PACTO DE MANGUE E MAR
Hayton Rocha
Há amores que a gente escolhe com a cabeça — o filme da hora, o livro da moda, o vinho da vez. E há amores que nos escolhem de corpo inteiro: pelas mãos, pelos olhos, por um cheiro antigo que insiste em ficar. Amor por um clube é assim: não se explica, se padece. Lealdade que não se negocia na vitória nem na derrota.
Sei disso com o Vasco, herança paterna de um jeito próprio de amar e sofrer. Sei também com o CSA, essa teimosia que verga há anos, mas não quebra. Mas não falo deles. Falo de um amor que não tem camisa vendida em aeroporto: a AABB Maceió.
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| Mosaico: Album de Família |
Sim, um clube. “De banco”, dirão alguns, como quem reduz uma cidade a um código postal. Mas a AABB é dessas paixões que entram sem bater e quando a gente menos espera já puxaram cadeira e tomaram assento na sala. Nasceu como tantos outros clubes: da necessidade de encontro. Em 1953, bancários em Alagoas decidiram que convivência fora do trabalho e lazer não eram luxo, mas questão de sobrevivência.
Cheguei à AABB em 1970, ainda na Praia do Sobral, trazido pela transferência do meu pai de União dos Palmares para Maceió. Tinha 12 anos — idade em que o mundo cabe no bolso e o amanhã não cobra juros. Fui direto para a natação. Andava sempre assoando o nariz, catarro teimoso de menino. O amarelão e a barriga-d’água, lembranças quentes do Rio Mundaú, só apareceriam depois, descobertos e curados quando o tempo resolveu explicar o corpo.
No verão de 1971 vivi meu único triunfo esportivo digno de nota. Talvez por isso o clube nunca tenha saído de mim. Numa prova final de peito clássico, os arredores da piscina estavam coalhados de gente. A torcida parecia toda pelo adversário da raia ao lado. Por mim, só minha mãe e meus irmãos, perdidos no oceano de cabeças, tentavam me salvar do vexame.
Ganhei por uma braçada — sabe Deus como. Do alto de dois engradados de cerveja que serviam de pódio, engoli o choro ao receber das mãos de meu pai, então secretário do clube, a única medalha que pendurei no pescoço. Disseram-me que homem não chorava. Nem menino mudando de voz, com pelos nos sovacos.
Soube bem depois que aquele adversário, filho de um associado muito querido, se perdeu nas drogas e hoje, quase setentão, perambula pelas ruas como sem-teto. A raia muda. O pódio apodrece. O aplauso evapora.
Volto aos treze anos. Enquanto não comia, dormia ou estudava, queria mais era rachar nos campinhos de terra batida ou à beira-mar, disputar futebol de botão, folhear a Placar. E minha irmã mais velha suspirava lendo fotonovelas e ouvindo canções românticas.
Nas noites de sexta, a AABB fervia. Banda, cadeiras duras, fumaça espessa, luz negra estourando nos olhos, o chão vibrando sob os sapatos. Minha irmã queria ir à boate toda semana. Nosso pai era inflexível: só iria se eu fosse. E lá ia eu, mártir involuntário, para um mundo onde não cabia. Às dez da noite já morria de sono. Sem saber, porém, testemunhava o nascimento de uma lenda alagoana que o Brasil inteiro aprenderia a ouvir.
No Carnaval de 1972, também na AABB, fingi gostar da bagunça. Não larguei a mão de uma menina nos três dias de folia e, no último, até assobiei a marcha derradeira. Mais alívio que romance. Nem houve beijo. Naquele tempo, matava-se a sede gole a gole.
Rimos hoje do que não aconteceu. Ou de quando ouvimos “só eu sei as esquinas por que passei...”. E isso também é amor pelo clube: um lugar onde a memória faz tabela e a saudade vira o jogo a qualquer momento.
Doze anos mais tarde, a AABB se mudou para Ipioca, na Praia da Pescaria. Ali deixou de ser apenas clube: virou ecossistema. Um pedaço de chão entre rio e mar, na foz do Meirim, onde o mangue ensina paciência. Na maré baixa, atravessa-se o rio a pé, como se a natureza abrisse uma porteira. Só pede cuidado.
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| Mosaico: Album de Família |
Foi ali que nossos filhos deram as primeiras braçadas, aprenderam a tirar caranguejo da toca sem ferir as mãos. Foi ali que, outro dia, vi uma netinha, criada entre teclado e viola estrangeiros, exultar ao ver um amigo meu tocar triângulo. Pediu o instrumento e nos encantou. Talvez não saiba ainda, mas corre em suas veias sangue nordestino — esse povo que transforma uma lata em tambor de todos os ritmos.
Lembrei de tudo sábado passado, numa prévia carnavalesca na AABB. Alguém me perguntou qual era minha ligação com o clube. Respondi com outra pergunta: “você tem um tempinho pra me ouvir?”.
Porque esse amor não é posse, é permanência. Um pacto entre pessoas, lugares, vozes e ausências. Algo imenso que não se explica nem se rompe.
Como o mangue: parece lama, mas sustenta o mar.


Caro Hayton
ResponderExcluirLi sua crônica e gostei demais da sua habilidade em transformar a memória afetiva em algo tão tangível. O que mais me despertou atenção foi a maneira como você articulou a história pessoal com a geografia sentimental de Maceió. Há uma elegância muito particular em não omitir as asperezas da infância — as enfermidades do rio, o pódio improvisado sobre engradados — enquanto se constrói a mística do lugar.
A nota trágica sobre o destino do seu antigo adversário de raia confere à narrativa uma gravidade necessária. Ela retira o texto do campo da mera nostalgia e o transporta para uma reflexão sobre a transitoriedade e o peso do tempo. É um contraponto severo, mas muito bem colocado, que dá equilíbrio à leveza das recordações de carnaval e das fotonovelas.
Ao final, ao comparar o clube ao mangue — essa estrutura que, embora oculta e humilde, sustenta a imensidão do mar —, você sintetizou o que significa pertencer a algo. É uma imagem poderosa, que encerra o texto com uma sobriedade que honra tanto as suas raízes quanto a inteligência do leitor.
Um belo testemunho de permanência. Parabéns.
Depois de viajar pelo texto do Amigo Hayton, a gente se depara com os comentários que vão enriquecendo ainda mais a viagem. Aqui, Izaias debulha a crônica de uma maneira muito especial, dando luz às sutilezas com que o nosso Amigo Cronista nos presenteia a cada semana.
ExcluirQue bom poder estar no meio de gente que tem esse dom de embelezar as coisas.
Amigo Hayton,é Muito Prazeroso ler suas Crônicas,e falando em Maceió,o prazer e a saudade triplicam!
ResponderExcluirCada AABB por onde passamos na vida de retirante tem um pedaço de nós na quadra, na piscina, no campo, no bar, no salão de jogos...foi a nossa terceira casa. Essa crônica coloca no pódio um espaço que foi trocado por outros nos dias atuais e que para nossa geração segue sendo o espaço de lazer preferido. Gratidão caro amigo.
ResponderExcluirCaro Hayton,
ResponderExcluirHá, na sua crônica(reminiscências) um pacto bem maior: do amor com o respeito; da benquerença com a saudade; do ensinamento com o aprendizado; da preservação com a dignidade!
Pouco se vê, em dias como os que transitamos, pessoas voltadas a guardar memória e respeito ao que lhes fora basilar no conjunto do aprendizado na vida. Há um esquecimento seletivo, por vezes sibite, como cravam nossos irmãos sertanejos da Velha Natuba dos Kiriris, meu torrão, tudo em obediência à modernidade e, digamos assim, à prosperidade meramente material.
Tenho e terei um tempinho para lhe ouvir, para lhe ler semanalmente - ao menos -, mas, acima de tudo, creia, tenho um tempão, de sobra mesmo, para admirar sua verve de escritor festejado, com sério rumo à Academia dos maiores nas letras, pensada e nos moldes de antanho, por nosso inconfundível Machado.
Há fãs que exageram, os tietes, como aqui me ponho, mas o fazem com a consciência de aplaudir o que de melhor se nos vem nos seus brilhantes textos.
Ave Palavra!
Tonhodopaiaia.org
Um mergulho nas lembranças. Obrigado, amigo por nos guia nessa viagem de pés descalços entre o doce do rio e o sal do mar.
ResponderExcluirGrande Parahyba - Amigo Singular!
ResponderExcluirDe vara curta, hoje cutucou vigorosamente a memória.
Bela viagem ao passado não muito distante.
Conheço esse paraíso - AABB de Maceió, a atual - Essa que tem a beleza de lugar que acolheria, com modos, a figura genial de Ernest Hemingway, cujas pegadas 👣, você mesmo, ainda descalço, está a trilhar.
Fraterno amplexo 🤝
A Associação Atlética Banco do Brasil é um clube que faz parte da minha história desde a década de 1970. Tornei-me associado ao ingressar no banco, em 1983. Atuei como presidente da AABB de Penedo-AL por sete anos e, atualmente, integro o Conselho Deliberativo da AABB Maceió. A crônica, envolvente e sensível, nos conquista a cada linha e nos conduz suavemente por uma verdadeira viagem no tempo. Hayton, como sempre, você nos faz revisitar nossas lembranças mais afetivas. Desta vez, acredito que todos que fazem parte da família Banco do Brasil se veem refletidos nessas memórias ligadas à AABB.
ResponderExcluirJá conheci a AABB da praia de Pescaria.
ResponderExcluirTenho fotografado lindas recordações dos meus filhos ainda crianças.
Velhos tempos.
Sua crônica de hoje me vez passear por bons momentos vividos em algumas de nossas AABBs, inclusive a de Maceió, quando atleta de voley integrava o time da AABB de Salvador e participava dos varios campeonatos regionais e até nacionais realizados no nosso amado clube. Valeu amigo!
ResponderExcluirHá algum tempo ouvi um amigo dizer que só se conhece outra pessoa depois de uma garrafa de vinho. Certamente foi uma metáfora para dizer que precisa ter tempo de ouvir e escutar os detalhes. A crônica de hoje traz o detalhe revelador nos três dias de carnaval, me levando a entender que o personagem se apaixonou por todos os caminhos que o conduziram ao grande amor da sua vida.
ResponderExcluirMaurício
A cada crônica a gente conhece um pouco mais sobre você e sua história de vida. Passa a sensação de caminhar ao seu lado. Grande abraço.
ResponderExcluirSensibilidade única. Um enredo que nos prende e com um final genial : “Como o mangue: parece lama, mas sustenta o mar.”
ResponderExcluirHayton, mais do que contar sua história de amor e emoções nas AABB da sua vida, nos provoca e convoca , com o talento dos poetas, a reviver nossas próprias lembranças guardadas em alguma gaveta da memória …
ResponderExcluirPassou um filme em mim enquanto lia e via as fotos …
Às três AABB da minha vida , dos 6 aos 63 anos , da quadra de cimento da AABB de Serrinha , onde ficou o sangue e a marca dos meus joelhos meninos , passando pela da Barra já em Salvador, ainda menino adolescendo e sua quadra de madeira e piscina azul como a mar do Porto da Barra e a saia de uma moça dançando na salão nobre do andar de cima e os hambúrgueres do restaurante do térreo …e a primeira quadra de vôlei de areia que só olhava de soslaio e fingia ignorar …
Dos passeios de cavalo nos primórdios da AABB de hoje, onde jovem adulto , andei de cavalo pela primeira vez , da “piscina de hotel “ , dos campos gramados enfim , até os nossos encontros da turma da Centro ….
Esse Hayton vira e mexe revira nossos corações empedernidos…
Show de bola .
E phudeu a Bahia!
Boas lembranças daquele tempo !
ResponderExcluirEntre tartarugas e caranguejos, você continua nos provocando com suas crônicas.
Parabéns!
Você me fez lembrar de Exupery em O Pequeno Princípe, meu livro de cabeceira na mocidade. "Todas as pessoas grandes foram um dia crianças – mas poucas se lembram disso". Isso reflete a perda da imaginação e da pureza com o passar do tempo.
ResponderExcluirMuito prazeroso ler suas crônicas e em especial essa sobre o nosso clube. Parabéns mais uma
ResponderExcluirVez meu amigo
...Excelente crônica, caro HAYTON! Vivenciei "bons momentos" nas AABBs Brasil afora. Saudades. José Luiz.
ResponderExcluirEssa ligação quase umbilical dos funcionários com a AABB é fantástica.
ResponderExcluirNão fui e ainda não sou frequentadora da AABB, embora seja sócia desde meu ingresso no Banco, mesmo trabalhando no interior. Acho importante fazer parte de nossas associações: fortalece o grupo, dá visibilidade e aprimora as relações interpessoais e de trabalho. E todo dia planejo ir à AABB para ver quem encontro por lá. Um dia ..,,
Nelza Martins
Por mais que não tenha frequentado o clube, deu pra sentir toda a ambiência envolvida. Tem um "quê" de experiência compartilhada. E é bom saber que perdemos o nadador, mas recebemos um escritor (e dos bons).
ResponderExcluirAABB é coletivo de emoções, conquistas, derrotas, amores, tudo junto e ao mesmo tempo, entremeado de amigos. Brilhante Hayton, sua crônica nos desperta lembranças do privilégio de ter vivido intensamente infância e adolescência conectados ao mundo real.
ResponderExcluirComo se fora brincadeira de roda, memória...
ResponderExcluirNós, filhos de funcionários, criados em AABB, temos uma relação muito forte com o clube. Meu pai foi um dos fundadores da AABB de Londrina e desde criança frequentava o clube. Tenho até hoje amigos desde o inicio do clube, na decada de 60. Belas memórias meu caro Hayton.
ResponderExcluirAmigo Hayton,
ResponderExcluirCom sua habilidade costumeira, vc fez mais que relatar um caso de amor, relatou uma vida.
Assim também me sinto, um apaixonado por esse clube, que na verdade, é também um lar.
Sou AABBEANO há 58 anos, cativado que fui, antes mesmo de ingressar nos quadros do BB, por graça e “culpa”, de um tio, funcionário, e fundador da AABB Brasília.
Quis o destino, essa fábrica de sonhos, que eu criasse minha família, e minha história no BB, sob o teto de uma série de AABBs, tendo sido orgulhosamente dirigente de várias delas.
Excluindo minha casa, por óbvio, não há lugar em que me sinta melhor (A Andrea acha que a ordem não é essa), e continuo, teimosamente, insistindo em competir, agora apenas na sinuca, exibindo orgulhosamente a camisa que aprendi a amar, há tanto tempo.
Temos muita coisa em comum, amigo querido, e esse amor, que dividimos com tanta gente boa, é apenas(?) mais um desses encontros.
Delícia de crônica!
ResponderExcluirA vida em forma de poesia. Às vezes passamos por essas coisas ditas banais e nem notamos.
Feliz de quem recolhe, grava, saboreia. E compartilha!
Pois é, meu amigo... AABB foi nosso refúgio de finais de semana, principalmente. Ajudei a fundar algumas e fui presidente de duas. Recentemente recebi fotos de uma, grande que sempre foi, completamente abandonada e depredada. Uma judiação. Refúgio até para malacos que traficam. Vivemos tão intensamente nossos lazeres e só restou saudade. O número de sócios caiu demais pela redução do pessoal das agências. Que pena. Até pra sonhar fica triste.
ResponderExcluirEssa crônica me fez viajar no tempo! Relembrei as andanças pelas AABBs de Pernambuco e a inesquecível experiência em Carauari-AM. Lá, realizamos um bingo para trazer um Boneco de Olinda para o carnaval do Boi-Bumbá.
ResponderExcluirApós conseguir o boi para a doação, veio a missão: quem levaria o boneco de 35 kg? Como ninguém aceitou, tive que assumir o papel! Treinei no quintal com tambaqui e frevo, até que o Hélio, vigilante, tomou coragem e me ajudou no desafio. Levamos a cultura pernambucana para a Amazônia, encantando quem nunca tinha visto nossos bonecos gigantes!
Valeu Hayton, simbora viver, reviver e brindar os bons momentos da vida!
Parabéns, Hayton! Belas lembranças! Não sei se a criação das "AABB's" foi um projeto organizacional da diretoria de RH do BB ou idéia de uma cabeça iluminada, desses colegas que fazem algo grande, sem perceber. Porque meu vinculo afetivo com o BB, de pertencimento, foi ampliado com o convivio com colegas na AABB. Alí quase não havia desigualdade de cargo ou salário (as vezes havia😄); Em uma pelada, um menor aprendiz podia dar um olé no gerente geral que não seria punido pelo desaforo! Não era muito recomendável, mas tinha escriturário novato que, no campinho de futebol 7, dava cacete no superior sem dor nem piedade! Enfim amigo, a crônica me trouxe de volta a lembrança de bons tempos, da convivência com bons colegas e amigos
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