outubro 07, 2026

Presente!

  

PRESENTE!

Hayton Rocha



No tempo em que caderno, lápis e tabuada tinham cheiro de escola pública e infância, professora merecia todo o respeito da molecada, eu queria que meu nome fosse Abel ou Abraão. O motivo era  de ordem prática, nada bíblico: ser um dos primeiros da lista de presença. Bastaria responder “presente!” e ficar livre para dedicar o pensamento a outros assuntos que, para mim, não eram menos relevantes que a aula.

 

Enquanto a professora descia pelo alfabeto, eu poderia prestar atenção na lâmpada acesa e empoeirada, acompanhar o voo sem rumo  de uma mosca ou imaginar o conteúdo da lancheira de quem chegara com volume suspeito. Mas sempre fui prisioneiro da lista, à espera da letra H, com medo de me distrair justamente na hora de provar que estava ali presente.



Ilustração: Uilson Morais (Umor)

 

Falei sobre isso, outro dia, com minha mulher. Ela me ouviu com o olhar desconfiado de quem rascunha um diagnóstico e sentenciou:

— Você talvez tenha TDAH desde criança e nunca soube.

 

Curioso, fui ler sobre o assunto. Descobri que o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade é bicho de três cabeças: desatenção, inquietude e impulsividade. Costuma manifestar-se na infância e, em muitos casos, acompanha o sujeito pela vida afora.

 

A criança é descrita como alguém “com a cabeça no mundo da lua”, “desastrada” ou equipada com um “motor de popa”. Conversa durante a explicação dos outros, derruba o copo, esquece o livro, perde a lapiseira e não fica quieta nem quando isso vale ponto. Seu corpo está na carteira, mas o pensamento pulou a janela e foi jogar futebol com tampa de Fanta ou caco de telha.

 

Na adolescência, pode ter dificuldade para aceitar regras e limites. Na vida adulta, esquece compromissos, perde documentos, muda de assunto antes que o primeiro encontre um ponto final e avança sinais, inclusive os da prudência. Só relaxa dormindo e olhe lá: às vezes, passa a noite disputando espaço com o lençol  ou o travesseiro.

 

A boa notícia é que o TDAH não é uma virose da alma para a qual se anuncie cura milagrosa. Exige avaliação séria e pode ser tratado. Mas há sites que prometem conserto rápido, definitivo, parcelado no cartão ou, com desconto, via Pix. A indústria da cura não sofre de déficit de atenção: enxerga uma nova presa a quilômetros de distância.

 

Sinceramente, não sei em que minha mulher se baseou para levantar essa suspeita. Logo eu, que, se tivesse nascido com asas, poderia ser confundido com um anjo. Que me transformei num adulto previsível, capaz de permanecer desde a adolescência na mesma empresa, com a mesma namorada. Alguma peça não se encaixa nesse quebra-cabeça.

 

Tudo bem que minha mãe sempre foi impulsiva no dizer o que pensa, em qualquer circunstância, hora ou lugar. Também é verdade que meus filhos, assim como eu, até pouco tempo deixavam torneiras abertas, lâmpadas acesas e perdiam carteiras, celulares e chaves.

 

Há quem diga que algumas heranças atravessam as gerações de fininho. Não chegam apenas na cor dos olhos ou no formato do nariz, mas na ansiedade, no tique nervoso, no modo de rir. A genética, quando resolve fazer graça, conta piadas que só serão entendidas anos depois.

 

Tirando as sobrancelhas, por exemplo, em nada lembro minha saudosa avó materna. Ainda assim, suas cantigas de ninar nunca saíram dos meus ouvidos e até hoje sinto o gosto de sua “bolacha de leite”, feita de farinha de trigo, mel de rapadura, manteiga, cravo, canela e gengibre — sem uma gota de leite sequer.

 

Desconfio de que a herança mais profunda não esteja nos traços vistos no espelho, mas na música, nos sabores e nas pequenas manias que permanecem.

 

Nem eu escapei de certas heranças: até pouco tempo lutei contra a vontade de zoar meus netinhos exatamente como fazia com meus irmãos menores, quando bullying era só coisa de buliçoso. Eu me continha para que não recorressem à Advocacia-Geral da União Familiar, comandada pela avó deles. Se a denúncia chegasse ao tribunal, não haveria habeas corpus que me salvasse.

 

Pensando bem, a avó deles pode estar coberta de razão. Talvez eu tenha atravessado a vida com a cabeça no mundo da lua e um pequeno motor de popa escondido na alma. Só não compreendo por que resolveu abrir essa gaveta justamente agora.

— Porque acabei de lhe fazer uma pergunta e você não respondeu — ela me explicou.

— O que você perguntou mesmo?

 

Passei a infância esperando a letra H para provar à professora que estava presente. E só agora me dou conta de que nem sempre estive plenamente.

20 comentários:

  1. Em um assunto sério, você trouxe, por meio de uma crônica poética, leveza e descontração.

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  2. Hayton, excelente crônica! Agora bateu uma dúvida: será que esse possível TDAH já dava sinais na época do Banco do Brasil?🤣
    E aí vai pergunta que não quer calar: o Sinergia — aquele programa de incentivo e premiação por metas — foi criação sua para colocar para fora toda essa energia acumulada? 🤣🤣
    Depois da crônica de hoje, faz sentido: enquanto nós, pobres mortais, tentávamos acompanhar as metas, você já estava com o “motor de popa” ligado, aumentando a velocidade e, quem sabe, pensando em dobrar a meta! 😂
    Brincadeiras à parte, você conseguiu transformar uma simples chamada de presença numa crônica brilhante crônica cheia de memória, humor e boas histórias.
    Simbora meu amigo! Como já falei antes: O Banco do Brasil teve um grande bancário, mas a literatura ganhou um excelente cronista!

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  3. Permitindo uma sutileza de vírgula …
    Se houve momentos em que você não esteve presente, seja hoje, presente.

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  4. Ademar Rafael Ferreira7 de outubro de 2026 às 06:06

    Colocar leveza em assunto "pesado" é missão impossível para muitos, alguns fazem isto com mestria. Hayton está nesse grupo. Parabéns.

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  5. O nobre cronista nos surpreende mais uma vez com um tema inusitado! Trata TDAH com o humor e a leveza que esse assunto sério requer. Eu cá comigo, fiquei meio preocupado porque fui somatizando os sintomas descritos; talvez seja só hipocondria, deixa pra lá! No mais, muitos de nós estava precisando de uma crônica assim. Tempos bicudos, futuro duvidoso e/ou tenebroso precisam da arte, afinal, segundo Friedrich Nietzsche," a arte existe para que a realidade não nos destrua."

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  6. Caro Hayton, uma bela e educativa crônica. Conviver com alguém portador de TDAH é uma tarefa hercúlea: requer muita paciência e empatia.

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  7. Mais uma excelente crônica.

    Hoje está mais fácil diagnosticar comportamentos que antes eram considerados de banais a esquisitos.

    Tenho 3 filhos e cada um bem diferente um do outro. Mas o caçula sempre foi muito distraído para algumas coisas e extremamente focado para outras. Eu, mãe preocupada, levei-o para avaliação psicológica. TDAH com hipertrofia.

    Confesso que, no início me preocupei, depois naturalizei. Hoje, vejo que não características e, desde que não atrapalhe a funcionalidade, nos cabe aceitar, ajudar se precido for e acolher. Somos diferentes.

    Meu filho é uma pessoa maravilhosa, sempre se deu bem nos estudos, um profissional muito bem realizado e vive sua vida normalmente.

    É distraído, é bagunceiro, mas tem.um.hiperfoco nas coisas do seu interesse que lhe faz se destacar em Campos bem disputados.

    Parabéns, amigo

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    1. Corrigir a palavra hipertrofia por hiperfoco

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  8. Valeu meu nobre amigo, tornando mais suave um assunto que hoje é tratado com muito cuidado.
    Esse seu desejo de ter o nome começado por “ A “ eu também sempre tive, depois de mim era só o X e o Z. O Z era Zuleide, uma menina linda que a molecada aguardava ela responder com uma voizinha sexy : presente professora!. Doces lembranças!!

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  9. A crônica provocou a saudade até da sabatina e da palmatória. Existe um pouco de TDAH em cada um de nós. Também acredito no repasse genético. A pressa em se livrar do "presente", apresenta a característica de solução rápida das obrigações. Ainda bem que o seu nome não é "Zoroastro".

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  10. É...TDAH é fogo, viu? Minha filha mais velha tem. É linda!

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  11. Existe aquele ditado…”de médico e louco, todos temos um pouco”…. acredito que isso vale também para TDAH e todos os outros transtornos modernos…rsrsrs…com variações de intensidade.

    Quanto à genética, concordo plenamente, ela se manifesta muito mais no temperamento do que no fenótipo.

    Mais uma crônica prazerosa que nos leva aos bons momentos da infância!

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  12. Caro Hayton.
    Meu amigo, que viagem no tempo você me proporcionou agora! Ler esse teu texto foi como abrir aquela minha velha pasta de elástico e sentir o cheiro de apontador e borracha de duas cores, aquela que a gente jurava que apagava canetinha, mas só rasgava o caderno..

    Olha, você queria ser Abel ou Abraão. Eu com o meu nome também lá no meio do alfabeto, compartilhava do mesmíssimo drama. Era uma tortura! A gente ficava ali, com o coração pulando, fingindo olhar para o quadro, mas com o olho fixo na mosca que pousava na cabeça do colega da frente. E o medo de a professora chamar o nome e a gente perder o "timming" do "PRESENTE!"? Parecia que se a gente vacilasse dois segundos, ia ser reprovado direto para o limbo dos desatentos.

    Quero confessar uma coisa. Achei interessantíssimo o diagnóstico de sua espoca, mesmo porque com a sua descrição da infância, me vi inteirinho ali e então conclui que padeço do mesmo mal. Se voar atrás de tampa de Fanta e jogar futebol com caco de telha no recreio for sintoma de TDAH, a nossa geração inteira precisava de laudo! A verdade é que a janela da sala de aula era o portal mais fascinante do mundo, e o pensamento passava por ela sem pedir licença para a professora.

    Sabe o que é o mais engraçado? Fiquei com a impressão que o texto parou bem na hora em que você ia falar dos esquecimentos da vida adulta. Será que você se distraiu com alguma coisa e esqueceu de desenvolver esta parte, ou o seu TDAH atacou bem no ponto final?

    Seja como for, meu amigo, você produziu mais um texto excelente, conseguiu transformar as nossas pequenas neuroses e memórias de menino em poesia pura, com sua característica pitada de humor que só quem já tentou adivinhar o cardápio da lancheira do colega.

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  13. ROBERTO SANTOS FERNANDES7 de outubro de 2026 às 08:02

    Parabéns pela sua crônica, sempre trazendo boas recordações do nosso dia a dia!

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  14. Sua crônica desta quarta-feira, Hayton, nos faz viajar no tempo e voltar aos tempos de colégio, quando a professora fazia a chamada em ordem alfabética. Diferentemente de você, eu geralmente estava entre os primeiros a responder: “PRESENTE!”. O que eu não gostava muito era quando essa mesma ordem era usada para apresentação de trabalhos ou para as temidas arguições.
    Quanto às dificuldades de atenção, penso que, de certa forma, todos temos um pouco de TDAH: uns mais, outros menos, alguns até diagnosticados. Afinal, vivemos em um mundo que exige atenção o tempo todo. E, como tão bem diz a música "Divino Maravilhoso": “É preciso estar atento e forte / Não temos tempo de temer a morte.

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  15. Muito bom! Eu também ficava no meio da tabela. Só que meu desejo era ser chamado no final (pois não era raro me atrasar e perder exatamente a parte da chamada).
    Gostei da sutileza do diagnóstico: esse “talvez” se aplica apenas ao “desde criança”, certo?

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  16. Um ótimo passeio por um assunto que pipoca toda hora na mídia, nas conversas em família, nos consultórios.
    A cada dia vou reafirmando meu próprio diagnóstico de que não tenho TDAH. Eu bem que queria passear mais pelo mundo da lua, mas quase nunca faço essa viagem.
    Meu prezado Hayton, valeu demais por esta crônica da semana.
    Mais tarde preciso voltar aqui pra ler todos os comentários. As missões do dia estão me chamando.

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  17. vivo sempre no mundo da lua
    Porque sou um cientista
    O meu papo é futurista,
    É lunático
    Eu vivo sempre no mundo da lua
    Tenho alma de artista
    Sou um gênio sonhador
    E romântica (o)
    Eu vivo sempre no mundo da lua
    Porque sou aventureiro
    Desde o meu primeiro passo. E coisas mais. Inteligência voadora.

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  18. muito sério, mas você consegue tratá-lo de forma poética e engraçada. Não é fácil não.
    Mas o que eu gostei mesmo foi você falar do improviso de jogar futebol com tampinha de fanta.. Isso trouxe-me boas e velhas lembranças.

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