NO CABO DA ENXADA
Hayton Rocha
Daqui a pouco, mais de 158 milhões de brasileiros poderão votar para presidente da República, governadores, senadores e deputados. Com o início da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão nesta semana, a campanha esquentará de vez. É a época em que candidatos descobrem, subitamente, o encanto das feiras livres, dos canteiros de obras e das ferramentas que nunca lhes passaram pelas mãos. O país inteiro transforma-se num imenso palco, onde até a espontaneidade entra em cena sob a batuta de marqueteiros.
Para conquistar a atenção do eleitor e gerar a chamada mídia espontânea, políticos de todos os credos fazem de tudo. Bebem licor de jenipapo com tira-gosto de sarapatel requentado, dançam baião sem nunca terem chegado perto de uma sanfona e comem pastel como se jamais houvessem visto um guardanapo de linho. O importante é parecer natural. Ou, pelo menos, convencer a câmera de que aquilo não foi ensaiado quinze vezes antes da gravação.
É justamente nesse período que costumam ressurgir vídeos de campanhas passadas, feito zumbis que se levantam das catacumbas digitais para perseguir seus protagonistas. A internet não esquece. Apenas espera.
Na última eleição municipal, reapareceu um desses mortos-vivos. Na tentativa de se reeleger prefeito de Salvador, um candidato resolveu visitar as obras do aeroporto. O ato político virou piada instantânea nas ladeiras, nos becos e nos terreiros da capital baiana.
No vídeo, o pequeno burgomestre empunhava uma enxada com mãos alvas e delicadas, de unhas impecáveis. Vestindo terno azul-marinho e sapatos engraxados, tentava equilibrar brita e cimento sobre a ferramenta. Parecia confundir enxada com vassoura, o que também não ajudaria muito alguém que provavelmente nunca varreu um alpendre. Segurava-a como quem encontra pela primeira vez um objeto que até então só conhecia de fotografia. Se precisasse capinar, faria sentado, claro.
A cena me fez lembrar outra, ocorrida na virada do século, durante a Festa do Cacau, em Camacã, no sul da Bahia. Ali vi um velho cacique da política baiana escapar por pouco de um constrangimento memorável.
Entre as atrações da festa está a Quebra do Cacau, competição em que trabalhadores rurais disputam quem abre mais frutos no menor tempo. É uma reprodução da colheita: o cacau é retirado com podão, amontoado em rumas e aberto a facão para a retirada das amêndoas. Não há espaço para hesitação. A ferramenta e a mão precisam conversar como velhos companheiros.
Virar Diamante Negro, Ferrero Rocher ou Sonho de Valsa é apenas questão de tempo, açúcar, leite, fogo e alguma propaganda.
Naquele ano, alguém cochichou ao ouvido do cacique, entregou-lhe um facão e um fruto de cacau. A ideia era que partisse simbolicamente o primeiro produzido após o anúncio de avanços no combate à vassoura-de-bruxa, praga terrível que quase devastara as lavouras da região.
Por precaução, a casca já estava parcialmente cortada. Em cerimônias políticas, nunca se deve subestimar o potencial de um vexame épico.
Nem assim ele se animou. Olhou para o facão, depois para o cacau e, por fim, para as próprias mãos. Fez um rápido cálculo mental. Talvez receasse decepar os dedos, finos e pouco familiarizados com a aspereza do trabalho no campo.
Sorriu sem graça, balançou o indicador e desistiu. Eram mãos de quem nunca pegara num barbante, muito menos num facão. Acostumadas apenas ao peso de alianças políticas, pastas, dossiês, e processos, não conheciam enxadas nem podões. Em compensação, sabiam constranger aliados, puxar as orelhas de correligionários e apertar o pescoço de adversários.
Não posso garantir, porque nunca presenciei — e não vou começar a mentir justamente em ano de eleição —, mas dizia-se que ele gostava de advertir os discípulos:
— Aqui, quem não é meu amigo é meu inimigo.
O tempo passou. O facão virou enxada. Mudaram os cenários, as câmeras e os marqueteiros. As mãos, porém, continuaram parecidas: delicadas demais para o trabalho e experientes o bastante para o poder.
Talvez seja por isso que as campanhas eleitorais insistam tanto em colocar ferramentas nas mãos dos candidatos. A enxada, o facão e o martelo funcionam como certificados instantâneos de intimidade com o povo. Pouco importa se o político não sabe por onde começar. Basta sorrir para a câmera que o marqueteiro faz o resto.
Porque, em política, pegar no cabo da enxada costuma ser bem mais leve do que o trabalho que vem depois.

Bom dia Parahyba - Amigo de fé!
ResponderExcluirEssa escrita de hoje ficou tão apropriada para a ocasião que no ato de “degusta-la”, cheguei a ouvir som de viola a tocar a chula da Chapada Diamantina 🎼
O melhor de tudo, entretanto, foi no fio das letras, identificar os personagens que povoaram o seu juízo no momento que esculpia essa preciosa joia baiana e muito grapiúna.
Paz e bem 🤝
Parabéns, Hayton
ResponderExcluirGostei bastante. Um ano em que a hipocrisia impera senhora. E é necessário que se fale sobre.
O que temos visto é uma perpetuação da espécie política através da transmissão hereditária.
A vida política deveria ser como um sacerdócio, voltada sempre para o bem coletivo, cujas funções principais fossem:
Representar a população e seus diferentes interesses.
Definir prioridades coletivas, especialmente em áreas como saúde, educação, segurança, moradia, infraestrutura e desenvolvimento econômico.
Criar e aperfeiçoar leis e políticas públicas que promovam o bem comum.
Distribuir recursos públicos com responsabilidade, transparência e critérios de justiça.
Fiscalizar o poder público, inclusive quando isso significa fiscalizar o próprio grupo político.
Mediar conflitos e diferenças, buscando soluções negociadas em vez de aprofundar divisões.
Garantir direitos e liberdade, respeitando as instituições democráticas.
Planejar o futuro, e não apenas responder a problemas imediatos ou buscar resultados eleitorais.
Em uma democracia saudável, a política deveria ser um instrumento para organizar a vida coletiva e transformar necessidades da população em ações concretas — e não simplesmente um meio de conquistar ou conservar poder.
Mas, infelizmente, o que vemos é só briga por poder e o interesse individual se sobrepor ao coletivo.
Político que nunca fez
ResponderExcluirQualquer trabalho braçal
Nunca capinou o chão
De um pequeno quintal
Pega no cabo da enxada
Só para fazer fachada
Na campanha eleitoral.