TODA GULA SERÁ PERDOADA
Hayton Rocha
Descobri outro dia que os sete pecados capitais não nasceram da implicância de um único sujeito mal-humorado. A lista foi sendo cozinhada em fogo baixo ao longo dos séculos. Um monge acrescentou ingredientes, um papa acertou o tempero e Tomás de Aquino decorou a travessa antes de servi-la ao mundo.
Respeito os três. Mas, se me concedessem um único voto naquele conclave dos pecadores, eu excluiria a gula da relação. E desconfio de que boa parte dos meus amigos faria exatamente o mesmo.
Tenho minhas razões.
Entre todas as crônicas de Rubem Braga, continuo achando "Buchada de Carneiro" insuperável. O pobre animal viaja balindo para o sacrifício, os adultos evitam assistir à cena e certa culpa paira sobre todos. Até que, no dia seguinte, a buchada chega à mesa. Num instante evaporam-se a compaixão e os escrúpulos. Sobram sarapatel, pirão, cachaça e uma reverência que os homens costumam reservar apenas às coisas verdadeiramente sagradas. No fim, Braga conclui, entre divertido e constrangido, que, naquele caso específico, o crime compensara.
É fato que, embora fosse o papa dos cronistas brasileiros, jamais foi canonizado. Talvez por isso entendesse tão bem as fraquezas humanas.
Não culpo minha mãe por ter me transformado em um pecador incorrigível. Ela fez o que julgava certo. Depois que meus irmãos mais novos nasceram exigindo dedicação exclusiva, terceirizou para as mamadeiras de mingau de amido os serviços antes prestados pelas tetas maternas. Mais tarde vieram bolos, pudins, tapiocas, doces de toda espécie. Sem perceber, ela apostava em mim a continuação de si mesma, usando a linguagem que dominava melhor.
Foi ela quem confiscou incontáveis horas da minha infância para mexer panelas de canjica (curau) e doce de leite. Havia remuneração, é verdade, sob a forma de raspas de tacho. Mas o contrato previa punições severas caso a massa grudasse no fundo da panela. Permanecer meia hora de castigo, respirando aquele perfume indecente sem direito à recompensa, equivalia a uma tortura concebida por confeiteiros medievais.
Toda manhã, chovesse ou fizesse sol, me mandava à padaria. Tinha suas manhas. Fingia não ouvir quando eu explicava que um ou outro pão havia caído do pacote e que, apenas para não dar gosto ao cão, eu me sacrificara consumindo-o ainda quente. Sem manteiga, inclusive. Heroísmo que jamais recebeu qualquer reconhecimento oficial.
Também guardava no forno o meu almoço enquanto eu chegava da escola ou do trabalho. Bastava reencontrar a carne-de-sol com arroz de leite, o bife à marinheiro com purê de batatas ou qualquer sobra preparada por suas mãos para que a tarde desacelerasse. E, se por acaso aparecesse uma banana frita coberta por canela e queijo derretido, cada coisa voltava ao seu devido lugar, da garganta para baixo.
Os sábados da maturidade também acabaram perdoados. Eu retornava à Gruta, bairro onde sorri e chorei todas as circunstâncias da adolescência, para reencontrar meus irmãos já cercados de esposas, maridos e filhos. Bastava minha mãe anunciar que o almoço estava servido para todos nós voltarmos, durante alguns minutos, à condição de crianças gulosas e impacientes. Não havia cerimônia. Havia guisado de galinha, feijão-verde e felicidade. E felicidade, você sabe, raramente aprende qual talher usar.
Ao absolvê-la, porém, seria injusto esquecer quem iniciou essa conspiração gastronômica: meu pai.
Apaixonado por uma ninfeta de dezessete anos, resolveu presenteá-la, entre suspiros e outras intenções perfeitamente humanas na metade dos anos cinquenta, com um exemplar do Dona Benta. Na aparência, entregou um livro de receitas. Na prática, fez uma declaração de amor escrita com colher de pau numa panela ao fogo.
Foi ali que tudo começou.
Desde então, minha mãe jamais cozinhou apenas para ele ou para os filhos que viriam depois. Cozinhava para muito mais gente do que podia imaginar. Todos os meus amigos — até aqueles que só conheceria décadas mais tarde — mereciam ter frequentado aquela cozinha. Mereciam ter aberto aquelas panelas fumegantes, disputado as raspas do tacho e aprendido que certos carinhos chegam primeiro pelo nariz antes de encontrarem morada definitiva no coração.
Porque nascemos sozinhos, crescemos sozinhos e, cedo ou tarde, descobrimos que também partiremos sozinhos. Talvez por isso a amizade tenha inventado a mesa. É repartindo comida — e bebida, naturalmente — que conseguimos sustentar, ainda que por algumas horas, a ilusão mais generosa de todas: a de que ninguém precisa atravessar a vida completamente só.
Nunca consegui, portanto, levar a sério a condenação da gula. Há pecados que afastam os homens. Mas há panelas que os aproximam. E suspeito de que Deus conheça perfeitamente essa diferença.
E toda vez que olho para A Santa Ceia, volto a pensar nisso. Entre todos os milagres que poderia realizar na despedida, Ele escolheu repartir pão e vinho. Talvez porque soubesse que o amor, quando servido à mesa, alimenta mesmo depois que termina a refeição.
Diante de um amor assim, toda gula já nasce perdoada.


Mestre Hayton, você conseguiu transformar a fome em poesia e a gula em virtude. Se São Tomás de Aquino se sentasse à sua mesa, certamente esqueceria os pecados capitais e pediria para repetir o prato! Só de ler a crônica, minha barriga roncou em latim e bateu uma vontade irresistível de comer a cabeça do bode e raspar a panela do pirão. Como apaixonado por viajar pelo Brasil e saborear a autêntica comida da roça feita no fogão a lenha, acompanhada de uma boa cachaça, posso dizer que seu texto despertou todos os sentidos.
ResponderExcluirQue os Santos nos perdoe, mas alguns dos maiores milagres da vida acontecem mesmo ao redor de uma panela fumegante e de uma boa mesa rodeada de pessoas queridas.
Verdade!
ExcluirSe cada pecador pedir “anistia geral” para um tipo de pecado em que mais costuma cair, é o Criador anistiar, a vida ficará mais fácil pra todo mundo. Kkk
ExcluirMas quem resiste a um fundo de tacho ou panela de um. Bom doce de leite? Mas, de minha parte, buchada tem passagem livre.
Suas crônicas têm o dom de nos transportar ao cenário descrito. Eu ia lendo e “vendo” a cena! Nelza Martins
Estava aqui pensando: por que de uns pecados as pessoas se escondem e de outros se vangloriam? O 6° é o 9° são exaltados às escondidas(ou não) mas o sétimo Jamais - que o digam os políticos. Nelza Martins
ExcluirDe todos os pecados capitais o mais triste é a inveja. O invejoso nada lucra com ela… só tristeza
ResponderExcluirPecado capital mesmo é a avareza. Dele deriva a fome que a tantos mata mundo afora.
ExcluirHayton, essa crônica deliciosa me fez lembrar de minha mãe e sua genialidade culinária.
ResponderExcluirAté me deu fome antes da hora.
Que bom que você nos acorda nas quartas feiras com seus escritos.
A fotografia que ilustra esta crônica foi brincadeira de Magdala, que me flagrou pecando enquanto mamãe, do lado, rachava de rir.
ExcluirMais pecado é a fome. Se a gula de poucos gera a fome de muitos, sim, é pecado. Se a gula for o exagero dos desfavorecidos ante um raro momento de fartura, é deleite.
ResponderExcluirBom dia, boa quarta-feira literária, mestre Hayton!
ResponderExcluirGostei tanto desta crônica que sorvi, imaginariamente, todas ou quase todas iguarias preparadas naquela cozinha que você tão majestosamente retratara: a cozinha itabaianeira da Família Rocha.
O Braga que me perdoe, mas é tempo de elegermos outro cronista festejado pela crítica literária. Você já leva o meu voto, podes crer!
Sua crônica me levara de volta aos tempos de menino e me fizera recordar d'alguns comandos firmes e intimadatórios advindos da minha amada mãe, hoje contando os dias, na retirada de cada folhetinho da Folhinha do Coração de Jesus - emvira já não leia mais com tanto interesse o versado em cada papelete informativo que o é - para alcançar o podium do centenário.
Como não lembrar do temido comando, ao designar minha ida à padaria para comprar o pão?!
- vou cuspir no chão, se quando você chegar o cuspe tiver secado, toma uma surra de bainha de facão.
- mas mãe, e se a padaria tiver cheia?! retrucava em voz já chorosa, antevendo a bainha de facão no lombo
- você tá me respondendo, é?....
Era o bastante para calar e sair em disparada, manquitolando - tenho sequela de poliomielite, na perna direita, desde um ano e meio de vida - rumo à padaria.
Não lembro de ter ido olhar se houvera a cusparada prometida, nem me atreveria a tanto. Quem de nós, filhos, ousaria tamanha atitude comprovativa?!
Fato é que, vez por outra, principalmente na obrigação vespertina de comprar o pão, quando encontrava um baba de bola de meia e me enturmava com coleguinhas da escola, o cuspe secava e a bainha de facão ditava as ordens no meu lombo rsrsrs. No fundo, hoje lembro daquelas reprimendas e agradeço a minha mãe, posto que me fizeram seguir caminhos de obediência e respeito ao que a vida houvera de me apresentar.
Outro episódio que causava algazarra e, às vezes reprimendas, era quando disputávamos o papeiro do minguau de puba, para rapá-lo, como você citara sobre o tacho dos doces preparados por sua mamãe.
- mãe, o papeiro é meu! É o grito ensurdecedor de cada filho pretendente. Éramos meia dúzia de guris.
- hoje o papeiro é de Toinho.
- pra Toinho não senhora, mãe, ele teve direito antonte....
Era o bastante para o protestante ficar a fila por cinco seguidos dias, mesmo que o seu fosse aquele ou o próximo vindouro. Que ousadia contestar a matriarca!
Obrigado, Hayton, pela crônica e por me fazer lembrar daqueles bons tempos em que a família era lugar de aprendizado, cabendo à Escola regular e institucional aprimora-lo ou expandi-lo.
Ave Reminiscências!
Ave Amor!
Ave Respeito!
Bença mãe!
Tonho, voce falou por nos todos.
ExcluirTipo de crônica que instiga os sensos mais primitivos, nos deixando com água na boca e esquecendo que não existe pecado do lado de baixo do equador.
ResponderExcluirNo fim das contas, entre uma buchada e um guisadinho bem feito, um arroz doce, uma pamonha, uma canjica e um sorriso largo, fica a constatação mais certeira de todas:
A vida é, mesmo, a soma do que fizemos de nós até hoje.
Você deu muitos bons motivos pra riscar a gula da lista dos pecados capitais, mestre Hayton. E eu concordo com todos.
ResponderExcluirEu substituiria pela fome, aquele pecado que cometemos ao condenar tanta gente a não ter o que comer.
Cada vez que eu perco a hora do almoço por algum motivo de trabalho ou um outro qualquer, me dou conta do quanto a fome deve ser cruel.
Parabéns por essa beleza de crônica!
ResponderExcluirA crônica aguça todos os sentidos, nos fazendo comer com os olhos, sentir aquele cheiro da cozinha materna com sabor de saudade, uma suadeira após um "mocotó" e uma "fatada". Nada mais sacrificante do que raspa do tacho.
ResponderExcluir" Tá na mesa"!!!!
ResponderExcluirA crônica de hoje foi talhada para "alimentar-nos", implacavelmente, nas lembranças de nossa infância, quando comíamos sem o menor sentimento de culpa. Hoje temos que nos restringir, não pela consciência pesada do pecado (que também não sou adepto a essa cobrança), mas pelas imposições que as taxas de exames nos cobram. Parabéns por mais uma abordagem "bem temperada". Foi mais um "prato cheio", para saborear, sem culpa, no início da quarta-feira.
ResponderExcluirMeu amigo Hayton, me vi na cozinha de minha mãe, embora os pratos fossem diferentes, lá eram os árabes, o carinho e o amor eram os mesmos.
ResponderExcluirParabéns por mais essa pérola.
Caro Hayton, já aguardava com anseio mais uma crônica sua. Hoje você conseguiu o que pouca gente consegue: transformar pecado em elogio, e gula em ato de ternura. Ler este texto é quase correr o risco de engordar só pelo lado espiritual, porque a fome que ele abre não é só de comida, é de lembrança, de casa, de mesa cheia, de gente boa por perto.
ResponderExcluirExcelente a sua defesa escancarada da gula, que no seu texto deixa de ser vício e vira uma espécie de patriotismo afetivo. Afinal, quem conseguiria condenar um pecado que vem vestido de bolo, canjica, banana frita com canela e queijo derretido? Se isso for crime, todos nós iremos para a cadeia sorrindo e pedindo sobremesa.
Buscar uma memória doméstica e fazer dela uma coisa maior, quase litúrgica, sem perder a leveza enriqueceu muito a crônica. A mãe, o pai, o Dona Benta, a padaria, o almoço de sábado, tudo vai se encaixando como se a cozinha fosse também uma teoria da vida. Você escreveu como quem está contando uma história de família, mas no fundo está dizendo uma verdade que vale para qualquer um: mesa cheia é uma forma muito elegante de vencer a solidão.
Particularmente gostei da maneira como você “absolve” sua mãe e, no meio da absolvição, condena o leitor a lembrar da própria infância com uma vontade absurda de repetir o prato. E a imagem final é daquelas que fecham a crônica com a naturalidade de quem serve café depois do almoço: simples, bonita e impossível de esquecer.
Enfim, você fez uma crônica que dá fome de duas coisas ao mesmo tempo: comida e afeto. E das duas, sinceramente, a segunda costuma ser a mais difícil de encontrar bem servida.
Pois é, caro Hayton, se a gula for realmente pecado, não sei o que aguarda lá em cima. Uma excelente crônica: é de dar "água na boca"...kkk.
ResponderExcluirJesus, afeito a um bom prato, já disse que o mal não é o que entra pela boca. Adorei a crônica
ResponderExcluirA gula é um prazer insaciável e tão bem retratado nessa crônica matinal, e que exala amor por todos os poros. Comida de mãe, avós, tias, esposa, filhos e amigos, em volta de uma mesa variada, trazem em si, toda a magia da felicidade. Isso nunca poderia ser qualificado como pecado. Parabéns por ter, desde a tenra idade, mergulhado nesse imenso universo gastronômico, como aprendiz de sua mãe.
ResponderExcluirGula tem tudo a ver com mãe carinhosa!
ResponderExcluirLinda -e saborosa- visita ao passado. Abração.
Gradim.
A "rapa" da panela é o mais gostoso...
ResponderExcluirFelix Bala.
Extraordinário essa crônica,👏👏👏
ResponderExcluirOh que saudade de raspar o tacho da canjica e dos doces de leite, de banana etc, sempre são mais gostosos que as próprias guloseimas armazenadas. As gerações mais atuais não sabem o que é isso, e portanto não sabem o que é bom, rsrs
ResponderExcluirCom a força de um elefante
ResponderExcluirTeimosia de uma mula
'Decido': "De hoje em diante
não é mais pecado a gula."
Se alguém discordar leia essa crônica e siga o voto deste relator.
Caro amigo Hayton, deliciosa crônica para começar bem o dia. Os comentários são todos merecidos! Forte abraço.
ResponderExcluirDa “declaração de amor escrita com colher de pau numa panela ao fogo” à explicação de que “meia hora de castigo, respirando aquele perfume indecente sem direito à recompensa, equivalia a uma tortura concebida por confeiteiros medievais”, o autor nos empanturra e nos embriaga de cultura e de memórias afetivas.
ResponderExcluirQuanta maestria! Os “master chef” pasteurizados de hoje em dia devem se remoer nos túmulos vivos que habitam.
Que delícia de crônica! Especialmente, para nós mineiros que gostamos de compartilhar uma boa mesa! Comer é muito mais do que nutrir, comer juntos (companio) é uma benção.
ResponderExcluirAgora pensando bem
ResponderExcluirToda gula tem perdão
E até me vem a dúvida
Se é pecado ou não
A comida dá prazer
Comer bem é um dever
Provoca reunião.
Uma crônica que retrata muito mais que a gula… mas vidas !!!
ResponderExcluirCrônica deliciosa! É pra ler ( ou comer) rezando! Talvez o costume religioso de fazer uma oração antes das refeições ( além de gratidão, claro) seria uma maneira de pedir perdão antecipado pela comilança que viria em seguida. A origem do pecado da gula pode vir de épocas de escassês, de fome mesmo, quando a lauta refeição( e desperdício de comida) dos mais abastados contrastava com a mesa vazia de plebe.
ResponderExcluirMeu amigo Hayton, acredito que todos nós estamos sujeitos ao pecado da gula e a tantas outras tentações. Mas, convenhamos, quem conseguiria resistir a um bom guisado ou a uma saborosa buchada? É difícil. Na hora de saborear essas delícias da nossa culinária, quase ninguém para para pensar em como foram preparadas ou na sua origem. No fim das contas, o que realmente faz a diferença é o encontro em volta da mesa, especialmente quando temos o privilégio de reunir toda a família. Esses momentos de convivência e carinho são os ingredientes mais valiosos de qualquer refeição.
ResponderExcluirAmigo Hayton,
ResponderExcluirEu luto contra este pecado todos os dias.
Mas só me lembro quando leio uma bela crônica dessas.
Kkkkkkk
Grande Hayton,
ResponderExcluirA variabilidade de temas e a leveza dos textos nos deixam mesmo ansiosos para tentar adivinhar o que virá na próxima semana!
Mas nem por isso deixamos de apreciar os contornos do texto oferecido, que só merece aplauso!
Parabéns!
Que belo texto! Pura memória e vida. Parabéns!
ResponderExcluirKkkkkk. Tinha que ser Tio Hayton. Apaixonado pela comida da Vovó. E quem não é? Até Fabrício quando provou a primeira vez, ficou impressionado que comida boa..kkkkkk
ResponderExcluirQue crônica, Hayton. Me pegou pelo estômago e pelo coração: pois que você demonstrou, com perfeição, que o afeto também se entende pelo cheiro de canjica e pela raspa de tacho. Tua mainha te fez pecador sem querer, e teu painho, com aquele Dona Benta de presente de namoro, foi o cúmplice maior. No fundo, não é sobre comida – é sobre como a gente aprende a dizer "te amo" com uma colher de pau.
ResponderExcluirE essa virada da mesa como invenção da amizade... Você acertou em cheio: a gente nasce só, morre só, mas no meio do caminho tem um almoço de domingo que nos convence do contrário. Felicidade que não sabe talher usar – essa frase é de quem entende que o amor não pede protocolo. Lembei-me do belo filme A Festa de Babete, no qual ao redor da mesa, antigos conflitos e mágoas são diluídos, perdoados e processados, pelo pazer da comilança e do bom vinho tragados, providenciados pela Babete, com as grana que ela ganhou de uma loteria.,
Voltando ao belíssimo texto, dos que merecem ser degustados, o arremate com a Santa Ceia. Cristo repartindo pão e vinho na despedida, foi a chegada do sagrado, que também mora na cozinha, e que Deus deve ter um paladar bem mais generoso que a gente imagina.
Ah, e a buchada do Rubem Braga me fez lembrar na hora das que a Ana faz lá no Bar da Buchada, no Altiplano, em João Pessoa. Ela serve com um sorriso de quem cumpre missão: a "misturas" bem picadas, e cozidas dentro da "panela de pressão" do bucho costurado, o aroma que invade a vida, regado com uma Matuta. Ali não tem pecado, tem comunhão. É quase um portal da gula, e o milagre é o mesmo: a gente sai de lá menos só. Valeu, Hayton. Tua crônica me fez ter fome de tudo; de comida, de gente, de afeto. E isso, no fim, é a melhor cura pra solidão.
Essa crônica de tão boa, me deu água na bica
ResponderExcluirComida é tradução de amor puro, purinho. Falou a taurina raiz, fã de tudo que venha “guela a dentro”. Atenção especial na risada gostosa da vovó. Posso até escutar daqui ela dizendo: “Hahaha. Esse Hayton!”
ResponderExcluirUm detalhe importante que, por pouco, esqueceria de deixar aqui registrado: netos sentados no corredor da casa da gruta, cada um com seu prato entre as pernas degustando seu saborosíssimo almoço e três primos fofuxos esperando “quem não queria almoçar tudo” para, em hipótese alguma, desperdiçar cada grão de feijão de Vovó Dócia. Memória afetiva ativada com sucesso. Pude sentir cheiro e gosto de infância daqui. Obrigada por essa crônica linda.
ExcluirMuito boa! Viver no presente o que a memória traz no fundo do coração, sem qualquer mal pensamento, mas com felicidade e gratidão. Ontem por acaso, deparamos com saco de petas(biscoito) quentinhos, sendo colhidos daquele forno de alvenaria. O que trouxe para a memória e visão, o quintal da casa de minha avó, Sinhá, aonde filhos, netos, amigos, participativos tanto da construção, conversa, risadas e goles, da produção que seria motivo, porque não dizer: "Do consumo do ginete, da peta, do bolo de arroz, da Felicidade Geral. Parabéns
ResponderExcluirMeu cumpade
ResponderExcluirCrônica do caray, essa da gula.
É como diz o matuto:
Meio dia, quem não almoça assobia.
Parabéns!
Melhor do que comer uma perua-jandáia (de primeira postura), torrada numa panela de barro, num fogo de lenha de angico. 🪵🔥
Como nordestino também, senti o cheiro de todos os pratos, sobremesas, delícias citadas por você.... Rsrsrsrs.
ResponderExcluirPerfeito!!! Toda gula já nasce perdoada.
ResponderExcluirComo de resto, seria bem legal se tudo o que fizéssemos sem dolo e não levasse prejuízos aos demais, também o fosse.
Mas, comer é um prazer danado de bom. E bem largo. Agasalha o glutão, o moderado, o criterioso, etc.
Será que a gula já deixou de ser um dos Pecados Capitais, e não ficamos sabendo?
Essa relação de 7 Pecados devia mesmo ser reavaliada, diante do que vemos em nossos dias...
Mas, voltando ao nosso imaginário de delícias, fico aqui já desejando um belo cuscuz com carne de sol ao final do expediente de hoje. E sem culpa alguma.
Crônica "deliciosa".
Valeu!!!
Abração!!!
Mário Nelson.
Algumas comidas que faço, aprendi com ela ex: purê de batata, pudim e tantas outras.
ResponderExcluirE eu aprendi o Pão Caseiro do Cafezinho da tarde…. Hahaha
ExcluirPara mim, gula é um pecado que jamais existiu. Primeiro porque comer igual a um padre já perdoa qualquer deslize, daí pra frente todo pecado será perdoado. Mas para existir gula,teríamos que comer o que não conseguiríamos e isso é impossível. Comer muito é diferente do pecado. Se Deus nos quer felizes, comer muito bem,ou muito e bem, Ele nos permite. Onde entraria a gula nesse espaço?
ResponderExcluirAmigo Hayton,
ResponderExcluirSua crônica de hoje me fez lembrar de minha mãe. Apesar de não ter habilidades culinárias, passávamos horas à mesa em ótimas conversas!
Hoje, eu e Monica somos os ‘chefs’ de cozinha, reunindo família e amigos para para ‘pecar’ . Mas ainda bem que temos o deus Baco para alegrar as noites de gulodice!!!
Grade abraço,
Marcos André
Sensacional. Mexe com muita gente. Todos gulosos. Rsrs
ResponderExcluirHayton, a julgar pelo número de comentários e até pela extensão de alguns, seus leitores mais fiéis concordam plenamente com o título da crônica. Agora, lembrar do almoço servido aos sábados na casa de dona Eudócia... De fato, certos carinhos chegam primeiro pelo nariz antes de encontrarem morada definitiva no coração. Parabéns pela gostosa crônica!
ResponderExcluirOs sábados na casa da Vovó Eudócia ocupam um lugar especial em minhas lembranças. Eram dias verdadeiramente inesquecíveis, marcados por momentos de alegria, afeto e convivência em família. Entre tantas recordações preciosas, uma das mais marcantes era a deliciosa comida que ela preparava com dedicação e servia com o carinho que só uma avó é capaz de oferecer. Cada refeição reunia a família ao redor da mesa e transformava os sabores em memórias que o tempo jamais conseguiu apagar ❤️
ResponderExcluirSe a gula for mesmo um pecado, imaginem a quantidade de religiosos encrencados, já que, como sabemos, os mosteiros e conventos sempre foram locais de grandes prazeres gastronômicos.
ResponderExcluirMas a gula aqui tratada pelo cronista nem é gula. É afeto pela comida verdadeira, feita por pessoas que entendem cozinhar é uma das mais belas formas de amor.
E, como tão lindamente descrita aqui, quando vem da mãe, é algo sagrado.
Mais elevado ainda é o valor quando as mães, ante os escassos recursos, realizam o milagre da multiplicação para encher as barriguinhas famintas da prole.
Sou apaixonada por cozinha, por feira livre, por horta, por comida, enfim. E, como não poderia ser diferente, adoro filmes nessa temática. Há os inesquecíveis: A Festa de Babette, O Tempero da Vida e Como Água para Chocolate.
Para mim, a crônica de hoje merece receber 3 estrelas Michelin.
Que bela crônica. É realmente intrigante esse pecado, o que dizer dos padres comilões?
ResponderExcluirAh! É de dar água na boca.
ResponderExcluirHayton, sua crônica me fez relembrar os tempos felizes da Fazenda Genipapo: Carneiro morto na madrugada, buchada preparada com esmero por minha cunhada, uma caninha de engenho e o refrescante banho de uma nascente bem embaixo do morro perto do palhoção.
As lembranças voltaram todas. De infância, de adolescência, de juventude, de adulto... Especialmente a de "rapar o tacho" e as panelas. Só que o hábito de "rapar" conservo até hoje.
ResponderExcluirA diferença está nas "receitas" gaúchas. Vão da "polenta" que, invariavelmente, deixa uma deliciosa "casquinha" grudada nas paredes do tacho (ou panela) e uma fina crosta no fundo, que exige um pouco mais de esforço para rapar; passando pelo "arroz de china", que nada mais é que um básico arroz com linguiça bem temperado, especialmente com pimenta do reino; e chegando no "sagú", cozido com vinho suave, canela e cravo. E, no meio disso tudo, o "churrasco, temperado só com sal grosso, que dispensa comentários. E, até é possível rapar o osso, se for de uma costela comida com as mãos. Que talheres que nada.
Acho que vou parar por aqui! A barriga já está "roncando"!
Maravilha!
ResponderExcluirIniciei a leitura discordando um pouco, e terminei entusiasticamente apoiando, depois do que me pareceu uma descrição do cardápio da Festa de Babette.
Hayton!
ResponderExcluirLendo a sua crônica, voltei aos tempos de infância, onde a minha mãe, aos domingos, reunia a família para degustar-mos as delícias que ela preparava.
Tinha uma carne de 🍖 de panela🍲 que ela fazia, Hum ! 😛 até hoje não comi outra igual.
Eu herdei os hábitos dela, aos domingos reuno os filhos, genro, nora e neto mantendo a tradição.
Parece que sua crônica despertou os desejos "adormecidos" de muitos leitores... Mas, não é para menos... Quem não se lembra da boa época em que o acesso à cozinha era liberado... Depois, quando tivemos que correr o tempo todo, para não perder a hora do trabalho, conjugado com refeições rápidas, o hábito gostoso de saciar a fome diretamente da panela, ficou só na lembrança e de raras oportunidades...
ResponderExcluirGostei Hayton, até porque minha mãe sempre disse que desconfia de homem que não chora e que não come muito.
ResponderExcluirAmigo, essa crônica me trouxe memórias tão doces de minha infância com minha família 🥰
ResponderExcluirGostei do que li. O autor faz a gente entrar na história e lembrar de situações semelhantes com nossas mães.
ResponderExcluirComo dizia o poeta Nando Cordel, é de dar água na boca lendo essa maravilhosa crônica. Lembro da minha querida mãe, que colocou no mundo 15 filhos e todos bons de boca e gostam de cozinhar. Os amigos que frequentam os nossos lares afirmam que a gente tem um medo danado de morrer de fome. Na casa dos meus pais no dia que comia pouca gente eram 13 pessoas e no máximo sem festa já chegou a 47, padres, primos, amigos de escolas e vizinhos. Esse pecado da gula não existe, porque o prazer de quem faz uma iguaria e de quem consome, tem uma harmonia genial e sagrada pela sua existência. Parabéns grande Hayton!!!
ResponderExcluirVocê e suas criações tocantes e inesquecíveis.
ResponderExcluirDesta vez foram salvas muitas almas do purgatório, gente que tinha a consciência pesada em função da gula e agora se sentem aliviadas após a leitura de sua peça, os comentários aí confirmam esta minha afirmação.
Vamos agora pecar à vontade, você nos liberou...
Linda crônica, Hayton!
ResponderExcluirLinda crônica, Hayton!
ResponderExcluirSó pude ler essa delícia de crônica dias depois .Vc conseguiu despertar os mais variados sentimentos com sua inigualável sensibilidade e sabedoria. Esperamos a próxima na nossa mesa do café da manhã..
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