agosto 26, 2026

No cabo da enxada

 

NO CABO DA ENXADA

Hayton Rocha

 

Daqui a pouco, mais de 158 milhões de brasileiros poderão votar para presidente da República, governadores, senadores e deputados. Com o início da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão nesta semana, a campanha esquentará de vez. É a época em que candidatos descobrem, subitamente, o encanto das feiras livres, dos canteiros de obras e das ferramentas que nunca lhes passaram pelas mãos. O país inteiro transforma-se num imenso palco, onde até a espontaneidade entra em cena sob a batuta de marqueteiros.



 

Para conquistar a atenção do eleitor e gerar a chamada mídia espontânea, políticos de todos os credos fazem de tudo. Bebem licor de jenipapo com tira-gosto de sarapatel requentado, dançam baião sem nunca terem chegado perto de uma sanfona e comem pastel como se jamais houvessem visto um guardanapo de linho. O importante é parecer natural. Ou, pelo menos, convencer a câmera de que aquilo não foi ensaiado quinze vezes antes da gravação.

 

É justamente nesse período que costumam ressurgir vídeos de campanhas passadas, feito zumbis que se levantam das catacumbas digitais para perseguir seus protagonistas. A internet não esquece. Apenas espera.

 

Na última eleição municipal, reapareceu um desses mortos-vivos. Na tentativa de se reeleger prefeito de Salvador, um candidato resolveu visitar as obras do aeroporto. O ato político virou piada instantânea nas ladeiras, nos becos e nos terreiros da capital baiana.

 

No vídeo, o pequeno burgomestre empunhava uma enxada com mãos alvas e delicadas, de unhas impecáveis. Vestindo terno azul-marinho e sapatos engraxados, tentava equilibrar brita e cimento sobre a ferramenta. Parecia confundir enxada com vassoura, o que também não ajudaria muito alguém que provavelmente nunca varreu um alpendre. Segurava-a como quem encontra pela primeira vez um objeto que até então só conhecia de fotografia. Se precisasse capinar, faria sentado, claro.

 

A cena me fez lembrar outra, ocorrida na virada do século, durante a Festa do Cacau, em Camacã, no sul da Bahia. Ali vi um velho cacique da política baiana escapar por pouco de um constrangimento memorável.


Entre as atrações da festa está a Quebra do Cacau, competição em que trabalhadores rurais disputam quem abre mais frutos no menor tempo. É uma reprodução da colheita: o cacau é retirado com podão, amontoado em rumas e aberto a facão para a retirada das amêndoas. Não há espaço para hesitação. A ferramenta e a mão precisam conversar como velhos companheiros.

 

Virar Diamante Negro, Ferrero Rocher ou Sonho de Valsa é apenas questão de tempo, açúcar, leite, fogo e alguma propaganda.

 

Naquele ano, alguém cochichou ao ouvido do cacique, entregou-lhe um facão e um fruto de cacau. A ideia era que partisse simbolicamente o primeiro produzido após o anúncio de avanços no combate à vassoura-de-bruxa, praga terrível que quase devastara as lavouras da região.

 

Por precaução, a casca já estava parcialmente cortada. Em cerimônias políticas, nunca se deve subestimar o potencial de um vexame épico.

 

Nem assim ele se animou. Olhou para o facão, depois para o cacau e, por fim, para as próprias mãos. Fez um rápido cálculo mental. Talvez receasse decepar os dedos, finos e pouco familiarizados com a aspereza do trabalho no campo.

 

Sorriu sem graça, balançou o indicador e desistiu. Eram mãos de quem nunca pegara num barbante, muito menos num facão. Acostumadas apenas ao peso de alianças políticas, pastas, dossiês, e processos, não conheciam enxadas nem podões. Em compensação, sabiam constranger aliados, puxar as orelhas de correligionários e apertar o pescoço de adversários.

 

Não posso garantir, porque nunca presenciei — e não vou começar a mentir justamente em ano de eleição —, mas dizia-se que ele gostava de advertir os discípulos:

— Aqui, quem não é meu amigo é meu inimigo.

 

O tempo passou. O facão virou enxada. Mudaram os cenários, as câmeras e os marqueteiros. As mãos, porém, continuaram parecidas: delicadas demais para o trabalho e experientes o bastante para o poder.

 

Talvez seja por isso que as campanhas eleitorais insistam tanto em colocar ferramentas nas mãos dos candidatos. A enxada, o facão e o martelo funcionam como certificados instantâneos de intimidade com o povo. Pouco importa se o político não sabe por onde começar. Basta sorrir para a câmera que o marqueteiro faz o resto.

 

Porque, em política, pegar no cabo da enxada costuma ser bem mais leve do que o trabalho que vem depois.

18 comentários:

  1. Bom dia Parahyba - Amigo de fé!
    Essa escrita de hoje ficou tão apropriada para a ocasião que no ato de “degusta-la”, cheguei a ouvir som de viola a tocar a chula da Chapada Diamantina 🎼
    O melhor de tudo, entretanto, foi no fio das letras, identificar os personagens que povoaram o seu juízo no momento que esculpia essa preciosa joia baiana e muito grapiúna.
    Paz e bem 🤝

    ResponderExcluir
  2. Parabéns, Hayton

    Gostei bastante. Um ano em que a hipocrisia impera senhora. E é necessário que se fale sobre.

    O que temos visto é uma perpetuação da espécie política através da transmissão hereditária.

    A vida política deveria ser como um sacerdócio, voltada sempre para o bem coletivo, cujas funções principais fossem:

    Representar a população e seus diferentes interesses.

    Definir prioridades coletivas, especialmente em áreas como saúde, educação, segurança, moradia, infraestrutura e desenvolvimento econômico.

    Criar e aperfeiçoar leis e políticas públicas que promovam o bem comum.

    Distribuir recursos públicos com responsabilidade, transparência e critérios de justiça.

    Fiscalizar o poder público, inclusive quando isso significa fiscalizar o próprio grupo político.

    Mediar conflitos e diferenças, buscando soluções negociadas em vez de aprofundar divisões.

    Garantir direitos e liberdade, respeitando as instituições democráticas.

    Planejar o futuro, e não apenas responder a problemas imediatos ou buscar resultados eleitorais.

    Em uma democracia saudável, a política deveria ser um instrumento para organizar a vida coletiva e transformar necessidades da população em ações concretas — e não simplesmente um meio de conquistar ou conservar poder.

    Mas, infelizmente, o que vemos é só briga por poder e o interesse individual se sobrepor ao coletivo.

    ResponderExcluir
  3. Político que nunca fez
    Qualquer trabalho braçal
    Nunca capinou o chão
    De um pequeno quintal
    Pega no cabo da enxada
    Só para fazer fachada
    Na campanha eleitoral.

    ResponderExcluir
  4. Excelente abordagem, Hayton. Mais uma temporada de pão, circo, dancinhas e abraços forçados. É a política operando milagres demagogos na periferia, uma afronta ao ser humano. Basta o sinal dos marqueteiros para que doutores criados no ar-condicionado e no carpete desenvolvam um amor repentino por pastel de feira, buchada, conhaque Dreher, caninha 51 e pela poeira das obras. Você foi cirúrgico: o teatro do cabo da enxada é a parte leve, o trabalho pesado quem faz é o eleitor, que precisa de estômago para o pós-festa. Pelos rincões do nosso Brasil, do sertão à periferia, o povo é enganado com promessa atrás de promessa nessa guerra pelo voto.
    Essa intimidade fingida dura só até o flash da câmera e a gravação da cena. Passada a eleição, as ferramentas voltam para o depósito, o candidato some e o trabalhador continua na lida dura, pagando a conta sozinho nos quatro anos seguintes.
    Simbora, na torcida para que o Brasil supere a polarização atual e reencontre o caminho da união, desenvolvimento, respeito e democracia plena.

    ResponderExcluir
  5. Uma tristeza que se repete a cada período eleitoral.
    Uma pena que o discernimento do eleitor brasileiro não alcance essa farsa.

    ResponderExcluir
  6. Muito bem retratada a caça aos votos. E os políticos de hoje contam com mais um “eleitor”: a pesquisa eleitoral. Brasileiro não gosta de perder e é extremamente influenciado pelas pesquisas, então, colocam lá a pesquisa de acordo com o gosto do freguês (leia-se do candidato) e já temos meio caminho andado. Não digo que as pesquisas sejam fraudulentas no sentido de alterarem números, mas pesquisas feitas em redutos eleitorais de acordo com as conveniências. E segue o barco!Nelza Martins

    ResponderExcluir

  7. Caro Hayton.
    Você acertou ao revelar, com humor e boa memória política, o contraste entre a intimidade cenográfica dos candidatos com os instrumentos do trabalho e a distância real que muitas vezes os separa da vida do povo. A enxada e o facão aparecem como símbolos de uma política que tenta fabricar pertencimento diante das câmeras, embora as mãos frequentemente denunciem aquilo que o discurso procura esconder.
    Em Goiás, Iris Rezende talvez tenha sido uma exceção apenas aparente — ou, pelo menos, um exemplo mais elaborado desse mesmo recurso. Nas épocas de eleição, gostava de empunhar a enxada, organizar mutirões para a limpeza das ruas e misturar-se ao povo mais pobre, numa tentativa nem sempre sincera de ser visto como um igual: um trabalhador sujeito às mesmas agruras e familiarizado com a dureza da vida comum. A diferença é que Iris parecia conhecer melhor a força simbólica daquele gesto e o modo de transformá-lo em capital político.
    A realidade, porém, é que frequentemente faltam sinceridade aos políticos e sobejam esperteza, cálculo e falsidade. Sempre foi assim e, ao que tudo indica, continuará sendo. O eleitorado é cortejado com gestos de proximidade, mas nem sempre recebe, depois da eleição, a mesma consideração demonstrada diante das câmeras.
    Gostei como habilmente você partiu de cenas engraçadas para chegar a uma observação séria sobre a natureza do poder. Lapidar a frase final que resumiu tudo com precisão: empunhar a ferramenta por alguns segundos é fácil; difícil é enfrentar o trabalho persistente, áspero e pouco fotogênico que vem depois. Excelente e atual a crônica. Parabéns.

    ResponderExcluir
  8. Pois é, caro Hayton! A hipocrisia, a mentira e a jactância alastram-se nesse período eleitoral.

    ResponderExcluir
  9. O Sodré profetizou: No cabo da minha enxada não conheço coroné. Até às cenas patéticas são hereditárias na política, e continuam sem intimidade com instrumentos de trabalho, tentando "fazer média" com eleitores. Uma triste realidade.

    ResponderExcluir
  10. Bom e abençoado dia, mestre das letras, Hayton!
    Como bem dissera nosso comum amigo Sebastião Cunha, a quem devo a primazia e bondade de ter feito a mim seu amigo amigo virtual, sua crônica de hoje veio muito bem a calhar, a ponto de me vir à lembrança muitos episódios e/ou causos sobre momentos eleitorais.
    Não é novidade certos arroubos de candidatos numa eleição a cargos públicos, convenhamos. Quem não lembra de uma certa candidata que saíra com esta pérola:
    -- ... nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição.
    Há outros casos, a exemplo do um certo Prefeito da maior cidade do país que, apreentando o candidato para lhe suceder dissera:
    -- ... se ele não for um grande prefeito, nunca mais vote em mim
    Fato é que o cabra não foi um grande Prefeito, mas, mesmo assim, o eleitorado ainda votara no apresentante mais uma vez, elegendo-o deputado federal.
    Dizem de uma anedota que um certo candidato, querendo mostrar sua lisura, vociferou em palanque eleitoral:
    -- aqui nestes bolsos nunca entrou dinheiro público.....
    E que, um chamado espírito de porco respondera do chão da festa:
    -- estreando calça nova hein doutor!
    Por outro lado, tivemos alguns candidatos que ficaram marcados na mente do eleitor por conta das suas insígnias de campanha, acompanhados dos respectivos bordões, no pleito eleitoral de 1960, Jânio Quadros: bordão "Varre, varre, vassourinha" (com o refrão "Varre, varre a bandalheira"), associado ao símbolo da vassoura; insígnia a vassoura em broche de lapela (fui agraciado com um exemplar, ainda menino e sem direito a voto obviamente)
    Marechal Henrique Teixa Lott: bordão "O Brasil precisa de um braço forte", insígnia "Espada de Ouro".
    Houve, na Bahia, um candidato a Governador - Lomanto Júnior 1962 - bordão: “Hoje, feijão na lapela, amanhã, feijão na panela” insíginia um broche contendo um caroço de feijão para lapela. (também fiz uso de um desses broches, não sendo ainda eleitor)
    Mas o sertão da minha origem tem histórias interessantes e inovadoras para a época. Contam que certo candidato a Prefeito aguardava o eleitor "duvidoso" em sua casa partia ao meio a cédula de dinheiro da compra do voto, entregava uma parte ao eleitor acompanhado de uma cédula de votação oficial, devidamente chancelada pela mesa diretora da Sessão Eleitoral e preenchida com todos os candidatos da preferência do comprador de votos. O eleitor só recebia a outra parte da cédula quando retornasse com a nova cédula oficial sem preenchimento.
    Como era a logística da corrupção eleitoral: o primeiro eleitor perdia o voto e, neste caso, não seria um duvidoso obviamente, punha na urna uma cédula igual à oficial porém não validada pela mesa da Sessão e entregava, no retorno, a cédula oficial em branco e validada. Daí em diante todos os votos estavam garantidos. Por conta disso, num dos Povoados daquele Município um candidato a Vereador contara com 99,99% dos votos válidos, havendo somente um voto nulo, embora marcado para ele, por conta da cédula primeira não oficial.
    Na atualidade a corrupação eleitoral foi profissionalizada, infelizmente. Estamos fartos de notícias das chamadas "emendas PIX" que irrigam os bolsos de cabos eleitorais, desviadas da função a que foram previstas como políticas ou obras públicas. É certo que os aparelhos policial e judicial tem chegado a enviantes e enviados, no entanto os apadrinhados do poder nunca ou pouquíssimos são sentenciados a devolução ou cumprimento de sentença prisional. Um escárnio, urgh!
    Que as enxadas virtuais tenham a sensibilidade de capinar a corrupação política de nosso país ou a vossoura do Jânio seja ressucitada para "varrer a bandalheira" que se instalou na República.
    Eu acredito e tenho fé que esse dia chegará, mesmo que eu não o veja.
    Triste Brasil, ó quão dessemelhante!
    Tonho do Paiaiá, de Munique, Baviera Alemã, para as Alagoas e para a Feira - Princesa do Sertão - em 26 de agosto de 2026

    ResponderExcluir
  11. A falta de autenticidade é honestidade desse povo é terrível. Se simplesmente agisse normalmente, talvez tivesse mais votos. Mas, afinal, o povo tem que ter o que falar e de quem rir... merece.

    ResponderExcluir
  12. O que vale é o discurso, aparência e imagem definida, propagada, o conteúdo, geralmente, o eleitor desconhece. Afinal, votamos em quem melhor se vende . O exemplo, so aparece na fala.

    ResponderExcluir
  13. Os comícios de campanha em minha terra sempre foram uma piada. Certa vez um candidato apregoava: “neste bolso nunca entrou dinheiro do povo”… ao que um gaiato gritou lá do fundo “calça nova, calça nova”

    ResponderExcluir
  14. Ademar Rafael Ferreira26 de agosto de 2026 às 08:19

    Esse período que já foi sinônimo de festa da democracia hoje retrata o fracasso de um sistema falido. É bom ter textos deste nível para expor feridas que sangram.

    ResponderExcluir
  15. Triste mas é verdade! Otima crônica.

    ResponderExcluir
  16. Sua crônica "no cabo da enxada"chega em um momento bastante oportuno, diante do período que se aproxima. Você retrata com precisão o verdadeiro teatro e as estratégias utilizadas para conquistar o voto do eleitor.
    A mentira, muitas vezes, é apresentada com a naturalidade de quem está em um confessionário. E, embora hoje tenhamos inúmeras ferramentas para pesquisar e verificar a veracidade dos discursos dos políticos, a força da crença, aliada à memória curta, acaba contribuindo para escolhas equivocadas e, algumas vezes, desastrosas.
    Escolher em quem votar está cada vez mais difícil, diante de tantos políticos profissionais e pessoas treinadas para convencer. Talvez um bom começo seja pesquisar a trajetória de cada candidato e descobrir, principalmente, aqueles que realmente já pegaram na enxada, no facão e no martelo. Conhecer a história de quem pede nosso voto pode fazer toda a diferença. Parabéns pela instigante crônica de hoje.

    ResponderExcluir
  17. Gostei, mas tudo continua como dantes? no quartel de abrantes.
    Um bando de vigaristas
    Abraço
    VFM

    ResponderExcluir
  18. Nessa época de eleições os candidatos aparecem. Aqui na Bahia, nesse período, surgiu candidato idoso dançando na boquinha da garrafa. Lembro-me do comício em que um candidato a vereador de uma cidade do interior, onde trabalhei no BB, pronunciou no palanque o seguinte despautério: "meu candidato a prefeito disse que, aqui nesse bairro, eu tenho sessenta votos, mas como eleitô (sic) é bicho descarado eu só conto vinte".Nessa época tudo é válido para angariar voto, abraços e beijos, tapinha nas costas, visitas a feiras livres e presença até em aniversários de bonecas. Passadas as eleições só voltam a aparecer daqui a quatro anos. Paulo Sampaio.

    ResponderExcluir

No cabo da enxada

  NO CABO DA ENXADA Hayton Rocha   Daqui a pouco, mais de 158 milhões de brasileiros poderão votar para presidente da República, governadore...