algum, sob pretexto algum.


Entre o queijo subterrâneo e a areia que preenche, Maceió aprende, na marra, que tragédias não terminam quando o chão para de ceder. Terminam — se é que terminam — quando a justiça chega a quem nunca esteve no lugar errado. 


Até lá, a cidade se recompõe, enquanto alguns sobem e outros seguem soterrados. Não pela terra, mas pela indiferença.

 

janeiro 07, 2026

Os que cabem no jipe


OS QUE CABEM NO JIPE

Hayton Rocha


Nem bem o ano virou a esquina e já me chega, na segunda manhã de janeiro, uma mensagem de meu amigo Artur Roman, dessas que não chegam por acaso. 


Não requer resposta imediata. Pede digestão lenta, café forte, janela aberta e lembranças antigas se mexendo em fogo baixo. Artur escreve com carinho e bisturi: elogia, provoca, cutuca onde dói e, no fim, costura uma dica preciosa.




Ele estranhou meu tom na última crônica do ano. Acostumado a me ver rindo das próprias quedas, viu melancolia demais em O cemitério das agendas. Achou que eu tivesse varrido gente inconveniente para debaixo do tapete, numa catarse discreta, para começar 2026 com o coração mais leve. 

 

Dezembro tem esse mérito estranho: a gente faz balanço, limpa gavetas, joga fora recibos, rancores e algumas amizades com prazo de validade vencido.

 

Artur conhece bem o peso dos relacionamentos. Assim como eu, passou décadas nos andares altos de grandes empresas, onde o ar é rarefeito e os sorrisos, muitas vezes, forçados, protocolares. 

 

Talvez por isso tenha deduzido, logo de cara, que aquela crônica falava menos de agendas e mais de ausências. E me pediu, com a delicadeza de sempre, que neste começo de ano eu lembrasse também da outra banda: a dos amigos que se instalaram em meu coração e ficaram.

 

Fiquei matutando. Já escrevi crônica nesse tom há alguns anos. Falei de amigos que partiram — ou me abandonaram — durante a pandemia, recorrendo a uma velha fábula de Esopo: dois amigos, um urso, uma árvore. Um sobe, o outro fica no chão. Moral eterna: amizade que abandona na hora do perigo não merece o nome que usa. O urso cochicha isso no ouvido do sobrevivente, com sabedoria de velho. Algumas lições só aprendemos quando o susto já passou.

 

Nunca tive muitos amigos. Um pouco por vocação, outro por itinerância. Mudanças de cidade, de rumo, de trabalho. A infância se espalhou em mapas diferentes. Da adolescência sobraram dois ou três nomes que ainda reconheço pelo riso, mas já não sei de suas dores nem de seus sonhos. Na vida adulta, conheci muita gente — gente boa, inclusive —, mas amigos, poucos.

 

Com esses poucos, brinco dizendo que eles cabem dentro do meu velho jipe: com cinto de segurança, janelas abertas e espaço apenas para as conversas necessárias. 

 

Gosto dessa imagem. Amizade é como carro antigo: nem sempre comporta quem queremos, exige manutenção, faz barulhos estranhos, mas não nos deixa na estrada se a gente aprender a escutá-lo. Os que seguem comigo conhecem meus defeitos de marcha, aceleração e freios. Eu conheço os deles. Fingimos, por educação mútua, que não escutamos tudo nem vemos demais. E assim a viagem segue.

 

Também escrevi aqui, mês passado, que ouvi de um escritor uma sentença inesquecível: “Livro não é brinquedo”. Falava de lançamentos esvaziados, de cadeiras sobrando, de gente que só aparece quando há churrasco ou holofote. Dizia isso sem mágoa. Aprendera que o livro é pretexto para o encontro, não espetáculo. Que os poucos amigos que aparecem salvam a noite. Preciso registrar agora que esse cara, além do próprio, também sou eu. 

 

Descobri que amizade é menos discurso e mais presença, mesmo a uma distância silenciosa. Amigo é quem aparece quando menos se espera. Quem se senta na primeira fila invisível. Quem entende que escrever — assim como viver — é lançar garrafas ao mar sem garantia de resposta. Às vezes alguém encontra, abre, lê. Às vezes não. Ainda assim, a mensagem precisa ser lançada, porque o gesto conta muito.

 

Pois é, Artur: você me sugere começar o ano falando da outra banda de amigos e leitores que fui juntando ao longo da vida e da escrita. Isso me remete a meu velho jipe. Quem já andou nele sabe. Sempre há alguém, no banco do carona, para ajudar a escolher o caminho quando a chuva cai pesada e a estrada, cheia de buracos, se bifurca sem aviso. Os outros vão atrás, reclamam do calor, do frio, da música — mas permanecem.

 

Não escrevi O cemitério das agendas por acerto de contas nem por ressentimento. Escrevi por necessidade, para que os vivos respirassem melhor. Os que ficam não exigem explicação nem discurso. Sabem, como eu, que amizade não cobra holofote nem promessa: pede estrada. E basta que sigamos juntos, mesmo calados, até onde o jipe aguentar.

 

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