O CEMITÉRIO DAS AGENDAS
Hayton Rocha
Talvez você pense que A Lista, de Oswaldo Montenegro, andou tocando demais aqui em casa nos últimos dias. Refiro-me àquela canção, lançada há 25 anos, que nos convida a encarar o tempo, os sonhos trocados e as amizades que mudam de forma. Tudo é possível.
Reencontrar velhos amigos depois de muitos anos é, quase sempre, uma sessão espírita mal organizada. Apertamos as mãos como quem tateia o escuro, sorrimos com a cortesia dos sobreviventes e começamos a falar de coisas que já morreram dentro de nós. Conversas de além-mundo. A gente finge interesse, o outro finge que acredita, e ambos sustentamos o teatro como dois personagens cansados de uma peça que já não comove ninguém.
Não têm sido poucas as desilusões que provoco — e que me são provocadas — quando reencontro certas criaturas que um dia jurei carregar no bolso como amuletos contra a solidão. Os abraços vêm ligeiramente exagerados, talvez por anteciparem o abismo que se abre logo depois, entre uma frase e outra. Um fosso feito de constrangimentos, desencontros e risos forçados.
Alguns envelheceram apenas lapidando os defeitos que já exibiam quando jovens. Se eram chatos, tornaram-se especialistas. Se eram vaidosos, transformaram a futilidade em traço de caráter. Outros hipertrofiaram mesquinharias e ideias reacionárias, dessas que não matam à queima-roupa, mas intoxicam devagar.
Que o acaso, mais confiável que todos os santos de plantão, nos poupe de estarmos entre esses.
Há também os que reduzem o mundo a cifras e metros quadrados. Enumeram, com hálito misógino, as mulheres que “devoraram”, como itens de um cardápio nojento. Exaltam feitos quase sempre imaginários de filhos musculosos, doutores em coisa nenhuma, herdeiros de um enorme vazio.
Outro dia, no corredor de um shopping center, topei com um colega dos meus tempos de menino, alguém que eu julgava grande amigo. Antes mesmo de saber se eu estava bem, quis saber se eu morava à beira-mar e que carro eu tinha. Talvez precise medir a felicidade alheia pela régua falsa da declaração de bens.
Em outro canto da cidade, longe dos espelhos do shopping, reencontrei numa mesa de bar velhos pernas-de-pau das peladas da adolescência. Bebiam e riam de si mesmos, trocando piadas sobre ex-esposas no idioma permanente da 5ª série, esse território onde todos ainda mantemos residência, mesmo quando fingimos maturidade. Não vou negar, meu lado 5ª série segue vivo. Só aprendi que há momentos em que ele pode pedir uma cerveja e destilar bobagens, e outros em que convém mandá-lo esperar do lado de fora.
Teve também o caso de um carrasco dos primeiros anos de trabalho, agora aposentado, exibindo fotos de chácaras e vacas, enaltecendo supostas virtudes de seu guru político com a convicção de certos galos que cantam para si mesmos ao amanhecer. Sim, ainda existe quem meça o mundo com a trena do dinheiro e acredite compreender o reino humano.
Talvez devêssemos criar categorias para os amigos dos tempos idos que felizmente não voltam mais. Há os do futebol, que duram exatos sessenta minutos de pelada, acrescidos apenas dos xingamentos. Há os amigos de drogaria, que sobrevivem entre a conversa fiada na fila e o dízimo da indústria farmacêutica. Relações estáveis e previsíveis: nascem no balcão e morrem na boca do caixa. Há outros do gênero, mas fiquemos por aqui.
Toda pessoa sensata deve se dar por satisfeita por possuir uma confiável dezena de amigos. Os de verdade são como bons filmes: poucos, mas capazes de atravessar décadas sem perder o sentido. Não precisam de avatar, não exigem curtidas nem pedem boletins ou extratos mensais sobre a cor da felicidade.
Para esses poucos, todo o tempo do mundo não basta. São os que oferecem o ombro, escutam sem julgar e permanecem quando todos os demais vão embora. Zele por eles como quem rega flores raras no jardim da existência. Porque foram escolhidos, não impostos, ao contrário de certos parentes que a genética nos empurra como obrigação vitalícia.
Por isso, nesta virada de ano, quando se promete o que não se cumpre, se perdoa o que não se esquece e se brinda ao que não se sente, ore por seus verdadeiros amigos. Não por todos os que passaram pela sua vida como quem faz escala em aeroporto. Mas pelos que se instalaram.
As demais criaturas, que se perderam pelo caminho, continuem vagando pelo cemitério das nossas agendas.
Nem todo reencontro merece ressurreição. A gente sabe disso, mas, volta e meia, esquece.











