ONDE ATÉ A TERRA PERDEU O CHÃO
Hayton Rocha
Em Alagoas, berço de Graciliano Ramos, o chão aprendeu a falar antes que alguém estivesse disposto a ouvi-lo. Primeiro vieram rachaduras tímidas, dessas que se tenta esconder com massa corrida, um quadro torto, uma estante empurrada contra a parede. Depois, os tremores: pequenos soluços do asfalto, como se Maceió gemesse de dor. Em 2018, cinco bairros da capital começaram a afundar, rascunhando no subsolo a crônica de uma catástrofe anunciada.
| Mosaico: fotografias de Venilton Sá |
Chamaram de fenômeno geológico. Nome bonito, desses que aliviam consciências e terceirizam culpas. Fenômeno soa como chuva, vento, obra de Deus. Mas o povo sabe quando a dor é humana. Ali não havia mistério cósmico: havia sal-gema, poços mal cavados, décadas de extração escondida sob casas, escolas, igrejas e histórias de família. Um queijo suíço subterrâneo sustentando vidas inteiras até o dia em que a terra perdeu o chão.
O Morro do Mutange, dizem agora, vai precisar vir abaixo. Não por vontade própria, mas por cálculo técnico. Desmontar o morro, fechar buracos, ocupar o passado com areia. Backfilling, chamam. Palavra estrangeira para uma tentativa antiga: tapar o rombo depois do estrago.
Trinta e cinco minas abertas ao longo de quarenta anos desenharam a geografia íntima da tragédia. Quinze mil imóveis evacuados. Sessenta mil pessoas aprendendo, à força, que todo endereço é provisório.
A indenização virou outro terremoto. Avaliações feitas pela própria empresa, valores que oscilam como o humor do mercado imobiliário, e uma escolha cruel: aceitar ou brigar na Justiça. Em média, duzentos mil reais por família. Quarenta mil por dano moral, fixos, como se a dor pudesse ser tabelada, como se dois moradores sofressem o mesmo que seis, oito; como se memória e saudade coubessem na fatura. Advogados pedem cautela, defensores alertam, moradores são pressionados. A casa racha, o chão afunda, a confiança desaba.
Agora, pela primeira vez desde o primeiro tremor, os números soam menos apocalípticos. A imprensa noticia que a velocidade do afundamento diminuiu. A área afetada desacelerou. Areia entra onde antes só havia vazio. Ainda dói, mas dói menos. Ainda assusta, mas não tanto.
Nada muda rápido. O mapa de risco permanece aberto como ferida que não fecha. A lagoa segue engolindo milímetros por ano, paciente e constante. Sismógrafos vigiam a terra como médicos de plantão. GPS milimétrico acompanha cada respiração do solo, como quem teme recaídas. O bairro do Pinheiro virou planalto de máquinas. O Mutange, um silêncio vegetal à beira d’água. O futuro segue interditado.
É aqui que o caos flerta com a imaginação. Porque toda terra estabilizada vira promessa. Se o solo se firmar, se as minas forem definitivamente tamponadas, o que sobra é uma extensa faixa de território, do alto da cidade até a Lagoa Mundaú.
| Mosaico: fotografias de Venilton Sá |
Terra rara. Vista extraordinária. Potencial imobiliário piscando como letreiro de cassino numa das mais belas capitais brasileiras.
Onde hoje há interdição, amanhã pode haver maquete.
Centros comerciais, condomínios de luxo, grandes hotéis, o vocabulário do desenvolvimento reaprende a falar grosso sempre que o chão se cala. A bela Maceió pode ser convertida, quem sabe, numa Las Vegas com coqueiros, num Montecarlo tropical, onde o ouro já não sai da terra, mas da roleta. A depender do próximo Congresso Nacional.
O mundo quase inteiro joga. O Brasil finge que não vê. Proíbe no papel, tolera na prática. Deixa o dinheiro escorrer por frestas enquanto poderia planejar, regular, tributar. Cinismo também é um tipo de cegueira.
Já se disse que o caos é uma ordem por decifrar. Mas há ordens que escolhem quem paga a conta. Hoje, pagam os humildes, arrancados de suas origens, empurrados para longe do chão que lhes pertencia. Amanhã, é possível que os terrenos desocupados gerem riqueza, muita riqueza. Para quem?
Ao receber a indenização, cada vítima foi obrigada a assinar um documento que mais parece pacto de esquecimento: quitação plena, exoneração de responsabilidades, por si e por seus herdeiros. Quaisquer que sejam os resultados das investigações. Renunciando a direitos presentes e futuros. Para nada mais reclamar. Em tempo algum, em lugar algum, sob pretexto algum.
Entre o queijo subterrâneo e a areia que preenche, Maceió aprende, na marra, que tragédias não terminam quando o chão para de ceder. Terminam — se é que terminam — quando a justiça chega a quem nunca esteve no lugar errado.
Até lá, a cidade se recompõe, enquanto alguns sobem e outros seguem soterrados. Não pela terra, mas pela indiferença.








