dezembro 31, 2025

O cemitério das agendas

O CEMITÉRIO DAS AGENDAS
Hayton Rocha


Talvez você pense que A Lista, de Oswaldo Montenegro, andou tocando demais aqui em casa nos últimos dias. Refiro-me àquela canção, lançada há 25 anos, que nos convida a encarar o tempo, os sonhos trocados e as amizades que mudam de forma. Tudo é possível.



 

Reencontrar velhos amigos depois de muitos anos é, quase sempre, uma sessão espírita mal organizada. Apertamos as mãos como quem tateia o escuro, sorrimos com a cortesia dos sobreviventes e começamos a falar de coisas que já morreram dentro de nós. Conversas de além-mundo. A gente finge interesse, o outro finge que acredita, e ambos sustentamos o teatro como dois personagens cansados de uma peça que já não comove ninguém.

 

 

Não têm sido poucas as desilusões que provoco — e que me são provocadas — quando reencontro certas criaturas que um dia jurei carregar no bolso como amuletos contra a solidão. Os abraços vêm ligeiramente exagerados, talvez por anteciparem o abismo que se abre logo depois, entre uma frase e outra. Um fosso feito de constrangimentos, desencontros e risos forçados.

 

Alguns envelheceram apenas lapidando os defeitos que já exibiam quando jovens. Se eram chatos, tornaram-se especialistas. Se eram vaidosos, transformaram a futilidade em traço de caráter. Outros hipertrofiaram mesquinharias e ideias reacionárias, dessas que não matam à queima-roupa, mas intoxicam devagar. 

 

Que o acaso, mais confiável que todos os santos de plantão, nos poupe de estarmos entre esses.

 

Há também os que reduzem o mundo a cifras e metros quadrados. Enumeram, com hálito misógino, as mulheres que “devoraram”, como itens de um cardápio nojento. Exaltam feitos quase sempre imaginários de filhos musculosos, doutores em coisa nenhuma, herdeiros de um enorme vazio.

 

Outro dia, no corredor de um shopping center, topei com um colega dos meus tempos de menino, alguém que eu julgava grande amigo. Antes mesmo de saber se eu estava bem, quis saber se eu morava à beira-mar e que carro eu tinha. Talvez precise medir a felicidade alheia pela régua falsa da declaração de bens.

 

Em outro canto da cidade, longe dos espelhos do shopping, reencontrei numa mesa de bar velhos pernas-de-pau das peladas da adolescência. Bebiam e riam de si mesmos, trocando piadas sobre ex-esposas no idioma permanente da 5ª série, esse território onde todos ainda mantemos residência, mesmo quando fingimos maturidade. Não vou negar, meu lado 5ª série segue vivo. Só aprendi que há momentos em que ele pode pedir uma cerveja e destilar bobagens, e outros em que convém mandá-lo esperar do lado de fora.

 

Teve também o caso de um carrasco dos primeiros anos de trabalho, agora aposentado, exibindo fotos de chácaras e vacas, enaltecendo supostas virtudes de seu guru político com a convicção de certos galos que cantam para si mesmos ao amanhecer. Sim, ainda existe quem meça o mundo com a trena do dinheiro e acredite compreender o reino humano.

 

Talvez devêssemos criar categorias para os amigos dos tempos idos que felizmente não voltam mais. Há os do futebol, que duram exatos sessenta minutos de pelada, acrescidos apenas dos xingamentos. Há os amigos de drogaria, que sobrevivem entre a conversa fiada na fila e o dízimo da indústria farmacêutica. Relações estáveis e previsíveis: nascem no balcão e morrem na boca do caixa. Há outros do gênero, mas fiquemos por aqui.

 

Toda pessoa sensata deve se dar por satisfeita por possuir uma confiável dezena de amigos. Os de verdade são como bons filmes: poucos, mas capazes de atravessar décadas sem perder o sentido. Não precisam de avatar, não exigem curtidas nem pedem boletins ou extratos mensais sobre a cor da felicidade.

 

Para esses poucos, todo o tempo do mundo não basta. São os que oferecem o ombro, escutam sem julgar e permanecem quando todos os demais vão embora. Zele por eles como quem rega flores raras no jardim da existência. Porque foram escolhidos, não impostos, ao contrário de certos parentes que a genética nos empurra como obrigação vitalícia.

 

Por isso, nesta virada de ano, quando se promete o que não se cumpre, se perdoa o que não se esquece e se brinda ao que não se sente, ore por seus verdadeiros amigos. Não por todos os que passaram pela sua vida como quem faz escala em aeroporto. Mas pelos que se instalaram.

 

As demais criaturas, que se perderam pelo caminho, continuem vagando pelo cemitério das nossas agendas. 

 

Nem todo reencontro merece ressurreição. A gente sabe disso, mas, volta e meia, esquece.

dezembro 24, 2025

O presépio que se arma por dentro

O PRESÉPIO QUE SE ARMA POR DENTRO 
Hayton Rocha


No noticiário da tarde, a palavra “maldade” escorreu pela tela. Veio com rosto, sangue e legenda curta demais para explicar a barbárie. Um homem que mata para roubar. Outro que atropela e arrasta a ex-companheira pelas ruas, arrancando-lhe as pernas como quem corta galhos secos. A maldade costuma nos visitar assim: com helicóptero, sirene e aquela confortável certeza de que ela mora sempre no quarteirão do lado.


A gente sacode a cabeça, suspira, comenta sobre “o mundo estar perdido” e troca de canal, como se isso fosse também mudar a realidade. A maldade parece sempre um monstro estrangeiro. E raramente pensamos na outra, a que não escorre sangue na calçada, mas sangra lento: a dos salários de fome, da fila do posto de saúde que não anda, da escola sem professor, dos sem-teto. Violências recorrentes, surdas, que já não dão tanta manchete e, mesmo assim, atingem milhões todos os dias.


Existe ainda a maldade contra a natureza, praticada em prestações: o lixo lançado pela janela, a árvore derrubada sem piedade, o rio tratado como fossa. Ninguém morre na hora, mas tudo vai morrendo aos poucos, como vela de presépio esquecida depois da ceia.




Num sentido mais amplo, talvez a maldade seja isso: a agressão que se banaliza, a destruição que se justifica, o desrespeito que se torna hábito. Ela se volta contra o outro, contra nós mesmos e contra essa casa provisória chamada planeta. Não ruge nem mostra os dentes. É bicho de muitas cabeças que aprende a ficar invisível, sobretudo quando passa diante do espelho.

 

Há quem diga que ela já nasce conosco, como instinto antigo herdado, com garras e presas. Outros juram que não: que a maldade é ensinada, tecida na desigualdade, na pobreza, na exclusão, na cultura que empurra uns para cima e pisa outros. 


Quem sou eu para ter uma resposta conclusiva? Logo eu, que ainda me flagro impaciente na fila, chateado no trânsito, indiferente ao pedido de esmola que atrasa meu passo? Desconfio de explicações que absolvem demais ou condenam demais. Prefiro acreditar que o homem é um sistema aberto: aprende, escolhe, erra... e repete.


E chega dezembro.


Dezembro é mês estranho. Cheira a rabanada e tem gosto de prestação vencida. Acende luzes na janela e revela sombras no balanço do ano. Obriga a memória a fazer inventário do que fomos, do que não conseguimos ser e do que fingimos esquecer para seguir em frente. 


Uns encontram gratidão: o emprego mantido, o filho que ingressou na universidade, o neto que nasceu saudável, a doença que recuou. Outros esbarram em culpas, frustrações, promessas murchas como panetone fora da validade.


O Natal, esse velho fabricante de emoções, desperta carinho, desejo de renovação e generosidade. Abraça-se mais, promete-se mais, perdoa-se até por conveniência. Ao mesmo tempo, a data escancara ausências que não sabem mais voltar: a cadeira vazia, a voz que não liga, a carranca onde antes morava um sorriso. Há uma pressão invisível para que todos sejam felizes do mesmo jeito, na mesma noite, sob a mesma fartura. Quem não cabe nesse molde sofre, como quem assiste calado à festa pela janela do vizinho.


É aí que o Natal se torna perigoso — mas necessário.


Perigoso quando vira apenas verniz de bondade sobre nossas pequenas maldades de estimação: a arrogância disfarçada de opinião, o egoísmo travestido de direito, a indiferença de quem passou a enxergar pouco semelhante pelo caminho. Necessário porque, se ainda guarda algum sentido, talvez seja o convite mais antigo para revisarmos o presépio que montamos dentro de nós.


Porque não é só Herodes que faz a história. Também mora ali o pastor cansado. O anjo distraído. A criança vulnerável. E, sim, o lobo que aprende a vestir roupa de gente.


O que ainda nasce dentro de nós? Que humanidade estamos regando nos gestos mínimos — no modo como tratamos o garçom, o lixeiro, o mendigo, a natureza? A maldade não mora apenas nos crimes que nos assombram. Mora também naquilo que escolhemos não fazer, não sentir, não ver.


Se existe alguma oração que ainda faça sentido entre o peru e o panetone, quem sabe seja esta: que a gente tenha coragem de encarar a própria sombra antes de exigir a luz do outro.


Talvez seja este o milagre mais raro de dezembro: aceitar que o Natal não nos salva da maldade, mas nos oferece, uma vez por ano, a chance de não fazer acordo com ela.

dezembro 17, 2025

Livro não é brinquedo

LIVRO NÃO É BRINQUEDO 
Hayton Rocha

Ainda com o eco da quarta-feira vibrando no peito, tento dar forma à emoção que me acompanhou depois do lançamento, em Brasília, de O silêncio das tartarugas. Não foi só um livro apresentado: houve cuidado nos detalhes, acolhimento e uma delicadeza rara, dessas que não se aprendem em manuais, mas se anunciam no modo como um espaço estende a mão a quem chega com palavras debaixo do braço. A ANABB me recebeu assim: não como sigla, mas como casa — daquelas que sabem que cultura também precisa de abrigo.

Do sorriso na portaria ao reencontro de rostos amigos, passando pela atenção generosa de quem conduz a Casa, ficou claro que ali não se promovia apenas um evento. Havia intenção. A de transformar encontros em permanência, afetos em projeto. Por isso me ofereci, por inteiro, para ajudar a construir esse espaço que se abre não só em Brasília, mas pelo país inteiro, a quem deseja semear movimentos culturais. Não à toa, acaba de ser anunciada a criação do Clube de Escritores da ANABB 70+. Escrever, afinal, também é uma forma de permanecer no mundo.



Semanas antes, conversava com um grande escritor, dos que ainda acreditam que enfileirar palavras é um ofício de resistência, mesmo quando não rende pão nem vinho sobre a mesa, muito menos prestígio na aldeia. Perguntei como tinha sido o lançamento de seu livro mais recente. Ele foi direto:

— Pouca gente. Um tanto frustrante. Mas passa. Os poucos amigos que foram salvaram a noite. Teve abraço, conversa, risos. Valeu por isso.

 

Depois soltou, quase num sopro, a sentença que me acertou como uma martelada no polegar:

— Livro não é brinquedo.

 

E puxou o fio, lembrando que, em muitos lugares, livro sempre foi castigo:

— Vai ler até aprender!

 

Quando a educação vem pela bronca, o cérebro acusa o golpe, como quem mastiga cebola crua às sete da manhã numa aula de geometria.

 

Disse também que já nem se chateia com quem não aparece em lançamento. Não é desfeita. É desinteresse pelo objeto.

— Não é que não gostem de mim. É que não gostam de livro.

 

Vieram então os argumentos: se fosse cantor, teria fila na porta do teatro; se jogador de futebol, plateia cheia só para ver se ainda é artilheiro; se deputado, até inimigos de infância apareceriam na posse. E se anunciasse churrasco, surgiria até vegano dizendo que foi “só pela companhia”. Mas livro… livro não acende a brasa de quase ninguém.

 

Em seguida, trouxe uma imagem definitiva: caminhão tomba numa curva. A carga se espalha no asfalto. Até manco larga a bengala e corre para saquear. Se for cerveja, some em três minutos. Se for cigarro, em dois. Se for adubo, ração ou remédio, quase tudo desaparece em segundos. Agora, se for livro… ninguém toca. Capas intactas brilhando ao sol, enquanto o povo passa olhando como quem vê cadarço em liquidação.

 

Livro não é objeto de desejo. Até de graça, é caro para alguns. Ele lembrou que hoje alguns pais, como punição, dizem:

— Agora você vai ler esse livro todinho!

Se fosse prêmio, a frase seria outra:

— Este ano você se comportou tão bem que vai ganhar três livros do Papai Noel!

 

Esse tipo de prêmio, aliás, quase não existe. Só em casas com duas estantes por cômodo e uma gata chamada Tieta.

 

Livro, insiste ele, é coisa de poucos. A tecnologia só agravou o quadro. Todo mundo carrega o mundo no bolso, piscando, vibrando, exigindo atenção. A brisa das paixões que vinham de dentro virou vendaval de estímulos. E para ler, antes de tudo, precisa-se de paz de espírito — artigo de luxo.

 

Fiquei mudo. Não de constrangimento, mas da mudez de quem não discorda de nada. A alegria do lançamento está mais no encontro que no objeto. O livro é pretexto para o abraço. É convite, não espetáculo.

 

Ele tem razão: livro não é brinquedo. Quem escreve esperando aplauso coletivo se frustra cedo. Livro é resistência em papel, passando de mão em mão quase clandestino, até encontrar quem o recolha, mesmo ignorado por muitos no caminhão que tomba e engarrafa o trânsito.

 

Escrever é conversar com quem ainda não chegou. Talvez nem chegue. Ainda assim, acendemos a luz da sala e deixamos a porta só encostada. Se vier alguém, que puxe uma cadeira e fique. Se não vier, a casa não ficou vazia. Estivemos lá.

 

Todo livro é uma garrafa lançada ao mar. Não sabemos quem vai encontrá-la, nem quando. Mas, se um dia alguém abrir, a mensagem ainda estará ali — intacta, respirando.

 

É para esse alguém, mesmo que não chegue, que escrevemos.










dezembro 10, 2025

Pecado quase fatal

PECADO QUASE FATAL   
Hayton Rocha

De volta a Brasília, passarei alguns dias revendo amigos  e amigas, lugares memoráveis — sobretudo para comer. E se existe um alimento capaz de dar ideia de céu, de plenitude dos gozos, atende pelo singelo nome de pastel.


Ilustração: Uilson Morais (UMOR)


Mas nem tudo são azeitonas   ou ervilhas  na minha relação com a iguaria. Talvez eu devesse, por prudência, retirá-la do altar dos meus desejos. Não consigo. E se você quer saber o motivo, conto mais uma vez, confirmando que coração e estômago têm razões que desafiam a própria razão.

Era um sábado qualquer de 2008. Almocei, cochilei e, ao acordar, saí de casa de fininho para cometer um pecado quase fatal. Fui ao encontro de um dos maiores prazeres que o ser humano, a partir de certa idade — se é que você me entende —, ainda pode experimentar sem remorso: pastel de carne moída com azeitonas.

Na primeira mordida eu já deveria ter desconfiado do sabor. Mas a gula é cega e surda. E, enquanto eu mastigava, em silêncio um atentado contra a minha flora intestinal se armava.

Passei o resto do fim de semana xingando uma certa padaria da Asa Norte. Vieram cólicas, enjoos, perda de apetite, o que, no meu caso, sempre configura sinal de alerta. Não houve diarreia nem vômitos. Ainda havia a esperança de que o miserável agente causador sumisse.

Mas na manhã de segunda chegaram os calafrios. E com eles, o pânico. Febre é febre. Apavorado, chamei um táxi às pressas e fui bater na emergência de um dos maiores hospitais de Brasília.

O antiespasmódico no soro, para aliviar as dores, desencadeou um quadro que me fez refletir sobre o quão breve é esse sopro a que chamamos de vida. Ela não manda aviso-prévio, não se desculpa e ainda nos pega de surpresa no meio de um pastel.

O remédio praticamente zerou meu peristaltismo intestinal — movimentos que empurram a comida pelo corpo — e, em minutos, instalou-se o que os médicos chamam de GECA: Gastroenterocolite Aguda. Aprendi a sigla ali, entre uma pontada e outra.

Mesmo sonolento, ouvi o cochicho entre dois deles:
— O que achou da GECA? Será Salmonella?
— Não estou ouvindo sinais de luta…

Ainda quis perguntar, no fiapo de humor que me restava, se havia algum conflito ideológico entre meus órgãos internos. Ou se GECA era nome artístico de alguma dupla caipira. Nada disso. Era apenas o dialeto deles assumindo que, felizmente, não havia “nó nas tripas”.

Veio a bateria de exames: endoscopia, tomografia, ultrassom. A barriga distendia, a pele amarelava, mãos e pés gelavam.

— Vamos transferir o senhor para a UTI. Lá é melhor do que aqui no ambulatório — disse alguém, com a naturalidade de quem sugere trocar de mesa no restaurante.

A escuridão e o frio dos corredores até a UTI encheu minha cabeça de interrogações. A lucidez insistia em lembrar que a vida — esse “jogo de culpa que faz tanto mal”, como dizia Gonzaguinha — talvez estivesse perto do fim.

Nunca havia deitado numa maca nem para sair de um campo de futebol. E, de repente, aquela estreia podia ser a despedida. O corpo admitia que sim. A alma, inconformada, gritava que não.

Percebi que amigos e familiares chegavam para ver com os próprios olhos o que um pastel era capaz de fazer a um seminovo no esplendor dos cinquenta anos.

Entre gemidos e lamentos, me instalaram monitores. Até que surgiu um moleque de vinte e poucos anos, barba por fazer, jaleco amassado. Sem cerimônia, me enfiou um cateter goela abaixo, num avanço tão decidido que achei que sairia do outro lado.

Santo remédio.

Um jorro de vômito escuro inundou a cama. Em minutos, veio o alívio. Fui ao banheiro e tomei um banho restaurador, desses que nos fazem sair recém-nascidos, só que com mais cicatrizes.

Enquanto isso, um porta-voz do hospital foi até a sala de espera e, talvez para desanuviar o ambiente, anunciou:
— O pior aconteceu… Ele vai sobreviver!

Passei a noite inteira com uma sonda nasogástrica no subsolo das vísceras, sugando tudo o que o agente causador havia produzido para tentar me impedir de assistir ao crescimento dos meus netos gêmeos, hoje com quase dezoito anos.

Recebi alta setenta e duas horas depois. Caminhava em frente a uma lanchonete quando a balconista, talvez comovida com minha expressão de fome — mas ignorando meus antecedentes intestinais — tentou ser gentil:
— Vai um pastel de carne moída com azeitona aí, moço?

Recusei com dor no coração. Pela forma como me olhou, minha mulher me internaria — noutro tipo de hospital, bem verdade — se soubesse que ainda tive dúvida. Confesso que cogitei, por segundos, uma mordidinha. Só na casca crocante.

Há dezessete anos ninguém me tira da cabeça que foi o enfeite de salsa mal lavada que arruinou aquele fim de semana. Pastel é do bem. Não faria uma maldade dessas com uma antiga paixão. 


É HOJE!



dezembro 03, 2025

A insustentável leveza de um cafuné

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE UM CAFUNÉ
Hayton Rocha 


No Japão, onde o tempo parece andar de quimono e sandálias de palha, já é possível alugar uma avó por hora. Sim, você não leu errado: avó por hora, como quem reserva mesa em restaurante ou carro de locadora. O kit inclui broncas embrulhadas em papel celofane, receitas de molhos seculares e aquele olhar que já viu o mundo desmoronar algumas vezes e, ainda assim, achou forças para varrer os cacos.


A agência anuncia uma centena de senhoras, entre 60 e 94 anos, como se fossem modelos de catálogo: “ideal para ajudar nas tarefas de casa, ensinar a costurar, reconciliar-se com a sogra ou apenas preencher o vazio deixado por uma pessoa querida que partiu”. A promessa é sabedoria, mas o que realmente se aluga é o antídoto contra a solidão.


 

Ilustração: Uilson Morais (Umor)

Nesse contrato tácito, os netos terceirizados nada têm a perder: aprendem truques domésticos, recebem lições de sobrevivência conjugal e ainda podem ser embalados por histórias que misturam samurais heroicos com gueixas enigmáticas. Já as avós, protagonistas desse teatro doméstico, recebem o que mais lhes falta: olhos de ver, ouvidos de ouvir. Afinal, ninguém quer morrer sem testemunhas de suas versões, ainda que repetidas pela enésima vez.

 

A comédia, porém, flerta com a tragédia. Milhões de japoneses vivem sozinhos, destinados a morrer na invisibilidade. A solidão lá já tem até nome próprio: kodokushi, “morte solitária”. Uma epidemia traiçoeira, dessas que não pedem máscara nem respiradores, mas exigem coragem e resignação. Apartamentos trancados, celulares mudos, mensagens sem resposta. A nação que inventou robôs para servir água agora tenta preencher o vazio existencial com avós terceirizadas e cafunés tarifados.

 

As estatísticas, frias como sempre, sustentam o pano de fundo: daqui a pouco, um terço da população japonesa terá mais de 65 anos, a maioria mulheres. Vidas prolongadas pela medicina, mas encurtadas pelo deserto das relações. O que era bênção virou sentença: viver muito, por lá, é quase sinônimo de viver só.

 

E não se engane: o bilhete é de ida e já tem data marcada para o Brasil. Ainda temos avós no fogão a lenha, sustentando famílias com pensões minguadas. Mas o mesmo país que exalta a sabedoria popular de uma avó em propaganda de presunto é o que fecha a porta para quem tem mais rugas que curtidas nas redes sociais. Aqui, cabelos brancos assustam mais que juros de cartão de crédito em atraso.

 

Chamam de “autoetarismo” a praga que corrói por dentro: gente que se convence de que já está velha demais para aprender ou recomeçar. Como se a idade fosse sentença de morte civil. Esquecem que a velhice, quando bem vivida, é o único diploma que não se compra na internet. Maturidade e paciência são artigos de luxo, mas o mercado insiste em preferir um jovem ansioso que enfeita PowerPoint a um idoso sereno, vertendo sabedoria por todos os poros.

 

Daqui a pouco, seremos nós a adotar o aluguel de avós. Não para ensinar etiqueta social, mas para destrinchar manobras do submundo político, temperar o feijão no ponto ou explicar por que descobrimos rugas em lugares que nem sabíamos que existia. O risco é o mercado transformar essas mulheres em “influencers da saudade”, cobrando por hora de colo e minuto de cafuné. Carinho tabelado em Excel, com desconto progressivo para pacotes semanais.

 

E o problema não é cobrar pelo afeto — já fazemos isso com babás eletrônicas e lares de idosos. O problema é acreditar que esse simulacro resolve a orfandade social que nós mesmos fabricamos. A mesma sociedade que chama aposentado de peso é a que depois corre para alugá-lo quando percebe que, sem ele, a vida perde cheiro, sabor e até os macetes da língua pátria.

 

Se a humanidade precisa terceirizar até o amor que só uma avó sabe dar, o problema não está na falta de netos, mas no excesso de órfãos de convivência. Gente aparentemente viva, mas desconectada, perdida entre compromissos virtuais. Num mundo em que até dividir a senha do Wi-Fi virou sacrifício, talvez o maior luxo seja ter alguém que bata à porta sem mandar antes mensagem. Porque não há algoritmo que ensine a receita de sopa que cure mágoas, nem que borde ternura nas frestas do dia a dia. Isso só avó sabe fazer.

 

Nessa toada, um dia não restará avó nem para alugar. E quando estivermos sozinhos, com nossos celulares mudos, talvez notemos tarde demais que o verdadeiro luxo nunca foi o carro elétrico ou o último smartphone lançado no mercado, mas alguém que nos chamasse pelo apelido de infância enquanto nos fazia um cafuné.





novembro 26, 2025

Árvore é avó



Imagens: M.E. Ateliê da Fotografia



ÁRVORE É AVÓ 
Hayton Rocha


Vem de São Paulo uma notícia dessas que chegam como vento quente jogando poeira nos olhos: a Prefeitura autorizou o corte de 384 árvores na Avenida Guilherme Dumont Villares, na Vila Sônia. Entre elas, 128 nativas, herdeiras legítimas daquele pedaço de chão que um dia foi sítio do próprio engenheiro Villares. Hoje, o nome virou avenida, empreendimento, promessa de “viver bem” com espaço para quase tudo, menos para raízes.

O terreno, comprado por uma construtora, ganhará quatro torres de nove andares, 708 apartamentos de 30 metros quadrados. Imagino esse tamanho como o espaço vital de um ipê-amarelo antes de aprender a conversar com o Sol. Para compensar o estrago, virão 221 mudas novas, miúdas como desculpa de adulto, além de 2,5 milhões de reais repassados ao Fundo Especial do Meio Ambiente. Dinheiro, afinal, costuma brotar mais rápido que semente.

No tapume da obra, um banner azul proclama o empreendimento, vida “moderna”, “conectada”, “otimizada”. Quase escondido entre galhos que ainda resistem, um cartaz vermelho informa o manejo arbóreo autorizado, como quem pede perdão por um crime inevitável.

A lista de remoções inclui nativas, exóticas, invasoras e até árvores já mortas. A burocracia tem sua própria taxonomia da devastação. Cada tronco com sua etiqueta, sua sentença. E embora a ciência insista que plantas não sentem dor como nós, falta explicar aquele silêncio vegetal que se encolhe quando a motosserra começa a tossir por perto.

Há quem diga que as plantas não sentem, mas respondem. Reagem à luz, à secura, ao som, ao toque. A Mimosa pudica — Dormideira, Não-me-toques — encolhe as folhas feito criança que se esconde atrás da mãe na porta da escola. Para o professor Jack Schultz, plantas são “animais muito lentos”: cheiram, ouvem, veem, se defendem. Competem, dialogam, lutam pela sobrevivência.

Olivier Hamant, cientista francês de fala mansa, lembra que basta um timelapse para enxergar a verdade em sua plenitude: plantas se movem como bichos, só que devagar, com humildade, sem a soberba de querer erguer nove andares.

Foi pensando nisso que me perguntei o que diria Manoel de Barros, pajé das insignificâncias e inventor da sabedoria vegetal. Ele, que tirava poemas de latas amassadas e conversava com rãs sem fazer alarde, certamente ouviria cada tronco cair como se fosse um amigo desmontando devagar. Para ele, as folhas ensinavam a cair sem barulho, e olhos sujos de civilização aprendiam a desejar árvore por dentro. E talvez sorrisse ao notar que, para humanos, sabedoria virou aceitar com naturalidade um condomínio no lugar do talo.

Enquanto eu ainda ruminava essas miudezas, percebi que talvez fosse o caso de consultar não botânicos, engenheiros ou secretários municipais, mas crianças. São elas que realmente entendem de futuro, apenas vivem, e por isso mesmo enxergam mais longe. Talvez só elas tenham autoridade moral para decidir quantas árvores podem tombar sem que o bairro, a cidade, o mundo tombe junto.

Imaginem uma roda de crianças sentadas no chão, aquelas que fazem perguntas impossíveis nas horas mais impróprias. Aposto que resolveriam a equação com mais precisão que qualquer parecer técnico.

O engenheiro, prancheta na mão, perguntaria quantas árvores poderiam derrubar. A menina de rabo de cavalo responderia que nenhuma, porque árvores são como avós que moram de pé. Algum adulto lembraria da necessidade dos apartamentos. Um menino talvez sugerisse fazê-los menores. Outro proporia construir menos. Uma quarta criança, chupando pirulito, lembraria que dá para fazer tudo isso “em outro lugar”. Antes que alguém risse, a mais tímida de todas diria que gente grande acha que árvore é só decoração, que se troca quando atrapalha.

E estaria resolvido. Criança não calcula impacto ambiental. Ela sente. Como planta.

Na impossibilidade de ouvir Manoel de Barros — que já conversa com lesmas celestes em algum quintal infinito —, talvez devêssemos escutar essas criaturas lentas e luminosas: as árvores e as crianças. Ambas guardam conhecimentos que o adulto desaprende. Uma entende de raízes; a outra, de futuro — e de presente.

São Paulo sobreviverá a mais esse corte, como sobreviveu a tantos outros. Mas, se me fosse dado pedir algo, seria simples: antes de derrubarem a próxima árvore, que os adultos esperem um instante — o tempo exato de uma planta se mover num timelapse.

Talvez, nesse intervalo quase imperceptível, a planta diga alguma coisa. E uma criança escute, proteste. Talvez Saramago, sentado ao lado de Manoel de Barros no alpendre da eternidade, lembre sorrindo do que um dia teria escrito por aqui: “tentei não fazer nada na vida que envergonhasse a criança que fui.”

novembro 19, 2025

Uma calcinha preta na novela

UMA CALCINHA PRETA NA NOVELA 
Hayton Rocha


Semana passada, fui provocado por um sábio amigo, desses que citam o Código Penal de cabeça e ainda arrumam tempo para escrever textos fabulosos ou dedilhar o violão sentimental aos sábados. Pedia que eu comentasse o mais novo mexerico jurídico-amoroso do Fórum de Cachoeiro de Itapemirim, cidade onde as dores humanas chegam com firma reconhecida desde que suas águas batizaram Rubem Braga e Roberto Carlos.

É que, na virada do mês, a Justiça capixaba amanheceu diante de um enigma capaz de eclipsar habeas corpus, operações sigilosas e delações premiadas. Acredite: uma calcinha preta usada, abandonada no chão do Núcleo de Audiências de Custódia, área de acesso restrito e aura solene, onde normalmente só transitam algemas, angústias e autos cuidadosamente numerados.


Ilustração: Uilson Morais (Umor)


O burburinho correu mais rápido que intimação de magistrado com enxaqueca por conta de noite mal dormida. Virou meme de bacharel desempregado, piada em grupo de WhatsApp e pauta para ouvinte de rádio na madrugada. Teve até juiz que classificou o episódio como “grave”.

Eu, na minha ignorância jurídica, discordo. Grave, para mim, é gente preta continuar morrendo antes de viver com decência. Grave é criança negra estudar em escola sem muro, sem livros e sem futuro. Grave é o Brasil fingir que racismo é só questão de opinião. Grave é a desigualdade seguir escancarada, recebendo férias, décimo terceiro e estabilidade por conta da nossa indiferença.

Calcinha preta no Fórum é só uma extravagância burocrática. Uma nota de rodapé na monotonia dos despachos. Talvez até lembrete involuntário de que, apesar de toda liturgia, o corpo humano insiste em dar as caras onde menos se espera — assim como o amor, as canções e as palavras, como cantava Ângela Ro Ro.

Mas meu amigo insistiu. Contou até que o Tribunal determinou revisão minuciosa das câmeras de segurança. Imaginem a cena: servidores bebendo café requentado, olhos vermelhos, procuram não um criminoso, não um flagrante, não um fugitivo. Procuram uma alma que ousou amar na contramão do expediente.

E o povo, em sua ansiedade de costume, já quer pular capítulos da novela da vez. A pergunta deixou de ser “como foi parar ali?” e virou: “de quem será?”.

Meu amigo, romântico incurável, pinta o cenário com tintas fortes: final do expediente, corredor vazio, duas pessoas que passam o dia julgando culpas alheias resolvem aliviar as próprias. Uma advogada insinuante, talvez. Quem sabe um estagiário de olhar carente, “moreno alto, bonito e sensual”, como sugeria antigamente a banda Herva Doce. Cochichos e risos. Toques que viram endosso. O desejo que arde sem pedir autorização judicial.

Quando o impulso lateja, ninguém protocola requerimento.

Mas paixão é bicho arisco. Basta um ranger de porta, um passo no corredor, e o coração dispara feito réu ao ouvir sentença. As roupas voltam ao corpo como podem, às pressas, um tanto desalinhadas. Cada um foge para um lado, salvando o pouco de pudor que resta. Só a calcinha preta fica — testemunha muda, porém eloquente, estendida no chão como poema inacabado.

Agora falam em perícia. Luvas, microscópio, pinças. Como se estivéssemos diante de um capítulo inédito de Dostoiévski, Jorge Amado ou Nelson Rodrigues. Como se da investigação dependesse o destino moral e cívico do Espírito Santo. Do Brasil de todos os santos.

Circularam memorandos, organizaram diligências, reuniram servidores para revisar horas de gravação. Tudo muito certinho, tudo muito sério, para que ninguém diga que faltou rigor na apuração dos fatos.

E enquanto o aparato se mobiliza, o calendário nos lembra: é novembro. Mês em que morreu Zumbi dos Palmares. Mês dedicado à Consciência Negra. E o país, fiel à sua vocação para o desvio de foco, prefere debater o mistério de uma peça íntima preta.

Lá fora, na calçada do Fórum, seguem as mesmas filas de corpos cansados, vidas que aguardam sentença desde o berço.

Gente que nasce ré, cresce ré e morre antes do alvará de soltura.

A peça esquecida no chão virou assunto. A outra peça — a que falta desde sempre — continua invisível: o reconhecimento de que não é a calcinha que importa, é a textura da pele de quem espera do lado de fora, segurando documentos, crianças e esperanças frágeis.

Agora falam em laudo técnico de DNA. Como se buscassem as tais “marcas do amor nos nossos lençóis”, como canta Chico Buarque.

A calcinha preta vai ser embalada, catalogada, arquivada. A novela de quem chega algemado, ou limpa o banheiro, ou serve o café, ou varre o corredor, não. Essa ninguém coleta.

Por isso, continua no ar — em reprise diária, no Brasil inteiro.



LOGO MAIS, NA AABB RECIFE...

 




novembro 12, 2025

João e Maria no Código Penal

JOÃO E MARIA NO CÓDIGO PENAL 
Hayton Rocha


Ontem, revi algumas fotos nas redes sociais onde um grande escritor levou sua emoção às últimas consequências ao conhecer Liam, seu primeiro neto. Imagino o tanto de histórias impagáveis que ele já costura enquanto embala o mais novo fio de esperança para o Planeta. 


As imagens me remeteram a outro amigo avô, a quem chamo de Chiquinho Caniggia, que um dia resolveu contar à neta pré-adolescente uma nova versão da história que marcou a infância dele no final dos anos 1960, quando ainda havia fartura de cabelos. 


Grave erro, segundo ele. A menina terminou a história olhando-o com aquele misto de desconfiança e pena que a gente costuma reservar aos que falam sozinhos na fila da farmácia ou do supermercado.

— Vô, isso aconteceu mesmo? — perguntou, com a sobrancelha arqueada e o celular já na mão, pronta pra mandar mensagem pra avó, alertando para o possível desarranjo mental do idoso.





Empolgado, Chiquinho contou que havia, antigamente, um pescador viúvo, muito pobre, morando perto de um lago — daqueles que hoje seriam loteados por empreendimentos de alto padrão com nomes estrangeiros, tipo Golden Fish Lake Residence.


Esse pescador tinha dois filhos, João e Maria, e uma nova esposa que podia ser tudo, menos batizada na fé cristã.


— Faltou comida — explicou ele — e a mulher, pragmática como só as vilãs dos contos são, sugeriu: “Vamos abandonar as crianças na floresta. Não temos condições de criá-las.”
— E o pai concordou? — indagou a neta, com o olhar de quem já ensaia argumentos pro futuro concurso do Ministério Público.


Chiquinho disse que o pai hesitou, mas a madrasta — que era bruxa — ameaçou transformar os filhos num casal de sapos. João, mais esperto que muito menino com tutorial no YouTube, ouviu tudo e bolou um plano: encheu os bolsos de pedrinhas para marcar o caminho de volta.


— E ninguém pensou em chamar o Conselho Tutelar? — interrompeu a neta, indignada.


Mas Chiquinho seguiu adiante, como todo contador de histórias teimoso. O casal deixou os irmãos na floresta com um pão na mão e uma promessa de retorno tão frágil quanto conexão de internet na mata. João espalhou as pedrinhas e os dois conseguiram voltar pra casa ilesos.


Na segunda tentativa, a madrasta trancou a porta para impedir o menino de catar mais pedras. João improvisou com migalhas de pão — que, como era de se esperar, foram devoradas pelos passarinhos. Resultado: perdidos novamente.


— Isso é abandono de incapaz com agravante! — protestou a neta, tão revoltada quanto no dia em que descobriu que Papai Noel terceirizava os presentes.


Depois de dias vagando, João e Maria encontraram uma casa feita de doces. Telhado de chocolate, janelas de cocada, paredes de biscoito recheado. Um verdadeiro paraíso glicêmico. Começaram a devorar tudo até que uma voz saiu de dentro:

— Quem está roendo minha casa?


A dona era uma velha rabugenta com alma de bicho de sete cabeças. Prendeu João num quartinho para engordá-lo e assá-lo depois num grande forno a lenha. Maria foi forçada a virar empregada doméstica, sem carteira assinada.


— Vô, isso é cárcere privado com exploração de trabalho infantil! — gritou a neta, já abrindo o aplicativo pra gravar um vídeo-denúncia com trilha sonora dramática.


Maria enganava a bruxa — quase cega de catarata — dizendo que o irmão ainda estava magro, até que a velha perdeu a paciência e mandou Maria testar o forno com a cabeça.

— E aí?
— Maria, num contragolpe certeiro, empurrou a bruxa pra dentro e trancou a portinhola do forno.
— E ninguém ouviu os gritos? Nem vizinho?
— Era floresta, filha. Floresta não tem testemunha.


Depois disso, Maria libertou João. Acharam uma maleta da bruxa abarrotada de dólares — “provavelmente lucros ilícitos jamais declarados à Receita”, observou a neta — e voltaram pra casa com os bolsos cheios.


Encontraram o pai sozinho, choroso, arrependido. A madrasta? Sumira do mapa. Segundo boatos, foi vista pela última vez nadando perto de uma pedra escorregadia.


— Então é isso, vô? Duas crianças cometem latrocínio, apropriação indébita e ocultação de cadáver e terminam felizes para sempre?
— É o que o livro diz... — admitiu Chiquinho.


A neta suspirou e chamou a avó, que zapeava nas redes sociais na mesma sala:
— Vó, leva o vô ao médico. Acho que ele tá misturando remédio de próstata com fábula dos irmãos Grimm.


Desde então, Chiquinho pensa duas vezes antes de abrir a boca. Os contos da sua infância parecem cada vez mais impróprios — pelo menos, para menores com senso crítico, acesso à internet e noções básicas de direito penal.


Talvez os contos de fadas estejam apenas virando boletins de ocorrência.




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