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maio 27, 2026

O mar nao é para amadores

O MAR NÃO É PARA AMADORES
Hayton Rocha

 

Morei a maior parte da vida em três cidades litorâneas, porém minha experiência marítima se resume a algumas travessias de ferryboat na Baía de Todos os Santos, quando a maior preocupação era perguntar em quantos minutos chegaríamos e confiar que alguém soubesse a resposta. Ferryboat, aliás, é uma invenção pra lá de esquisita: mistura de ônibus, praça de alimentação e prévia do juízo final com cheiro de maresia.

 

Ilustração: Uilson Morais (Umor)


Nunca pisei num navio de cruzeiro. E se pisasse seria apenas para passar vergonha já na primeira onda mais encorpada, agarrado a uma coluna como quem tenta salvar a própria carcaça. Tenho enjoo e tontura até assistindo documentário do Discovery Channel. Basta a câmera balançar que meu estômago já me cobra o desembarque.

Cruzeiro marítimo é vendido como sonho. Gente sorrindo no convés, taça na mão, saxofone ao fundo, pôr do sol cenográfico e uma garçonete perguntando se você deseja mais camarão empanado. Mas abra o olho: desconfie de qualquer lugar onde você come vinte e quatro horas por dia e ainda chamam isso de descanso.

 

Navio de cruzeiro é uma espécie de condomínio fechado da gastroenterite. Aquilo parece férias, só que funciona como laboratório epidemiológico com música ao vivo.

 

Pense: milhares de pessoas confinadas num tubo metálico flutuante, compartilhando banheiro, corrimão, elevador, espreguiçadeira, maçaneta, piscina e um exército intercontinental de bactérias, fungos e vírus. É uma conferência universal de todas as secreções humanas. A diferença entre um cruzeiro e um hospital é basicamente a presença do cassino.


Na pandemia, houve até um navio transformado num aquário flutuante de coronavírus. O danado circulava pelos corredores com a desenvoltura de bêbado em casamento open bar.

O norovírus, conhecido como “o satanás do intestino”, deve olhar para buffet de cruzeiro como criança diante de vitrine de brinquedos no Natal.


Buffet, aliás, é uma invenção extraordinária para quem gosta de fartura e uma tragédia para quem aprecia os avanços civilizatórios. Nada aproxima mais a humanidade da barbárie do que uma fila por camarão grátis. O sujeito pega a colher da salada depois de coçar a sobrancelha, espirrar discretamente no punho ou ajustar a sunga molhada. Em seguida, devolve o utensílio ao recipiente com a calma de um monge budista. E os companheiros de viagem, logo atrás, seguem acreditando na pureza do purê. Existe algo de profundamente otimista em consumir maionese preparada para três mil desconhecidos em alto-mar.

 

Sem falar nos elevadores. Navio de cruzeiro transforma adultos em sardinhas verticais. Você entra num cubículo com oito pessoas úmidas, perfumadas em excesso e ligeiramente bêbadas, enquanto o ar-condicionado recicla não apenas o oxigênio, mas também evidências gasosas da democracia intestinal.


Os corredores vivem cheios. As piscinas têm consistência de sopa humana. E as hidromassagens? Inventaram um tanque aquecido coletivo e convenceram as pessoas de que aquilo representa luxo, não um experimento microbiológico premium.


E tem ainda um detalhe importante: cruzeiro é paixão especialmente de idosos. Nada contra o time em que jogo. A velhice merece descanso, lazer e até fila prioritária no cassino. Mas reunir centenas de criaturas acima dos sessenta num ambiente fechado, cercado por vírus respiratórios e comida de procedência duvidosa, parece roteiro concebido por um demitido injustamente da vigilância sanitária.

 

Claro, os navios possuem enfermarias. Mas elas lembram extintor de incêndio em boate antiga: você torce para nunca precisar descobrir se funciona. Porque basta surgir uma virose mais animada e, de repente, o comandante do navio deixa de parecer Roberto Carlos em especial de fim de ano para assumir a expressão de síndico quando dispara o alarme de incêndio no condomínio.


Veja você para onde caminha a humanidade. Passamos séculos tentando escapar de aglomerações insalubres, águas contaminadas, epidemias, pestes e ratos. Aí enriquecemos um pouco e recriamos tudo isso em versão premium, com varanda gourmet, pacote all inclusive e internet de bordo.


Na dúvida, prefiro avião. Avião pelo menos oferece a possibilidade estatística da tragédia rápida. Já navio só disponibiliza a chance de você morrer lentamente, cercado de música caribenha, cheiro de protetor solar vencido e o norovírus atacando sua flora intestinal com uma fome de anteontem.

 

Seria isso o progresso? Transformar antigas caravelas da peste em resorts flutuantes onde uma gente bronzeada brinda enquanto procura Dramim ou Floratil na enfermaria.

 

Nem morto embarco numa furada dessas! A comida pode até parecer tentadora, mas o norovírus circula de Ray-Ban e pulseirinha como hóspede VIP.

Toda gula será perdoada

    TODA GULA SERÁ PERDOADA Hayton Rocha Descobri outro dia que os sete pecados capitais não nasceram da implicância de um único sujeito mal...