setembro 30, 2026

Perdidos e pedidos


PERDIDOS E PEDIDOS

Hayton Rocha

 

Na coleção O Mundo da Criança, que havia numa estante lá em casa, minha irmã Haydeé e eu, aos dez e nove anos, descobrimos uma lenda afro-cristã surgida no fim do século XIX. Tornara-se popular entre os abolicionistas empenhados em acabar com o vexame da escravidão, embora o país, depois de libertar os escravos, tenha conservado o chicote e a senzala sob outros nomes.

 

Dizia-se que um fazendeiro mandou um menino negro vigiar alguns cavalos recém-comprados. Ao cair da tarde, faltava um animal. O patrão aplicou na criança uma surra tão bruta que suas costas ficaram em carne viva.

— Encontre o cavalo ou vai ver o que lhe acontece!

 

O menino saiu pela noite, encontrou o animal e conseguiu laçá-lo, mas a corda partiu-se e o bicho desapareceu na escuridão. De volta à fazenda, recebeu nova surra. Depois, foi amarrado sobre um formigueiro, para que os insetos concluíssem o serviço iniciado pela crueldade humana.

 

Quando amanheceu, o corpo estava frio, com os olhos sem luz.

 

Mas, de repente, lá estava o menino de pé, com a pele lisa feito louça, sem marca alguma das chibatadas. À direita, a Virgem Maria; à esquerda, o cavalo fujão. O fazendeiro ajoelhou-se arrependido, talvez porque até os tiranos adquirem consciência quando percebem que há testemunhas no céu. O menino se fez de mouco, beijou a mão da santa e foi embora.

 

Daquele dia em diante, andarilhos, bêbados e loucos — que às vezes enxergam melhor do que os ajuizados — juravam ter visto uma tropa de potros conduzida por um moleque num cavalo de crinas negras e compridas.

 

Também diziam que, quando alguém perdia alguma coisa, bastava pedir ajuda ao menino. Ele encontrava o objeto, desde que o dono acendesse uma vela para a santa que o livrara da escravidão. Nascia a lenda do Negrinho do Pastoreio.

 

Por isso, toda vez que perdíamos um brinquedo, um caderno ou um lápis, Haydeé e eu acendíamos uma vela sobre a mesa da sala de jantar e recorríamos ao Negrinho. E ele nunca falhou conosco, apesar da distância que nos separava no Sertão paraibano do Pampa gaúcho dos anos sessenta. 




 

Havia certamente alguma influência do que nosso pai ouvia em sua radiola, na voz inigualável de uma gauchinha arengueira, miúda no tamanho mas imensa no palco. Elis Regina cantava a obra-prima de Edu Lobo e Guarnieri: “Upa, neguinho na estrada... começando a andar e já começa a apanhar.”

 

A canção parecia alegre, mas carregava um país inteiro nos ombros. No Brasil, até a tragédia aprende a cantar para não morrer de tristeza.

 

À medida que a inocência esfriou, abandonei aquelas promessas. Passei a aceitar melhor o dualismo da vida, com seus achados e perdidos, seus planaltos e planícies. Aprendi que em alguns dias chove e, noutros, bate o sol. 

 

Muita coisa ficou pelo caminho: amigos de ocasião, que logo desapareceram; a convivência diária com os filhos, que cresceram e deixaram lugares vazios à mesa. Chega uma idade em que a gente compreende que sofrer pelo inevitável é acrescentar outra perda à lista: a do tempo.

 

Algumas coisas, porém, não deveriam ter sumido.

 

Se ainda se jogasse futebol como antigamente, talvez aparecessem novos Pelés, Romários, Ronaldos e Zicos. Também já não ouço muito samba nem rock’n’roll. Onde em se plantando tudo dava, já não brotam mudas de Chicos, Elises, Ritas, Tons e Vinicius.

 

Perdemos ainda uma certa delicadeza e boa parte da capacidade de discordar sem desejar a extinção do adversário. A política virou arquibancada: cada torcida enxerga pênalti apenas na área do outro. Nas redes sociais, amigos de copo e de cruz se transformam em inimigos antes do sol nascer. O algoritmo agora serve raiva em doses cavalares, e nós engolimos sem consultar a bula.

 

A coisa aqui está feia. Há muita erva daninha ocupando jardins, florestas, quintais e pantanais. Algumas usam farda; outras, terno sob medida. Há as que discursam em púlpitos, escondem-se em gabinetes ou desfilam de toga, convencidas de que a Constituição é espelho diante do qual podem retocar, a seu bel-prazer, a própria imagem.

 

Enquanto isso, continua faltando cavalo no pasto. O governo culpa o Congresso, o Congresso culpa o Supremo, o Supremo abre inquérito, a oposição grava vídeos, a situação publica uma nota de esclarecimento e o povão, amarrado ao formigueiro, espera a próxima mordida. Ou chicotada.

 

Talvez seja hora de procurar de novo o Negrinho do Pastoreio. Pedir que nos traga de volta o compromisso com a verdade, a compaixão pelos pobres, a prudência aos poderosos e uma dose a mais de juízo para todos nós.

 

Mas não quero abusar da paciência do meu velho amigo. Ele deve estar até o pescoço com tantos perdidos e pedidos. Daqui a pouco, faltarão velas até nas bodegas de ponta de rua desta amada pátria de frustrações continentais.

 

Vai ver o Negrinho do Pastoreio também tenha se perdido de nós. Só nos faltava essa.

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