O GOL QUE MARCA
Hayton Rocha
Em ano de Copa do Mundo, a fronteira entre herói e vilão é estreita como as traves em disputa de pênaltis. Um chute torto, uma arrancada perfeita, e a História decide quem sobe ao pedestal e quem desce para o porão. Uns viram lenda — Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo. Outros viram cicatriz — Barbosa, Cerezo, Felipe Melo, Dante. A pressão é cruel: idolatra ou condena. E quase sempre faz isso em míseros noventa minutos.
Pensava nisso quando lembrei de João Batista de Almeida, amigo querido, vascaíno, que partiu há cinco anos. Ele costumava dizer que certas histórias só continuam existindo porque alguém insiste em contá-las — como cartas velhas que se recusam a sumir em dia de mudança.
Segundo João, em julho de 1958, uma menina de dez anos se recuperava de uma cirurgia na perna, no apartamento da família, no Rio de Janeiro. Vítima da poliomielite desde bebê, aprendera cedo que o corpo também pode ser território em disputa. Para enganar o tempo, montava um álbum de recortes dedicado a Bellini, zagueiro vascaíno e capitão da seleção campeã do mundo na Suécia. Um pequeno altar doméstico para um ídolo que não precisava se anunciar.
Num fim de tarde, a porta se abriu. “Boa noite”. Era Bellini.
Alguém lhe falara da menina. Entre compromissos, treinos e a ressaca do título recém-conquistado, ele foi. Sentou-se, contou histórias da Suécia como quem exagera uma pescaria. A menina ficou muda, travada. Alguns encontros dispensam palavras.
Dois anos depois, Bellini a reconheceu na rua, em Copacabana. Ela já andava melhor, carregando no corpo a esperança de voltar a andar sem esforço. Contou que faria a segunda e última cirurgia. Dias depois, Bellini ligou para o hospital, soube que tudo correra bem e apareceu para visitá-la. Levou bombons. Nada além disso. Um gesto simples, desses que não rendem manchete nem curtidas, mas sustentam uma emoção por semanas — às vezes por décadas.
O tempo passou. A menina virou Célia Vaz: cantora, maestrina, violinista. Em 1972, ganhou bolsa para estudar na Berklee College of Music, em Boston. Formou-se em Arranjo e Composição em 1976. Reconhecida no Japão, na Europa e nos Estados Unidos, tornou-se mais celebrada fora do que aqui — destino recorrente de talentos brasileiros que precisam atravessar oceanos para serem escutados em casa.
Em pouco mais de meio século, Célia foi a São Paulo visitar Bellini, aos 81 anos, e a mulher, Giselda. Deu-lhe um beijo. Também levou bombons. Entre um afago e outro, um filme silencioso atravessou a sala. As lágrimas caíram livres sobre os rostos, sobre a memória, sobre a caixa aberta. Há coisas que o tempo não estraga. Sabem esperar sem alterar o sabor.
Sei que o jogo mudou, como tudo muda. Ainda assim, custa imaginar uma cena dessas se repetindo hoje. Nem os clubes mais vitoriosos conseguem produzir ídolos admirados até por torcidas adversárias, como foram Ademir da Guia, Zico e Roberto Dinamite. O futebol moderno fabrica atletas precisos, eficientes, monitorados por métricas. Fabrica desempenho. Raramente fabrica encontros.
O jogo virou xadrez em alta velocidade. Tático, físico, estudado até o último centímetro do gramado. Os jogadores se encaixam em engrenagens rígidas, como peças substituíveis. O improviso — primo irreverente da genialidade — passou a ser tratado como risco.
Clubes e atletas viraram marcas. O escudo divide espaço com patrocinadores; o amor, com o mercado. A carreira virou portfólio. A fidelidade, um item opcional. Relações que antes levavam décadas para se formar hoje duram o tempo de um anúncio.
As redes aproximaram demais. O ídolo, antes distante e misterioso, passou a caber na palma da mão. Aproxima, mas desgasta. O encantamento não resiste ao excesso de luz. Aprende-se a posar, a editar, a se proteger. Vira personagem de si mesmo.
Talvez vivamos a fase mais imediatista de nossas vidas. Não toleramos falhas. Tudo é descartável. Será que aplicamos essa lógica também aos ídolos? Não suportamos a derrota, a queda. Esquecemos que dentro de toda grande conquista moram alguns fracassos — e que são eles que nos engrossam a casca.
Pode ser que o passado fique mais generoso visto à distância. Ainda assim, algo se perdeu no caminho: o gesto gratuito, o tempo doado sem agenda, a visita sem assessoria de imagem, a caixa de bombons entregue sem câmera.
Bellini não precisou ser gênio do futebol. Salvou uma tarde, uma menina, um álbum de recortes.
Isso não entra em estatística nenhuma. Mas atravessa décadas sem perder o brilho. Com o mesmo sabor.
Parabéns amigo ! Num mundo cada vez mais estranho relembrar o passado em suas cores e sabores traz conforto a alma .
ResponderExcluirA Lei da Reciprocidade não tem métricas ou regras pecuniárias, tem como marco legal outros fundamentos. Alguns deles são tratados nesta crônica, cada leitor perceberá o quantitativo com sua luta da sensibilidade.
ResponderExcluir...lupa...
ExcluirExcelente história, não tão comum atualmente e bela reflexão sobre alguns valores perdidos no tempo.
ResponderExcluirMais um presente para quem cedo madruga contrapondo os heróis de nosso tempo com os “ditos” heróis da atualidade. Os gestos do passado sequer eram registrados. Hoje, qualquer gesto, normalmente acontece com um gigante aparato digital e espalhado ou vulgarizado nas redes sociais.
ResponderExcluirExcelente reflexão Hayton. "O futebol imita a vida" ou vice-versa? Alguns dizem que após a pandemia nos tornamos mais individualistas e egoístas, receio em discordar, acho que isso já vinha acontecendo há muito tempo. Abs
ResponderExcluirNada melhor que dizer de reminiscências que cuidam da humildade e da reciprocidade.
ResponderExcluirQue duas atitudes mais lindas vimos nesta crônica do Hayton - o mestre das quartas-feiras, um amigo que ganhei sem jogar na loteria - insculpidas nos gestos de dois ídolos, cada um a seu tempo, a seu modo e a seu círculo profissional ou artístico!
Aquela menina fora surpreendida pelo seu ídolo, levado até ela pela notícia d'algum também admirador daquele atleta exemplar, que tantas alegrias nos dera erguendo a então famosa Taça Jules Rimet. O ídolo dos gramados nacionais e extranacionais, fora, certamente, surpreendido pela sua fã, já não mais a menina atônita, sem voz, mas uma artista nobre no campo da música, reconhecida nos palcos além fronteira, aplaudida por onde se apresentara; regera a Sinfônica da gratidão que guardara em si como um troféu, tal qual o da Copa do Mundo de Seleções de Futebol, conquistado em definitivo pela Seleção Brasileira de 1970.
Há atitudes que nos fazem sentir ao longe o carinho que nelas se acumulam.
Ave Palavra!
tonhodopaiaia.org
Nada melhor que dizer de reminiscências que cuidam da humildade e da reciprocidade.
ResponderExcluirQue duas atitudes mais lindas vimos nesta crônica do Hayton - o mestre das quartas-feiras, um amigo que ganhei sem jogar na loteria - insculpidas nos gestos de dois ídolos, cada um a seu tempo, a seu modo e a seu círculo profissional ou artístico!
Aquela menina fora surpreendida pelo seu ídolo, levado até ela pela notícia d'algum também admirador daquele atleta exemplar, que tantas alegrias nos dera erguendo a então famosa Taça Jules Rimet. O ídolo dos gramados nacionais e extranacionais, fora, certamente, surpreendido pela sua fã, já não mais a menina atônita, sem voz, mas uma artista nobre no campo da música, reconhecida nos palcos além fronteira, aplaudida por onde se apresentara; regera a Sinfônica da gratidão que guardara em si como um troféu, tal qual o da Copa do Mundo de Seleções de Futebol, conquistado em definitivo pela Seleção Brasileira de 1970.
Há atitudes que nos fazem sentir ao longe o carinho que nelas se acumulam.
Ave Palavra!
tonhodopaiaia.org
Bellini visita Célia
ResponderExcluirAjuda a salvar sua vida
Célia Vaz é grande artista
Pessoa no mundo querida
Esse é o resultado
Dentro e fora do gramado
Quando o tempo é a medida.
Bom dia, Caríssimo Parahyba!
ResponderExcluirUma crônica magistral e com fundo musical de maviosa orquestra regida pela menina do álbum.
A genialidade do Belini, com a bola, da maestrina Célia Vaz, com a batuta, e do cronista Hayton, com o talento de construtor de “causos🥲”, que emocionam corações.
Fraterno abraço meu amigo🤝
Que história maravilhosa, Hayton.
ResponderExcluirDe vez em quando é bom ver uma coisa boa nas redes sociais.
Hayton, acho que o texto de hoje é quase uma poesia contada em história, muito lindo!
ResponderExcluirEmocionante. Gostei dessa “vibe”.
ResponderExcluirA sensibilidade de Bellini em visitar a menina após ter passado por uma cirurgia, deixou marcantes lembranças que permaneceram para sempre na vida de ambos, levando Célia a retribuir o gesto depois de tantos anos...crônica emocionante!
ResponderExcluirHayton encontrou um excelente mote pra falar de todos nós. Não foram só os jogadores de futebol que ficaram “instagramáveis” 24 horas por dia.
ResponderExcluirMuitos de nós não deixamos escapar nem a publicização do prato que comemos. Julgamos os outros com a velocidade de um flash. Ao invés de construir e manter relacionamentos, fazemos conexões. E desconexões. E bloqueios. E cancelamentos.
Zigmunt Bauman já alertava pra a era da Modernidade Líquida!
Talvez precisemos deixar de sermos tão gasosos e solidificar mais nossos laços com as outras “gentes” que estão tão perdidas quanto nós!
Rápido como um flash, chamei Zygmunt de Zigmund! 🤷♂️
ExcluirO futebol passou por muitas transformações e, nesse processo, acabou deixando para trás parte do brilho e do romantismo de outros tempos, quando os lances eram mais raros e espontâneos. Hoje, um encontro como o de Bellini e Célia Vaz seria amplamente divulgado, minuciosamente planejado e perderia sua naturalidade; tornar-se-ia um negócio, com o verdadeiro propósito relegado a segundo plano. É o preço da modernidade. Parabéns, Hayton, mais uma vez você nos convida a viajar no tempo, sentados na cadeira da janela, revisitando memórias e sentimentos.
ResponderExcluirAcabei de ler. Como não gostar meu amigo? Um gesto simples, uma admiração autêntica, narrada de forma fantástica.
ResponderExcluirSó posso dizer: obrigado por essa crônica maravilhosa!
Que história linda!!!
ResponderExcluirO plantio é livre, mas a colheita é obrigatória. Se plantamos trigo, colheremos o trigo; se plantamos joio, colheremos joio.
ResponderExcluirNão existe castigo, nem recompensa, o que existe são consequências dos nossos atos.
A colheita nunca acontece quando plantamos, mas cedo ou tarde, a conta chega e revela tudo que semeamos.
Belini, plantou afago, afago colheu; levou bombons, bombons recebeu. E assim, é a vida.
Valeu Hayton, por mais uma crônica genial, tal qual, Pelé, Garrincha, Romário e Ronaldo,
Adorei !! A simplicidade da sua crônica me comoveu.👏🏻👏🏻👏🏻
ResponderExcluirValeu, Hayton! Brilhante crônica. Você nos conduz a uma reflexão necessária sobre o abismo entre os ídolos autênticos e a idolatria artificial das redes sociais. Ao contrastar o futebol de ontem e hoje, você resgata a humanidade de Bellini — cujo gesto simples com a fã mirim transbordava empatia — frente ao cenário atual, onde o esporte virou negócio e atletas tornaram-se marcas.
ResponderExcluirInfelizmente, tudo isto parece ter roubado o encantamento e a capacidade de termos encontros reais e sinceros.
Simbora, viver, celebrar e encantar: a arte de aproveitar o agora, sem filtros e sem holofotes.