julho 01, 2026

Uma velha fotografia

  

UMA VELHA FOTOGRAFIA 

Hayton Rocha



Você se apresentou no São João de Caruaru, no Dia dos Namorados, diante de uma multidão reunida no Pátio Luiz Gonzaga. Não teve sanfona, triângulo nem zabumba, mas imagino aquele mar de gente cantando junto, como se cada casal apaixonado — e cada separado arrependido — levasse no bolso da alma aquela velha fotografia.

 

Não pude ir. Tivesse ido, talvez a gente se encontrasse e eu lhe perguntaria: como vai você, bicho? Preciso saber da sua vida. É que, há mais de meio século, sua vida atravessou a minha, a de Magdala. Entrou pelo chiado do rádio, pelo toca-fitas e pelas preguiçosas tardes de domingo.





 

Já se disse quase tudo sobre você, de bem e de mal. Chamaram-no de rei, romântico incurável, ultrapassado e outros rótulos que a vida entrega com uma mão enquanto retira um pedaço com a outra. Mas ninguém pode negar que você ainda canta sem aspas, ama sem interrogações, sonha com reticências e vive sem pontos de exclamação. 

 

Há nisso uma elegância rara. A de quem veste um paletó de linho branco, um chapéu alquebrado e segue pela vida como flores que teimam em nascer entre trilhos.

 

Ainda menino, perto da estação ferroviária de Cachoeiro de Itapemirim, você aprendeu que o destino, às vezes, nem bate à porta: passa por cima. Ficou um pedaço de você pelo caminho. O resto virou resistência.

 

Mais tarde, trocou Cachoeiro por Niterói, os sonhos pelo rádio e acabou se transformando numa espécie de parente sentimental do Brasil. Titia Amélia e Lady Laura acompanharam de perto e sabiam disso como ninguém. 

 

Nem mesmo quando a morte, essa visitante inconveniente que não respeita nem reinados e títulos, levou mulheres amadas e filhos queridos, você desistiu. 

 

Há pessoas que transformam a dor em renúncia. Você fez dela canção. E foi remexendo nesses pedaços da sua história que compreendi uma coisa simples: no fundo, suas canções nunca falaram apenas de você. Falavam de nós.

 

Porque ninguém amou sozinho naquela época. Havia sempre uma canção sua esperando a hora certa de dizer o que a gente não conseguia. Às vezes bastava um trecho: "Eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser, mas é assim que sei te amar". 

 

Quem nunca ouviu sua voz avisando que não adiantava tentar esquecer alguém porque ainda viveria dentro da gente? Quem nunca acreditou que certos detalhes eram grandes demais para desaparecer na longa estrada?

 

Fui um moleque inseguro, embora ousado e presunçoso. Tinha meus medos, mas os escondia atrás de uma arrogância de anéis, colares e jeans desbotados. No ônibus que me levava da Gruta ao Farol, em Maceió, fazia perguntas a mim mesmo que hoje me soam absurdas.

 

E se outro cabeludo aparecesse quando tudo estivesse acabado entre nós? Se ela ouvisse o ronco do ônibus, lembraria daquele metido a poeta, com mais amor do que concordância verbal?

 

Era difícil admitir que outro pudesse lhe falar palavras de amor como eu falava. Mas duvido que tivesse meus erros de português, minha rebeldia ou minha esperança de tudo dar certo. 

 

À noite, imaginava que ela procuraria meu retrato e encontraria outro rosto na moldura. Mesmo assim, acreditava que, por trás daquele sorriso alheio, haveria sempre um pequeno fantasma meu fazendo pose.

 

A juventude tem dessas convicções extravagantes. Acredita que o amor é uma escritura registrada em cartório, que a saudade respeita pactos verbais e que certas pessoas permanecerão para sempre sentadas na mesma cadeira da memória.

 

Por um tropeço cósmico, um detalhe, quatro décadas depois, numa sexta-feira de agosto de 2013, eu e Magdala encontramos com você nos camarins do Centro de Convenções, em Brasília.




 

Estávamos diante de alguém que conhecia todos os segredos da nossa geração. 

— Suas músicas estão em nossas vidas desde aquele disco lançado antes do Natal de 1971 — confessei, meio sem jeito.

— Quais, bicho? — você perguntou, sorrindo.

— “A Namorada”, “Amada Amante”, "Como vai você",  “Traumas”. Mas uma delas era especial: “Detalhes”. Cheguei a tentar cantar para ela, dedilhando um violão...


Você então voltou-se para Magdala:

— E ele cantava bem? 

 

Não me lembro do que ela respondeu. A memória, com seus caprichos, guarda umas coisas e devolve outras. Deve ser por isso que existem certas canções, certas pessoas. Elas passam a vida inteira lembrando por nós aquilo que o tempo faria questão de esquecer. 


Você continua subindo aos palcos. Nós seguimos juntos carregando, no bolso da alma, aquela velha fotografia.


26 comentários:

  1. Noooossa ! Que legal.
    E é isso mesmo: Velhos tempos, belos dias.

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  2. Parabéns Hayton, sua história é parte da história de todos nós que vivemos esse tempo de Sonhos e Canções. O Rei continua vivo..
    Walmir figueiredo

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  3. Meu irmão camarada, suas crônicas resgatam também muitas fotografias dos bolsos da alma. Muito bom.
    Maurício

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  4. Bom dia meu Cara Parahyba!
    Supimpa. A paixão em carne viva.
    Hoje você “navegou” nos ares. De braço dado com a sua Magdala, travestiu-se de Pablo Neruda, com a impecável trilha sonora do nosso rei Roberto Carlos 🎼🎼🎼
    Fraterno Amplexo 🤝🫶🤝

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  5. Essa crônica desperta emoções.
    Muito linda, tal e qual as músicas do rei.
    Obrigada!

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  6. Caramba! Que cirurgia perfeita... Eu mandaria pro Rei... ele iria adorar. Tem paisagens que nunca nos deixam...me arrepiei...Fantástico! 👏🏽👏🏽

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  7. RC continua subindo aos palcos, ainda que a idade lhe cobre para um merecido sossego, depois de ter sido a trilha sonora da vida amorosa de tantos casais. Duvido quem de nossa geração não tenha, no mínimo, uma dezena de músicas cantadas por ele que não marcaram momentos afetivos importantes.
    Como tudo na vida, o crepúsculo vem no ciclo natural de uma trajetória longeva e nem a majestade é exceção à regra. Mas as "Emoções" jamais serão perdidas e sempre vão nos mover em cada um dos seus "Detalhes".
    Bela crônica em homenagem ao eterno RC.

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  8. Que maravilha de texto. Amo Roberto Carlos. Ele vive tbem rm minha memória. 😘

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  9. Ademar Rafael Ferreira1 de julho de 2026 às 06:52

    Um texto poético-musical. Para guardar na alma. Gratidão amigo. Segundo semestre chegou chegando.

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  10. Amigo Hayton,
    Impressionante como nossos ídolos ainda são os mesmos, como diria um outro poeta.
    O Rei também faz parte de minha história, de meus tantos natais, e de minhas conquistas, em todos os sentidos que essa palavra tenha.
    Quando gravei um CD, ao fazer 50 anos, “Detalhes” foi a primeira música que escolhi.
    Quando me casei com a Andrea, escolhi uma outra música desse mesmo CD, para tocar na cerimônia, e o DJ, movido pelo destino(?), a colocou sem querer, como que fazendo justiça não a uma música, mas a um verdadeiro hino, por isso mesmo eterno, como todos são.
    Apenas uma correção, se é que posso, essas fotos, que carregamos pra sempre, nunca são de papel, estão tatuadas na alma.

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  11. A saudade é a lembrança que gostamos de ter, dos bons momentos românticos, das nossas amadas, das paixões. Eu viveria tudo outra vez.

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  12. Enquanto lia essa bela crônica, a memória me levou para as noites da Praça da Faculdade em dias de Festa! No alto falante a repetição constante do sucesso daquele ano, fazia com antes que janeiro chegasse soubéssemos decorado todas as letras.

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  13. E o Rei cantou todas as minhas dores de amor (Isa Musa)

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  14. Esse cara é um dos poucos cantores que conheço que nunca deixou de cantar com entusiasmo, inovação e sucesso.
    É o ídolo de todo mundo.

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  15. ROBERTO SANTOS FERNANDES1 de julho de 2026 às 07:32

    Simplesmente fora de série!
    Parabéns

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  16. Prezado Hayton, bom dia!
    Parabéns pelo excelente texto, como sempre! E a sebsibilidade também continua a mesma.
    RC foi marcante na vida de todos os jovens que atualmente caminham entre os 70 e os 80. Você mostrou isso muito bem em seu txto. E me fez recordar grandes e bons momentos.
    Obrigado!

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  17. Caro Hayton.
    Até hoje me surpreendo ao constatar como você consegue misturar memória afetiva, biografia e cultura popular com tamanha naturalidade, sem que nada pareça forçado. Desta vez fez Roberto Carlos aparecer não só como ídolo, mas também como testemunha de uma época, quase um parente íntimo da nossa formação emocional. E você faz isso com uma escrita muito elegante, porque não se limita à homenagem; você transforma a lembrança em experiência compartilhada. Quem lê sente que também já guardou alguma “velha fotografia” no bolso da alma.
    Particularmente adorei o modo como equilibrou lirismo e humanidade. Há ternura, humor, confissão e certa sabedoria que nasce da vida vivida, não de pose literária, não de obras lidas. A passagem do amor juvenil, com suas inseguranças e exageros, para o reencontro maduro com o cantor é especialmente enriquecedora, porque revela algo simples e profundo: certas canções não envelhecem em nós, elas apenas ganham novas camadas. Com efeito, como você disse, a memória não é só arquivo, é afeto em movimento. Parabéns.

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  18. “Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior/ Com todo mundo podendo brilhar num cântico...”

    Você brilhou no céu da pátria neste instante! 👏🏾

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  19. As canções do Roberto são marcantes, mas, confesso que ficam especiais na voz de Betânia.

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  20. Parabéns Hayton. Muito boa.

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  21. Esse cara atravessou as vidas de quase todo mundo. Seu carisma é incomparável. Quantos sonhos e quantas fossas!...

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  22. Meu caro,
    Você consegue depurar poesias no conjunto da obra de um rei que embalou diversas gerações. Felizes os que tiveram momentos marcantes gravados ao longo da vida, seja no amor ou na desilusão.
    Você brinca com as palavras para compor novas formas de interpretar essa arte grandiosa!
    Forte abraço!

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  23. Acho que a maioria de nós que te espera aqui toda quarta feira, teve o privilégio de viver essa época tão bem relatada por você e que talvez não a valorizamos como devíamos. Que bom termos você para trazer de volta lembranças que marcaram nossas vidas.

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  24. Que crônica! Uma aula de como combinar emoção, memória, poesia, confissões, trilhas sonoras, artistas inesquecíveis e escrita primorosa! Aplausos!!!!

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